Filmes, Resenhas

SAGA CREPÚSCULO: assisti aos 5 filmes e olha só o que deu

ATENÇÃO: Este artigo contém spoilers dos filmes da saga Crepúsculo, que você mesmo falou que nunca vai assistir.

Puxa vida. Como falar de Shakespeare? Como falar de Machado de Assis? Como falar dos Beatles ou de Janela Indiscreta? Como falar de Crepúsculo? Como falar dos clássicos?

É difícil. Mas a missão do escritor, do historiador e do pensador é essa, por isso eu, que sou escritora, historiadora e pensadora, fiz esse esforço colossal de me debruçar na mais densa dessas obras e peguei todos os filmes da saga Crepúsculo para assistir e resenhar aqui para você. Não foi fácil. A complexidade de tais filmes vai além do meu raso entendimento de vida. No entanto, assim é o trabalho do crítico pop. Que sou eu. Eu sou crítica pop. Ao final dessa aventura, muito foi aprendido, pouco foi compreendido e ainda mais foi questionado. Foi uma coisa louca. Trago tudo isso para você agora. A seguir. Vamos lá?

Crepúsculo (2008) – Dir. Catherine Hardwicke

Os livros da saga Crepúsculo, da americana Stephenie Meyer, já eram sucesso quando o primeiro filme da franquia foi lançado, em 2008. Estrelado pelos coitados Robert Pattinson, Kristen Stewart e Taylor Lautner, que nem sabiam no que estavam se metendo, o filme é geralmente o único que as pessoas já viram nessa história. Era o meu caso, Crepúsculo foi minha única reprise nessa aventura.

De cara, o filme já chama a atenção pelas cores pavorosas, tudo cinza e azul morte. Michael Bay ficaria orgulhoso, Hardwicke aqui nos faz ter calafrios, mas não pelos motivos que ela queria. A caracterização dos vampiros, como se tornou icônico, é de um pálido brutal e cômico. Brutal e cômico, aliás, são adjetivos que podem definir esse filme como um todo.

A história? Filha de pais separados, Bella (Kristen Stewart) decide passar uma temporada com o pai. Chegando na cidade, ela começa as aulas na escola dali e se encanta pelo misterioso Edward “The Hair” Cullen (Robert Pattinson), um adolescente que parece ter 30 anos de idade e é sério, babaca e infeliz como qualquer pessoa transitando nessa faixa de idade.

Correndo pelas beiradas, trotando feito um cachorrão grandão, está Jacob (Taylor Lautner), vizinho de Bella, um rapaz caloroso que parece querer mais do que amizade. Infelizmente, Bella está hipnotizada demais pelo gélido amor de Edward para perceber.

Não demora, Bella e Edward começam a se envolver, apesar de tudo parecer ser muito proibido, perigoso e peculiar (PPP). Logo Bella descobre o motivo de tanto mistério: Edward é um (say it!!!) vampiro. Cruzes! Isso seria suficiente para afastar Bella, mas Stephenie Meyer não leu tanto Shakespeare à toa: agora sim é que nossa heroína quer ficar com este homem PPP e viver esse romance muito PPP.

Nessas, o que era para ser uma bela história de amor acaba se tornando uma grande celeuma, pois outros vampiros começam a questionar o fato de Bella, uma humana, estar de trelelê com vampiros. Vocês vão comer ou não? Aquela coisa. A saída para o casalzinho continuar junto seria Bella se tornar vampira, mas essa é uma decisão um pouco complicada para uma garota de 16 anos e burra. O que fazer? Enquanto isso, o amor adolescente clama por uma resolução. Bella não pode nem beijar Edward direito, pois ele é muito voluptuoso e ela é virgem. Meu pai amado, é difícil demais ser jovem, Bella só queria dar uns beijos (e algo mais), eu hein.

Apesar do cafona de tudo, Crepúsculo é sim um bom filme. Não podemos desprezar suas cenas antológicas, como a batalha do beisebol e o Edward segurando o carro para não machucar a Bella. A trilha sonora é ótima. Por outro lado, a interpretação de Robert Pattinson é limitada e dolorosa, assim como a de Kristen Stewart, o que nos dá um norte de como esse casal era endgame desde o começo. Fato curioso é saber que RPatz nem sabia do que se tratava o filme e aceitou fazer parte dele apenas para estar do lado de Stewart, por quem tinha se encantado ao assistir Na Natureza Selvagem, onde a atriz tem pequena participação. Nascidos um para o outro, até certo ponto, os atores começaram a namorar já durante a produção de Crepúsculo, em uma história paralela cujos desdobramentos patéticos veremos mais à frente.

