crônicas

Confissões Amorosas: o primeiro amor

Ilustração: Hilary Knight em “Eloise: A Book for Precocious Grown Ups Hardcover”

Não digo que foi fácil, mas digo que não me esforcei também

O primeiro menino por quem me apaixonei se chamava Fábio Ricco. Estudávamos na mesma sala, na 5ª C, no ano de 1995 da era cristã. Fábio Ricco não era muito diferente dos outros meninos do colégio: falastrão, não levava muito à sério questões de higiene, medianamente bonito, jogava bola na quadra da escola todo dia com seu calção do Grêmio e nunca faltava às aulas. Acho que o que me chamou a atenção nele é que ele sempre tinha uma mecha sebosa de cabelo caindo pela testa, o que aos meus olhos pueris era algo muito charmoso.

Lembro que eu não sabia ao certo o que era estar apaixonada (e como saberia, aos onze anos de idade?), mas me esforçava para gostar de Fábio Ricco dada a minha urgente necessidade de aparentar ser uma moça crescida. De alguma forma, o amor que eu sentia (acreditava sentir) era algo muito mais parecido com idolatria. Era assim naquele tempo, não sei se algo mudou hoje em dia. Nós meninas escolhíamos um menino para amar e perseguir por todo o ensino médio, endeusando suas raras qualidades e sublimando seus muitos defeitos. Acredito que os meninos fizessem o mesmo por nós, mas como o diálogo sobre o assunto não era o forte entre os dois lados, a roda da baixa-estima continuava a girar livre de impedimentos, assim nos moldando de maneira perene até a vida adulta.

Pois mesmo tendo esse pequeno vislumbre do que poderia ser o amor, nunca fui além disso. Não havia a necessidade. Ficar espionando Fábio Ricco pelos corredores me era suficiente. Feito uma detetive em versão de bolso, com meus cadernos de capa monocromática cedidos pelo governo e minha firme disposição em ser desprezada, eu estava sempre por perto, seguindo seus passos, mas Fábio Ricco nunca notou minha presença. O mais perto que cheguei dele foi quando escreveu no meu Caderno de Recordações:

 “Quando precisar de um amigo nem precisa me chamar. Me chame sem pensar”.

 O que era terrivelmente mentira, pois jamais conversamos e jamais tivemos tal intimidade. Além disso, rapidamente descobri que ele escreveu a mesma coisa no caderno de mais três meninas da minha sala e de mais duas da 5ªA. Ainda assim, tudo poderia ser perdoado, nós meninas perdoávamos tudo, não fosse a nova aresta que seria acrescentada à esse quadrado seco que era a nossa inexistente relação.

Pois por meio de muita investigação e alguma fofoca, vim a descobrir que Fábio Ricco gostava da menina mais bonita e rica do colégio, a famosa Tatiane Moreira Salles. Cruel como ele só, o karma já ali se fez presente: ela mesma não dava muita bola para ele, o que fazia com que nós representássemos o mais apático triângulo amoroso já visto, sem paixão ou grandes acontecimentos, calado e indiferente.

Tatiane Moreira Salles era tudo o que eu queria ser: linda, popular, divertida, rica. E ainda por cima, o Fábio Ricco gostava dela. Uau. O ápice desse titubeante sentimento que nutríamos os três em segredo e sem vontade foi quando Fábio Ricco deu um cartão do dia dos namorados para a Tatiane Moreira Salles, pedindo-a em namoro. Eu era amiguinha da Tatiane Moreira Salles e ela me segredou que não ia aceitar namorar com Fábio Ricco porque estava gostando de Jonathan Pierre Saldanha, da 7ª B. Isso me deixou totalmente em choque e, consequência dessa bomba, meio que me desencantou desse amor como um todo. De repente, gostar do Fábio Ricco era out. O quente do verão era gostar dos meninos da sétima série.

Foi aí que comecei a gostar de Gustavo Falcão.

PS:

  • Em uma época em que “sororidade” era um conceito tão vago quanto cevada em cerveja ruim, nada me causou maior alegria do que descobrir, anos depois, que Tatiane Moreira Salles estava fazendo supletivo à noite, o que me fez concluir, em uma mórbida e apressada constatação, que a vida dela não era tão perfeita quanto eu pensava.
  • Muitos anos depois, vi Fábio Ricco na rua. Continuava igual, só que com as pernas mais compridas.
  • Gustavo Falcão, titubeante herói do time de vôlei da 7ª A, tinha a língua presa e também não gostava de mim.
Processo Criativo

Capítulo Trinta e Quatro

Imagem: Death to Stock

Muito perto do fim

“E quem sou eu nesse cenário? A boa menina que vivia entre livros, sem ambição alguma. Agora, mais perto dos trinta que dos vinte, eu tenho o mundo em minhas mãos. Em três anos viajei e trabalhei mais do que na minha vida inteira. Me tornei alguém mais forte e mais esperta. Daniel surgiu para mudar minha vida por completo, me ensinou praticamente tudo o que sei hoje. Me deu a malícia e a ambição. Me tirou de onde eu estava e me deu algo no que investir: eu mesma. Mas me soltando no mundo me prendeu a ele. E agora já não sei se consigo me soltar: por amá-lo, por precisar dele. Por querê-lo. Mesmo com os altos e os baixos.

