crônicas, Resenhas

Segunda-feira, quase cinco da tarde

Call Me By Your Name, 2017

Sem relógio no pulso, marquei encontro com a saudade

Mordemos em grandes dentadas tudo o que é jogado em nossa direção e engolimos sem mastigar direito. Sinto falta do silêncio da adolescência, uma tarde inteira que morria enquanto eu ficava sentada na beira da porta de casa lendo um livro que já tinha lido mil vezes.

Um livro que não me acrescentava nada, as palavras todas enfileiradas só me ensinavam isso: palavras.

Seis episódios de série de uma vez e eu nem lembro o que aconteceu no final do primeiro. Como vou estabelecer uma conexão assim?

Na segunda-feira, reencontrei aquela tarde perdida. Escolhi uma roupa que fingi ser bonita, me olhei no espelho e fingi gostar do que via, peguei a bolsa e fui para o cinema.

Quase cinco horas da tarde.

Incrível como tinha gente na fila, São Paulo é esse caos sem massagem. Cheguei cedo demais como sempre (espero só atrasar na morte) e fiquei por ali.

Calada, apenas olhares e expectativa. Um peão girando esperando a hora.

Tentei ler os jornais, sempre tinha alguém na frente. O inferno da timidez e da miopia, tanto não conseguia tomar a frente na vitrine quanto não enxergava as letras enormes da manchete, mesmo dali.

Comprei meio litro de água porque me falaram que ando esquecendo de tomar água.

E então, o assombro e as lágrimas.

Nada pode se comparar ao encanto de ver na tela grande o livro que você leu e amou. Mesmo que não saia exatamente como você pensava (nunca sairá, somos possessivos e arrogante demais com nossos amores), mesmo que mudem tudo e principalmente se não mudarem nada.

Os silêncios e os sons. A sensação de já ter lido aquele sorriso. Todo um universo que é só seu explode em reconhecimento e pertencimento quando, veja só você, na tela o ator fala com a voz que você pensou.

Me pego pensando se gosto tanto desse filme pelo o que ele é ou pelo o que ele me fez sentir, me levando ao passado e me lembrando quem eu costumava ser.

(Se é que existe como separar essas sensações todas e escolher com qual delas seguir.)

Quieta no cinema eu pensava que, meu deus do céu, como pode a gente sentir tudo isso.

Gostaria de reviver o tempo em que a minha atenção não se fragmentava em mil pedaços diariamente me deixando sem norte, como hoje. Gostaria de poder sentir novamente o doloroso entusiasmo solitário de ter apenas um filme para ver, em casa.

E tendo apenas a ele, ter apenas a mim.

Sinto tudo isso e sei, ao mesmo tempo, que sentir tudo isso é bobagem. Vivemos a vida que temos. Tudo está tão bom assim, é besteira dizer que os tempos de hoje são ruins só porque eles mudaram.

Ainda assim…

Sem relógio e sem aviso, em plena segunda-feira eu abri uma porta e aqueles dias antigos vieram me visitar. Quase cinco da tarde, me diga se isso é hora, depois era quase oito da noite e não importa.

Dentro de mim, aquela sensação ainda existe. Mesmo com todos esses anos.

Resenhas

Quando finalmente voltará a ser como nunca foi

Com relato tocante sobre uma infância incomum, lançamento da Editora Valentina encanta e faz pensar

Josse precisa atravessar todos os dias um quintal enorme cheio de loucos até conseguir chegar ao portão e ir para a rua, para o colégio. De alguns desses loucos, Josse tem medo. De outros, ele consegue tirar algum tipo de empatia e fazer deles amigos. Gosta de ouvir dormindo seus gritos, quando eles gritam é porque está tudo normal. Josse é só uma criança e já sabe, desde muito cedo, que loucura é um conceito relativo em um mundo confuso como o nosso.

Livros que trazem relatos de infância são o que há de mais puro na literatura. É difícil não se reconhecer nas emoções cegas que histórias como essas trazem. No caso de Quando Finalmente Voltará a Ser Como Nunca Foi, (Editora Valentina / 2016 / 350 páginas), de Joachim Meyerhoff, mesmo sendo uma trama tão improvável, a identificação é imediata e desnorteia. Falando de um menino que mora nas dependências de um hospital psiquiátrico — o pai é diretor da instituição — Joachim acaba por falar um pouco de cada um de nós.

É um livro de memórias. Josse vai contando capítulo a capítulo os “causos” de sua infância povoada por doente mentais, cachorros que eram sua vida, uma vontade enorme de viver mergulhado nos livros e uma família atípica. Pelo pai ele nutre uma admiração desmedida, própria de criança inocente, que o blinda de ver os seus muitos defeitos. Pela mãe, uma mulher doce e com recorrentes crises nervosas, sente um medo respeitoso. E ainda têm os dois irmãos mais velhos, que tratam de acrescentar adrenalina à sua vida, com provocações e brigas.

Para além da história extraordinária, é preciso falar do projeto gráfico desenvolvido pela Editora Valentina para esse livro. Cuidadoso e atento aos detalhes, se vê que foi feito com muito carinho desde a capa (com figura central em relevo) e suas partes internas, que contam com ilustrações mencionadas na história, em uma beleza que se estende até as páginas internas do livro, com o título meio torto no topo, entregando que ali nada é como se espera.

Esse livro é daqueles raros, que você nem imagina o estrondo que vai causar no seu coração ao lê-lo pela primeira vez. Falando com melancolia e saudosismo dessas improváveis histórias de menino, Meyerhoff traz um livro incrível, de tirar o fôlego, mostrando de um jeito doce e triste como a infância é o nosso primeiro e último refúgio de ingenuidade. E que, mesmo em um mundo corrompido, nosso amor pela família e pelo o que ela representa acaba por tornar tudo grandioso e definitivo nessa fase da vida.