
Pessoal, antes de tudo eu gostaria de esclarecer que esse não é um blog só de resenhas cinematográficas, é só porque filmes de comédia romântica é o que mais estou consumindo ultimamente.
Dito isso, vamos hoje falar de “Doce Lar”, que eu assisti ontem só porque parecia ser a romcom clássica, mas me vi terminando o longa (acho chic dizer “longa”) repleta de sentimentos contraditórios como insatisfação, dúvida e feminismo branco.
Para quem não conhece, o filme traz a história de Melanie Carmichael, uma estilista em ascensão, que vive em Nova York e tem uma vida super cosmopolita e moderna ao lado de seu namorado gatão, Andrew, que também é filho da prefeita de NY!!! Até aí tudo bem, mas ocorre que o Andrew pede a Melanie em casamento e ela precisa voltar para o interior, de onde se origina, para resolver umas pendências, como por exemplo o fato de ainda ser casada com o bonitão e turrão (ai, meninas…) Jake. Porque como ela e o Jake casaram muito novos, e ela meio que abandonou todos para viver seu sonho em NY, ele nunca concedeu o divórcio, fazendo com que Melanie viva nessa situação irregular que não era um problema até ela querer casar de novo, dessa vez com o Andrew!
Só nessa sinopse você já encontra conteúdo problemático o suficiente para garantir que o feminismo jamais passe fome. Fazia sete anos que Melanie não voltava para o interior (Alabama!), e é de se perguntar como um homem pode ser tão baixo de não dar o divórcio para uma pessoa que ele não vê há quase uma década. Você vai pensar: que homem tóxico!!! Bom, hoje você pensa, mas não podemos esquecer que eles fazem tudo de propósito, então esse homem é interpretado por Josh Lucas, que tem olhos azuis e um sorriso lindo que te faz esquecer qualquer bosta – como em toda romcom padrão.

Contudo, para mim o problema nem reside na coisa do homem tóxico, afinal fazer problematização retroativa, por princípio, é pedir para ganhar uma úlcera – ainda mais de um filme de quase 20 anos atrás. Na verdade, o que me incomodou no filme foi como a proposta dele é mostrar a mocinha, Melanie, divida entre dois amores – mas o que vemos é que ela não gosta mesmo de nenhum dos dois.
⚠️ Atenção: A partir daqui, esse texto terá spoilers de “Doce Lar”, um filme lançado há 17 anos.
Reese Witherspoon, por sua recente incursão no drama e por seu dinheiro para bancar suas próprias produções, é hoje considerada uma grande atriz – mas nem sempre foi assim. Lá no começo dos anos 2000, que é quando temos “Doce Lar”, ela ainda estava engatinhando no ramo das romcom, tentando ser a nova Meg Ryan (era o que todas tentavam na época).
Isso, quem sabe, pode explicar por que nesse filme que estamos estudando hoje ela tenha uma atuação que não entrega de verdade o que o personagem deveria passar. Senão, vejamos. A primeira cena sobre o relacionamento dela com Andrew, o gatão filho da prefeita, é quando ele enche o apartamento dela de rosas para lhe desejar boa sorte no desfile que ela fará logo mais. A reação de Melanie é de espanto quase desconfortável. Normal, você vai dizer, entrar na sua casa e colocar flores por tudo é psicopatia, mas não se esqueçam que em 2002 isso ainda era visto como romântico.
Esse sentimento de espanto incomodado permeia todas as reações de Melanie em relação a Andrew. Quando ele abre uma loja Tifany só para ela escolher seu anel de noivado, a cara dela é de quem quer apenas correr e nunca mais voltar. Quando a imprensa descobre que eles estão noivos, em um grande burburinho no evento da mãe do cara, até nas fotos dos jornais a Melanie sai com cara de chocada.

Desde o primeiro momento, fica claro que Melanie não gosta realmente de Andrew. Ela gosta do que ele representa: o cara moderno da cidade grande, lindo como um galã de cinema (que é, pois Patrick Dempsey), rico e gentil. No entanto, não existe uma real conexão entre os dois. Esse amor idealizado e vazio, aliás, se mostra mútuo também quando vemos que todos esses atos românticos de Andrew tem como motivação apenas irritar a própria mãe, que não vê o namoro com bons olhos. Ou seja, Melanie quer Andrew como namorado-troféu para validar ter fugido de suas origens. Andrew quer Melanie como ferramenta de conflito que faça sua mãe lhe dar atenção.
Foda.
Mas é claro que a relação de Melanie com Andrew não pode ser perfeita, caso contrário o filme não existiria. Ela precisa estar um pouquinho deslocada nesse relacionamento para que possa ver em Jake, o marido caipira abandonado, uma possibilidade – e aí temos um filme!

