Resenhas

KLEXOS, Corleone: faixa a faixa, finalmente chegamos

Qualquer um que tenha cruzado a Ponte da Fraternidade, fronteira entre o Brasil e Argentina, em uma noite de sábado com a simples intenção de comprar apenas alguns potes de doce de leite, mas chegando lá tenha encontrado todo tipo de iguaria alimentícia diferenciada e rica em sabores pode entender bem o conceito de ser surpreendido em sua euforia e expectativa.

Trazendo essa metáfora para uma vivência que contemple mais pessoas do que as que já tiveram a chance de estar ao Sul do nosso país, imagine uma viagem de carro onde você vai curtindo o caminho, o que já está ótimo, mas chegado ao seu destino, aí é que a diversão começa.

Foi assim que me senti ouvindo pela primeira vez KLEXOS, novo EP da iguaçuense Corleone.

Mas para falar sobre KLEXOS, preciso voltar um pouco antes na nossa viagem para dar à você o total conceito complexo do que é ter uma banda de rock na qual confiar e amar em pleno 2019.

A Corleone surgiu em 2006, você imagina, o mundo era outro. Em uma cena rock tão simples de coração quanto inventiva, em Foz do Iguaçu, no Paraná, a gente tinha todo tipo de banda e cada uma trazia algo de novo e interessante para as nossas noites do interior: Visão Alternativa, Poronga Joke, Receita Federaus, Pantufas Vermelhas, entre outras. E tinha a Corleone. Com um repertório básico de covers e algumas canções próprias, a banda foi trilhando seu caminho, com muita teimosia e sinceridade em um cenário que ia morrendo com o passar dos anos. E enquanto o mundo ia mudando e as bandas iam acabando, a Corle continuava.

Em 2017 chegou o primeiro EP real oficial, o It Must Be The Wave. Com uma pegada meio Arctic Monkeys da fronteira em suas seis faixas autorais, esse lançamento trazia um tom mais melancólico, mesmo nas canções mais pesadas.

Era como uma viagem de carro, você olhando pela janela, sentindo o vento no rosto e pensando na sua vida. Não com tristeza, mas com algum tipo de sentimentos mais contemplativo.

São seis músicas para mostrar para você a beleza de todos esses tons azuis. Deve ser a onda.

Já em 2018, chega o single Rinding the Storm. Aqui a banda acelera um pouco, mostrando que está a caminho de algo – e no caminho certo.

Mais uma vez, as letras vão além do simples exercício de alguma mensagem de amor, trazendo a densidade de um hino motivacional sem clichê nenhum. Je suis your brand new colors / Je suis your golden god tonight .

Momentos importantes e belos que nos trouxeram até aqui, essa linda segunda-feira de outubro de 2019, quando a Corleone lança seu segundo EP e a sensação é de que finalmente chegamos.

Em KLEXOS, a banda finalmente desce do carro e coloca os pés em seu destino final. São 5 faixas, todas enérgicas e cheias de vontade, mostrando que vale a pena estar vivo e que valeu passar todos esses anos batendo cabeça pela estrada.

Faixa a faixa, o que temos em KLEXOS é:

  1. Bixby: a música que abre o EP ainda traz um pouco da sonoridade dos trabalhos anteriores, mas já mostra a que veio quando acelera o que estamos acostumados a ouvir com a Corleone. O rifzinho no terço final da música é tudo para mim, e meu alimento dia e noite. Tá chorando por quê, Arctic Monkeys? Os meninos já foram embora.
  2. Bitter Water: Ao que tudo indica, essa é aquela música em que você volta do bar com duas Heineken, entrega uma para a sua garota e vocês dançam um pouco, rindo. Tão sexy quanto uma noite de sábado que já está garantida do que pode ser, porque você tem alguém a quem amar e ela é linda, eu gosto do ar correto de amor tranquilo e sexo garantido que essa música traz.
  3. Unicorn: Tentei confirmar com o pessoal, mas não há nada factual que comprove minha teoria de que são anjos no backing vocal dessa música. Eu acho que são – e dentro desse reduto cultural chamado “meu blog”, só a minha opinião importa. De todo modo, vale dizer, essa é a mais divertida do EP, e perfeita pela força com que mostra sua intenção.
  4. Tiger Her: Essa música fala sobre Roller Derby, superação dando no couro das adversidades, se vestir feito uma rockstar e ser o orgulho de um grunge dos anos 90. Eu amo o crescendo da melodia e como ela é motivacional sem ser piegas. Eu adoro o fato de ela ser uma homenagem para alguém especial – e se você descobrir sozinho quem é essa pessoa sem eu precisar dizer que sou eu, é um favor que você me faz.
  5. Dirty Glass: Encerrando o EP, temos essa canção cheia de raiva e peso, lembrando um pouco do motivo de ainda estarmos tentando. O desfecho perfeito, a canção tem tudo o que estamos acostumados a ouvir na Corle, mas com uma roupagem sutilmente diferente, mostrando que a evolução tem a ver, em primeiro lugar, com continuar sendo quem você é.

Produzido e gravado em São Paulo, no Estúdio Costella, KLEXOS tem o frescor de uma banda cheia de otimismo, entusiasmo e amor por sua caminhada. Depois de tanto andar por aí, finalmente chegamos. Gosto de saber que em pleno 2019, o rock não só não morreu, como ainda surge por aí e nos chacoalha pelos ombros nos tirando para dançar através de bandas como a Corleone.

Para você que tem essa vivência, é como cruzar a Ponte da Fraternidade e descobrir que o Casino ainda está aberto mesmo sendo tão tarde.

É o seu dia de sorte.


Ouça KLEXOS no Spotify. Saiba mais sobre a Corleone e acompanhe seu trabalho pelo Twitter, Instagram e Facebook.

Brain Dump*

#THINKTOBERTHINKTATI: Dia nada – Pra mim já deu

Não sou de encerrar projetos pela metade, mas sinceramente pra mim já deu. Não gostei dos temas e, embora acredite firmemente que é possível sim escrever sobre qualquer coisa, não vou ficar aqui gastando tutano em conteúdo que não acrescenta em nada.

Eu tenho o maior respeito pelo meu tempo e pelo meu esforço. Por extensão, também tenho respeito por vocês, três pessoas que formam minha audiência nesse blog.

Então, encerramos por aqui. E vamos focar no que interessa, escrever sobre o que realmente se tem vontade. E aprender com essa lição.

Grata.

Brain Dump*

#THINKTOBERTHINKTATI – Dia 15: Achievements

Aos meus ouvidos caipiras, “achievements” parece nome de comida, mas na verdade é uma palavra inglesa para “realização”.

Antes de qualquer coisa, preciso dizer que me preocupa um pouco a quantidade de prompts desse desafio que remetem a conquistas, objetivos e realizações, como já vimos anteriormente em temas como ambition, goals e mesmo em productivity. Eu se sou uma pessoa com alguma baixa estima por não me sentir realizando coisas, ficaria ainda mais desanimada com esses temas, afinal parece até uma cobrança para que você mostre que está “dando certo” na vida. Caramba, pessoal, em quinze dias ter que escrever pelo menos três vezes sobre seus feitos é algo no mínimo estranho. Ninguém tem tanto sucesso na vida assim – e, caso tenha, não vai ser uma pessoa com um blog.

Os blogueiros são, por definição, pessoas que escrevem sobre suas frustrações, não para contar vantagem.

Tendo dito isso, eu me recuso a escrever mais um post sobre o que já fiz ou realizei esse ano ou na vida, estou simplesmente cansada dessa ostentação que só cria ansiedade e rivalidade. Desse modo, prefiro transformar esse post em um metapost, um exercício de metalinguagem onde eu fico só falando do meu texto e não desenvolvo o texto em si de fato.

Parece uma boa ideia, certo? No entanto, pensando melhor, não. É uma péssima ideia. Eu detesto metalinguagem e me sinto incomodada em produzir um conteúdo nessa vertente.

Diante dessa sinuca de bico que eu mesma me coloquei por conta dos meus ideais, encerro por aqui, de maneira inconclusiva e pouco lógica, esse texto.

