Resenhas

Doce Lar: a questão do mais ou menos amor

Doce Lar (Sweet Home Alabama) – 2002

Pessoal, antes de tudo eu gostaria de esclarecer que esse não é um blog só de resenhas cinematográficas, é só porque filmes de comédia romântica é o que mais estou consumindo ultimamente.

Dito isso, vamos hoje falar de “Doce Lar”, que eu assisti ontem só porque parecia ser a romcom clássica, mas me vi terminando o longa (acho chic dizer “longa”) repleta de sentimentos contraditórios como insatisfação, dúvida e feminismo branco.

Para quem não conhece, o filme traz a história de Melanie Carmichael, uma estilista em ascensão, que vive em Nova York e tem uma vida super cosmopolita e moderna ao lado de seu namorado gatão, Andrew, que também é filho da prefeita de NY!!! Até aí tudo bem, mas ocorre que o Andrew pede a Melanie em casamento e ela precisa voltar para o interior, de onde se origina, para resolver umas pendências, como por exemplo o fato de ainda ser casada com o bonitão e turrão (ai, meninas…) Jake. Porque como ela e o Jake casaram muito novos, e ela meio que abandonou todos para viver seu sonho em NY, ele nunca concedeu o divórcio, fazendo com que Melanie viva nessa situação irregular que não era um problema até ela querer casar de novo, dessa vez com o Andrew!

Só nessa sinopse você já encontra conteúdo problemático o suficiente para garantir que o feminismo jamais passe fome. Fazia sete anos que Melanie não voltava para o interior (Alabama!), e é de se perguntar como um homem pode ser tão baixo de não dar o divórcio para uma pessoa que ele não vê há quase uma década. Você vai pensar: que homem tóxico!!! Bom, hoje você pensa, mas não podemos esquecer que eles fazem tudo de propósito, então esse homem é interpretado por Josh Lucas, que tem olhos azuis e um sorriso lindo que te faz esquecer qualquer bosta – como em toda romcom padrão.

Difícil, né meninas

Contudo, para mim o problema nem reside na coisa do homem tóxico, afinal fazer problematização retroativa, por princípio, é pedir para ganhar uma úlcera – ainda mais de um filme de quase 20 anos atrás. Na verdade, o que me incomodou no filme foi como a proposta dele é mostrar a mocinha, Melanie, divida entre dois amores – mas o que vemos é que ela não gosta mesmo de nenhum dos dois.

⚠️ Atenção: A partir daqui, esse texto terá spoilers de “Doce Lar”, um filme lançado há 17 anos.

Reese Witherspoon, por sua recente incursão no drama e por seu dinheiro para bancar suas próprias produções, é hoje considerada uma grande atriz – mas nem sempre foi assim. Lá no começo dos anos 2000, que é quando temos “Doce Lar”, ela ainda estava engatinhando no ramo das romcom, tentando ser a nova Meg Ryan (era o que todas tentavam na época).

Isso, quem sabe, pode explicar por que nesse filme que estamos estudando hoje ela tenha uma atuação que não entrega de verdade o que o personagem deveria passar. Senão, vejamos. A primeira cena sobre o relacionamento dela com Andrew, o gatão filho da prefeita, é quando ele enche o apartamento dela de rosas para lhe desejar boa sorte no desfile que ela fará logo mais. A reação de Melanie é de espanto quase desconfortável. Normal, você vai dizer, entrar na sua casa e colocar flores por tudo é psicopatia, mas não se esqueçam que em 2002 isso ainda era visto como romântico.

Esse sentimento de espanto incomodado permeia todas as reações de Melanie em relação a Andrew. Quando ele abre uma loja Tifany só para ela escolher seu anel de noivado, a cara dela é de quem quer apenas correr e nunca mais voltar. Quando a imprensa descobre que eles estão noivos, em um grande burburinho no evento da mãe do cara, até nas fotos dos jornais a Melanie sai com cara de chocada.

Melanie sempre muito surpresa com tudo

Desde o primeiro momento, fica claro que Melanie não gosta realmente de Andrew. Ela gosta do que ele representa: o cara moderno da cidade grande, lindo como um galã de cinema (que é, pois Patrick Dempsey), rico e gentil. No entanto, não existe uma real conexão entre os dois. Esse amor idealizado e vazio, aliás, se mostra mútuo também quando vemos que todos esses atos românticos de Andrew tem como motivação apenas irritar a própria mãe, que não vê o namoro com bons olhos. Ou seja, Melanie quer Andrew como namorado-troféu para validar ter fugido de suas origens. Andrew quer Melanie como ferramenta de conflito que faça sua mãe lhe dar atenção.

Foda.

Mas é claro que a relação de Melanie com Andrew não pode ser perfeita, caso contrário o filme não existiria. Ela precisa estar um pouquinho deslocada nesse relacionamento para que possa ver em Jake, o marido caipira abandonado, uma possibilidade – e aí temos um filme!

Agora vai, caraio!

Mais ou menos. Quando Melanie retorna para o Alabama em busca do seu divórcio, ela é confrontada por todos por ter abandonado família, amigos e noivo para viver seus sonhos na capital. Toda essa hostilidade é muito chata e triste, e vem principalmente de Jake, que claramente não superou o fato da mulher que era sua namorada desde os 10 anos de idade(!) ter dado no pé.

Aí entra a questão do que Melanie ainda sente por Jake. Parece ser apenas atração, já que ele é bonitão. Note que estamos falando de atração, não de amor. Afinal, amor não deve ser, ela o abandonou quase dez anos atrás! E ela está muito bem em NY, com sua carreira decolando e o noivado prestes a virar casamento. Assim, ela não deveria sentir nem isso, certo? Não só porque está noiva, mas porque esse relacionamento está fadado ao fracasso pela distância geográfica (naquele tempo não tinha webnamoro): ela tem sua vida consolidada em NY e ele é um caipira que jamais vai abandonar o Alabama. E aí?

Assim que se inicia o arco de Melanie na redescoberta do que sente por Jake, o que temos é alguma forçação de barra para que pareça que essa atração seja vista como “ela sempre amou o cara” – sendo que ela nem pensava nele até precisar exigir o divórcio! Ela estava bem em NY, por que só agora lembrou que ama o Jake? Por outro lado, Jake não esqueceu mesmo e mostra, ainda que com seu jeito rústico (ai ai, meninas) que nunca deixou de amar Melanie.

