
E ficando mais perto de mim, então.
Uma amiga disse que assistindo Mad Men todo mundo quer ser a Peggy. A princípio não, já que ela começa como uma baita perdedora, mas no decorrer da série, sim, é óbvio que toda mulher quer ser a Peggy. Conseguindo controlar seu impulso por lanches, largando os relacionamentos tóxicos (é real, estou usando este termo) e superando seu mestre — sem contar o quanto o armário dela melhorou de uma temporada para a outra.
No entanto, o que principalmente queremos quando queremos ser a Peggy é essa certeza que ela tem de que é boa e está no caminho certo. Queremos essa certeza dela de que temos algum talento, que vale a pena tentar. Que vão valorizar isso aqui, seja lá o que isso aqui for, pois é sem dúvida uma obra de arte qualquer coisa que a gente faça. Esse brilho no olhar que ela tem quando defende um projeto, essa convicção raivosa que a impulsiona para frente.
Peggy nem sempre teve essa certeza. Foi preciso alguns sacodes da vida, do Don e da Joan, o que você chamaria de bullying ali foi construção de caráter. Algumas mágoas, os grandes olhos verde-azuis arregalados de ultraje e decepção com basicamente toda e qualquer pessoa que cruzou seu caminho. No fim, deu certo. Quando ela entra marchando na agência nova, o cigarro no canto da boca manchando seu sorriso que vai de orelha a orelha, você sabe que deu certo. E você quer ser como ela. A questão é que ali era final de temporada. Ali já tinha acontecido um milhão de coisas e ela já tinha sofrido um bocado, então era de se esperar a redenção final. Já nós, pobres mortais, não sabemos em que temporada estamos.
Que baque. Falando de mim, não poderia estar mais feliz e confusa. E nem está acontecendo nada. Nada. Só que eu notei que, ultimamente na minha vida, uma a uma as coisas estão indo embora. Amizades, gostos, hobbies, vontades, rotinas antigas. Acreditasse em horóscopo, diria que é a Lua em não sei o que com o Sol em não sei que lá que está me fazendo rever tudo o que eu sou. Se bem que, pensando bem, acho que nem se acreditasse em horóscopo eu aceitaria uma explicação tão simplória, como se não tivesse nada a ver comigo pessoalmente.
Pois, tal qual Peggy pulando de episódio em episódio, eu estou galgando temporadas buscando aquela certeza. Já são 32. Inspiro e expiro, perdida nas mudanças que meu coração joga na minha cara me obrigando a agir. Corro atrás da ansiedade, inspiro e expiro, tento não surtar. Não há motivos para surtar. Hoje eu me despedi de mais um pedaço do meu passado e foi tão simples e rápido quanto uma resposta por inbox. A gente tem pressa, todo mundo tem pressa e precisa resolver tudo rápido.
Quanto mais me despeço das pessoas e das coisas, mais sobra de mim. Peggy na ponta dos pés, olhando por cima da divisória da baia, o cara que morreu. Quanto mais sobra de mim, mais me assombro com o fato de que preciso conhecer e entender essa pessoa que eu sou. Peggy pegando o pacote de cigarros sem marca e dizendo que agora ela fuma, sim. Procuro me acostumar com essa pessoa que descubro ser, procuro gostar da maneira que ela pensa. Procuro ver o que de bom essa pessoa tem e ter orgulho dela.
Quanto mais me despeço, mais me encontro. E me isolando eu me sinto bem e me sinto culpada ao mesmo tempo. Não por nada, na vida sempre sobra culpa por todos os lados mesmo. A gente sempre se sente superior por estar se distanciando e se sente inferior por estar longe de tudo.
Dizem que você só odeia nas pessoas o que não suporta em si mesmo. Eu não aguento mais odiar as pessoas. Também por isso estou me distanciando. Não é covardia se você muda de batalha ao invés de insistir na mesma. Eu escuto músicas que não conheço, não quero nada do que já saiba.
Minha amiga disse, todo mundo quer ser a Peggy e eu sou a Sally. Entendo seu ponto, porém eu não quero ser diferente, eu quero ser eu. Nisso tudo eu fiquei pensando, eu sou muito a Peggy, mas uma Peggy que ainda está sendo escrita, uma bem diferente e igual ao mesmo tempo e que, com sorte, será tão boa quanto a original.
Peggy engolindo o choro no começo do episódio e sorrindo feliz na última cena. Vai ser assim.