Mais ou menos. Quando Melanie retorna para o Alabama em busca do seu divórcio, ela é confrontada por todos por ter abandonado família, amigos e noivo para viver seus sonhos na capital. Toda essa hostilidade é muito chata e triste, e vem principalmente de Jake, que claramente não superou o fato da mulher que era sua namorada desde os 10 anos de idade(!) ter dado no pé.
Aí entra a questão do que Melanie ainda sente por Jake. Parece ser apenas atração, já que ele é bonitão. Note que estamos falando de atração, não de amor. Afinal, amor não deve ser, ela o abandonou quase dez anos atrás! E ela está muito bem em NY, com sua carreira decolando e o noivado prestes a virar casamento. Assim, ela não deveria sentir nem isso, certo? Não só porque está noiva, mas porque esse relacionamento está fadado ao fracasso pela distância geográfica (naquele tempo não tinha webnamoro): ela tem sua vida consolidada em NY e ele é um caipira que jamais vai abandonar o Alabama. E aí?
Assim que se inicia o arco de Melanie na redescoberta do que sente por Jake, o que temos é alguma forçação de barra para que pareça que essa atração seja vista como “ela sempre amou o cara” – sendo que ela nem pensava nele até precisar exigir o divórcio! Ela estava bem em NY, por que só agora lembrou que ama o Jake? Por outro lado, Jake não esqueceu mesmo e mostra, ainda que com seu jeito rústico (ai ai, meninas) que nunca deixou de amar Melanie.
Fica um amor estranho, onde Jake se mostra um cara apaixonado de verdade e Melanie uma moça tentando caber nessa história que ele criou dentro da cabeça dele, nos anos em que estiveram separados. A cena em que Melanie interrompe o próprio casamento com o Andrew e vai atrás do Jake é de um constrangimento brutal, porque, gente? A atitude dela é apenas uma resposta para o fato de que Jake representa suas origens e a ama mais do que qualquer pessoa. OK. Então, ela retribui esse amor, honra essas origens, consuma essa atração, volta para ele. Mas ela ama Jake?

Não parece que ama. Interpretação capenga ou não, o que parece é que Melanie não sabe ao certo o que quer, não ama nem Jake nem Andrew, só oscila entre relacionamentos que oferecem o que ela precisa (Andrew dava status, Jake dá pertencimento), mas ela mesmo não oferece nada em troca. Por que agora, muito bem, ela terminou com o Andrew e voltou com o Jake. Ótimo, mas como essa relação irá se dar? Ela vai abandonar sua vida em NY? Vai voltar para o Alabama, como se precisasse ser salva de alguma enganação sofrida em NY – coisa que sabemos que não é verdade, pois Melanie é construída como uma pessoa que ama sua nova vida na cidade grande? O que Melanie está disposta a fazer de fato por esse amor?
Simplesmente perfeito em frustrar o telespectador do início ao fim, o filme termina sem trazer essas respostas, se encerrando na cena em que Melanie volta com Jake e é isso. Como vai ser a dinâmica desse relacionamento, não sabemos. Melanie não é a mesma garota de sete anos atrás, ela tem outras ambições, vive outra vida. Essa vida se encaixa no pacato interior? Ponte aérea NY / Alabama era uma possibilidade em 2002?
Enquanto sobem as letrinhas, o filme mostra algumas fotos onde é insinuado que Melanie ficou no Alabama com Jake, enquanto outras trazem ela com seus amigos em NY. Fica meio confuso e é compreensível que a ideia seja confundir, já que não tem como explicar.
A história de Melanie parece ser a de uma moça que ainda não se descobriu de fato, entre profissão, vida amorosa e o sentimento de dívida com as origens que renegou. No meio desse caminho, dois caras lhe oferecem o tipo de amor que eles podem oferecer. Por sua vez, ela, ainda imatura, responde com algo que se pode chamar de “mais ou menos amor”, um sentimento construído muito mais nas necessidades emocionais da vez do que no real afeto. Também não dá para criticar muito, a gente sabe que a gente faz o que pode. Ainda assim, fica essa sensação esquisita, porque você deita na cama para ver um filme de amor e termina toda coisada, pensando em quanto amor existe de verdade nos “eu te amo” ditos por aí.



