Fica um amor estranho, onde Jake se mostra um cara apaixonado de verdade e Melanie uma moça tentando caber nessa história que ele criou dentro da cabeça dele, nos anos em que estiveram separados. A cena em que Melanie interrompe o próprio casamento com o Andrew e vai atrás do Jake é de um constrangimento brutal, porque, gente? A atitude dela é apenas uma resposta para o fato de que Jake representa suas origens e a ama mais do que qualquer pessoa. OK. Então, ela retribui esse amor, honra essas origens, consuma essa atração, volta para ele. Mas ela ama Jake?

Um amor que precisa ser convencido de que existe.

Não parece que ama. Interpretação capenga ou não, o que parece é que Melanie não sabe ao certo o que quer, não ama nem Jake nem Andrew, só oscila entre relacionamentos que oferecem o que ela precisa (Andrew dava status, Jake dá pertencimento), mas ela mesmo não oferece nada em troca. Por que agora, muito bem, ela terminou com o Andrew e voltou com o Jake. Ótimo, mas como essa relação irá se dar? Ela vai abandonar sua vida em NY? Vai voltar para o Alabama, como se precisasse ser salva de alguma enganação sofrida em NY – coisa que sabemos que não é verdade, pois Melanie é construída como uma pessoa que ama sua nova vida na cidade grande? O que Melanie está disposta a fazer de fato por esse amor?

Simplesmente perfeito em frustrar o telespectador do início ao fim, o filme termina sem trazer essas respostas, se encerrando na cena em que Melanie volta com Jake e é isso. Como vai ser a dinâmica desse relacionamento, não sabemos. Melanie não é a mesma garota de sete anos atrás, ela tem outras ambições, vive outra vida. Essa vida se encaixa no pacato interior? Ponte aérea NY / Alabama era uma possibilidade em 2002?

Enquanto sobem as letrinhas, o filme mostra algumas fotos onde é insinuado que Melanie ficou no Alabama com Jake, enquanto outras trazem ela com seus amigos em NY. Fica meio confuso e é compreensível que a ideia seja confundir, já que não tem como explicar.

A história de Melanie parece ser a de uma moça que ainda não se descobriu de fato, entre profissão, vida amorosa e o sentimento de dívida com as origens que renegou. No meio desse caminho, dois caras lhe oferecem o tipo de amor que eles podem oferecer. Por sua vez, ela, ainda imatura, responde com algo que se pode chamar de “mais ou menos amor”, um sentimento construído muito mais nas necessidades emocionais da vez do que no real afeto. Também não dá para criticar muito, a gente sabe que a gente faz o que pode. Ainda assim, fica essa sensação esquisita, porque você deita na cama para ver um filme de amor e termina toda coisada, pensando em quanto amor existe de verdade nos “eu te amo” ditos por aí.

Resenhas

Armações do Amor: um diamante da romcom

Armações do Amor (Failure to Launch) – 2006

Garotas de 30+ que tiveram sua educação sentimental baseada em comédias românticas (ou romcom, do inglês) dos anos 90 e 2000 hoje se encontram perdidas como o John Travolta naquele meme, sem ver mais esse tipo de obra no cinema.

É claro que o mundo mudou e é bom que ele mude. No entanto, não deixa de ser um pouco triste saber que nunca mais será produzido um filminho onde a mocinha é um pouco atrapalhadinha e vê seu mundo girar em torno de um cara um pouco canalha, mas com um sorriso lindo. Nos tempos atuais, a mulher não precisa de um homem para nada, nem mesmo para fazer um filme romântico.

Como típica mulher nascida nos anos 80, está no meu código genético acreditar no amor romântico (sentimento que foi descontinuado de 2010 para cá) e querer ver relacionamentos assim nos produtos de entretenimento que consumo. Não é o caso de idealização – eu tenho um cérebro -, mas sim do desejo humano de poder descansar a cabeça dos problemas lá fora nem que seja por 101 minutos ou menos.

eu sinceramente acho o amor TUDO

Ontem eu assisti a “Armações do Amor”, um diamante desse gênero. Inédito para mim por motivos que desconheço, foi uma alegria encontrar um filme assim que eu ainda não tinha visto. De 2006, o filme traz todos os elementos básicos imprescindíveis a uma romcom, a saber:

  • Protagonista masculino com um maxilar incrível e uma personalidade duvidosa – disfarça imaturidade com charme e tem um sorriso arrebatador que anula qualquer porcaria que saia daquela boca;
  • Protagonista feminina atrapalhada e fofa, beleza padrão e estonteante ao mesmo tempo;
  • Melhor amiga da protagonista feminina como personagem que serve apenas de eco da mente da mocinha principal, alguém que está ali para que a mocinha se entenda ao ouvir a sua própria voz falando com a amiga;
  • Bando masculino, trupe carismática e bem-intencionada composta pelos melhores amigos do mocinho;
  • Viés de comédia de erro, onde um mal-entendido é o centro da trama e o grande momento do filme é quando a verdade é revelada;
  • Cenas gratuitas do mocinho sem camisa;
  • Redenção de conflitos com um belo e longo diálogo entre o casal, com declarações de amor (discutir relacionamento era chic, back then), lágrimas e risos.

Além disso, o filme compõe a trilogia de obras de Matthew McConaughey onde ele aparece dando as costas para o seu par romântico no pôster, veja:

Falando em Matthew McConaughey, ele está perfeito fazendo o seu personagem típico até enveredar pelo drama e alçar vôo no Oscar: em “Armações do Amor” ele é Tripp, um solteirão conviccto que ainda mora com os pais e não vê problema nenhum em levar uma vida inconsequente e cheia de casinhos, já que não encontra a “garota ideal”.

A questão é que ele acaba se deparando com essa garota ideal na forma de Paula (Sarah Jessica Parker, impecável em looks e makes), uma moça que ele conhece por acaso – sem saber que ela foi contratada pelos pais dele para viver um relacionamento falso e convencê-lo a sair de casa(!!!).

