
Algo simples, ver um filme.
Bom, eu vou tentar contar isso da forma mais breve e menos deslumbrada possível: eu voltei a gostar de assistir a filmes.
É lógico que quando mais novo você tem aquele afã (as palavras que escolho, socorro) de ver todos os filmes possíveis e você tem opiniões sobre cada filme visto. Você tem autoridade até para traçar paralelos entre obras, intuir o que o roteirista quis dizer, listar detalhes na trama que só você viu, apontar erros e acertos do diretor…
Depois de um tempo, você só quer saber que porcaria de filme é esse que todo mundo está falando. E quando tem um tempo livre, quando poderia estar descobrindo algo novo, reassiste “Brokeback Mountain” ou “Frozen” pela enésima vez, se achando muito esperto.
Só que a vida tem seus meios de fazer você ficar andando em círculos cíclicos (seria isso uma redundância?). Então, você está sempre retomando velhos hábitos.
Nada disso importa, voltei a ver filmes como um passatempo consciente e prazeroso. Voltei, Deus que me defenda, a ter opiniões sobre filmes.
No entanto, mesmo esse ímpeto de ter opiniões acaba inviabilizado pelo fim do romantismo que acerca a coisa de ter opinião. Ninguém se importa com opinião!
Desse modo, no fim vira uma coisa um pouco amarga, pois ao mesmo tempo que voltei a ter opinião, também amadureci o suficiente para saber que quem é que liga pra minha opinião?
Eu quero dizer, de que importa eu achar que “Roma” é um filme incensado por contar a história de uma mulher, sendo que quem conta a história dela é um homem? Com o país nessa situação? Com tanto app pra atualizar no celular? Ninguém liga pra nada.
Além disso, me sinto como naquela entrevista do Daniel Johns que o jornalista fala “nossa, você não usa mais metáforas pra suas letras” e o Daniel responde “bicho, eu não tenho mais paciência pra ficar sendo lírico, eu quero falar diretamente sobre o que eu sinto”.
Então, como é que eu vou ser uma crítica de cinema se ao invés de dizer que “Cuarón tinge de masculinidade uma história feminina que poderia ser grandiosa, amordaçando com ternura a personagem que ele pretendia dar voz”, quando na verdade tudo o que eu quero falar é “mais um homem que acha que sabe melhor do que a mulher sobre os sentimentos dela”???
Esses dias, eu estava entrando para uma sessão de cinema e aconteceu uma coisa. Quarta-feira, quatro da tarde e eu no cinema. Você vai me odiar, mas pode ficar tranquilo que eu me odeio mais.
E além de tudo, mesmo essa mamata já acabou.
Estava eu entrando na sala de cinema, o filme era “The Wife” (ASSISTAM (essa é a minha crítica do filme)), e nisso um velho parado em pé em frente à uma das poltronas. Ele olha pra mim e manda:
“essa fita promete ser bárbara, hein?”
E eu pensei: rapaz, É ISSO.
No fim das contas, não importa a cartela de cores que o diretor de fotografia quis usar, as cenas gravadas sem ensaio, se é uma retomada do cinema mudo. Foda-se. Ninguém liga. O filme é bom? Fez você sentir algo? Você gostou do filme? Então é só isso o que importa.
Minha opinião hoje se resume a ser o mais direta possível sobre o que o filme me fez sentir. Sem o lirismo das resenhas juvenis, sem tentar descobrir a grande mensagem por trás daquela trama – a grande mensagem misteriosa que só eu, a cinéfila, fui capaz de descobrir.
Foda-se. Hoje só me importa se a fita é bárbara ou não.
E é isso.




