
Ontem eu cometi um erro – aqui eu peço a sua bondade em acreditar que ontem eu cometi apenas um erro – e coloquei a roupa para lavar às 22h30. Normalmente às 23h eu já estou no berço, porém o dia foi atribulado e eu me perdi nos horários. Desse modo, ontem era 22h30 e eu não podia ir dormir ainda, então precisei inventar algo e enrolar até a roupa terminar de bater e eu poder estender nos varais.
Não, eu não vou simplesmente deixar a máquina batendo e vou dormir com ela ligada. Vocês nunca leem nada sobre acidentes domésticos?
Não, eu não vou deixar a roupa lá batida e estender só amanhã cedo. Vocês são o quê, psicopatas?
Não, eu não aceitei a gentileza do meu marido se oferecendo para cuidar disso. Eu pareço alguém que aceita ajuda?
Enfim! Estando o erro cometido, não me restou outra alternativa senão tirar o melhor proveito dele aproveitando esse tempinho acordada para me entupir de cultura pop e eliminar o equivalente a 0,0001% da ansiedade causada por sentir que não assistimos ainda a todos os filmes e séries do mundo.
Fui ver um filme na Amazon Prime.

Ás vezes eu gosto de ver um filme muito velho que eu nunca tenha visto, pois acho que o cinema antigo traz um tipo de comicidade cafona que cativa e conforta como poucas peças da sétima arte são capazes. As roupas, os diálogos, as interpretações exageradas, o descaso na trama… É tudo muito bom em filme velho, aprendi isso com a minha amiga Carol.
Então ontem o meu escolhido foi Ladrão de Casaca (To Catch a Thief ) de 1955. A direção é do Alfred Hitchcock, o que garante um filme bom e horrível sempre na mesma medida. Ou seja, perfeito.
Atenção: este texto não contém spoilers do filme, pode ler tranquilo.
Bom, o filme conta a história de um ex-ladrão (kk) de jóias, que fugiu da cadeia e está na maciota. Aí, surgem novos roubos de jóias e passam a desconfiar que é esse rapaz que está roubando de novo. O rapaz, por sua vez, diz que não é ele, mas sim alguém copiando seu estilo. Em busca de se inocentar no caso e elucidar a situ, ele parte em busca de ocasiões onde o ladrão atacaria para ver se consegue pegar ele no pulo.
Isso foi o que eu entendi depois de ver 15 minutos de filme e me dar conta de que estava dublado em espanhol sem legendas. Aí mexi nas configurações e descobri que o filme não tinha legendas em português, de modo que optei por assistir ao filme todo em inglês, idioma original, e com legendas em inglês também, gastando em aproximadamente duas horas absolutamente todo o conhecimento de idiomas obtido via Duolingo que estava armazenado no meu cérebro.

Como a maioria das obras de Hitchcock, Ladrão de Casaca traz uma enternecedora comicidade involuntária que é potencializada pelo tempo. Não é que os filmes dele envelheceram mal, é que eles envelheceram muito. É muito engraçado ver mulheres falando todas lânguidas, sendo ousadas de maneira polida. É impagável ver o Cary Grant, um senhor de 51 anos, fazendo mais uma vez o papel do galã irresistível de apenas 30 aninhos. Nadando e saindo do mar encolhendo a barriga, sabe?

Eu quero dizer, que tipo de pessoa sai do mar e deita na areia pura? E só por dois segundos, sabendo que um informante estava ali e iria chamá-lo para em um canto escondido da praia(!) lhe entregar uma lista contendo o nome de todas as pessoas da cidade que têm jóias caras e podem ser roubadas pelo ladrão falsário(!)?
Sabe?
E o nome do personagem dele, o ladrão que não rouba mais, é The Cat.
Sabe?!
Para além disso, é adorável imaginar essa década de 50 estilizada de Hitchcock, onde todas as mulheres são vingativas e todos os homens são difíceis de se conquistar o coração.
A própria tradução do título do filme é boa demais. Ladrão de Casaca? Tá, mas qual casaca? Ele rouba jóias! Ele nem usa casaca, sabe? É bobo, mas eu gosto dessas coisas.
No entanto, nem todo o meu cinismo de assistir a um filme feito 64 anos atrás e achar defeitos nele como se fosse um produto feito em 2019 pela Marvel me protegeu do impacto que foi ver pela primeira vez um filme da Grace Kelly.
Meninas, a Grace Kelly…