Mas encerro com dignidade, provando o meu ponto.

Eu acho.

Brain Dump*

#THINKTOBERTHINKTATI – Dia 14: Productivity

Produtividade, eis um assunto no qual me espalho.

Sou obcecada por ser produtiva. Alguma má função nos meus genes, provavelmente, vai saber, o caso é que tenho fixação por extrair cada segundo do dia em alguma atividade útil. Por conta disso, sou uma pessoa extremamente chata, que não relaxa por um minuto sequer.

O lado bom, eu nunca vou me atrasar em um compromisso com você e provavelmente vou fazer tudo por você no seu lugar, para garantir que está sendo feito.

O lado ruim, como já foi dito, eu sou um porre de pessoa.

Não vou ficar dando dica de app aqui, isso não é o Tecnoblog, mas gostaria de apontar quais são os aplicativos que hoje validam e incentivam a pessoa produtiva moderna que sou. Com a ajuda dessa tecnologia, hoje todos podem ser ansiosos digitais, como eu, ou em uma leitura mais otimista, uma pessoa produtiva e com apps. Que sou eu.

Por exemplo, eu uso o Steps, que traça uma meta diária de passos. Com isso, nenhum passo meu é em vão, tudo é produtividade. Esses dias, fui almoçar com uma amiga e nós só sabíamos muito por cima o lugar onde o restaurante ficava. Ficamos caminhando por quase horas até achar, e eu apenas sorria: isso ajudava na minha meta diária de caminhada. Um pessoa que precisa caminhar 12 mil passos por dia jamais está perdida, ela sempre está em uma missão.

Para listar todos os filmes e séries que assisto, fazendo com que mesmo um momento de lazer se transforme em uma tarefa realizada com sucesso, tenho o IMDB e o TV Time, respectivamente. Graças a esses aplicativos eu posso te dizer que hoje, no dia da graça de 15 de outubro de 2019 (escrevo atrasada, sim, mesmo uma vida controlada desanda), eu já assisti a 91 filmes no ano. Além disso, o app de séries conta que já vi mais de 4.500 episódios de série durante toda a minha vida (sim, eu cataloguei), sendo que no último mês eu assisti a 47 episódios.

Dados como esses me validam como pessoa e me acalmam. É por isso que uso também o GoodReads, onde marco todas as minhas leituras. Até o presente momento, li 47 livros em 2019, sendo que a minha meta é 52 títulos.

Para além disso, esse ano publiquei dois livros.

Por fim, gostaria de dizer que essa é a minha vida e eu não acho ela ruim. De verdade, me sinto feliz e realizada por acordar às 5am em um sábado porque preciso caminhar por 10km e ainda faxinar a casa. Ao fim de tudo, me sinto bem em ser produtiva e realizar coisas.

Nesse dia mesmo, no sábado, depois de todas as tarefas concluídas, me joguei no sofá e assisti ao delicioso filme de terror psicológico em um crescendo retumbante Clímax, do cineasta argentino (que ainda não trabalhou com o Ricardo Darín, olha que diferente?) Gaspar Noé. Foi ótimo ver um monte de gente sofrendo na tela por conta do abismo da droga, mais uma validação para mim, a pessoa certinha e careta, ansiosa digital que jamais vai se atrasar em um compromisso com você.

O que deve valer de alguma coisa.

Desnecessário dizer, mesmo assim estou dizendo, contabilizei o filme de sábado no meu aplicativo de filmes.

Brain Dump*

#THINKTOBERTHINKTATI – Dia 13: Helping

Viver não tem sido fácil. Essa é uma lista de 10 coisas que estão ajudando:

  • A oitava temporada de The Office
  • Fazer algum tipo de exercício todo dia para bater a minha meta no app Steps
  • Acordar cedo e acreditar que estou sendo útil por isso
  • Almoçar em um restaurante vegano que é R$29 incluindo suco e sobremesa
  • Estar adiantada na minha meta de leitura do ano
  • A possibilidade de estar empregada ano que vem
  • A descoberta do pão na chapa com requeijão (não na saída) da Padaria Segredo dos Pães
  • Projetos pessoais como esse, que me dão um motivo
  • A estreia da nova temporada de The End of The F***ing World em novembro
  • A ideia que eu tive para o meu livro número 12
Resenhas

#THINKTOBERTHINKTATI – Dia 12: goals

Um dos meus objetivos para o ano era ler pelo menos 52 livros. Calculei que não escreveria nada para 2019 (que piada, publiquei 2 livros) e assim teria tempo de ler, em média, um livro por semana.

