Resenhas

Nossa, Grace Kelly, com você é tudo na base da aclamação, do talento e da beleza

Ladrão de Casaca (To Catch a Thief) – 1955 – Dir. Alfred Hitchcock

Ontem eu cometi um erro – aqui eu peço a sua bondade em acreditar que ontem eu cometi apenas um erro – e coloquei a roupa para lavar às 22h30. Normalmente às 23h eu já estou no berço, porém o dia foi atribulado e eu me perdi nos horários. Desse modo, ontem era 22h30 e eu não podia ir dormir ainda, então precisei inventar algo e enrolar até a roupa terminar de bater e eu poder estender nos varais.

Não, eu não vou simplesmente deixar a máquina batendo e vou dormir com ela ligada. Vocês nunca leem nada sobre acidentes domésticos?

Não, eu não vou deixar a roupa lá batida e estender só amanhã cedo. Vocês são o quê, psicopatas?

Não, eu não aceitei a gentileza do meu marido se oferecendo para cuidar disso. Eu pareço alguém que aceita ajuda?

Enfim! Estando o erro cometido, não me restou outra alternativa senão tirar o melhor proveito dele aproveitando esse tempinho acordada para me entupir de cultura pop e eliminar o equivalente a 0,0001% da ansiedade causada por sentir que não assistimos ainda a todos os filmes e séries do mundo.

Fui ver um filme na Amazon Prime.

Ás vezes eu gosto de ver um filme muito velho que eu nunca tenha visto, pois acho que o cinema antigo traz um tipo de comicidade cafona que cativa e conforta como poucas peças da sétima arte são capazes. As roupas, os diálogos, as interpretações exageradas, o descaso na trama… É tudo muito bom em filme velho, aprendi isso com a minha amiga Carol.

Então ontem o meu escolhido foi Ladrão de Casaca (To Catch a Thief ) de 1955. A direção é do Alfred Hitchcock, o que garante um filme bom e horrível sempre na mesma medida. Ou seja, perfeito.

Atenção: 
este texto não contém spoilers do filme, pode ler tranquilo.

Bom, o filme conta a história de um ex-ladrão (kk) de jóias, que fugiu da cadeia e está na maciota. Aí, surgem novos roubos de jóias e passam a desconfiar que é esse rapaz que está roubando de novo. O rapaz, por sua vez, diz que não é ele, mas sim alguém copiando seu estilo. Em busca de se inocentar no caso e elucidar a situ, ele parte em busca de ocasiões onde o ladrão atacaria para ver se consegue pegar ele no pulo.

Isso foi o que eu entendi depois de ver 15 minutos de filme e me dar conta de que estava dublado em espanhol sem legendas. Aí mexi nas configurações e descobri que o filme não tinha legendas em português, de modo que optei por assistir ao filme todo em inglês, idioma original, e com legendas em inglês também, gastando em aproximadamente duas horas absolutamente todo o conhecimento de idiomas obtido via Duolingo que estava armazenado no meu cérebro.

Como a maioria das obras de Hitchcock, Ladrão de Casaca traz uma enternecedora comicidade involuntária que é potencializada pelo tempo. Não é que os filmes dele envelheceram mal, é que eles envelheceram muito. É muito engraçado ver mulheres falando todas lânguidas, sendo ousadas de maneira polida. É impagável ver o Cary Grant, um senhor de 51 anos, fazendo mais uma vez o papel do galã irresistível de apenas 30 aninhos. Nadando e saindo do mar encolhendo a barriga, sabe?

Eu quero dizer, que tipo de pessoa sai do mar e deita na areia pura? E só por dois segundos, sabendo que um informante estava ali e iria chamá-lo para em um canto escondido da praia(!) lhe entregar uma lista contendo o nome de todas as pessoas da cidade que têm jóias caras e podem ser roubadas pelo ladrão falsário(!)?

Sabe?

E o nome do personagem dele, o ladrão que não rouba mais, é The Cat.

Sabe?!

Para além disso, é adorável imaginar essa década de 50 estilizada de Hitchcock, onde todas as mulheres são vingativas e todos os homens são difíceis de se conquistar o coração.

A própria tradução do título do filme é boa demais. Ladrão de Casaca? Tá, mas qual casaca? Ele rouba jóias! Ele nem usa casaca, sabe? É bobo, mas eu gosto dessas coisas.