Note que “Armações do Amor”, como boa romcom clássica, traz um enredo problemático e até ofensivo, o que só torna a trama mais saborosa. Quer dizer, a personagem Paula é quase uma prostituta de luxo, que topa um relacionamento por dinheiro e tem uma vasta clientela, no entanto tudo é perdoado porque ela tem um carisma absurdo e se apaixona pelo mocinho, afinal. Tripp usa e descarta as mulheres com quem se relaciona, mas não vai fazer isso com Paula porque ela é diferente.

aiaiaiaiaiai que inferno

O engano dos dois vai fazer com que eles sofram e precisem se conhecer melhor como pessoa, individualmente, para só então poder olhar para o outro com empatia. Os amigos e familiares vão se envolver até certo ponto para ajudar na resolução desse conflito, já que é público e notório que eles formam o casal perfeito e precisam ficar juntos. Algum alívio cômico vai surgir na forma de um personagem menor, que pode ser uma criança ou um cachorro. O filme vai terminar com a sugestão de felizes para sempre, de algum modo.

É o puro suco da comédia romântica, em uma produção sem erros, feita sob medida para você descansar a cabeça no travesseiro e pensar “naquele tempo é que era bom”, como de fato fiz e estou fazendo agora.

O filme ainda conta com um elenco estrelado, com Zooey Deschanel, Bradley Cooper, Kathy Bates e Patton Oswalt. Eu assisti na Netflix e recomendo que você assista também, caso seja uma das orfãs da romcom que os tempos modernos criaram.

Naquele tempo é que era bom.

Brain Dump*

Messi e Suárez em Ibiza: todo mundo aqui vai sofrer

Falar sobre a origem do meu ship #Messuárez ou do trabalho jornalístico que tenho feito no decorrer dos últimos anos cobrindo essa perigosa amizade seria como falar da origem do mundo, Big Bang e a extinção dos dinossauros: é tudo muito antigo e confuso, não vale a pena.

O jovem hoje só quer saber do agora.

Vindo desse contexto histórico preguiçoso e apressado (diria “dinâmico”, vendo pelo lado positivo), é com um fervoroso ataque de pelanca emocional que recebemos cada nova atualização dessa duplinha. A última da vez: de férias em Ibiza, Messi e Suárez estavam (já acabou a folga) vivendo o sonho (“living the dream”, no original), indo a festivais de música, descansando à tarde na piscina, esquecendo de passar protetor solar e esticando seus corpos atléticos no chão forrado de toalha – mas ainda super quente – de embarcações de luxo onde tudo é de graça porque já foi pago muito antes.

Como qualquer casal com dinheiro o suficiente para não precisar se esconder, mas sabendo que o mistério é bom para apimentar a relação, Messi e Suárez têm um calendário fixo de maneiras gostosas para aproveitar cada momentinho de folga.

Esses homens dão a vida por suas carreiras profissionais, a reforma trabalhista só aleja o pobre, eles podem e vão curtir cada benefício que seus salários astronômicos proporciona.

Sonhos gelados em 2016

Quando esfria eles vão para a Disney, o que parece correto e até mesmo óbvio. Quem não gostaria de ter seu amor abençoado pelo Mickey? Dizem que do alto de alguns castelos de princesa é onde finalmente podemos ser nós mesmos.

Quando a vida parece muito cinza, eles colocam seus matching shortinhos e viajam o mundo em busca de um lugar ao Sol em qualquer ponto do planeta que tenha hotéis child friendly. Até ontem(!), o meu momento favorito desses dias idílicos era a temporada de verão de 2017, quando eles passaram uns dias no iate do Fábregas e ressignificaram o short Adidas como arapuca do desejo.

Qual o comprimento do seu short Adidas, leitor? Cabe a reflexão após essas fotos.

Foram momentos bacanas de muito corpo à mostra e risadas sem ter fim. Eu também sempre me espanto com a popularidade dos chinelos Havaianas ao redor do mundo, apesar de que o ponto do texto não é esse.

No entanto, apesar de todo o carisma dessas lembranças, a temporada 2019 das férias #Messuárez veio com tudo e quebrou paradigmas – e também alguns copos, acho.

Em Ibiza até ontem, nossos garotos tiveram momentos que foram TUDO, como o tal festival de música onde vimos Messi dançando e sendo bobo com a Anto, além de memoráveis vídeos sigilosos de Suárez e Messi conversando enquanto todos dançavam (perdi o link, mas teve isso).

Os beijos ficam para depois, às escondidas.

Fez um sucesso absurdo também a coisa da briga na boate. Assumindo uma nova faceta em sua taciturna personalidade (será crise de meia-idade?) (hoje a crise é a cada dez anos, li num livro), Messi deu uma de troublemaker e reagiu com perplexidade e mutismo (classic messi) quando em uma casa noturna uns barriga de cavalo aleatórios vieram puxar briga. Com seu bbzinho Suárez por perto e Anto sempre de radar ligado, Messi saiu de lá escoltado por seguranças. Como todo acontecimento histórico, a notícia fez a população refletir. No caso, a reflexão foi: nossa, quem iria querer brigar com o Messi, ele é tão bonzinho!

Por favor, não confunda bottom com bonzinho.

Esse é um erro que muitos cometem.

De modos que essa temporada 2019 foi muito emocionante e intensa, nos mais variados sentidos (vou deixar assim porque não sei apontar mais de um). Como biógrafa do casal, me sinto feliz em ter esse conteúdo sendo produzido. Ontem a cereja do bolo foi mesmo a foto dos dois juntos no iate, publicada primeiro no perfil do Suárez e depois no perfil do Messi (eles sempre fazem isso).

Vou colocar a foto aqui de novo, porque eu quero e porque ela tem várias questões que trataremos logo a seguir.

ai papai

Honestamente, é algo intrigante como o Messi pode usar shorts tão curtinhos sendo que, dizem, ele guarda um segredo tão grande. Mas esse é um problema de logística que eu deixo para vocês elucidarem sozinhos em seus momentos de folga, quem sabe no ônibus voltando do trabalho ou em casa enquanto preparam o miojo.