Vocês conhecem a Grace Kelly? Pergunto isso porque muita gente é nova e não tem tempo de se educar, priorizando zerar as notificação dos apps no celular a conhecer o que quer que seja que amplie sua visão de mundo.
Resumindo bem para te ajudar, a Grace Kelly foi uma aclamada atriz americana, que posteriormente se casou com um príncipe(!) e virou a Princesa de Mônaco.
Antes de casar, ela fez 11 filmes, sendo que 3 são do Hitchcock. Ladrão de Casaca foi o primeiro filme dela que vi e o impacto foi real.
Tudo na Grace Kelly é perfeito. Tudo. O porte, a elegância, o corpo, o sorriso, o cabelo. Neste filme em especial, os vestidos, as jóias(!), as falas afiadas e a linguagem corporal que fazem de Cary Grant uma lamentável marionete peluda de dois metros de altura nas mãos dela. Tudo em Grace Kelly é leveza esperta, delicadeza malandrinha. Tudo é sutil, mas firme.
Em Ladrão de Casaca, Grace Kelly surge como Frances Stevens, uma mocinha absurdamente rica com jóias que The Cat, o personagem de Cary Grant, poderia roubar. Mas ele diz que não rouba mais, algo no que a Grace Kelly não acredita – e essa provocação dela cria a tensão sexual entre eles, que se envolvem nesse jogo de gato e rato (a semiótica, meu pai) que move o filme do seu segundo terço em diante.
Quando o Cary Grant diz “You’re here in Europe to buy a husband” e a Grace Kelly responde “The man I want doesn’t have a price” e o Cary Grant responde “Well, that eliminates me”, rapaz… Que grande momento para todos nós.
No fim das contas, como na maioria das obras dessa época, a trama começa bem, mas vai se perdendo pelo final e o filme termina de um jeito abrupto e beirando o insatisfatório. O que acaba nem sendo um problema, porque pouco antes disso Ladrão de Casaca nos entrega uma cena maravilhosa de um baile extremamente chique, onde tudo é perdoado porque todos os vestidos são tão lindos.

Uma curiosidade mórbida de Ladrão de Casaca é que o filme tem uma cena de perseguição em uma estrada de Mônaco, onde a personagem de Grace Kelly dirige em alta velocidade, em fuga com Cary Grant ao seu lado. Em dado momento, eles também param o carro e fazem um piquenique no veículo mesmo, parados no acostamento.
Quase 30 anos após o lançamento do filme, em 1982, Grace Kelly viria a morrer, aos 52 anos de idade, em um acidente de carro. Segundo foi noticiado à época, Grace sofreu um infarto enquanto dirigia e perdeu a direção, se acidentando e vindo à falecer. Posteriormente, foi revelado que a filha dela era quem estava ao volante e a menina, então com 17 anos, dirigia de maneira temerária, o que causou a tragédia.
De todo modo, o que se conta é que o acidente aconteceu nessa mesma estrada de Mônaco por onde Grace Kelly dirige em fuga em Ladrão de Casaca. O lugar da cena do piquenique, dizem também, foi onde seu carro finalmente parou, após a colisão.
Verdade ou lenda, o fato é que histórias como essas só contribuem para essa aura que vemos em Grace Kelly, como se tudo o que ela fizesse ou tocasse não pudesse ser nada menos do que hipnotizante e digno de consternação.
Os olhares, os sorrisos, os vestidos perfeitos em um corpo mais do que perfeito, a voz e o jeito de andar.
O tipo de encantamento que faz você ficar acordada feliz até as duas da manhã em um dia de semana, depois estender roupa de madrugada e finalmente ir dormir, sonhando com belezas irreais e carismas inalcançáveis.
E sentindo que tudo valeu a pena, como sempre valerá enquanto houverem filmes como esses, sejam eles de ontem ou de meio século atrás.











