
Para todo mal, a cura
Foram seis meses de quimioterapia, além dos dois meses e pouco entre diagnóstico e cirurgias. Depois de todo esse tempo sendo o centro das atenções, recebendo todos os cuidados e tendo uma batalha digna por travar, de repente o ciclo terminava e eu me via sem direção.
Existe algo diferente na maneira com que as pessoas te tratam quando você está doente. Você recebe um amor que até pode ser verdadeiro, mas que não é permanente. As pessoas te ajudam e te apoiam e você acredita nisso porque precisa acreditar em algo, no entanto é um erro perigoso pensar que todo mundo que te apoia quando você está mal vai ser seu amigo de corpo e alma para sempre. Não vai. A vida oscila, muda de fase, troca de interesses. E isso é normal. Se apoiar em alguém, e não em primeiro lugar em si mesmo, se mostra um grande potencializador de mágoas a longo prazo.
Após a última sessão, fiz alguns exames e esperei pelos resultados. Eles vieram e diziam que tudo estava bem. Ótimo. Três meses depois, já quase “limpa” de quimio no meu corpo, refiz os mesmos exames e agora o oncologista estava mais seguro em dizer: eu estava curada. Segundo o que ele me dizia, o meu organismo parecia ser o de alguém que nunca tinha tido câncer, tão bem eu estava. Não havia nenhum vestígio da doença, a quimioterapia fez o trabalho completo de destruir a doença enquanto me destruía também.
Era a notícia que eu tanto esperava. E eu não soube o que fazer com ela. Não me sentia livre o suficiente para comemorar, parecia que aquela sombra da doença iria pairar para sempre sobre mim. Tentava ser positiva e não conseguia por muito tempo. Me pegava sendo paranoica, achando que qualquer dor, qualquer diferença no meu corpo era o câncer voltando.
Assim como a sensação de estar doente, o tratamento do câncer não é daqueles que acaba quando termina. A doença pode voltar a qualquer momento, então mesmo curada, eu ainda tinha cinco anos supervisionados pela frente: no primeiro, repetiria a bateria de exames a cada três meses. Depois, a cada seis meses. Depois, uma vez por ano. Tudo isso para detectar qualquer possibilidade de volta da doença. Aí então, se após todo esse tempo eu por ventura tivesse câncer de novo, seria um totalmente novo, que não teria nada a ver com esse que tive em primeiro lugar. Todo esse cuidado não me acalmava, só me deixava mais em alerta. E se voltar? E se eu tiver de novo?
É difícil acreditar em uma cura quando ela está atrelada a cinco anos de “talvez”. Muitas vezes, estava lá feliz com algo, rindo e otimista com o futuro, quando algo me dizia aos ouvidos: Não esquece que você tem câncer. Isso sumia com o meu sorriso e me colocava no chão na hora. Eu simplesmente não conseguia superar, porque o medo de passar por tudo aquilo de novo me paralisava. Nisso, todo mundo à minha volta estava feliz com a cura e não entendia como eu podia estar tão séria. Passei a ser a chata, a pessimista. Nem doente mais ela está! Foi aí que mais amigos começaram a sumir.
Não acho que eu seja isenta de culpa por isso. Durante o tratamento, me tornei uma pessoa muito egoísta, desagradável até. Só tinha um assunto, só falava dele, não queria ouvir nada além do que falasse sobre mim. Não acreditava em somar, só queria que me ouvissem e não ligava para os outros. Isso vai cansando, é óbvio. Na minha cabeça, eu morreria amanhã, então era a pessoa mais exagerada possível. Amava tudo ao máximo, um amor desesperado e raso. Odiava tudo ao extremo, de maneira gratuita e infantil. Não respeitava as pessoas que eu amava e que me amavam, achava que as minhas vontades eram soberanas diante do sentimento dos outros.
Assim, fui me isolando. No começo senti raiva, ainda pensava que as pessoas me deviam algo porque eu estava doente e todo mundo tinha que me entender. Depois, passado mais de um ano, vejo que era completamente compreensível tantos finais. Ninguém é obrigado a aguentar uma pessoa irascível e inconsequente como eu me tornei naqueles dias. Mesmo meu casamento passou por uma crise terrível, que com muito amor e diálogo conseguimos contornar. Muitas amizades não tiveram a mesma sorte — porque não era pra ser, acredito. E tudo bem.
Enquanto essa revolução acontecia, fui me acalmando e reconquistando o meu corpo. Meus pés e mãos gradualmente pararam de formigar e ficar dormentes o tempo todo. Voltei a ter meu próprio cheiro e paladar. Meu cabelo parou de cair tanto. Com alguns meses, tentei voltar para o Roller Derby, mas vi que já não era mais para mim. Eu tinha mudado muito e não combinava mais comigo ser de uma equipe. O câncer me mostrou a solidão e eu vi que ela era boa, se eu estivesse de bem comigo. E eu estava ficando de bem comigo. Por indicação do oncologista, passei a fazer academia e encontrei ali uma nova paixão. Fazer exercícios físicos é bom para ajudar a fazer seu intestino funcionar e também acelera a curar a coisa dos formigamentos, então eu me joguei. Hoje em dia, faço musculação e aeróbico quatro vezes por semana e volta e meia participo de corridas de rua.