Outra questão é como o Suárez sempre emagrece rapidinho quando quer – e ele só não quer quando o Barcelona exige. Voltando hoje para os treinos, já temos fotos do jogador fininho e bronzeado se exercitando. Aos colega de trabalho, ele segredou: mano, e o messi que quase levou uma na orelha na balada esse final de semana? kk

Quer dizer, eu acho que ele fez isso. Mas eu sou ficcionista.

E assim encerramos a temporada de férias! Infelizmente, a menos que você seja herdeiro, nem todo o dinheiro do mundo vai evitar que você precise trabalhar em algum momento. Por isso, agora guardamos essas memórias em nossos corações e seguimos em frente para temporada 19/20 do futebol espanhol, que promete ser uma bosta como sempre é.

Alegria!

Em tempo: ainda não tive notícia se o Messi já voltou para Barcelona. O último post dele até o momento é dessa foto dos dois juntos esquentando as costas no piso quente, o que é até melancólico, um réquiem de bons momentos e também a confirmação de uma mensagem implícita: esse é o homem da minha vida e é por ele que eu sigo aqui.

Mas eu sou ficcionista.


Leia minha trilogia “O Evangelho de Leo Messi” gratuitamente no Wattpad e fique por dentro de toda a trajetória amorosa do casal #Messuárez. Baseado em fatos reais (sou ficcionista).

Brain Dump*

Elton John está bem e tudo está em seu lugar

Se querem mesmo saber o que aconteceu, eu perdi um pouco o rumo desde aquela noite, mais precisamente na cena em que o Taron Egerton abre as portas, luxuoso em seu traje alaranjado, e você fala: rapaz… E então não acontece nada do que você pensa.

Não que o ponto seja esse. Como se o inesperado fosse uma novidade — e não uma constante. Oras, nada nunca acontece como você pensa. Não é essa a questão. Mas houve algo de especial em ver aquele filme pela segunda vez em uma semana, entrando bêbados no cinema e embalados em uma alegria que não tinha motivo algum, além de todos.

E aí, como eu dizia, Taron Egerton em trajes alaranjados, depois em mais outros de muitas outras cores. As músicas e os sorrisos, o ódio da vida adulta, divagações sobre talento & oportunidade, você ergue a cabeça e continua não por perseverança e nem por teimosia, mas por… Por quê? Algo sobre o jeito com que você fala comigo quando eu me mostro frágil, algo sobre a maneira com que você me acolhe justo quando eu acredito que não exista mais saída alguma.

Estamos falando de momentos sublimes escondidos dentro de cenas cotidianas. Você do outro lado da rua, encostado no muro e fumando. Eu olho para você sem ser vista, eu na fila para comprar pipoca. Somos dois mundos diferentes, duas existências diferentes, que se conectam no instante em que você olha para mim e sorri. Você sorri. Somos um do outro novamente. Atravessa a rua e vem na minha direção. Me beija com o ar gelado da noite, eu gosto tanto do seu beijo, compramos mais cervejas.

Está tudo muito complicado, os gatos estão a cada dia mais malucos e carinhosos. Corto os tomates em quatro e depois em grossas fatias, fazemos daquele jantar às 23h de uma quarta-feira uma ocasião única de paz em que preferimos não pensar nos problemas maiores.

Eu não sou o homem que eles pensam que eu sou em casa. É claro que não. Eu não finjo nada para os outros, mas eu guardo o meu melhor para você. Ás vezes eu penso nisso, como pudemos criar um mundo tão nosso, de um amor que quase dói, tão forte que dá a volta e se torna frágil.

Noite de video game, você diz algo absurdo só para me fazer gargalhar.

Noite de séries, me enrosco nos seus pés e rimos das mesmas exatas cenas.

Deus me pune pelas coisas mais banais. Tivesse chegado tarde na festa, o cachorro não teria mordido minha mão. O sangue pinga no chão, vou embora correndo, fugindo para o seu colo. Você me recebe, eu aos prantos, coberta de razão e exagerada, emotiva e emocional, sempre, meu Deus, sempre, um tom acima da média e do necessário.

Você cuida de mim, me ouve.

Mesmo estando tudo muito complicado.

Também fiquei pensando nisso. Tudo está sempre fora do lugar, o tempo todo. Que mania de ver o mundo assim! A gente passa a vida toda encarando cada dia como um dia atípico. Será que é tão difícil perceber qual é o padrão aqui? Esses dias, acho que foi ontem, olhei para você e finalmente entendi que o normal é essa loucura mesmo: quando não é um problema é outro, sempre muda o ponto de tensão — mas no fim está tudo bem. A gente dá um jeito. A gente consegue achar alguma diversão no meio do caos. A gente consegue dar as mãos e fugir dali, mesmo sem sair do lugar.

Veja o Elton John, por exemplo. Que complicado, tudo! Mas os trajes e as músicas e o ódio da vida adulta. Ajuda um pouco, não ajuda? Enquanto gastávamos nossa energia achando que tudo estava fora do lugar, nos tornávamos mais fortes para entender a realidade do que somos.

Somos fortes, somos bons. Nos amamos.

E aí, faz até sentido: mesmo com toda essa bagunça, está tudo bem. Estamos bem. Tão felizes como uma noite de cinema, no meio da semana, para ver um filme que instantaneamente amamos, um filme que fala de nós sem jamais contar a nossa história, como nós sabemos que um dia contaremos.

Brain Dump*

Pennywise está vivo — e eu também

se bem que nem tanto — IT, 2017 (backstage)

Vamos falar um pouco sobre este palhaço e alguns outros.

Não vou dizer que desci a Rua Augusta a 120 por hora, mas eu entrei voando baixo no metrô indo para o trabalho, dia desses. Nem atrasada eu estava, mas estar atrasada ou não é apenas um mero detalhe se dentro da sua cabeça você está sempre à mil.

O rapaz se postou na minha frente, coletinho do metrô, caneta, papel numa prancheta, no intuito de falar comigo. Eu driblei ele na moral, não adianta não, Maurão, o drible ainda é mais importante que o passe no cotidiano do brasileiro médio. Mas você acha? O rapaz não se fez de rogado, foi atrás e perguntou mesmo assim em que estação eu descia, era para uma pesquisa, ele disse.