No fim das contas, em Crepúsculo, tudo se resolve de alguma forma, apesar de Bella não ter exatamente o que quer. Foi salva dos vampiros mais bravos e está com Edward, naquelas. O garoto ama sua humana, no entanto hesita em trazê-la para o vampirismo. E qual seria a saída, se eles querem transar? É brutal e cômico.

Lua Nova (2009) – Dir. Chris Weitz

Uma realidade mais quente nos aguarda em Lua Nova, filme seguinte da série e tido como o pior da franquia. Honestamente, eu já vi piores, mas eu também vejo muita coisa.

Dando prosseguimento à história, o filme traz um Edward sumido Em Busca de Se Encontrar e uma Bella toda grunge, as roupas cada vez mais horríveis, solitária demais. Essa solidão é a brecha para que ela se aproxime do vizinho Jacob, que cortou o cabelo, ficou grandão, parou de usar camiseta e está mais do que disposto a preencher a lacuna deixada no coração da nossa mocinha.

É aí que ficamos sabendo, embora já desconfiássemos, é que Jacob é um Lobisomem!!! Uma raça inimiga dos vampiros, então você imagina o climão. Desenganada pela literatura fantástica, Bella fica um pouco balançada, e Jacob não deixa de apontar os motivos pelos quais ela não deve se aliar aos dentuços. Atento aos prejuízos do webnamoro cósmico, o holograma de Edward persegue e protege Bella de todos os esses perigos, ainda que a estética fragilizada do ator não contribua para incrementar a nossa confiança.

No fim das contas, Bella segue deixando Jacob na gaveta das amizades e fica por isso mesmo. Por conta de uma série de cálculos, sonhos e demais metodologias equivocadas, Edward quase se mata, mas acaba retornando à cidade e propõe à Bella um acordo: ou ela se transforma em vampira depois da formatura, pelas dentadas de Alice, outra vampira do clã, ou se transforma pelas dentadas de Edward, assim que eles se casarem.

É o pedido de casamento mais esquisito da história, por isso Bella nem responde e o filme termina assim em aberto.

Eclipse (2010) – Dir. David Slade

Cacetada, bicho, qual a dificuldade em manter um mesmo diretor para dois filmes seguidos em uma franquia? Nessa em particular, isso não parece ter sido sequer uma questão. E vamos de terceiro filme, com uma abordagem totalmente diferente das anteriores.

Eclipse traz Bella preparando o terreno para se tornar vampira, ainda que um tanto incerta sobre isso. Para ajudar, Jacob intensifica a sedução, então nos vemos em um inóspito triângulo amoroso entre Bella, Edward e Jacob. Em linhas gerais, é uma mulher tendo que decidir entre um defunto e um cachorro. Existe uma terceira opção óbvia (sumir dali e ter um relacionamento saudável com um ser humano normal), mas a Bella sendo a Bella… A garota se transforma no poste mais mijado do cinema mundial, com dois seres sobrenaturais metidos em disputas patéticas por sua atenção.

E é claro que no meio disso as famílias se envolveriam, então temos uma grande disputa entre Lobos e Vampiros. Quem ganha com isso é só a Bella, a nossa querida sonsa que fica ali no meio sendo a Suíça do rolê e deixando que todos se matem por ela. Verdade seja dita, a garota consegue a luta e a união entre as raças, mesmo com aquele jeitinho blasé.

Algo que eu adoro nesse filme é como eles constroem a tridimensionalidade dos personagens secundários, simplesmente colocando pessoas aleatórias para conversar com a Bella e contar a história de suas vidas desde o século XV. Sendo o boneco de pano das duas raças, vampiros e lobos, Bella é levada de lá pra cá conforme a narrativa da história precisa ser contextualizada. O que ela tem a ver com isso é indiferente.

No mais, Edward continua negando sexo para Bella, achando que vai matar a garota com o pau centenário dele. Eu tenho lá minhas dúvidas, mas deixo para vocês as teorias. Terceiro filme e o máximo que tivemos foi uns beijinhos sem sal. Força, guerreira.

Por fim, Bella decide que vai casar, sim, com o Edward. Não adiantou nada tomar anabolizantes, Jacob.

Amanhecer – Parte 1 (2011) – Dir. Bill Condon

Ai, honestamente, é de partir o coração ver as fotos de bastidores desse filme e saber toda a merda que rolou depois, mas vamos que vamos.

