
Exames de consciência durante uma leitura
Oliver Sacks morreu, então é bom que você procure em outros livros as razões para o seu cérebro funcionar do jeito que funciona. Enquanto terapia ainda não é uma possibilidade, uma saída possível é distrair a cabeça ficando por dentro de casos ainda mais terríveis que o seu, a pobre menina triste por nada.
Estou lendo esse agora, de um neurologista que escreve sobre temas complexos da mente humana usando palavras amenas. De um modo geral, até onde chegou minha leitura, é tudo um emaranhado de conceitos tão subjetivos quanto perder o amor de alguém. É difícil.
Espremendo bastante, você consegue entender. Como eu disse, como perder o amor de alguém.
De tudo, dois casos narrados no livro me chamaram a atenção até o momento. Vou falar deles, do modo como eu os compreendi.
O primeiro caso é do rapaz que perdeu a capacidade de aprender coisas novas. Soa meio desesperador, e realmente é. Esse rapaz sofreu um acidente que deixou sequelas no cérebro. Desse modo, ele agora não aprende nada que lhe é ensinado e nem consegue depreender nada do que acontece com ele. Por exemplo, ele pode baixar um app no celular, mexer e usar em um dia. No outro, já não lembra mais como faz. Ele pode se envolver com alguém, mas não é capaz de conduzir aquela relação, pois não aprende nada sobre a pessoa.
É como se a mente dele tivesse estacionado. Funciona, mas não evolui, posto que não agrega mais o que de novo surge.
Nesse livro a abordagem do estudioso é entender como o que sentimentos é registrado pelo cérebro. Tudo bem você sentir dor, mas como é que você sabe que está sentindo dor? Quando é que tomamos consciência do que sentimos? Quando nosso cérebro reconhece um sentimento? Quer dizer, o sentir por sentir não seria nada, se a gente não pensasse sobre ele. Você pode romancear e dizer que seu coração foi partido, mas como é que seu cérebro sabe que você se magoou tanto?
Então, o neurologista do livro fez um experimento com o rapaz que não aprende. Durante uma semana, fez com que o moço fosse sempre na mesma cafeteria comprar café. Lá, era atendido em dias alternados por três garçons diferentes: um malvado, um bonzinho e um neutro.
Descobriu-se que, mesmo que hostilizado, por não aprender com sua experiência, o moço não era capaz de evitar, por exemplo, no dia seguinte, de ser atendido pelo malvado que lhe atendera de maneira rude no dia anterior. Ele não aprendera que aquela pessoa era cruel, então não aprendera a evitá-la.
Da mesma forma, se notou que ele podia ser atendido eternamente pela pessoa boazinha, sem reconhecer seu carinho, pois não aprendia que ela era capaz de ser melhor para ele do que os outros.
Ao fim da semana de testes, o autor mostrou para o rapaz retratos dos três garçons que lhe atenderam. E pediu que o moço apontasse qual lhe parecia mais confiável, embora o moço não lembrasse dos seus rostos e não lembrasse das interações que trocaram (lembrar também é um aprendizado, perceba).
Mesmo sem ter conhecimento, o moço apontou o garçom bonzinho como aquele que lhe parecia uma pessoa melhor. Ele não lembrava da experiência que tivera com ele, mas de algum modo sentia que aquela pessoa era a mais confiável entre as três. Ele não era capaz de aprender coisas novas, mas de algum modo, em seu coração, ele sabia.
Ele não aprendia nada, no entanto ainda resistia em seu cérebro a capacidade de sentir.
O outro caso era o da mulher incapaz de sentir medo. Dito assim até parece que ela era uma heroína que saía pela madrugada defendendo os cidadãos incautos, eu sei. O ponto, no entanto, era outro.
Essa moça nasceu com uma falha no cérebro que a tornava inapta para reconhecer expressões faciais que demonstravam medo. Ou seja, ela conhecia a dor, a raiva, o amor, a felicidade. Mas se você a encarasse com medo, ela não era capaz de entender, pois não conhecia essa sensação. Nasceu sem ela.
No livro, o neurologista conta que essa moça sofrera muito durante toda a vida, sendo vítima de vários golpes e de pessoas que se aproveitavam de sua “inocência” e “coração aberto”. Por ser como era, a moça se tornara uma pessoa muito expansiva, solta. Ela beijava, conversava, abraçava e interagia com toda e qualquer pessoa que lhe surgisse na frente. Ela confiava em todos. Sem medo, lembra?
Para ela, o medo era um conceito entendível, que já lhe fora explicado diversas vezes. Ainda assim, ela não era capaz de senti-lo. Como você aprende a sentir algo? Isso não existe, não se você não tem esse sentimento dentro de você. Ou você sente ou não sente, não tem como forçar. E assim, a mulher sem medo vivia sua vida de maneira totalmente exposta.
Perigoso, se você for pensar.
No entanto, diz o autor, ela era a pessoa mais feliz que ele já conhecera. Apesar dos prejuízos (materiais e sentimentais) que a falta de medo já haviam lhe causado, ela compensava em alegria o que de ruim acontecera. Mesmo as experiências negativas não eram capazes de prepará-la para o futuro. Ela não podia evitar de se meter em enrascadas, pois o aprendizado não trazia o medo consigo. O medo não existia para ela. E, assim, ela viveu uma vida inteira sem saber os riscos que corria, sem aprender com o que de mau lhe acontecia. E sem sofrer por isso.
São dois casos que me fizeram pensar. Em como o sentimento vai do coração até o cérebro. E do que realmente vale sentir algo, se você não é capaz de compreender esse sentimento. Será que a gente é capaz de compreender tudo o que se passa no nosso coração? Será que sentir ou deixar de sentir algo pode nos levar a uma vida melhor?
Eu não tenho essas respostas. Infelizmente. Sigo lendo, então.

O livro que estou lendo se chama “O Mistério da Consciência”, de António Damásio. Eu ainda não terminei de ler, então é provável que ainda escreva novamente sobre ele, se eu continuar aprendendo algo com a leitura. Você pode encontrar o livro para a venda através deste link.




