Eu falei o nome da estação e segui. Nem tinha parado, na real. Cortei a conversa antes mesmo dela começar. Senti que ele ficou me olhando como em um comercial de perfume, onde tudo acontece muito devagarinho. Eu indo embora, ele sendo deixado, atônito e tudo. O vento passando por nós, o vento é mais encanado que vocês, em algumas estações de metrô. Faz tudo voar longe.

Fui grossa? Um pouco. Foi sem querer. E aí também pensei, poxa, o cara aguenta. Se ele for morrer por isso, o problema é mais dele que meu.

Eu também já passei por tanta coisa, e tô aqui viva.

Viva igual o Pennywise.

ai, penny, só você (filme 2, backstage)

Saiu o trailer do filme 2, né meninas. O trailer de IT — A Coisa 2, eu digo. Fica um título tão esquisito, né? Parece um poema dadaísta.

It a coisa dois.

Gosto desse filme como gosto de tantos outros, porém existe uma mística em colocar tanta criança talentosa e adulto impactante em uma história duvidosa do Stephen King e ver isso virar blockbuster. Eu gosto de ver o Bill Hader trabalhar, se pudesse dava um emprego pra ele aqui em casa. Estou mesmo precisando de diarista ou alguém que me motive a fazer ginástica. Não acho que ele poderia fazer isso, mas também não acho que eu poderia pagar mesmo se ele pudesse, então fica meio que na mesma: não dá em nada, é só uma ideia.

Bill Skarsgård, James McAvoy, Jessica Chastain, Bill Hader, Finn Wolfhard…Estou ansiosa por esse filme, pensando como podem juntar essa rapaziada toda na mesma sala e dizer ACTION!, em um grito único e poderoso que faça a magia do cinema acontecer.

Este será um filme incrível, contanto que você baixe suas expectativas e entenda que não vai ser um filme que vai trazer a satisfação que você busca em sua vida pessoal.

O filme pode ajudar um pouquinho, mas ele não vai tapar o buraco emocional que você cava no seu peito desde os sete anos de idade. Esse buraco que só aumenta, com você há décadas usando a mesma pequenina pá na intenção de tapá-lo.

O filme pode ser bom, sim, entretanto.

Esse texto está muito longo? Ainda tem mais um pouco, mas pense que você já passou da metade. Seria besteira parar agora.

ai bill, só você (filme 2, backstage)

Indo em um ritmo muito mais devagar, eu outro dia subia uma avenida ampla e bela, mas qualquer, nesse país chamado Avenidas Amplas & Belas da Região Onde Ficam a Maioria das Agências de Publicidade de São Paulo.

Foda. Era uma ladeira lascada, eu pensava na vida e meus pensamentos todos iam ficando pelo chão, escorrendo com o calor e deixando pegadas emocionais que nem Freud explicaria. Calcule. Às vezes, quando você canta uma música com toda emoção, mexendo a boca sem falar nada, brincando que a voz do cantor é a sua, é possível experimentar um tipo de liberdade que só é comparável a chegar em casa e ficar de cuecas. Naquele momento, entretanto, eu nem estava de cuecas em casa e nem cantava sem voz música nenhuma. Mesmo assim, me sentia livre feito o diabo.

E, na verdade, naquele momento não aconteceu nada digno de nota comigo. Nadinha mesmo. Eu estava apenas andando na rua, sem maiores expectativas. Só que é maluco isso. É horrível ficar triste por um motivo, é maravilhoso ficar feliz sem razão alguma.

Subindo a ladeira, eu pensava que vivos estamos todos: eu, você, o Pennywise. Não é ótimo, ainda que bastante básico? Tem filme novo vindo aí. Não vai tapar o buraco da sua alma — e nem deveria, então olha que beleza. Você não pode depender de um filme para isso, pois só depende de você.

E que bom.

E eu sei que a reação imediata para “só depende de você” é um mar de lágrimas, mas vamos lá. Você consegue ser melhor que isso. Sério. É ótimo tomar a responsabilidade emocional pela sua vida. Você constrói uma barreira onde ninguém pode te atingir, a menos que você permita. E você não permite mais.

Não se trata de ser uma pessoa malvada ou insensível, se trata de conseguir olhar a vida em um panorama amplificado e conseguir dar a devida dimensão para cada coisa. Colocadas em perspectiva, nenhuma situação no mundo pode te magoar sem o seu consentimento para isso.

Sabendo disso, é uma alegria estar vivo. Estar vivo e vivendo, planejando coisas, correndo, sempre atrasada, mil coisas na cabeça. Viva como Pennywise, trabalhando mais que o Bill Hader.

Voando baixo ou então subindo lentamente pelas muitas avenidas dessa cidade que vamos dando o nome conforme a conhecemos melhor.

Processo Criativo

Quando você escreve 10 livros, você precisa se explicar

É cansativa a vida a escritora independente (Imagem: Jane The Virgin / divulgação)

Fica mais fácil se você fizer um infográfico, então eu fiz.

Bom, meninas. Eu já contei essa história aqui diversas vezes e das mais diversas formas, então, pelo menos uma vez na vida, que vai ser agora, vou tentar ser prática: nos últimos cinco anos eu escrevi dez livros.

Livros de 50 páginas, livro de 300 páginas. Trilogias e duologias, histórias que completas formam um arco definitivo, universos que se visitam ou se olham à distância, coexistindo dentro da minha mente e da minha obra.

Como isso começou? Em 2014, com um câncer e o tempo “livre” durante a quimioterapia. Depois, curada, continuei no mesmo embalo da escrita. Foi um bom exercício de escapismo. Rendeu dez histórias, então deve ter sido útil, também, de alguma forma.

Mas sempre que eu vou contar que já escrevi dez livros, me perguntam por onde começar a ler meus trabalhos. Acabei compreendendo que fica mais fácil se eu fizer um gráfico explicando tudo. Então eu fiz.