Esse é o filme mais soft do casal, na medida em que Bella e Edward finalmente se casam e têm alguns momentos de paz, felicidade e amor, a história já abre com isso. Curiosamente, ninguém questiona o fato de uma menina de 18 anos estar se casando com um rapaz com pouco mais do que isso (atribuído). Normal. Grande festa na família, brindes pavorosos são feitos na festa e vamos de celebração.

De todos os lugares do mundo, a Lua de Mel se passa no Brasil. Isso aí era da época que o país ainda investia em turismo e divulgação internacional, cultura, etc. Outros tempos. É enternecedor ver Edward falando português, RPatz treinou e tudo. Já Bella não faz tanto esforço, está mais preocupada em consumir logo (e várias vezes) o casamento. Não é assim tão simples quando seu carisma e grau de sedução é quase nulo, como é o caso. As cenas dela de lingerie fazendo pose são de urrar de constrangimento. Ainda assim, temos momentos bem bonitinhos e sensuais (kk) do casal finalmente fazendo o que queria fazer desde o começo dessa infame história.

E é comendo um galeto, ainda no Brasil, que Bella se dá conta de que pegou barriga. Tudo acontece muito rápido quando uma humana engravida de um vampiro, aparentemente. Eles voltam para casa mais do que depressa, e agora a treta é manter a Bella viva durante essa gravidez de risco. Caso não tenha ficado claro, um bebê assim inter-espécies tem grande potencial de nascer um monstrengo perigoso. Quem diria. Cuidado aí no Tinder, meninas.

E o que tinha tudo para ser apenas mais um filme ruim se torna de extremo mau gosto com as cenas grotescas do parto de Bella, além da figura em si do bebê, um protótipo robotizado que já virou cult.

Para sobreviver ao parto, Bella é transformada em vampiro por Edward, que tentou evitar isso o quanto pôde. Não deu.

Amanhecer – Parte 2 (2012) – Dir. Bill Condon

Bill Condon fez uma pra Deus ver e se consagrou como o único diretor a assinar dois títulos da saga. Tudo isso pensando no sentido de unidade desse arco final da trama, onde a história de um livro foi dividida em dois filmes.

E olha, nem precisava tanto esforço. Chegando nesse ponto, a fórmula pronta de “Bella se envolve em enrascada com alguma raça sobrenatural aleatória” já anda com as próprias pernas, precisando de muito pouco para funcionar.

No filme final da saga, Bella acorda com fome. Agora ela é uma vampira, e das bravas. Cabe à Edward educá-la, para além das funções parentais do casal, agora com a menina Renesmee (que nome!) também crescendo à galope. O banho de loja da Alice deu resultados e agora Bella parece quase bem vestida, embora ainda com aquele jeitão jeca dela. Outra nota triste para esse filme, parece que dessa vez acertaram cabelo e maquiagem dos vampiros, mas agora de que adianta?

E, caramba, Bella e Edward finalmente podem transar propriamente e sem medo, já que são da mesma espécie. E dá-lhe fazer a cabaninha dos Cullen-Swan ferver na madrugada.

Tumultuando esse cenário idílico, lá vem de novo os Volturi, de olho na menina Renesmee, que é um bicho diferente por ser meio humana, meio vampira. Às vezes penso se não falta uma ocupação para os Volturi, um emprego de meio período que seja, para que eles tivessem o que fazer e parassem de arrumar treta.

Em todo caso, Bella e sua nova família (a anterior, com pai e tudo, foi prontamente deixada de lado) se unem em mais um confronto, meu senhor, quem é que aguenta mais um confronto. Acho que todo mundo pensou isso também porque, no fim, era tudo apenas um sonho vívido e nada aconteceu. Eu, hein.

Para coroar uma história terrível como um todo e ultrajante em vários momentos, Amanhecer Parte 2 fecha com um novo arco extremamente de mau gosto, que é a revelação de que a menina Renesmee é o imprinting do Jacob. Ou seja, a menina que acabou de nascer é a alma gêmea daquele Lobo marmanjo, que fica cercando ela por todos os lados. Incrível como ninguém acha isso problemático, o filme termina com Bella e Edward curtindo a vidinha de casados e com muita aventura para viver sendo vampiros, enquanto a filha deles é literalmente largada nas mãos do Jacob, seu guardião além-vida.

É no mínimo inacreditável, beirando o criminoso. Embora não seja meu lugar de fala criticar alienação parental no âmbito sobrenatural, na minha opinião esse imbróglio fecha essa história já complicada com um laço de fita feito de pura bosta.

