
Qualquer um que tenha cruzado a Ponte da Fraternidade, fronteira entre o Brasil e Argentina, em uma noite de sábado com a simples intenção de comprar apenas alguns potes de doce de leite, mas chegando lá tenha encontrado todo tipo de iguaria alimentícia diferenciada e rica em sabores pode entender bem o conceito de ser surpreendido em sua euforia e expectativa.
Trazendo essa metáfora para uma vivência que contemple mais pessoas do que as que já tiveram a chance de estar ao Sul do nosso país, imagine uma viagem de carro onde você vai curtindo o caminho, o que já está ótimo, mas chegado ao seu destino, aí é que a diversão começa.
Foi assim que me senti ouvindo pela primeira vez KLEXOS, novo EP da iguaçuense Corleone.
Mas para falar sobre KLEXOS, preciso voltar um pouco antes na nossa viagem para dar à você o total conceito complexo do que é ter uma banda de rock na qual confiar e amar em pleno 2019.
A Corleone surgiu em 2006, você imagina, o mundo era outro. Em uma cena rock tão simples de coração quanto inventiva, em Foz do Iguaçu, no Paraná, a gente tinha todo tipo de banda e cada uma trazia algo de novo e interessante para as nossas noites do interior: Visão Alternativa, Poronga Joke, Receita Federaus, Pantufas Vermelhas, entre outras. E tinha a Corleone. Com um repertório básico de covers e algumas canções próprias, a banda foi trilhando seu caminho, com muita teimosia e sinceridade em um cenário que ia morrendo com o passar dos anos. E enquanto o mundo ia mudando e as bandas iam acabando, a Corle continuava.

Em 2017 chegou o primeiro EP real oficial, o It Must Be The Wave. Com uma pegada meio Arctic Monkeys da fronteira em suas seis faixas autorais, esse lançamento trazia um tom mais melancólico, mesmo nas canções mais pesadas.
Era como uma viagem de carro, você olhando pela janela, sentindo o vento no rosto e pensando na sua vida. Não com tristeza, mas com algum tipo de sentimentos mais contemplativo.
São seis músicas para mostrar para você a beleza de todos esses tons azuis. Deve ser a onda.

Já em 2018, chega o single Rinding the Storm. Aqui a banda acelera um pouco, mostrando que está a caminho de algo – e no caminho certo.
Mais uma vez, as letras vão além do simples exercício de alguma mensagem de amor, trazendo a densidade de um hino motivacional sem clichê nenhum. Je suis your brand new colors / Je suis your golden god tonight .
Momentos importantes e belos que nos trouxeram até aqui, essa linda segunda-feira de outubro de 2019, quando a Corleone lança seu segundo EP e a sensação é de que finalmente chegamos.

Em KLEXOS, a banda finalmente desce do carro e coloca os pés em seu destino final. São 5 faixas, todas enérgicas e cheias de vontade, mostrando que vale a pena estar vivo e que valeu passar todos esses anos batendo cabeça pela estrada.
Faixa a faixa, o que temos em KLEXOS é:
- Bixby: a música que abre o EP ainda traz um pouco da sonoridade dos trabalhos anteriores, mas já mostra a que veio quando acelera o que estamos acostumados a ouvir com a Corleone. O rifzinho no terço final da música é tudo para mim, e meu alimento dia e noite. Tá chorando por quê, Arctic Monkeys? Os meninos já foram embora.
- Bitter Water: Ao que tudo indica, essa é aquela música em que você volta do bar com duas Heineken, entrega uma para a sua garota e vocês dançam um pouco, rindo. Tão sexy quanto uma noite de sábado que já está garantida do que pode ser, porque você tem alguém a quem amar e ela é linda, eu gosto do ar correto de amor tranquilo e sexo garantido que essa música traz.
- Unicorn: Tentei confirmar com o pessoal, mas não há nada factual que comprove minha teoria de que são anjos no backing vocal dessa música. Eu acho que são – e dentro desse reduto cultural chamado “meu blog”, só a minha opinião importa. De todo modo, vale dizer, essa é a mais divertida do EP, e perfeita pela força com que mostra sua intenção.
- Tiger Her: Essa música fala sobre Roller Derby, superação dando no couro das adversidades, se vestir feito uma rockstar e ser o orgulho de um grunge dos anos 90. Eu amo o crescendo da melodia e como ela é motivacional sem ser piegas. Eu adoro o fato de ela ser uma homenagem para alguém especial – e se você descobrir sozinho quem é essa pessoa sem eu precisar dizer que sou eu, é um favor que você me faz.
- Dirty Glass: Encerrando o EP, temos essa canção cheia de raiva e peso, lembrando um pouco do motivo de ainda estarmos tentando. O desfecho perfeito, a canção tem tudo o que estamos acostumados a ouvir na Corle, mas com uma roupagem sutilmente diferente, mostrando que a evolução tem a ver, em primeiro lugar, com continuar sendo quem você é.
Produzido e gravado em São Paulo, no Estúdio Costella, KLEXOS tem o frescor de uma banda cheia de otimismo, entusiasmo e amor por sua caminhada. Depois de tanto andar por aí, finalmente chegamos. Gosto de saber que em pleno 2019, o rock não só não morreu, como ainda surge por aí e nos chacoalha pelos ombros nos tirando para dançar através de bandas como a Corleone.
Para você que tem essa vivência, é como cruzar a Ponte da Fraternidade e descobrir que o Casino ainda está aberto mesmo sendo tão tarde.
É o seu dia de sorte.
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