Chegando na reta final de 2019, vejo que consegui, de um jeito ou de outro, cumprir meu goals literário. Já li mais de 40 livros até agora, a se conferir no meu GoodReads (me adiciona lá!) e tudo se encaminha para bater essa meta e ultrapassá-la.

Tendo dito isso, fiz uma lista rápida dos 5 melhores livros que li até agora. Espero que ela seja superada até o final do ano – e, se for, volto aqui para contar.

Importante: quase todos os livros dessa reduzida lista estão de graça na Amazon. Clicando no link embutido no título de cada livro, você é redirecionado direto para a página dele na Amazon, onde pode ler mais sobre a obra e conferir opções de compra.

Os Criadores de Coincidências, por Yoav Blum

Esse é um livro bem doido e bom, sobre jovens que trabalham criando coincidências. As coisas se complicam quando o coração entra em jogo e eles começam a criar coincidências em benefício próprio para que seus relacionamentos aconteçam como eles desejam. Não se preocupe, não é nada piegas, na verdade é bem interessante e divertido. O livro tem menos de 400 páginas e você lê rapidinho, porque é bem cativante mesmo.

E Se Acontece?, por Melanie Harlow e David Romanov

Por definição, livros escritos à quatro mãos sempre me fascinam, sobretudo se não terminam com assassinato mútuo entre os escritores até o final do processo. No caso de E Se Acontece?, aparentemente deu tudo certo, os autores tem até uma seção de comentários finais contando como conseguiram unir seus cérebros para criar essa história. A história do livro, aliás, é muito boa. Não costumo ler sinopse e nem vou escrever uma aqui para você, mas resumindo bem, se trata de um caso de amor bem improvável, quente e bonitinho. A história foi escrita pela Melanie, e o David dava alguns pitacos meio de “consultoria” do meio em que a trama é inserida. O resultado é uma romcom gay nada fantasiosa e super fofa.

Favores vulgares: A história real do homem que matou Gianni Versace, por Maureen Orth

Depois de ver American Crime Story: Versace, eu fiquei um pouco desacreditada do grau de loucura das pessoas envolvidas e fui atrás de entender melhor. Isso me levou a ler o livro que inspirou a série. Embora um pouco datado em sua visão de mundo, Favores Vulgares é um importante documento de sua época, mostrando não só as motivações do homem que matou um dos maiores estilistas da história, mas também como a sociedade (e a família) o adoeceu tanto a ponto de levá-lo a cometer tal crime. Bem interessante. Falei mais sobre esse livro em uma resenha completa aqui.

Escrito em Algum Lugar, por Vitor Martins

Segundo definição própria, Vitor Martins escreve histórias de jovens gays desbravando o mundo enquanto conversam horrores. É isso o que temos nesse conto, que me pegou de jeito contanto a história de dois caras que se conhecem na fila para comprar ingresso do show de uma boy band. O que mais gosto nesse livro é a maneira como o Vitor usa uma história casual para falar sobre pertencimento e sobre como as coisas que amamos nos definem e nos ajudam a encontrar a nossa voz. Me senti extremamente validada e vista.

Variações Enigma, por André Aciman

Do mesmo autor de Me Chame Pelo Seu Nome, esse romance traz a história de um homem comum em busca do amor (como todos nós), fragmentando essa busca em várias histórias curtas que se conectam em diferentes níveis. A delicadeza e a poesia que Aciman usa como motor dessa narrativa é, para mim, o maior trunfo da trama toda. Sabe aqueles autores que conseguem enxergar e traduzir absolutamente todo o impacto sentimental de uma situação? Aciman é assim, e por isso ele é um romancista perfeito.