Se é que podemos colocar assim.

Saldo final e outros sentimentos

Se você chegou até aqui, quero te parabenizar e agradecer. Sei que não é fácil, apesar de todo o meu talento como historiadora, pensadora, escritora, crítica pop e todas as outras coisas que inventei lá em cima.

Assistindo aos cinco filmes da saga, o saldo final que fica é que Crepúsculo é, antes de tudo, a batalha de uma garota para fazer sexo com o cara que ela escolheu. No meio do caminho, outros coitados tentam, raças entram em conflito, a humanidade em si não colabora, mas não tem jeito. Essa garota quer dar pro Edward e nada pode detê-la. Seria uma história comum de qualquer mulher tentando exercer sua sexualidade, mas colocaram uns vampiros e lobos no meio e deu nisso. E assim, temos uma história ridícula de um jeito hilário, cheia de falhas de roteiro, além de interpretações e caracterizações terríveis. E dolorosamente longa.

Bom mesmo, eu acho, é só o primeiro filme. Apesar das cores questionáveis, Crepúsculo tem sim uma história interessante, além de uma trilha sonora que amarra a trama e dá o tom anos 2000 da produção. Mesmo em sua cafonice, é uma peça perfeita. Já os filmes seguintes, parece que deram um murro no nosso estômago e vão empurrando a gente com pequenos chutes no baço, ladeira abaixo.

Por fim, é ainda mais triste saber que RPatz e Stewart namoraram durante a saga toda, para ela traí-lo publicamente um pouco antes do lançamento do último filme, quando já tinham quase quatro anos de namoro. É a última pá de cal nesse túmulo de vampiro, deixando tudo com um gosto amargo.

Mas é aquela coisa, né. Todo clássico tem seu lado triste. Você compara com Shakespeare, por exemplo. É complicado e, na dúvida, prefiro fazer como Robert Pattinson, Kristen Stewart e Taylor Lautner, esses coitados, e simplesmente tentar esquecer que tudo isso um dia aconteceu.

Apesar de todos os cinco filmes estarem disponíveis no Prime Video para você assistir quando quiser; foi onde assisti, aliás.

Ainda assim, sugiro esquecer. O segredo do clássico é ficar guardado na estante, mantendo a aura de intocável, sem jamais ser revisitado.

Façamos o mesmo com a saga Crepúsculo.

Filmes, Processo Criativo, Resenhas, Séries

SPACE JAM: a primeira fanfic esportiva

Space Jam (1996) – Dir. Joe Pytka

Atenção: esse texto contém spoilers de um fime de quase 30 anos atrás, um filme baseado em acontecimento reais (“baseado” naquelas, é disso que se trata o texto).

Quando eu digo “a primeira fanfic esportiva”, quero deixar claro que estou ampliando o conceito de “primeira” de modo a caber na definição necessária para mim aqui: a primeira que eu me lembre, mas não é como se eu estivesse tentando lembrar.

Escrever é, antes de tudo, lembrar só do que interessa no momento.

Escrever é um longo e doloroso “não, e detalhe!!!” conspiratório e impreciso.

Deixando de lado as divagações sobre o processo de escrita, trago hoje para nossa discussão (estou rindo) o filme Space Jam, que teve um breve revival na memória afetiva coletiva por conta de uma série de fatores que podem ser resumidos em apenas dois: um documentário sobre Michael Jordan na Netflix, o filme em si entrar para o catálogo da plataforma.

Depois de assistir a The Last Dance, o tal documentário, na verdade uma série documental, uma docusérie (adoro essa palavra?), assisti ao filme Space Jam e conheci muitos fatos que me eram novidade (o que posso fazer, não conheço tudo). De fato, fiquei transtornada de maneira pouco saudável (rindo de novo) com a conexão entre essas duas incríveis peças de entretenimento com fortes doses pop e catalisadoras de conceitos como um esporte de malucos jogando bola em um aro lá no alto.

Senão, vejamos.

The Last Dance (2020) – Dir. Jason Hehir

Em um impressionante compilado de imagens exclusivas e roteiro lapidado com a maestria de um gênio (dá vontade, né Match Day: FC Barcelona?), The Last Dance cobre a temporada de 1997-98 dos Chicago Bulls, mostrando de maneira intimista essa que foi uma das temporadas mais icônicas do time, quando perseguiam o hexa da NBA. Além disso, o doc mostra um background de como o time chegou até ali, tendo o ponto de vista de Michael Jordan, a maior estrela do Bulls e do esporte em si, como fio condutor da história.