Escrevi livros de romance, fanfics, histórias sobrenaturais, enredos românticos piegas e também dei voz à homens tristes e bravos tentando lidar consigo mesmos. Falei sobre garotas que querem desaparecer e outras que olhando para o lado acabam por se encontrar. Falei de tudo o que povoou minha mente e coração nesses últimos cinco anos e antes, coloquei nesses livros tudo o que a minha mente imaginativa, carente e carinhosa já imaginou um dia.

Está tudo aí. Eis o mapa:

Se interessou por algum? Estão todos disponíveis em formato digital, alguns até de graça. Basta clicar e começar a ler.

Leia:

Este é o meu mundo todo, que compartilho com você. Depois me conta o que achou. Vou adorar saber o que essas histórias todas causaram em você, e se elas te tocaram de alguma forma.

Agora vamos criar coisas novas.

Brain Dump*

Madonna é Madonna só porque tem dinheiro: essa falácia

I took a trip, it set me free. Forgave myself for being me

Voltando aqui para falar várias coisas, e depois, quem sabe, ir embora sem dizer nada.

Talvez você pense, “bom, Madonna com 60 anos e tá lá, se reinventando e criando coisas novas” e pense “eu também posso”. Ela tem mais dinheiro que a gente, fato. Mas nós também podemos dar os nossos pulos, voando mais leves por conta dos bolsos vazios.

Bicho, eu ando transtornada de maneira pouco saudável com esse feat. dela com o Maluma, ainda mais depois da apresentação de ontem na premiação da Billboard. Que poder é esse?

“about last night” — kkkkkk aquelas

Madonna, eu te desejo tudo de bom, saiba, caso você esteja lendo isso. Deus te conserve, embora o mundo em geral não te mereça.

E nesse ponto você começa a ver que não é sobre a Madonna, mas sobre a gente mesmo. No limiar de completar 35 anos de idade, me dou conta de que comecei esse Medium no limiar de completar os meus 32 anos de idade — e aí penso, o que estou fazendo além de deixar pegadas digitais por todos os cantos? Está na hora de assumir alguns marcos e fixar permanência em alguns lugares. Por enquanto. Até tudo mudar de novo.

Mas calma, esse não é um post sobre eu escrevendo um post.

Outra coisa que tem me deixado meio nervosa é a série Chambers. Tem na Netflix. Estou no sétimo episódio e não aguento mais ver gente cortando a própria carne assim à sangue frio com uma faquinha de pão. O clima todo é meio assim Stephen King, uma coisa meio obscura sem razão, o que também me deixa triggered, mas por motivos diferentes.

“E eu quero é que esse canto torto feito faca corte a carne de vocês”, teriam dito os produtores de Chambers

É que eu estava falando com o meu terapeuta sobre como acabei de publicar meu décimo livro (Compre “desaparecer”, já disponível na Amazon em formato digital e um preço RIDÍCULO) e como eu nunca mais quero escrever livros. E então ele disse “Por quê?”, mas não apenas perguntando “Por quê?”, mas sim usando outras palavras mais misteriosas e murmúrios angustiantes e eu respondi, bom, é porque…

Honestamente, já estou cansada de escrever sempre a mesma história, eu vejo agora, no fundo todas as histórias são as mesmas histórias: as dos livros, as dos contos, dos blogs, das redes sociais, etc.

Da sua vida, ele disse, e eu falei que eu estava em um ponto da minha vida em que não podia chorar agora. Rimos (não), mas o ponto é que eu pensei (e disse): todas as histórias que eu escrevo são as mesmas histórias, o que aponta que ou eu sou uma péssima escritora, ou eu tenho um estilo muito forte, como o do Stephen King, que escreve sempre a mesma história há anos. Aí meu terapeuta riu mesmo e me deixou nessa incógnita, se eu sou um lixo ou o Stephen King.

Veja, se os dois extremos são esses, é quase como se eles fossem a mesma coisa e não houvesse diferença, afinal. Não que King seja ruim, pelo amor de Deus, mas o que diferencia o bom do ruim senão o nosso olhar sobre ele?

Pense nisso.

Mas isso aí também não é um problema, você vai vivendo e descobrindo coisas sobre si mesmo, aprendendo a conviver com elas e, em um último passo, maior e mais intenso, se apropriando delas e gostando delas ao entender que elas são quem você é. No limiar dos 35, olhando para todas essas pegadas que deixei em blogs, livros, redes sociais que já não são mais o que eram, vou fazendo o que posso e gostando cada vez mais de quem eu sou. E isso é ótimo.

E nisso faz todo o sentido, Madonna no palco roçando no Maluma como se não houvesse nada com o que se preocupar além de express yourself (a atitude, não a música) e você pensando: bicho, é isso. Essa mulher venceu. Eu vou vencer também. Ao meu modo, repetindo histórias, sendo eu mesma, rindo porque estou em um ponto da minha vida em que não posso chorar. Mas vou.

Avisa essa porra aqui que eu voltei.

Resenhas

Resenha: “Favores Vulgares”

Darren Criss como Andrew Cunanan em “American Crime Story: O Assassinato de Gianni Versace” (2018)

O livro sobre a história real do homem que matou Gianni Versace

A jornalista Maureen Orth trabalhava em um perfil sobre Andrew Cunanan, que já havia matado quatro pessoas em um intervalo de doze dias, para a Vanity Fair quando Versace foi assassinado e Cunanan apontado como principal suspeito. Nesse ponto, ela era a pessoa que mais sabia sobre Cunanan, a única que estava realmente atenta a ele, enquanto a polícia de três estados se debatia entre quem era o responsável pela investigação e se “valia a pena” elucidar crimes cometidos por um gay contra outros gays.

Pois é.

Antes de ser publicada, a matéria de Orth foi editada às pressas para incluir o homicídio de Versace, o quinto crime da conta de Cunanan. Até que ele fosse encontrado, morto por suicídio oito dias depois de assassinar o estilista italiano, a jornalista já tinha a base do que se tornaria “Favores Vulgares”. Acrescentada extensa pesquisa sobre a vida de Cunanan e inúmeras entrevistas com conhecidos, familiares e amigos, mais do que um perfil de um serial killer, o livro é um estudo profundo sobre a cena gay nos EUA dos anos 90.