Ainda assim, preciso tentar. Quando chego em casa, ele está a minha espera e me estuda com o olhar enquanto tiro casaco e calçados. Passo por ele e ele me puxa pela mão. Me faz sentar em seu colo e me beija. Eu o amo tanto. Não sei o que fazer com ele e nem comigo. Seguro seu rosto com gentileza entre as mãos. O abraço e ele me pede desculpas. Não sei pelo o que, mas aceito. Vamos para o quarto sem trocar mais palavra alguma, deitamos na cama, quando ele me abraça e sinto sua respiração se acalmar quando finalmente adormece. Silêncio e solidão, adormecemos juntos. Não importa em que lugar do mundo estejamos, Daniel sempre tem apenas a mim e eu sempre tenho apenas a ele.

Estamos afundando juntos, eu já não tenho mais a menor dúvida. Uma descida vertiginosa que terá o seu inevitável baque final em breve, eu já posso sentir.”

Trecho de “All Across The World”, meu primeiro romance, escrito em 2014 e prestes a ser publicado em formato digital pela Amazon.

Disney101

#Disney101: Mulan e Zootopia

Zootopia (2016)

Assistindo aos filmes da Disney depois de adulta

Eis as desvantagens de ser uma nerd de péssima memória: você tem curiosidade por tudo e em pouco tempo já não lembra de mais nada. No início da adolescência consumi todos os filmes e livros que podia e foi tanto que as histórias e detalhes se perderam com o tempo. Hoje em dia, não lembro nem se vi realmente essas coisas.

Conversando com um amigo aficionado por Disney, percebi que esse problema atingia também a minha experiência com a filmografia do estúdio: a maioria dos filmes deles ou eu não tinha visto ou não lembrava. Para corrigir essa situação (é sem dúvida uma grave falha de caráter não ser versada em animação), criamos eu e ele esse projeto onde periodicamente assistimos de uma vez a dois filmes da Disney: um mais antigo e um mais novo. Meu amigo, é claro, é apenas um guia ou guru, ele já assistiu tudo. Quem está aprendendo ou reaprendendo aqui sou eu, por isso resolvi trazer para cá as minhas impressões. Escrevendo eu gravo melhor na memória e dessa vez não esqueço. Eu acho.

Mulan (1998)

Começamos nosso projeto com Mulan, um filme de desenho que também é um musical. Eu não sabia absolutamente nada da história até assistir (esse eu nunca tinha visto mesmo) e me surpreendi com o tom feminista da trama. Meu amigo falou que foi mesmo um dos primeiros filmes da Disney com esse viés. De um modo geral é sobre uma moça que se finge de homem e vai para a guerra no lugar do pai. E foi baseado em uma história real! É legal porque a Mulan tem uns questionamentos de autoestima e põe na roda valores femininos que vão além da beleza. Ela é muito valente e destemida, porém tem lá suas inseguranças, o que a torna uma personagem bastante real.

Não posso deixar de mencionar a beleza dos cenários: as paisagens são em sua maioria aquareladas e parece que você está vendo um filme que se passa dentro de uma pintura. Muito bonito mesmo.

Uma coisa muito legal desse filme também é que tem o Eddie Murphy interpretando o personagem Mushu, esse dragãozinho vermelho da foto, o grande alívio cômico da história. Sinceramente, sempre achei que os filmes da Disney eram todos fábulas sérias sobre superação e valores, não sabia que podia rir largado como ri com Mulan. De modo que gostei bastante, tem muito a carinha dos filmes antigos da Disney (meu Deus, que horror se sentir assim, o filme é de 1998, sabe?) com lição de moral, humor e encantamento.

Zootopia (2016)

Nosso filme moderno da tarde foi Zootopia, uma animação que eu ainda não tinha visto também. Este filme teria tudo para me deixar desconfortável (não gosto da ideia de humanizar bichos os vestindo com roupinhas), mas é tão fofo que tudo acaba sendo perdoado. Conta a história da coelhinha Judy Hoops que sonha em ir para a cidade grande (Zootopia) e trabalhar como policial. No entanto, é complicado um bichinho pequeno se impor como defensor da lei e aí vem o mote do filme de que você precisa ter a coragem de tentar para poder realizar seus sonhos.

É daqueles filmes infantis com vários fan services para os adultos, com piadinhas, metáforas e referências maduras que deixam os 30+ se sentindo tranquilos em estar vendo animação. É muito interessante a tecnologia despendida para criar a cidade de Zootopia, pelo o que vi nos Extras foi uma engenharia tão grande que é quase um pecado a cidade não existir de verdade.

Fiquei bastante impressionada com a quantidade de reviravoltas nas história e até com a violência de uma ou duas cenas. Os bichinhos todos transbordam fofura e carisma e eu saí de lá querendo trocar meu avatar nas redes sociais por uma foto da coelhinha Hoops — e também descobri, maravilhada, que o Jason Bateman, de quem sou muito fã, faz a voz do protagonista masculino, a raposa Nick Wilde.

Gostei muito desse filme, até mais do que gostei de Mulan. No entanto, não é uma competição, então está tudo bem. Aproveitando que minha memória é péssima, acho que Zootopia é daqueles que merecem ser vistos e revistos várias vezes, para que se perceba todos os (lindos) detalhes da trama e dos cenários. Não sei quais são os próximos que meu amigo vai trazer para o nosso projeto, mas sei que, pessoalmente, esse volta para o final da fila.