Dentro dessa narrativa, The Last Dance também mostra detalhes dos momentos anteriores à temporada 1993–94, quando Jordan brevemente se aposentou do basquete para jogar beisebol. Pois é.

Foi vendo o documentário que percebi que é exatamente nesse ponto que o filme Space Jam se conecta com a história real do que aconteceu e cria uma versão ficcional do que poderia ter sido. Ou seja, faz uma fanfic.

Uma fanfic esportiva.

A primeira fanfic esportiva. Que eu saiba.

Trazendo esse que é de longe o melhor misturadão de contratos comerciais já visto no cinema, Space Jam combina animação com gente de carne e osso para contar a história de como Michael Jordan foi escalado para defender os Looney Tunes em um jogo de basquete contra alienígenas dispostos a escravizar desenhos animados. Uau!

E, na verdade, tudo isso acontece no filme quando Jordan está em sua aposentadoria do basquete, jogando beisebol, e é escalado por Pernalonga e sua turma. Quer dizer, eles pegam esse fato real (a aposentadoria) e criam um universo paralelo, onde Jordan é sugado por essa realidade alternativa e convencido a jogar basquete com desenhos animados.

Ainda uma história melhor do que Crepúsculo.

Mas o filme é incrível, mesmo. Para além da nostalgia (que eu não tenho, sou capaz de rever filmes de 30 anos atrás e me impactar como se me fossem inéditos), Space Jam conversa com realidade e fantasia unindo dois mundos através de uma história fácil de se conectar, pois realmente aconteceu – até certo ponto.

Fanfic é um gênero literário considerado menor justamente por ter essa abordagem vista quase como preguiçosa: você pega personagens que já existem, conceitos que já existem, fatos que já existem, e cria um pouquinho em cima. É um gênero de entrada para muitas pessoas que estão começando a escrever, porque te dá uma base sólida para criar sua história, construindo em cima de coisas reais e permitindo que você se arrisque só até se sente seguro.

Pensar nessas características como demérito, no entanto, é um pouco limitado. Afinal, de Shakespeare para cá, o que é realmente novo? Tudo o que criamos é uma cópia de uma cópia, uma soma de várias coisas que consumimos como cultura e transformamos em outro produto. Um produto novo, mas com algo que lembra outra coisa que você viu antes – o que te dá a segurança para consumir em paz.

É como a capa do DVD que vem escrito “Se você gostou de tal filme, vai gostar desse”.

Claro, Space Jam não foi pensado como fanfic. Nem sei se fanfic era algo em 1996. Mas é interessante ver como essa estrutura de narrativa “vamos pegar isso que aconteceu e imaginar o que aconteceria se” que é a coluna vertebral da fanfic, não é preguiçosa ou mirim: ela está presente em tudo.

Na conclusão do filme, logo após a batalha nas quadras, Jordan retorna da aposentadoria e volta para os Bulls. Assim como aconteceu na vida real, quando em 1995 o Black Cat liderou o Chicago Bulls a mais 3 títulos consecutivos nos anos seguintes.

Quer dizer, o full circle perfeito, que coloca Space Jam como não só a primeira (rindo ainda), mas a melhor fanfic esportiva já escrita.

Apesar de que tem uma concorrente forte vindo aí.

Aproveito esse texto para contar (a minha cara nem arde) que estou com uma nova fanfic no ar no Wattpad. Livro número cinco da minha série, dessa vez trago uma versão alternativa para um acontecimento em especial: a noite de 26 de dezembro de 2019, quando o jogador Luiz Suárez renovou seus votos de casamento com sua esposa Sofia. Em Aconteceu Naquela Noite, a minha fanfic, no entanto, a verdade do que ocorreu no evento é outra. O livro vai ser publicado aos poucos (apesar de já estar pronto nos meus arquivos) e você pode ler de graça aqui.

Criar uma realidade alternativa para o que estamos vivendo não é novo e, a julgar pelo mundo lá fora, não vai deixar de ser usado tão cedo. Poder rever essas histórias na TV ou criá-las de próprio punho é um privilégio em um mundo onde os privilégios se afunilam. Enquanto imaginamos novas possibilidades, mais malucas, mais românticas, mais felizes, independente do produto final obtido, uma coisa é certa: ao menos, ainda estamos conseguindo sonhar.

Em um dia como hoje, em dia como esses que temos vivido, ter isso já é muito. Ás vezes, é quase tudo o que temos.