Por enquanto, esses são os meus favoritos do ano. Vamos ver o que esses poucos meses restantes de 2019 ainda me reservam, literariamente falando.

Brain Dump*

#THINKTOBERTHINKTATI – Dia 11: Fear

Rapaz, se tem uma coisa que eu tenho é medo. Não na vibe Regina Duarte, é mais no sentido verdadeiro da palavra.

Desse modo, o medo é tanto que, indecisa sobre qual deles abordar aqui, resolvi fazer uma lista rápida de tudo que me causa arrepios:

  • Fantasmas
  • Móveis que estalam de noite
  • Pessoas que puxam conversa comigo por conta da minha tatuagem do Palmeiras
  • Sair de casa sem a carteira
  • Perder minha carteira
  • Me atrasar para qualquer evento ou acontecimento banal
  • Assar um bolo e ficar ruim
  • Pegar uma caneta e ela estar seca
  • Entrar em um restaurante e ser a única cliente
  • Filmes de medo
  • Séries de medo
  • Livros de medo
  • Ter um tuíte com mais de 10k RT e com isso atrair atenção indesejada
  • Precisar explicar em voz alta o teor das minhas fanfics do Messi
  • Tomar decisões
  • Olhar o meu saldo bancário
  • Cachorro
  • Andar sozinha na rua quando anoitece
  • Quando meus gatos ficam com o olhar parado e começam a miar para o nada
  • Que meus dentes caiam
  • Dormir de preto e ter pesadelos
  • Comidas apimentadas
  • Pegar uma fila enorme e ser a fila errada
  • Abrir um pacote de bolacha e ter formigas.

Eu poderia continuar eternamente, mas agora fiquei mexida por tocar em todos esses tópicos. Me retiro. Até o próximo post.

Brain Dump*

#THINKTOBERTHINKTATI – Dia 10: Hopeful

Esperançosa? Com essa economia?

Falando sério, não dá. Até tento em alguns momentos, mas é só abrir o Twitter ou qualquer outra rede social e você é soterrado por tanta notícia ruim que é impossível manter a fé.

Tudo é ultrajante e desesperador, em níveis que são ultrapassados a cada dia. O que é terrível sob qualquer ponto de vista, deixando a gente exausto só de começar a pensar.

Mesmo aqueles recortes raros onde algo de bom acontece são capazes de trazer algum tipo de tristeza. E nem é por cinismo, o que acontece é que você vê aquilo e pensa no quanto precisa se agarrar naquela notícia para acreditar que as coisas vão ficar bem.

Eu não acho que as coisas vão ficar bem.

Uma saída possível é a negação, apagando todas as redes sociais e vivendo de literatura e séries na TV.

Tenho vontade de tentar.

Brain Dump*

J. Balvin: dando o que as mulheres querem, ou seja, cultura

No clipe de um de seus singles mais recentes, J. Balvin divide a cena com Maluma. Em uma brincadeira logo no início do vídeo, J. Balvin imita Maluma, se filmando com a câmera frontal do celular e dizendo todo galã “Mamacita… Maluma Baby”. Já Maluma se olha no espelho e, em uma caricatura de J. Balvin, entoa: “blá, blá, blá…Colômbia…. blá, blá, blá… Cultura!”.

Como qualquer um disposto a concordar comigo pode confirmar, toda brincadeira esconde um fundo de verdade. Para além de nos mostrar o duelo de titãs entre os dois maiores nomes do reggaeton atual, o clipe de Que Pena! nos aponta uma verdade inegável: enquanto Maluma só pensa em ser sensual, J. Balvin tem sempre seu discurso apontado para a cultura.

No entanto, quando começou, em 2009, com seu primeiro álbum de estúdio, Real, J. Balvin ainda estava incerto sobre sua mensagem. Nessa pérola perdida, Balvin mescla consciência territorial com lamentos de algum tipo de amor platônico e genérico por qualquer mulher que lhe dê o mínimo de atenção.

