Brain Dump*

Uma fita bárbara e outras histórias

The Wife, 2018.

Algo simples, ver um filme.

Bom, eu vou tentar contar isso da forma mais breve e menos deslumbrada possível: eu voltei a gostar de assistir a filmes.

É lógico que quando mais novo você tem aquele afã (as palavras que escolho, socorro) de ver todos os filmes possíveis e você tem opiniões sobre cada filme visto. Você tem autoridade até para traçar paralelos entre obras, intuir o que o roteirista quis dizer, listar detalhes na trama que só você viu, apontar erros e acertos do diretor…

Depois de um tempo, você só quer saber que porcaria de filme é esse que todo mundo está falando. E quando tem um tempo livre, quando poderia estar descobrindo algo novo, reassiste “Brokeback Mountain” ou “Frozen” pela enésima vez, se achando muito esperto.

Só que a vida tem seus meios de fazer você ficar andando em círculos cíclicos (seria isso uma redundância?). Então, você está sempre retomando velhos hábitos.

Nada disso importa, voltei a ver filmes como um passatempo consciente e prazeroso. Voltei, Deus que me defenda, a ter opiniões sobre filmes.

No entanto, mesmo esse ímpeto de ter opiniões acaba inviabilizado pelo fim do romantismo que acerca a coisa de ter opinião. Ninguém se importa com opinião!

Desse modo, no fim vira uma coisa um pouco amarga, pois ao mesmo tempo que voltei a ter opinião, também amadureci o suficiente para saber que quem é que liga pra minha opinião?

Eu quero dizer, de que importa eu achar que “Roma” é um filme incensado por contar a história de uma mulher, sendo que quem conta a história dela é um homem? Com o país nessa situação? Com tanto app pra atualizar no celular? Ninguém liga pra nada.

Além disso, me sinto como naquela entrevista do Daniel Johns que o jornalista fala “nossa, você não usa mais metáforas pra suas letras” e o Daniel responde “bicho, eu não tenho mais paciência pra ficar sendo lírico, eu quero falar diretamente sobre o que eu sinto”.

Então, como é que eu vou ser uma crítica de cinema se ao invés de dizer que “Cuarón tinge de masculinidade uma história feminina que poderia ser grandiosa, amordaçando com ternura a personagem que ele pretendia dar voz”, quando na verdade tudo o que eu quero falar é “mais um homem que acha que sabe melhor do que a mulher sobre os sentimentos dela”???

Esses dias, eu estava entrando para uma sessão de cinema e aconteceu uma coisa. Quarta-feira, quatro da tarde e eu no cinema. Você vai me odiar, mas pode ficar tranquilo que eu me odeio mais.

E além de tudo, mesmo essa mamata já acabou.

Estava eu entrando na sala de cinema, o filme era “The Wife” (ASSISTAM (essa é a minha crítica do filme)), e nisso um velho parado em pé em frente à uma das poltronas. Ele olha pra mim e manda:

“essa fita promete ser bárbara, hein?”

E eu pensei: rapaz, É ISSO.

No fim das contas, não importa a cartela de cores que o diretor de fotografia quis usar, as cenas gravadas sem ensaio, se é uma retomada do cinema mudo. Foda-se. Ninguém liga. O filme é bom? Fez você sentir algo? Você gostou do filme? Então é só isso o que importa.

Minha opinião hoje se resume a ser o mais direta possível sobre o que o filme me fez sentir. Sem o lirismo das resenhas juvenis, sem tentar descobrir a grande mensagem por trás daquela trama – a grande mensagem misteriosa que só eu, a cinéfila, fui capaz de descobrir.

Foda-se. Hoje só me importa se a fita é bárbara ou não.

E é isso.

crônicas

O dente doendo, continuei tentando

Photo by Polina Sirotina from Pexels

Uma parábola direto dos anos 2000, situada ao sul do Brasil

Desconfio que eu já esteja ficando velha o suficiente para começar a escrever minhas memórias. A vida passa tão rápido, não é mesmo? Cruzando a barreira que me deixa mais perto dos 40 do que dos 30, parece que recai um véu de nostalgia segura sobre as minhas lembranças.

Como se fossem todas pitorescas e curiosas, e já não doessem mais.

Grandes acontecimentos marcam a nossa vida, mas são aquelas pequenas passagens triviais que acabam por moldar quem somos. Aquelas lembranças bobas e tão suas, histórias sem começo nem moral, que volta e meia ressurgem no cérebro e atingem em cheio o coração. Disco riscado (vocês, jovens, conhecem essa expressão?), cujo som adulterado é mais confortável que a melodia original.

E assim você cria parábolas personalizadas e exclusivas, criadas a partir de momentos que são só seus.

Estava pensando nisso, pois lembrei da vez que realizaria meu grande sonho de comprar meu computador. Isso foi décadas atrás, pensem. Eu com meus vinte e poucos anos, a visão de mundo do tamanho de um punho, juntei por meses a astronômica quantia de R$500 para comprar meu primeiro computador de mesa. Adeus, usar emprestado o PC do meu irmão. Adeus, máquina lenta e estranha. Eu poderia voar sozinha!