Filmes, Resenhas

Assisti a trilogia “50 tons” e olha só o que aconteceu

aiaiai kk só eu mesmo

Atenção: esse texto contém spoilers dos três filmes que compõem a saga “50 Tons”, o que não deve ser um problema, já que você mesmo falou que nunca vai assistir a esses filmes, porque você é culto demais pra isso.

Você sabe o que é ligar a TV e não ter um mísero jogo de futebol ao vivo passando na tela? Será que você sabe o que é ter todos os campeonatos do mundo cancelados? Você entra nos sites esportivos e só tem notícia de doença afetando os profissionais do mundo da bola, você liga a TV e estão fazendo call ao vivo, cada jornalista na sua casa. É sempre uma estante com canecas, livros e miniaturas. Você começa a lembrar, com ódio, da vez que ligou a TV e estava passando Barcelona x Real Madrid ao vivo e você mudou pra ver uma série horrível na Netflix. Você se questiona sobre o tempo perdido. Você perde muito tempo, não tem nada de futebol na TV. Um joguinho de Amigos do Cafu x Amigos do Vinny Mexe a Cadeira sequer. Nada. O mundo parou no VT. Não existe mais nada além de medo, tédio e imagens de péssima qualidade de um jogo de futebol de 1994.

Resolvi assistir toda a trilogia de 50 Tons, de uma vez só.

Não existe situação ruim que eu não possa piorar!

Verdade seja dita, ainda que eu não seja a mais versada nessa trama, ela sempre me despertou simpatia, pois sou especialmente cativada por produtos de entretenimento que sejam mais bregas do que bons. Como vocês já sabem. Nesse caso em específico, o ponto em que me encontrava antes de começar essa maratona era: já tinha lido o primeiro livro e assistido ao primeiro filme, anos atrás. Sou grande fã do Jamie Dornan, por conta de The Fall. E nada além disso.

Acho que cabe também dizer que a saga de 50 Tons me parecia simpática porque ela foi concebida inicialmente como uma fanfic de Crepúsculo. Sim, é verdade! A autora dos livros, E. L. James, até tinha dado os nomes de Bella e Edward para Anastasia e Christian Grey, em um primeiro momento. Mas aí a fama veio e ela mudou os nomes para publicar. E não é como se eu fosse uma grande fã de Crepúsculo (preciso assistir primeiro), mas gosto dessa trilogia porque ela é uma fanfic também, esta de um livro que eu realmente amo: O Morro dos Ventos Uivantes.

Ou seja, Crepúsculo é uma fanfic de O Morro dos Ventos Uivantes e 50 Tons, por sua vez, é uma fanfic de Crepúsculo. Parece loucura, mas essas três histórias têm mesmo muito em comum. O que veremos a seguir, entre outras coisas, na minha análise aprofundada que só foi possível após assistir mais de 6 horas de Dakota Johnson e Jamie Dornan nhanhando. Vamos lá?

50 Tons de Cinza (2015)

A educação sexual de Anastasia

No primeiro filme da saga, conhecemos Anastasia e Christian Grey. O caminho deles se cruza quando a best da Ana(stasia) adoece (o filme previu o COVID-19, veja) e Ana vai no lugar dela entrevistar o misterioso bilionário bonito demais Christian Grey, Sr. Grey pra você.

A atração entre Ana e Grey é imediata e explosiva (kk), então eles ficam meio de joguinho até o Grey literalmente colocá-la contra a parede e beijá-la no elevador (puxa vida). A partir daí, Grey vai aos poucos se revelando para Ana, o que lhe causa um pouco de medo, pois ela é uma virgem reprimidézima e ele é um sádico que só curte coisa pesadona no sexo. kk.

Nas mãos da diretora Sam Taylor-Johnson, que tentou como pôde suavizar a bomba machista e equivocada que é o livro, o filme se passa por uma chick flic um tanto noir, se vamos colocar assim. É tudo muito errado em tudo o que Grey faz desde o começo: ele é ciumento, controlador, impulsivo e extremamente enxerido. No entanto, tudo é perdoado, porque a figura dele, em si, não é ameaçadora, e ele é podre de rico, além de bonito de um jeito suave. Aliás, em declarações à época, Jamie Dornan disse que tinha mesmo trabalhado nessa caracterização de um homem muito magro, quase frágil, sem barba, como forma de suavizar a impressão que Grey passaria para o público, mostrando que seu personagem, apesar de meio esquisito, não é um monstro. Apenas humano, é isto que Grey é. Um humano meio frango e com uma personalidade extremamente complicada.