São 400 páginas que retratam como a imprensa, a sociedade e a polícia viam a explosão da AIDS e da cultura gay naqueles dias. Cunanan levou muito tempo para começar a ser caçado principalmente por verem seus crimes como simples “brigas entre gays”, algo como o nosso famoso “briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Havia ainda o medo das famílias em ver seus parentes serem “desonrados” após a morte, tendo sua imagem vinculada a um gay, como ele. E nisso, Cunanan seguiu cruzando fronteiras e matando. Assim, matou dois homens com quem se envolveu (sendo um deles o “amor da sua vida”), matou um homem para roubar seu carro, matou um bilionário que até hoje não se sabe se era seu amante ou pai de seu amante e, por fim, matou Versace — seu grande ídolo, que ele achava que não merecia todo sucesso e dinheiro que tinha, pois tinha vindo “do nada” e era muito menos talentoso que ele, Cunanan.

Produto de sua época, o livro é de 1997, “Favores Vulgares” hoje soa datado e preconceituoso em algumas passagens. Ao buscar entender as motivações de Cunanan, Orth por vezes mergulha em achismos e pré-conceitos baseado apenas no fato do criminoso ser gay ou praticante de BDSM. Seguindo uma linha cronológica, ela tece teorias para o que Cunanan sentia desde a sua infância. No entanto, quando os crimes começam a acontecer, ela deixa de lado os “quem sabe?” e se atém os fatos. Afinal, não tem como saber. O que levou Cunanan a assassinar brutalmente cinco pessoas?

Não temos respostas exatas em “Favores Vulgares”, mas as entrevistas e depoimentos inéditos trazidos por Orth são valiosos para a construção da narrativa (que ficou ainda mais clara na série ACS: Versace, baseada no livro) do que foi a vida de Andrew Cunanan. Uma pessoa que foi levada a acreditar desde cedo que o mundo lhe devia muito, e cuja frustração ao perceber que não era bem assim foi sublimada com drogas, álcool e sexo. E, fatalmente, teve por isso sua vida engolida por um espiral de vício e desamor, deixando crescer dentro de si uma bomba de ódio e rejeição que culminou em uma série de assassinatos, deixando cinco vítimas.

Seis, se formos contar o próprio Cunanan.

Para quem viu a série da FOX, chega a ser assustador descobrir que algumas cenas, diálogos e acontecimentos retratados nas telas realmente aconteceram. A emblemática cena de Cunanan dançando na boate e respondendo que é um serial killer quando um flerte lhe pergunta a profissão. Ele pedindo que um de seus namorados (que posteriormente seria sua primeira vítima) lhe dê presentes que ele mesmo comprou, só para impressionar outro homem em quem Cunanan estava interessado. A delicada e doentia relação com a mãe, os atos desmedidos de proteção do pai. O que vemos na versão televisiva do livro de Orth é bem pouco romantizado e muito próximo do que ela averiguou em sua pesquisa. Em que pese que na TV a linha do tempo da história é mexida para dar mais emoção à narrativa, basicamente tudo o que é mostrado aconteceu mesmo. As mentiras de Cunanan, seus relacionamentos confusos, os delírios de grandeza, a sua degradação gradual. Tudo.

Por esses motivos, ainda que o tema seja pesado, “Favores Vulgares” é uma leitura incrível. A despeito das escorregadas no tom, Orth consegue conduzir muito bem a narrativa, sem entediar e nem se prender demais em detalhes técnicos. Além disso, é um trabalho colossal de pesquisa que merece respeito.

Por fim, e talvez mais importante que tudo isso, se trata de um livro importante no debate da saúde mental. E para entendermos, de uma vez por todas, a cuidarmos do modo como vemos o mundo e o que esperamos dele.


Você pode encontrar o livro “Favores Vulgares“na Amazon, em sua edição em português, por esse link.

Brain Dump*

Uma fita bárbara e outras histórias

The Wife, 2018.

Algo simples, ver um filme.

Bom, eu vou tentar contar isso da forma mais breve e menos deslumbrada possível: eu voltei a gostar de assistir a filmes.

É lógico que quando mais novo você tem aquele afã (as palavras que escolho, socorro) de ver todos os filmes possíveis e você tem opiniões sobre cada filme visto. Você tem autoridade até para traçar paralelos entre obras, intuir o que o roteirista quis dizer, listar detalhes na trama que só você viu, apontar erros e acertos do diretor…

Depois de um tempo, você só quer saber que porcaria de filme é esse que todo mundo está falando. E quando tem um tempo livre, quando poderia estar descobrindo algo novo, reassiste “Brokeback Mountain” ou “Frozen” pela enésima vez, se achando muito esperto.

Só que a vida tem seus meios de fazer você ficar andando em círculos cíclicos (seria isso uma redundância?). Então, você está sempre retomando velhos hábitos.

Nada disso importa, voltei a ver filmes como um passatempo consciente e prazeroso. Voltei, Deus que me defenda, a ter opiniões sobre filmes.

No entanto, mesmo esse ímpeto de ter opiniões acaba inviabilizado pelo fim do romantismo que acerca a coisa de ter opinião. Ninguém se importa com opinião!

Desse modo, no fim vira uma coisa um pouco amarga, pois ao mesmo tempo que voltei a ter opinião, também amadureci o suficiente para saber que quem é que liga pra minha opinião?

Eu quero dizer, de que importa eu achar que “Roma” é um filme incensado por contar a história de uma mulher, sendo que quem conta a história dela é um homem? Com o país nessa situação? Com tanto app pra atualizar no celular? Ninguém liga pra nada.

Além disso, me sinto como naquela entrevista do Daniel Johns que o jornalista fala “nossa, você não usa mais metáforas pra suas letras” e o Daniel responde “bicho, eu não tenho mais paciência pra ficar sendo lírico, eu quero falar diretamente sobre o que eu sinto”.

Então, como é que eu vou ser uma crítica de cinema se ao invés de dizer que “Cuarón tinge de masculinidade uma história feminina que poderia ser grandiosa, amordaçando com ternura a personagem que ele pretendia dar voz”, quando na verdade tudo o que eu quero falar é “mais um homem que acha que sabe melhor do que a mulher sobre os sentimentos dela”???