Como esperado, o impacto foi zero. Para o ouvinte mediano, era apenas mais um cantor de reggaeton vestido de roupa social para poder ser aceito pela sociedade. Era preciso ir além.

Em seus discos seguintes, além dos vários singles e mix tapes para rádios, J. Balvin foi encontrando seu tom. Você nota isso pelo primeiro verso da primeira música de J Balvin Mix Tape, álbum de 2012, quando em “Seguiré Subiendo” ele diz: Y yo quiero seguir… / Y seguiré subiendo / Yo quiero ser la voz del pueblo. Quando J. Balvin finalmente entende isso e diz isso em voz alta, as coisas começam a acontecer.

Você pode pensar que o maior dilema para um cantor latino é que tamanho deixar o cabelo, mas a verdade é que o debate é muito mais complexo. Ao tomar para si a missão de levar sua cultura para o resto do mundo, J. Balvin se aprofundou em suas raízes colombianas, dando abertura para o resgate de uma música que é tipicamente latina e tornando-a amplamente palatável para o gosto mundial.

Por outro lado, a coisa de ser bonito ou um símbolo sexual, típica dos cantores latinos, ficou em segundo plano, usado quando convém ou para quem a química bate: tanto faz, o ponto não é esse. O ponto para J. Balvin é, Maluma mesmo disse, Colômbia, cultura. Ele não quer te levar para a cama, ele quer te levar para a América Latina.

Para tornar isso uma persona, a chave foi investir em um discurso pesado de valorização da cultura colombiana, ao mesmo tempo que o fazia através de feats com talentos nacionais e também de países amigos. Outra estratégia foi trabalhar não apenas com álbuns de estúdio, mas propagar sua mensagem por meio de muitos singles e participações soltas por aí, fazendo de J. Balvin um diamante partido em mil pedaços, difícil de ser catalogado, se espalhando pelo mundo em uma obra tão vasta quanto densa.

Assim, tivemos La Familia (2013) e La Familia B Sides (2014), além de Energia (2016) e Energia Lado B (2017), álbuns onde J. Balvin reforça valores como família, tradição e cultura, tendo o amor romântico como um pano de fundo útil, mas não imprescindível.

O sucesso veio em um crescendo, em paralelo com essas obras, através dos singles extraídos delas, sendo que consagração internacional viria mesmo em 2017, quando J. Balvin lançou o single “Mi Gente” com Willy William, que posteriormente foi regravado com feat de ninguém menos que Beyoncé. Dando a tônica de seu discurso, a letra da música não fala de amor romântico, fala de amor à música – e de como esse sentimento pode fazer o mundo girar:

Toda mi gente se mueve
Mira el ritmo cómo los tiene
Hago música que entretiene
El mundo nos quiere, nos quiere, y me quiere a mí

“Mi Gente”, inclusive, aparece posteriormente em Vibras, álbum de 2018 e um dos mais coesos da história do cantor. Mais uma vez indo contra a coisa do galã latino, a capa é uma simples ilustração: J. Balvin não tem tempo para isso.

Vibras, o álbum, é o CD definitivo do cantor – pelo menos até o momento. Com um conceito que segue contando uma história faixa a faixa, tudo ali é perfeito e faz sentido dentro da mensagem maior: vamos honrar nossas raízes aqui. E, ah, você é muito bonita dançando. Dando seguimento à tradição dos feats, a obra traz parcerias com Yandel, Wisin, Anitta, e até com a expoente Rosalía (a faixa é Brillo, um feat que se repetiria posteriormente com o single Con Altura), entre outros.

Já em 2019, chega Reggaeton, o single que define, resume e condensa toda a carreira e mensagem de J. Balvin. Com um clipe que resgata figuras definitivas do reggaeton, trazendo veteranos do gênero como  Daddy YankeeNicky Jam e Don Omar, entre outros, a estética 90′ e quase grunge, além da coisa da união de um povo são os destaques da história contada aqui. Vale assistir:

É uma afirmação do reggaeton “old school” de J. Balvin, um artista que não se curva ao pop americano, imprimindo a sua cultura pelo mundo todo.

