
E se Hitler voltasse hoje? Teria a mesma força de antes? A previsão é assustadora.
Correndo o risco de soar uma Joan Osborne profana, já parou para pensar no que aconteceria se Hitler retornasse hoje e fosse um de nós? Um vagabundo, como um de nós. Tentando achar o caminho de casa, como um de nós, etc, etc, etc… Bom, Timur Vermes pensou e escreveu um livro sobre. Um livro que virou filme também. Os dois tem o mesmo nome, Ele Está de Volta, e foram lançados com a incrível diferença de apenas um ano: o livro em 2014, o filme em 2015.
Contrariando a regra comum, vou falar primeiro do filme e depois do livro, pois os consumi nessa ordem. Inclusive, acho que pode ser uma boa entrar em uma história dessa maneira. Você conhece a trama de maneira objetiva pelo filme, com o apelo das imagens e da rapidez da duração e, depois, se quiser, aprofunda mais o tema lendo o livro. Mas divago.
No filme, vemos Hitler acordando no meio de um praça no centro da cidade, na Alemanha de 2014. Um pouco confuso sobre o motivo de estar ali, até entender que está no “futuro” temos bons momentos de comédia com o estranhamento inicial do personagem. Aos poucos, ele vai se soltando e, como líder nato que é, arquitetando sua volta ao poder. Para isso, conta com a ajuda inicial de um jornaleiro da região que o vê como um desabrigado esquisitão o qual ajuda cedendo um quartinho na banca de jornal e lhe colocando a par das notícias da atualidade.
Nesse cenário, Hitler é “descoberto” por um jornalista de uma rede de TV que grava seu despertar meio sem querer, enquanto fazia uma reportagem na tal praça. Decide ir atrás desse tal Hitler e vê nele um potencial para a comédia, afinal, só pode ser isso, né? Um cara vestido e falando como Hitler, em pleno século 21? Apostando nesse potencial, o jornalista “vende” Hitler como um novo comediante para a emissora onde trabalha e o ditador tem a chance de propagar suas ideias fazendo stand up em um programa de comédia do canal. Visto como uma caricatura, Hitler incomoda superficialmente e faz rir, mas ninguém o leva a sério de verdade. Já o próprio acredita que aquele é apenas o começo da sua retomada.

É aqui que, no filme, as coisas começam a ficar interessantes. Temos cenas reais de “Hitler” andando pelas ruas e a reação do povo é tão diversa quanto assustadora. Se a princípio as pessoas riem com aquela caricatura, aos poucos o discurso do ditador começa a convencer e angariar simpatizantes. Não podemos esquecer que um dos maiores talentos de Hitler, do verdadeiro, era a retórica e sua capacidade de convencimento — e esse do filme não sai perdendo nestes quesitos. Fazendo críticas ao governo atual, ao estado em que a Alemanha se encontra e prometendo uma nova política trazendo os valores dos tempos antigos, o Hitler renascido aos poucos deixa de soar absurdo ao seu público e começa a convencer as pessoas.
É meio assustador, na real.

Eu sinceramente achava que na Alemanha atual ninguém gostava do Hitler, por motivos óbvios, mas é impressionante ver no filme como as pessoas, principalmente as mais velhas e as muito novas, enxergam o governo do Führer como algo que teve um lado bom e que seria ótimo para o país se voltasse.
Mais ou menos como aqui no Brasil algumas pessoas são saudosas do tempo da Ditadura e acham que naquele tempo não era tão ruim assim…

São essas pessoas que de maneira involuntária vão mostrando no filme como uma volta de Hitler ao poder não seria algo tão impossível. Não o Hitler de verdade, claro, mas um outro ditador com as mesmas ideias e a mesma voz ativa. Fica patente observar que se Hitler foi tão poderoso um dia, não foi apenas por mérito próprio: foi com a força do povo que o apoiou.
Algo que fica ainda mais claro no livro.

Se o filme aposta nas cenas reais e com isso cria uma comédia amarga, o livro foca muito mais no discurso de Hitler, já que é narrado em primeira pessoa pelo ditador (no filme, a história é vista pela ótica do jornalista).
Temos o despertar e o estranhamento inicial, mas a parte de dialogar com o povo fica muito em segundo plano. Na versão livro, o que mais pesa são as análises de Hitler comparando a Alemanha “do seu tempo” com a atual. São monólogos intermináveis, e nem por isso chatos, em que o Führer se decepciona com a sociedade que encontra em seu retorno, ao mesmo tempo em que se vê otimista quanto ao progresso que pode trazer caso volte ao poder. Em sua escalada, Hitler começa com a pequena participação no programa humorístico e então ganha o seu próprio. É ali que ele fundamenta o seu retorno, com a promessa de tornar a Alemanha grande novamente, com a sua orientação e com a ajuda do povo, que o apoia.
Assim, dá para dizer que o livro trata do plano de Hitler para retomar ao poder e o filme traz a reação real das pessoas para esse plano. São mídias que se completam e trazem uma visão maior para o que poderia acontecer caso o ditador voltasse. E que nos mostram que as chances de tudo acontecer novamente, seja com um “novo Hitler” ou com outro político qualquer com tenacidade similar, não é algo tão impossível de acontecer. Principalmente porque, passados alguns anos, as pessoas começam a ver o passado, seja ele qual for, com uma visão romântica e saudosa, que teve algo de bom.
Não por acaso, o lema do Hitler renascido, no livro, é “Nem tudo foi ruim”. E é assustador perceber quantas pessoas concordam com isso.
Tanto o livro quanto o filme são ótimos passatempos: divertem e fazem pensar. O carisma de Hitler (tanto do personagem quanto da sua interpretação pelo ator Oliver Masucci) é algo incrível e perigoso, realmente hipnotizante. Não diria para você escolher só um: leia e assista essa história, vale a pena conhecê-la e pensar sobre ela. Nem que seja para ficarmos espertos quanto aos novos Hitler que estão surgindo por aí… Até no Brasil, infelizmente.
Em tempo: o filme está disponível na Netflix e o livro em qualquer lugar (o meu eu comprei na Amazon a versão virtual).