Esses dias, eu estava entrando para uma sessão de cinema e aconteceu uma coisa. Quarta-feira, quatro da tarde e eu no cinema. Você vai me odiar, mas pode ficar tranquilo que eu me odeio mais.

E além de tudo, mesmo essa mamata já acabou.

Estava eu entrando na sala de cinema, o filme era “The Wife” (ASSISTAM (essa é a minha crítica do filme)), e nisso um velho parado em pé em frente à uma das poltronas. Ele olha pra mim e manda:

“essa fita promete ser bárbara, hein?”

E eu pensei: rapaz, É ISSO.

No fim das contas, não importa a cartela de cores que o diretor de fotografia quis usar, as cenas gravadas sem ensaio, se é uma retomada do cinema mudo. Foda-se. Ninguém liga. O filme é bom? Fez você sentir algo? Você gostou do filme? Então é só isso o que importa.

Minha opinião hoje se resume a ser o mais direta possível sobre o que o filme me fez sentir. Sem o lirismo das resenhas juvenis, sem tentar descobrir a grande mensagem por trás daquela trama – a grande mensagem misteriosa que só eu, a cinéfila, fui capaz de descobrir.

Foda-se. Hoje só me importa se a fita é bárbara ou não.

E é isso.

crônicas

O dente doendo, continuei tentando

Photo by Polina Sirotina from Pexels

Uma parábola direto dos anos 2000, situada ao sul do Brasil

Desconfio que eu já esteja ficando velha o suficiente para começar a escrever minhas memórias. A vida passa tão rápido, não é mesmo? Cruzando a barreira que me deixa mais perto dos 40 do que dos 30, parece que recai um véu de nostalgia segura sobre as minhas lembranças.

Como se fossem todas pitorescas e curiosas, e já não doessem mais.

Grandes acontecimentos marcam a nossa vida, mas são aquelas pequenas passagens triviais que acabam por moldar quem somos. Aquelas lembranças bobas e tão suas, histórias sem começo nem moral, que volta e meia ressurgem no cérebro e atingem em cheio o coração. Disco riscado (vocês, jovens, conhecem essa expressão?), cujo som adulterado é mais confortável que a melodia original.

E assim você cria parábolas personalizadas e exclusivas, criadas a partir de momentos que são só seus.

Estava pensando nisso, pois lembrei da vez que realizaria meu grande sonho de comprar meu computador. Isso foi décadas atrás, pensem. Eu com meus vinte e poucos anos, a visão de mundo do tamanho de um punho, juntei por meses a astronômica quantia de R$500 para comprar meu primeiro computador de mesa. Adeus, usar emprestado o PC do meu irmão. Adeus, máquina lenta e estranha. Eu poderia voar sozinha!

Meu irmão, aliás, seria peça-chave nessa empreitada. Caberia a ele, com toda a sua agilidade e bom coração insuspeitos, cruzar a fronteira até o Paraguai e comprar o equipamento para mim. No Paraguai era assim (em algumas lojas, não todas, imagino que ainda é): você precisava pagar tudo à vista, no dinheiro.

Então, após algum esforço, as suadas cinco notas de cem passaram das minhas mãos para as do meu irmão. Era sábado, o dia de ir no Paraguai é sábado, meu irmão atravessaria a ponte e buscaria meu PC (modelo e especificações nem eram uma questão para mim, se você tem um irmão mais velho, você grita “eletrônicos” e ele decide por você).

Foi o meu irmão pegar o dinheiro, eu comecei a me sentir mal. Não vou mentir, eu sempre adiei minhas dores até ficar ridículo. Naquele sábado de manhã, ficou ridícula a dor de dente que eu sentia timidamente há semanas.

Ficou insuportável. Vai a minha mãe correr comigo pelo centro da cidade atrás de dentista que atendesse. Plano Dental era um luxo, claro. SUS, só em caso de morte. Sorte (sorte?) que naquele tempo fervia a moda do consultório dental a cada esquina, com nomes entusiasmados como SORRIA MAIS ou FELIZ SORRIR ou DENTE SAÚDE, coisas assim.

Batemos numa dessas portinhas, eu e minha mãe. O moço atendeu rápido e foi de uma empatia ímpar. Até hoje eu fico meio emocionada só de lembrar como ele me atendeu e entendeu: eu estava urrando de dor, remédio não adiantava, era canal e eu não tinha dois reais no bolso. Mesmo assim ele fez o que pôde. E disse que o tratamento podia resolver na hora, se eu fizesse agora mesmo.

O preço do tratamento de canal? Você já sabe, né?

Toca a minha mãe ligar para o meu irmão. Atendeu o celular, ainda não tinha passado a ponte, baita sorte (sorte?). Nem fez perguntas, voltou com a moto e foi até o dentista. Entregou o dinheiro na minha mão. Subi pro doutor de novo, deitei na cadeira. Lá se foi o meu computador novinho, meus quinhentos reais.

No Paraná a gente não fala muito, mas eu lembro do olhar do meu irmão me devolvendo o dinheiro. O que vou colocar nas minhas memórias é aquele olhar. Era algo entre “mano, que bosta” e algum trecho do manifesto comunista que nenhum de nós dois nunca lemos. Uma derrota tão funda e frívola, doía mais justamente por ser tão mundano.

O sentimento ultrajava porque não era “você está triste por isso??” era “caralho, eu não posso ter nem isso??“.

Que inferno, ser pobre assim. E, ao mesmo tempo, era essa a realidade. Eu não conhecia outra. A realidade era aquele olhar contrito do meu irmão. Traduzia tudo.

Arrumei os dentes, levei mais um ano até poder finalmente comprar o PC. E o que eu guardo disso tudo é essa solidão tremenda que senti no dia. Não temos dinheiro, engula seus sonhos, vocês só têm uns ao outros. O olhar do meu irmão me devolvendo o dinheiro, vida de merda, mas hey, que tal continuar tentando? O que mais você pode fazer?

E, além do mais, a dor de dente passou. Mesmo sem o tão sonhado PC, sem dor a vida até parecia um dia subitamente bonito, feito um raio de Sol se abrindo depois da chuva.

Continuei tentando. Algum dente sempre vai voltar a doer. Continuo tentando. E foda-se.