Meu irmão, aliás, seria peça-chave nessa empreitada. Caberia a ele, com toda a sua agilidade e bom coração insuspeitos, cruzar a fronteira até o Paraguai e comprar o equipamento para mim. No Paraguai era assim (em algumas lojas, não todas, imagino que ainda é): você precisava pagar tudo à vista, no dinheiro.

Então, após algum esforço, as suadas cinco notas de cem passaram das minhas mãos para as do meu irmão. Era sábado, o dia de ir no Paraguai é sábado, meu irmão atravessaria a ponte e buscaria meu PC (modelo e especificações nem eram uma questão para mim, se você tem um irmão mais velho, você grita “eletrônicos” e ele decide por você).

Foi o meu irmão pegar o dinheiro, eu comecei a me sentir mal. Não vou mentir, eu sempre adiei minhas dores até ficar ridículo. Naquele sábado de manhã, ficou ridícula a dor de dente que eu sentia timidamente há semanas.

Ficou insuportável. Vai a minha mãe correr comigo pelo centro da cidade atrás de dentista que atendesse. Plano Dental era um luxo, claro. SUS, só em caso de morte. Sorte (sorte?) que naquele tempo fervia a moda do consultório dental a cada esquina, com nomes entusiasmados como SORRIA MAIS ou FELIZ SORRIR ou DENTE SAÚDE, coisas assim.

Batemos numa dessas portinhas, eu e minha mãe. O moço atendeu rápido e foi de uma empatia ímpar. Até hoje eu fico meio emocionada só de lembrar como ele me atendeu e entendeu: eu estava urrando de dor, remédio não adiantava, era canal e eu não tinha dois reais no bolso. Mesmo assim ele fez o que pôde. E disse que o tratamento podia resolver na hora, se eu fizesse agora mesmo.

O preço do tratamento de canal? Você já sabe, né?

Toca a minha mãe ligar para o meu irmão. Atendeu o celular, ainda não tinha passado a ponte, baita sorte (sorte?). Nem fez perguntas, voltou com a moto e foi até o dentista. Entregou o dinheiro na minha mão. Subi pro doutor de novo, deitei na cadeira. Lá se foi o meu computador novinho, meus quinhentos reais.

No Paraná a gente não fala muito, mas eu lembro do olhar do meu irmão me devolvendo o dinheiro. O que vou colocar nas minhas memórias é aquele olhar. Era algo entre “mano, que bosta” e algum trecho do manifesto comunista que nenhum de nós dois nunca lemos. Uma derrota tão funda e frívola, doía mais justamente por ser tão mundano.

O sentimento ultrajava porque não era “você está triste por isso??” era “caralho, eu não posso ter nem isso??“.

Que inferno, ser pobre assim. E, ao mesmo tempo, era essa a realidade. Eu não conhecia outra. A realidade era aquele olhar contrito do meu irmão. Traduzia tudo.

Arrumei os dentes, levei mais um ano até poder finalmente comprar o PC. E o que eu guardo disso tudo é essa solidão tremenda que senti no dia. Não temos dinheiro, engula seus sonhos, vocês só têm uns ao outros. O olhar do meu irmão me devolvendo o dinheiro, vida de merda, mas hey, que tal continuar tentando? O que mais você pode fazer?

E, além do mais, a dor de dente passou. Mesmo sem o tão sonhado PC, sem dor a vida até parecia um dia subitamente bonito, feito um raio de Sol se abrindo depois da chuva.

Continuei tentando. Algum dente sempre vai voltar a doer. Continuo tentando. E foda-se.

Brain Dump*

Como o sentimento vai do coração ao cérebro

Exames de consciência durante uma leitura

Oliver Sacks morreu, então é bom que você procure em outros livros as razões para o seu cérebro funcionar do jeito que funciona. Enquanto terapia ainda não é uma possibilidade, uma saída possível é distrair a cabeça ficando por dentro de casos ainda mais terríveis que o seu, a pobre menina triste por nada.

Estou lendo esse agora, de um neurologista que escreve sobre temas complexos da mente humana usando palavras amenas. De um modo geral, até onde chegou minha leitura, é tudo um emaranhado de conceitos tão subjetivos quanto perder o amor de alguém. É difícil.

Espremendo bastante, você consegue entender. Como eu disse, como perder o amor de alguém.

De tudo, dois casos narrados no livro me chamaram a atenção até o momento. Vou falar deles, do modo como eu os compreendi.

O primeiro caso é do rapaz que perdeu a capacidade de aprender coisas novas. Soa meio desesperador, e realmente é. Esse rapaz sofreu um acidente que deixou sequelas no cérebro. Desse modo, ele agora não aprende nada que lhe é ensinado e nem consegue depreender nada do que acontece com ele. Por exemplo, ele pode baixar um app no celular, mexer e usar em um dia. No outro, já não lembra mais como faz. Ele pode se envolver com alguém, mas não é capaz de conduzir aquela relação, pois não aprende nada sobre a pessoa.