Dakota Johnson, por sua vez, tem como principais trunfos interpretativos a franja cobrindo a testa e o hábito irritante de morder os lábios o tempo todo. A química entre ela e Dornan é óbvia, e os dois funcionam muito bem juntos, vamos colocar assim, hehe. E ainda que seja problemática, a relação de Ana e Grey não parece tão errada, já que ambos estão se divertindo: ele gosta de mandar, ela gosta de fingir que não gosta de obedecer.

Nessa toada, o grande conflito da trama é que Ana, muitas palmadas no bumbum depois, começa a ficar bolada com essa coisa que Grey tem de punir quem ama. Ao invés de recomendar terapia, ela chora feito uma condenada, termina com ele e assim acaba também o filme: de maneira muito abrupta e sem sentido, com os dois separados e um vale de lágrimas entre eles.

Não dá para dizer que o filme é ruim. Ruim é uma palavra muito forte. Vamos dizer assim que ele é hilário, porque constrange em muitos momentos, mas de alguma forma é cativante. Os atores são muito bonitos, as cenas de nudez são pura obra de arte, e existe algum humor (a cena deles negociando o contrato do relacionamento é tudo). Além disso, a trilha sonora é maravilhosa, com músicas de Ellie Goulding, The Weekend e Beyoncé feitas exclusivamente para o longa.

Ou seja, dá para assistir sim, você que é chato.

50 Tons Mais Escuros (2017)

O desnudar da alma de Sr. Grey

Dois anos e muito barulho depois, chega aos cinemas o segundo filme da trilogia, 50 Tons Mais Escuros. Algumas mudanças são sentidas, muitas delas baseadas no retorno do público. A direção agora é assumida por James Foley, um homem!, porque a autora E. L. James tretava tanto com a diretora do primeiro filme que ela desistiu do projeto. Ana agora usa batom, pois é uma mulher mais confiante. E Grey surge mais musculoso e de barba, um pedido do fandom, que sempre imaginou ele assim. Vai dando confiança pra fandom, vai…

Em cinco minutos de filme o cliffhanger do longa anterior é resolvido: é o Grey “fazer assim” que a Ana volta pra ele. E aí é aquele show de probleminha Notre-Dame, com ele cobrindo ela de presentes caros (24 mil dólares do nada, notebook, celular, carros, viagem de jatinho, vestido chique, quitação da casa dela na COHAB) e ela toda “ai nossa, não ligo pra dinheiro!!”.

Minha filha, fale por você.

Sexualmente falando (eu não consigo parar de rir), Ana ainda se comporta como uma pombinha assustada, na medida em que Grey aumenta a pressão (kk ai deus). No entanto, a trama aqui é sutilmente desviada da coisa do BDSM para outras trivialidades da vida das pessoas muito ricas: Ana é assediada por seu chefe, Grey compra a empresa onde ela trabalha e dá um jeito de demitir o cara. Nisso, o arrombado (estou falando do chefe assediador) começa a tramar um plano de vingança e fica tudo ainda mais perigoso no reino encantado do Quarto Vermelho da Dor.

Além disso, nesse filme temos Ana buscando entender melhor os motivos de Grey ser assim tão taciturno e emocionalmente um trapo. Investigando a infância do homem, ela descobre seus traumas, a vida pesada que ele teve até ser adotado por essa família de bilionários e a razão final para ele gostar de chicotear mulheres na cama: muito ódio pela mãe reprimido, né meu filho?

No mais, é tudo muito chique e bonito, Dakota e Jamie estão ainda mais lindos nesse filme, se é que isso é possível. A trilha sonora mais uma vez dá um pau em qualquer filme indie que você gosta, com canções icônicas feitas para o filme, como Bom Bidi Bom (Nick Jonas & Nicki Minaj) e I Don’t Wanna Live Forever (Zayn & Taylor Swift), além de Sia e uma não-creditada do Jeff Buckley.

O filme termina com o casal aparentemente no caminho para uma relação saudável. O contrato que ela devia assinar lá no primeiro filme é prontamente esquecido, Grey só quer ela do jeitinho que ela é, no strings attached. Em uma dialética complicada, por sua vez, Ana quer demais mudar esse homem, o que qualquer mulher com mais de 15 anos de idade sabe que é uma furada em qualquer relacionamento. Quem sabe o que pode acontecer? Às vezes a jornada vale mais do que o destino final. Grey pede Ana em casamento, ela aceita e lá vamos nós para o terceiro, e último, filme.