No entanto, nem todo o meu cinismo de assistir a um filme feito 64 anos atrás e achar defeitos nele como se fosse um produto feito em 2019 pela Marvel me protegeu do impacto que foi ver pela primeira vez um filme da Grace Kelly.

Meninas, a Grace Kelly…

Vocês conhecem a Grace Kelly? Pergunto isso porque muita gente é nova e não tem tempo de se educar, priorizando zerar as notificação dos apps no celular a conhecer o que quer que seja que amplie sua visão de mundo.

Resumindo bem para te ajudar, a Grace Kelly foi uma aclamada atriz americana, que posteriormente se casou com um príncipe(!) e virou a Princesa de Mônaco.

Antes de casar, ela fez 11 filmes, sendo que 3 são do Hitchcock. Ladrão de Casaca foi o primeiro filme dela que vi e o impacto foi real.

Tudo na Grace Kelly é perfeito. Tudo. O porte, a elegância, o corpo, o sorriso, o cabelo. Neste filme em especial, os vestidos, as jóias(!), as falas afiadas e a linguagem corporal que fazem de Cary Grant uma lamentável marionete peluda de dois metros de altura nas mãos dela. Tudo em Grace Kelly é leveza esperta, delicadeza malandrinha. Tudo é sutil, mas firme.

Em Ladrão de Casaca, Grace Kelly surge como Frances Stevens, uma mocinha absurdamente rica com jóias que The Cat, o personagem de Cary Grant, poderia roubar. Mas ele diz que não rouba mais, algo no que a Grace Kelly não acredita – e essa provocação dela cria a tensão sexual entre eles, que se envolvem nesse jogo de gato e rato (a semiótica, meu pai) que move o filme do seu segundo terço em diante.

Quando o Cary Grant diz “You’re here in Europe to buy a husband” e a Grace Kelly responde “The man I want doesn’t have a price” e o Cary Grant responde “Well, that eliminates me”, rapaz… Que grande momento para todos nós.

No fim das contas, como na maioria das obras dessa época, a trama começa bem, mas vai se perdendo pelo final e o filme termina de um jeito abrupto e beirando o insatisfatório. O que acaba nem sendo um problema, porque pouco antes disso Ladrão de Casaca nos entrega uma cena maravilhosa de um baile extremamente chique, onde tudo é perdoado porque todos os vestidos são tão lindos.

Uma curiosidade mórbida de Ladrão de Casaca é que o filme tem uma cena de perseguição em uma estrada de Mônaco, onde a personagem de Grace Kelly dirige em alta velocidade, em fuga com Cary Grant ao seu lado. Em dado momento, eles também param o carro e fazem um piquenique no veículo mesmo, parados no acostamento.

Quase 30 anos após o lançamento do filme, em 1982, Grace Kelly viria a morrer, aos 52 anos de idade, em um acidente de carro. Segundo foi noticiado à época, Grace sofreu um infarto enquanto dirigia e perdeu a direção, se acidentando e vindo à falecer. Posteriormente, foi revelado que a filha dela era quem estava ao volante e a menina, então com 17 anos, dirigia de maneira temerária, o que causou a tragédia.

De todo modo, o que se conta é que o acidente aconteceu nessa mesma estrada de Mônaco por onde Grace Kelly dirige em fuga em Ladrão de Casaca. O lugar da cena do piquenique, dizem também, foi onde seu carro finalmente parou, após a colisão.

Verdade ou lenda, o fato é que histórias como essas só contribuem para essa aura que vemos em Grace Kelly, como se tudo o que ela fizesse ou tocasse não pudesse ser nada menos do que hipnotizante e digno de consternação.

Os olhares, os sorrisos, os vestidos perfeitos em um corpo mais do que perfeito, a voz e o jeito de andar.

O tipo de encantamento que faz você ficar acordada feliz até as duas da manhã em um dia de semana, depois estender roupa de madrugada e finalmente ir dormir, sonhando com belezas irreais e carismas inalcançáveis.

E sentindo que tudo valeu a pena, como sempre valerá enquanto houverem filmes como esses, sejam eles de ontem ou de meio século atrás.