Aos poucos, fui me reencontrando. Deixei os excessos todos de sentimentos e vontades e foquei só em mim. Quando olhei apenas para mim, pude ver de verdade o que eu realmente queria e precisava. Hoje não preciso de centenas de pessoas ao meu redor, só preciso de mim e do cara que eu amo. Dos nossos gatos, de um jogo do Palmeiras no estádio. Dos meus livros, que nunca mais parei de escrever.
Em julho, fiz meus exames mais recentes. Como diz o Dr. Hézio, minha saúde está “um espetáculo”. Só vou precisar fazer exames novamente em janeiro — desde o diagnóstico, esse é o maior intervalo de tempo que passei sem precisar fazer raio-x de tórax, colonoscopia e seus que tais. Isso é liberdade. Liberdade com segurança, o que traz paz.
Ainda preciso ir mensalmente ao IPC para limpar o cateter implantado no meu peito. O processo é quase igual a quimio — respirar fundo, prender a respiração, espetar, soltar a respiração — e isso sempre me deixa um pouco mexida, mas como é bem rápido, passa rápido também. Por lá, todo mundo ainda lembra meu nome e me trata com o mesmo carinho indizível de sempre. Ano que vem, se tudo der certo, faço a cirurgia para a retirada do cateter — com dois anos após o final da quimio, já é seguro tirar o implante, pois as chances do câncer voltar são muito reduzidas.
Com a vida voltando aos eixos, a gente corre o risco de esquecer o que passou. Embora tenha sido uma fase muito dolorida, eu não quero esquecer que tive câncer. Quando eu acordo de manhã e consigo levantar sorrindo, eu não quero esquecer que um dia já passei dezoito horas sem conseguir me mexer ali. Quando eu vou pra academia e penso que não consigo passar dos dez quilos no supino, eu não quero esquecer que um dia meu gato mordeu meu cateter porque eu não conseguia erguer a mão para afastá-lo.
Quando eu olho para o lado e vejo esse cara, o amor da minha vida, dizendo que me ama e me fazendo gargalhar com mais uma das suas inacreditáveis histórias envolvendo a Paraíba, um suquinho de laranja ou uma caminhada heroica cruzando a cidade após um título do Palmeiras, eu não quero esquecer que já estive tão doente que cheguei a pensar que não precisava do amor de ninguém. Eu preciso do amor dele. Ele é a pessoa que eu mais amo no mundo.
Eu precisei morrer para entender o valor da vida. Mais, eu precisei perder quem eu era para descobrir quem eu sou. Hoje eu sei quem eu sou. Sei que sou minha e de mais ninguém e que o meu amor, a minha atenção, é algo que eu devo dedicar à alguns poucos e raros: meu marido, minha família, meus gatos, três ou quatro amigas. Sei o que quero e sou muito feliz. Feliz como nunca fui. Sabendo até onde vai a carne, sabendo que a dor descobre seu limite e o transpassa — e mesmo assim, eu aguento.
Ser diagnosticada com câncer aos 30 anos de idade me deu uma noção absurda do quanto eu não me conhecia. Eu não sabia nada sobre mim, eu pensava tudo errado sobre a vida. Agora eu aprendi e eu não quero esquecer isso nunca.
A volta do médico depois do diagnóstico, cada pedaço daquela rua com uma lágrima minha e do Alex. A escuridão dos dias na UTI. Os momentos em que eu pensava que estava bem e então apagava. Todas as vezes em que pensei que não aguentaria, até que minha mãe falava comigo e eu me fortalecia novamente. Todas essas lembranças são eternas para mim. Elas não me magoam mais, pelo contrário, me fazem sorrir.
Eu passei por uma experiência terrível e longa que, bem da verdade, ainda nem terminou e pode recomeçar a qualquer instante. Não há motivos para ficar triste com isso, a vida sempre vai dar um jeito de surpreender a gente, não é? Não adianta a gente ter medo, a gente precisa viver mesmo assim.
Eu aprendi demais com o câncer. Fui até o fundo do que eu era e do que eu sentia e entendi o que realmente me é fundamental. Cruzei o inferno e levei meses até desgrudar ele da minha alma. Hoje a minha vida é bonita, não é fácil e nem é simples, mas eu gosto demais dela. Nem tudo são flores, mas elas estão ali. Estão ali e, mais do que lindas, me mostram que estou no caminho certo.
Eu finalmente estou no caminho certo.
Acredito que uma das maneiras mais eficazes de desmitificar o câncer é falar sobre ele sem medos. Estou fazendo a minha parte com essa série de quatro textos sobre a minha experiência pessoal com a doença. Você pode ler todos aqui.