A letra é literal e direta: Deus abençoe o reggaeton.

Ya tú sabes quienes son
Me resalto del montón
Dios bendiga el reggaetón, amén (amén)
Hasta abajo, así soy yo
Yankee pa’ esta me inspiró
Bajo fuerte como ron, ron, ron

Y si el pueblo pide (reggaetón, reggaetón)
No se lo voy a negar (reggaetón, reggaetón)
Si las mujeres piden (reggaetón, reggaetón)
Pues yo le’ voy a dar (reggaetón, reggaetón)

Nesse ponto, você entende que J. Balvin não está para brincadeira. É cativante e até doce ele reverter o clichê do discurso pop e, ao invés de prometer amor eterno por si só, dizer que traz o que as mulheres querem (reggaeton!) e faz isso por elas. É a malandragem do homem latino, que faz tudo por você, mostrando que te ama sem nunca dizer “eu te amo” de fato.

O que vemos ainda mais em seu novo álbum, lançado esses dias, Oasis. Abraçando de vez o feat., o trabalho é uma parceria com Bad Bunny, porto-riquenho conhecido por seu reggaeton que flerta com o trap.

O resultado é um CD altamente dançante, reggaeton sem frescura e sem bula. É como se, depois de passar décadas explicando o gênero (inclusive com uma música que literalmente se chama REGGAETON!), Balvin nos considerasse prontos para receber um álbum com canções que se explicam por si só.

Se você gostava dele até aqui, vai gostar mais. Se não gostava, já pode ir embora, porque ele é isso, é reggaeton, Colômbia e cultura e nada além disso. Gostem ou não.

O próximo passo? Difícil dizer, é um artista tão inventivo quanto imprevisível. De qualquer modo, sabemos que o caminho está pavimentado e, para J. Balvin, a trilha é tão clara quanto verdadeira: seguirá rompiendo e dando o que as mulheres querem: cultura & reggaeton.

Deus abençoe.

Brain Dump*

#THINKTOBERTHINKTATI – Dia 09: Past

Falar sobre o passado é complicado, o que não é doloroso per se é doloroso pela saudade. Eu tenho essa relação um tanto delicada com o que deixei para trás – algo que já comecei a tratar em terapia, não se preocupem.

Trazendo esse tema para um contexto mais ameno, vou contar uma história boa do meu passado recente. Não é nada demais, mas sempre lembro dela com um sorriso.

Foi um dia depois de alguns exames, ainda durante o tratamento de câncer. Minha amiga Carol me acompanhou ao médico e depois disso estávamos livres. Era um dia útil, meio de semana, e nós duas estávamos de folga por conta desses compromissos. Saindo do laboratório, eu não me sentia exatamente bem, mas queria estar. Vinhamos falando sobre cuidado pessoal e beleza, essas coisas mais leves, quando tivemos a ideia de cortar o cabelo.

Assim, virando uma rua e entrando em outra, passeando de carro, paramos em um salão.

Meu cabelo é bem cheio, tenho muito mesmo. Com a quimioterapia, ele vinha caindo, mas não a ponto de me deixar careca, só com algumas falhas. Explicar isso para o cabeleireiro foi tranquilo, apesar daquela costumeira comoção inicial. O meu corte não foi muito radical, só diminui um pouco o tamanho, e foi curioso ver como o caimento dele ficou melhor por conta da diminuição de volume que o tratamento causava.

Minha amiga Carol também fez um corte básico, e tudo bem. A gente não estava ali pelo chock value, era mais a coisa simbólica mesmo. Eu quero dizer, a minha vida desmoronando e eu sentada no salão cortando o cabelo com a minha melhor amiga.

Posteriormente, acho que no ano seguinte, tive uma experiência similar com outra melhor amiga, a Julie, que foi comigo cortar o cabelo do nada, nós duas saindo do salão tarde da noite com nossos novos penteados.

Olhando de fora até parece besteira, no entanto quando estamos vivendo sabemos que não é. Foi bom ter vivido esses momentos, com essas duas amigas tão importantes para mim. Serviu para me mostrar o que realmente importa.