Resenhas

Episódio a episódio: The Crown, a 3ª temporada

Chega a ser patético o quanto The Crown me impacta, seja pela narrativa elegante, os figurinos maravilhosos ou mesmo por essa curiosidade de ver a vida alheia como uma novela. Sem falar na coisa de ser rei, de ser rainha, algo que como boa plebeia eu considero extremamente chique.

É triste ser colonizada como sou, eu fico simplesmente em surto e até choro em alguns episódios, como se esses velhacos milionários beirando a fossilização eminente fossem realmente relevantes para a minha vida prática. Não são. O que não me impede, é claro, de gastar horas vendo a série deles, chorando por eles, escrevendo posts sobre eles.

Essa temporada nova de The Crown foi muito aguardada, por trazer atrizes do calibre de Olivia Colman (até ontem ninguém, hoje em dia tudo) e Helena Bonham Carter (do nada, livre de Tim Burton). Interpretando a Rainha Elizabeth e sua irmã Margaret, respectivamente, as duas tinham a desafiadora missão de superar as atrizes que davam vida à essas personagens da vida real até a temporada passada. Deu certo?

Isso é o que você vai saber (ou não) a seguir, no meu “episódio a episódio” da temporada três de The Crown, que trago logo a seguir, como se não tivesse mais nada para fazer na vida.

⚠ Atenção! Antes que você prossiga a leitura, vale dizer que o conteúdo a seguir contém spoilers. Spoilers de coisas que aconteceram literalmente 60 anos atrás, mas ainda assim, para o leitor sensível e que não pode ser contrariado nem por um segundo: spoilers.

A terceira temporada de The Crown:

01 – Olding: A temporada nova já chega com os dois pés nos peitos com a morte do querido(!) e contraditório(?) Churchill. A Rainha tem um momento fofo com ele, dizendo que, na verdade, é lógico, o estimou muito e ele foi muito importante para ela. Temos aquele momento de adaptação de entender e nos chocar com os novos atores interpretando os personagens que já conhecemos, Olivia Colman não para de fazer beicinho e a Margaret de Helena Bonham Carter parece apenas uma Marla Singer com dinheiro, mas vamos dar um voto de confiança.

02 – Margaretology: Ah bom, agora sim. HBC tem seu momento de brilhar, em um episódio inteirinho para ela mostrar o quanto Margaret continua sendo maluquinha & deprimida, indo em uma missão de tentar agradar o então presidente dos EUA e garantir uma graninha para a Coroa. Também descobrimos que o casamento da Margaret com o arromb*do do fotógrafo continua sendo aquela coisa louca de ciúmes e descaso, o que magoa e coloca tudo em perspectiva.

03 – Aberfan: Onde somos informados que a Rainha não chora (também, pudera, não tinha animação da Disney na época). Uma puta tragédia mata mais de 100 crianças em um desabamento de uma mineiradora – e a Rainha demora meses para ir lá visitar a população em luto, sendo que nem derrama uma lágrima sequer. Puxado.

04 – Bubbikins: Chegando nesse ponto da temporada, você percebe que a narrativa está meio travada. Não existe uma ligação forte entre um episódio e outro, não está fluído. É como se fosse o Modern Love da aristocracia: cada episódio é uma história isolada. Neste em especial, temos um vislumbre ótimo da mãe do Philip, a sogra da Rainha, a Princesa Alice da Grécia. A idosa parece ser apenas maluca, no entanto ao ser forçada (por falta de dinheiro) a ir morar com a monarquia, você entende que vida sofrida ela teve. E aí, nisso, o próprio Philip, ou Bubbikins como a mamãe o chama, tem a chance de perdoar sua genitora. E se perdoar também.

05 – Coup: Aqui você larga a mão mesmo e pensa: bom, vamos reparar nos looks, porque essa coisa de política já deu. Pelo o que eu entendi, alguém foi deposto e aí estava armando um golpe para cima do primeiro-ministro – nessa temporada interpretada pelo mesmo homem que faz Austin Powers. Nisso, o pau torando nos partidos políticos e a Rainha faz o quê? Ela vai para a França ver coisa de cavalo, meu bem. Por que ela notou que os cavalos dela estavam indo mal nas competições, então ela pegou e foi pra uns países aí ver como cuidam dos cavalos, pois o método real estava defasado. Isso nos rendeu lindas cenas da Rainha comendo ao ar livre, cavalos legais de se ver correndo e… Ficou por isso? Não entendi muito bem. Ela precisou voltar às pressas para resolver a coisa do golpe (o que ela resolveu simplesmente falando duro com as pessoas) e os cavalos mesmo a gente não teve como saber se foram fazer cursinho para correr melhor ou se a ideia simplesmente ficou esquecida no churrasco.