50 Tons de Liberdade (2018)

Grey e Ana descobrem a cura através do amor

Ainda sob direção de James Foley, o capítulo final da saga 50 Tons começa já com o casamento. E aí é tudo festa. Grey e Ana viajam o mundo juntos, tudo azul, Ana está infinitamente mais poderosa e atrevida, ninguém se mete mais na sua vida. Até terno ela usa, e dá invertida no mulherio que tenta se jogar pra cima do Grey.

Quer dizer, os humilhados finalmente sendo exaltados. Mas ainda que Grey queira manter Ana nesta redoma de sexo gostoso e muito dinheiro, surgem problemas no paraíso. O ex-chefe arrombado lá do filme anterior volta com tudo para fazer mal à nossa heroína. Além disso, Ana se descobre grávida, e Grey não reage nada bem à isso (tem ciúme do bebê, o nível é esse).

Nisso, temos um filme que é menos sobre a coisa do sexo selvagem (embora ainda tenha muito sexo selvagem) e mais sobre um casal bilionário e seus problemas. Coisa que eu particularmente amo, pois se quisesse pensar em problema de pobre eu pensava nos meus.

Esse filme se destaca por marcar a emancipação de Ana. Agora ela é uma mulher muito mais madura e livre, respondendo à altura os gestos de Grey, inclusive mandando nele. Quando é colocada em perigo, ela resolve a bronca sozinha, chegando a pegar em armas se necessário (foi necessário). Por essas e outras, o filme é considerado um bom encerramento para a trama, pois tira a protagonista do lugar de dama indefesa e a coloca como real dona da história.

Naquelas, né.

Grey se mostra um homem curado: ainda gosta de BDSM, mas já é capaz de demonstrar sentimentos e até chora. Tudo por conta do trabalho incansável de Ana, reafirmando a perigosa narrativa de que uma mulher pode curar um homem, como se mulher fosse ONG de homem, etc. Mas é aquela coisa, o cara é tão bonito que tudo é perdoável. E a Ana faz porque gosta dele, etc.

Assim, a “emancipação” de Ana é ainda naquele modelo antigo que vemos nos romances: curando seu homem, ela curou à si mesma.

Ana desiste de mudar Grey, porque no que precisava ele já mudou. Eles ficam juntos, felizes e podres de ricos, ainda se divertindo no quartinho e agora com dois bebês para criar. Final feliz!!!!

Entre os delírios da trama, ficará para sempre em minha memória Jamie Dornan, como Christian Grey, ao piano cantando e tocando Maybe I’m Amazed (a minha música favorita do Paul McCartney) em Aspen. E para mim, isso já valeu a trilogia inteira.

A trilha sonora aqui é ok.

O que eu achei, afinal?

Minha filha, o que eu vou te dizer? Eu achei tudo lindo e chique, ri bastante, suei de nervoso… Acho que não dá para esperar mais do que isso de uma obra de entretenimento, não é? Quer dizer, não é um Barcelona x Real Madrid ao vivo às 15h de um sábado logo depois que você faxinou a casa toda, tomou o banho e acabou de sentar a bunda no sofá. Mas olhando em perspectiva, hoje em dia mais nada é!

A trama em si não traz nada novo: a mulher ingênua e virginal sendo seduzida e tendo sua vida virada do avesso pelo homem controlador e autoritário. A cura através do amor. A emancipação feminina pelo amor de um homem. Tudo isso existe desde que o mundo é mundo e se repete mudando só uma coisa ou outra.

Você encontra esse modelo de romance em inúmeras obras, porque durante muito tempo foi assim. Aqui, a função da fanfic foi modernizar esse modelo, mas mantendo sua essência. Por isso o sentido de unidade tão reconfortante quando você pega O Morro dos Ventos Uivantes, um livro de 1847, e encontra isso. E em Crepúsculo, você encontra isso. Em 50 Tons, lá está Grey olhando Ana dormir, feito um vampiro, e controlando tudo o que ela faz porque apesar de muito bravo ele é extremamente inseguro. Homens inseguros querendo dominar mulheres que na verdade não são nada frágeis tem sido o motor da narrativa romântica há séculos, e não há sinais de que isso vá mudar tão cedo.

Quem gosta, ama. Quem não gosta, paciência.

Eu gosto e acho que é possível se divertir com obras assim, sabendo separar a romantização da realidade.

Quem sabe, em 40 dias volte a passar futebol na TV, e aí teremos mais possibilidades. Por enquanto, pode descer o chicote nesse povo sofrido, Sr. Grey!