É como se a mente dele tivesse estacionado. Funciona, mas não evolui, posto que não agrega mais o que de novo surge.

Nesse livro a abordagem do estudioso é entender como o que sentimentos é registrado pelo cérebro. Tudo bem você sentir dor, mas como é que você sabe que está sentindo dor? Quando é que tomamos consciência do que sentimos? Quando nosso cérebro reconhece um sentimento? Quer dizer, o sentir por sentir não seria nada, se a gente não pensasse sobre ele. Você pode romancear e dizer que seu coração foi partido, mas como é que seu cérebro sabe que você se magoou tanto?

Então, o neurologista do livro fez um experimento com o rapaz que não aprende. Durante uma semana, fez com que o moço fosse sempre na mesma cafeteria comprar café. Lá, era atendido em dias alternados por três garçons diferentes: um malvado, um bonzinho e um neutro.

Descobriu-se que, mesmo que hostilizado, por não aprender com sua experiência, o moço não era capaz de evitar, por exemplo, no dia seguinte, de ser atendido pelo malvado que lhe atendera de maneira rude no dia anterior. Ele não aprendera que aquela pessoa era cruel, então não aprendera a evitá-la.

Da mesma forma, se notou que ele podia ser atendido eternamente pela pessoa boazinha, sem reconhecer seu carinho, pois não aprendia que ela era capaz de ser melhor para ele do que os outros.

Ao fim da semana de testes, o autor mostrou para o rapaz retratos dos três garçons que lhe atenderam. E pediu que o moço apontasse qual lhe parecia mais confiável, embora o moço não lembrasse dos seus rostos e não lembrasse das interações que trocaram (lembrar também é um aprendizado, perceba).

Mesmo sem ter conhecimento, o moço apontou o garçom bonzinho como aquele que lhe parecia uma pessoa melhor. Ele não lembrava da experiência que tivera com ele, mas de algum modo sentia que aquela pessoa era a mais confiável entre as três. Ele não era capaz de aprender coisas novas, mas de algum modo, em seu coração, ele sabia.

Ele não aprendia nada, no entanto ainda resistia em seu cérebro a capacidade de sentir.

O outro caso era o da mulher incapaz de sentir medo. Dito assim até parece que ela era uma heroína que saía pela madrugada defendendo os cidadãos incautos, eu sei. O ponto, no entanto, era outro.

Essa moça nasceu com uma falha no cérebro que a tornava inapta para reconhecer expressões faciais que demonstravam medo. Ou seja, ela conhecia a dor, a raiva, o amor, a felicidade. Mas se você a encarasse com medo, ela não era capaz de entender, pois não conhecia essa sensação. Nasceu sem ela.

No livro, o neurologista conta que essa moça sofrera muito durante toda a vida, sendo vítima de vários golpes e de pessoas que se aproveitavam de sua “inocência” e “coração aberto”. Por ser como era, a moça se tornara uma pessoa muito expansiva, solta. Ela beijava, conversava, abraçava e interagia com toda e qualquer pessoa que lhe surgisse na frente. Ela confiava em todos. Sem medo, lembra?

Para ela, o medo era um conceito entendível, que já lhe fora explicado diversas vezes. Ainda assim, ela não era capaz de senti-lo. Como você aprende a sentir algo? Isso não existe, não se você não tem esse sentimento dentro de você. Ou você sente ou não sente, não tem como forçar. E assim, a mulher sem medo vivia sua vida de maneira totalmente exposta.

Perigoso, se você for pensar.

No entanto, diz o autor, ela era a pessoa mais feliz que ele já conhecera. Apesar dos prejuízos (materiais e sentimentais) que a falta de medo já haviam lhe causado, ela compensava em alegria o que de ruim acontecera. Mesmo as experiências negativas não eram capazes de prepará-la para o futuro. Ela não podia evitar de se meter em enrascadas, pois o aprendizado não trazia o medo consigo. O medo não existia para ela. E, assim, ela viveu uma vida inteira sem saber os riscos que corria, sem aprender com o que de mau lhe acontecia. E sem sofrer por isso.

São dois casos que me fizeram pensar. Em como o sentimento vai do coração até o cérebro. E do que realmente vale sentir algo, se você não é capaz de compreender esse sentimento. Será que a gente é capaz de compreender tudo o que se passa no nosso coração? Será que sentir ou deixar de sentir algo pode nos levar a uma vida melhor?

Eu não tenho essas respostas. Infelizmente. Sigo lendo, então.


O livro que estou lendo se chama “O Mistério da Consciência”, de António Damásio. Eu ainda não terminei de ler, então é provável que ainda escreva novamente sobre ele, se eu continuar aprendendo algo com a leitura. Você pode encontrar o livro para a venda através deste link.