06 – Tywysog Cymru: Depois dessa primeira metade de temporada absolutamente irregular e fraca em carisma, o episódio 6 chega nos fazendo gritar porque logo na primeira cena temos ele, o Príncipe Charles!!! Já crescido, simplesmente um homem, somos (re)apresentados ao cidadão que um dia partiria o coração da Lady Di e o nosso! E sabe o pior de tudo? Ele é um rapaz bonito, bom e totalmente adorável! É horrível isso! É isso que The Crown faz com a gente, faz a gente sentir empatia pelo Príncipe Charles! Nesse episódio, ele está lá tranquilo na facul quando a Rainha chama ele e o obriga a passar 3 meses no Paìs de Gales para aprender galês – e em galês e no País de Gales fazer sua investidura como Príncipe do País de Gales. Ou seja, manda ele nesse cursinho intensivo para ele poder ser apresentado à sociedade como príncipe e futuro rei (kk, a Rainha hoje já tem 93 anos e passa longe de cemitério). Nisso, tem todo o conflito que o Charles não queria nada daquilo, mas ele é tão cordato e extremamente educado que vai e aprende muito sobre o Pais de Gales e si mesmo, etc. Inferno. Inferno de episódio perfeito.

07 – Moondust : Dando prosseguimento à sua missão de dar enfoque às narrativas masculinas em uma série sobre uma Rainha, The Crown traz nesse episódio o impacto brutal que a primeira viagem do homem à Lua teve nos sentimentos do Príncipe Philip, aqui em crise de meia-idade e todo cheio de não-me-toques. A cena em que o marido da Rainha tenta entrevistar os astronautas, fazendo umas perguntas tão tontas de criança de 13 anos, foi uma das mais constrangedoras da temporada. Ao mesmo tempo, chega um padre novo na paróquia que abre um AAA espiritual para homens de meia-idade que estão perdidos na vida em relação a projetos & sonhos. Relutante a princípio, o Príncipe Philip acaba entrando no clube, finalmente entendendo que ir pra Lua é fácil, difícil é viver aqui na Terra. Força, homens.

08 – Dangling Man: Mais um episódio para fechar ciclos, aqui reencontramos o Duque de Windsor, lembra dele? O tio da Rainha, que abdicou da Coroa pelo amor de uma mulher e foi exilado em Paris. Pois, interpretado por Cid Moreira, o homem está nas últimas, então a Rainha vai até a França visitá-lo e se despedir. Um episódio muito bonito e emocional (depois de Aberfan, a Rainha já consegue chorar), onde também sabemos mais de Charles: o Duque revela à mãe do rapaz que eles se comunicavam por cartas e que Charles vê muito do Duque em si mesmo. Ou seja, um homem deslocado da família, incompreendido e que ainda vai acabar sendo escorraçado dali por querer ser quem é. Premonitório? Não, porque os roteiristas já escreveram sabendo o que aconteceu na história. Ainda assim, causa arrepios.

09 – Imbroglio: Tudo, absolutamente tudo o que eu sempre quis. Aqui a gente conhece sabe quem? Camilla Parker!!! Que na época era só uma jovem cabeluda e se chamava Camilla Shand, seu nome de solteira. Gente, eu nem sabia que o Charles era apaixonado por ela desde jovem! Pois bem, aqui mostra como eles gostavam um do outro e chegaram a se relacionar. Mas como a Camilla era meio da pá virada e tava saindo com o outro cara também, o Parker, a família real interviu e achou um jeito de separar o Príncipe desse que foi seu verdadeiro amor! Aí apressou o casamento da Camilla com o Parker e mandou o Charles em uma missão de 8 meses no Caribe! E o Charles ficou triste para um caralho porque ele amava a Camilla, mas ela não era “wife material”, sabe? Saco! Nossa, eu chorei demais nesse episódio. Um episódio bom, inclusive, para notar como a Rainha vai ficando cada vez mais dura e implacável com o passar dos anos. Nossa! A cena em que o Charles fala que está sendo silenciado, que ninguém deixa ele ser ele mesmo e ela responde na cara dele que ninguém quer ouvir a voz dele, puts! Imagina ouvir isso da sua mãe? Força, Charles. Kkkk, só eu mesmo, preocupada com o Príncipe Charles.

10 – Cri de Coeur: Já estava ficando um pouco angustiante ver Helena Bonham Carter como figurante de luxo, eu acho que os roteiristas pensaram isso também, então deram um episódio todinho para ela, mais um, e que episódio! Aqui Margaret finalmente entende que seu casamento é um fracasso, o safado do fotógrafo com uma amante que ele nem procura esconder. Ela surta em seu jantar de aniversário – que ele nem foi! – e a família real defende o cara, ainda por cima. Aí a Margaret despiroca mesmo, pega uma amiga e vai viajar para as praias, onde arranja um boy toy e se permite curtir a vida um pouquinho – vamos colocar dessa maneira. No entanto, nada é fácil, a imprensa descobre, vira tudo um grande escândalo e ela decide se divorciar do fotógrafo – apenas o segundo divórcio em toda a história da família real. Comoção! Cenas lindas, lindas, da HBC ao piano, linda demais de chapéu e cantando. No fim, o boy toy mete o pé também e ela acaba sozinha e tenta se matar, o que é triste demais. A cena da Margaret e a Rainha conversando sobre a relação delas é Emmy tape, você pode ter certeza. E o Emmy vem! Outra coisa, é a comemoração do jubileu da Rainha, o que quer dizer que já são 25 anos no poder. Puxa, como o tempo passa rápido quando a gente está se divertindo! A série termina nesse tom meio melancólico de retrospectiva e o peso amargo das nossas decisões, dando um ar de que o couro vai moer mesmo é na próxima season, onde o Charles vai conhecer a Diana e vai ser TUDO.

Ainda que de começo meio irregular, eu gostei bastante dessa nova temporada. Olivia Colman fez bonito assumindo o posto que antes era da perfeita Claire Foy – como sabíamos que ela faria. Interpretar a Rainha Elizabeth não é fácil, por todos os motivos, mas também porque ela fala menos a cada temporada e sobrou para Olivia, nessa, se fazer impactante tendo como recurso principal apenas olhares profundos e torcidas de boca.

Helena Bonham Carter também foi bem, apesar de ser estranho vê-la em roupas formais. Ela realmente brilhou no episódio final, espero que seja reconhecida por isso em premiações futuras.

Para mim, no entanto, e isso já deve ter sido notado, a grande surpresa (boa!) dessa season foi mesmo o Príncipe Charles. Interpretado absolutamente sem erros pelo orelhudo Josh O’Connor (quem é este homem? onde ele esteve?), ele dá um nó na gente, nos fazendo sentir empatia por um personagem que nos acostumamos a ver como vilão.

Para a próxima temporada, espero muito mais dele (provavelmente interpretado por outro ator mais velho, ô sorte) e muito mais de todas essas jóias, caras e bocas, dramas e dores de pessoas brancas, velhas e pornograficamente ricas.

Ansiosa desde já!

Brain Dump*

Ano que vem eu quero fazer menos

The Crown ( 2016 – )

Eu estava para dizer um milhão de coisas, e no fim pareceu que nada tinha importância, ainda mais quando colocado em perspectiva. A vida de quem busca validação em tudo é excruciante e tem dias longos. Às vezes, eu gostaria de garantir apenas um grande “ok” geral que me permitisse seguir no automático, sem ficar a cada 30 segundos checando mentalmente se está tudo bem.

De uma maneira magnética e inesperada, esse CD novo do Cigarettes After Sex, de cômico título “Cry”, me cativou como nada nunca antes.

São músicas extremamente melancólicas, o que em geral detesto, mas deve ter ali algum ASMR que me prende sem que eu precise me preocupar com a coerência do meu gosto musical.

Digo “inesperada” porque eu nunca tinha ouvido essa banda. E, no entanto, hoje, esse CD é só o que consigo ouvir quando quero focar ou me desconectar da vida para poder focar.

E enquanto me preparo para aceitar o peso enorme de ter meus desejos realizados, assisto a filmes e séries, me alimentando dessas narrativas paralelas. Existem momentos que são especiais para degustar a indústria da cultura, onde inesperadamente algum tipo de vibração boa emana da vida e faz com que esses produtos pop pareçam ser mais do que realmente são.

O que chamo de “momento de rara beleza”.

Tive um momento de rara beleza em alguma madrugada desse feriadão, quando decidi que não era muito tarde da noite para ver “O Operário”, aquele do Christian Bale em que ele está magro horrores.

“The Machinist”, Diretor: Brad Anderson (2004)

Tem dias que você fica horas rodando pelos catálogos de streaming e não escolhe nada. Tem dias que você bate o olho em um título e pensa “é esse”. Honestamente, eu nem sabia do que se tratava o filme – o que hoje é meu método padrão para consumir algo cultural: nem saber do que se trata.

Me vi hipnotizada pela magreza doentia do Bale e mais a trama tão paranoica e absolutamente triste. Depois fui ler sobre o filme e fiquei magoada em níveis brutais com o fato de não ter rendido sequer uma indicação ao Oscar para o ator.

Coisas que só comprovam que emagrecer para caralho, muitas vezes, não leva nada e está longe de ser a solução para tudo.

De qualquer modo, foi alguma coisa ficar vendo esse filme de madrugada e no escuro, tendo que aceitar o fato de que ele me estava me causando medo. E aí, me questionar “medo de quê, minha filha?”.

Sem dúvida, medo do que a nossa cabeça pode fazer a gente se tornar. E aí, sei lá como, o que vivenciei assistindo aquele filme, somado à atmosfera perfeita que me rodeava enquanto eu o assistia, fez com que ele se tornasse melhor do que provavelmente é, sendo alçado à categoria de filme inesquecível para mim. Assim, do nada.

Também tive o mesmo medo – e momentos felizes – em curtir (uso “curtir” de maneira totalmente livre, como se tivesse idade para isso) a nova temporada de The End of the F***ing World. Aliás, me espanta o quanto essa série é subestimada.

The End of the F***ing World (2017 – )

Nessa nova jornada, o que mais me emocionou foi como a série manteve o padrão e, ao mesmo tempo, mudou tudo ao fazer os personagens romperem com o que conhecíamos deles. Mais maduros, saindo da adolescência, Alissa e James são menos o esteriótipo do adolescente problemático “sociopata” e mais jovens adultos lidando com todas as merdas que tornaram eles as pessoas que são hoje.

Em uma palavra? Tudo.

Nesses momentos de rara beleza, seja assistindo a um filme ou série, caminhando sem rumo em um parque no sábado de manhã, deixando que a vida me convença que eu posso ser feliz na maneira com que quem eu amo me sorri, eu digo isso sem medo de ser piegas, eu decidi que quero fazer cada vez menos.

Estou exausta de correr na vida como um hamster dentro de uma roda, sempre vivendo tudo à milhão e sem viver de fato. Me espalhando em opiniões, posts e fotos que não me trazem retorno algum além da ansiedade de receber esse retorno. Por isso, decidi que quero menos, para poder aproveitar de fato o que tenho, e assim ter mais. Quero ler menos, consumir menos, ser mais sobre mim do que sobre a narrativa fictícia do outro. Quero estar em menos lugares ao mesmo tempo e estar por completo onde estiver.

Não quer dizer que eu vou virar uma ermitã. Não com esse celular que eu tenho, com tantos apps legais. E não se engane, eu ainda amo o escapismo que o entretenimento me traz, não vou abandoná-lo. De fato, é por amar tanto que eu quero menos, para poder sentir de verdade.

Se ainda é cedo para fazer planos de ano novo, eu não sei. De todo modo, me sinto feliz em fazê-los, em ver a minha vida como algo ordenado e claro, para o qual eu posso tecer planos. Algo que só foi possível após muita tempestade. Logo, nada mais justo do que aproveitar da melhor maneira possível.

Ou seja, assistindo a nova temporada de “The Crown”, que inclusive está incrível.

Brincadeira. 😉

Ano que vem eu quero fazer menos, e viver momentos de rara beleza cada vez mais.