Brain Dump*

Como o sentimento vai do coração ao cérebro

Exames de consciência durante uma leitura

Oliver Sacks morreu, então é bom que você procure em outros livros as razões para o seu cérebro funcionar do jeito que funciona. Enquanto terapia ainda não é uma possibilidade, uma saída possível é distrair a cabeça ficando por dentro de casos ainda mais terríveis que o seu, a pobre menina triste por nada.

Estou lendo esse agora, de um neurologista que escreve sobre temas complexos da mente humana usando palavras amenas. De um modo geral, até onde chegou minha leitura, é tudo um emaranhado de conceitos tão subjetivos quanto perder o amor de alguém. É difícil.

Espremendo bastante, você consegue entender. Como eu disse, como perder o amor de alguém.

De tudo, dois casos narrados no livro me chamaram a atenção até o momento. Vou falar deles, do modo como eu os compreendi.

O primeiro caso é do rapaz que perdeu a capacidade de aprender coisas novas. Soa meio desesperador, e realmente é. Esse rapaz sofreu um acidente que deixou sequelas no cérebro. Desse modo, ele agora não aprende nada que lhe é ensinado e nem consegue depreender nada do que acontece com ele. Por exemplo, ele pode baixar um app no celular, mexer e usar em um dia. No outro, já não lembra mais como faz. Ele pode se envolver com alguém, mas não é capaz de conduzir aquela relação, pois não aprende nada sobre a pessoa.

É como se a mente dele tivesse estacionado. Funciona, mas não evolui, posto que não agrega mais o que de novo surge.

Nesse livro a abordagem do estudioso é entender como o que sentimentos é registrado pelo cérebro. Tudo bem você sentir dor, mas como é que você sabe que está sentindo dor? Quando é que tomamos consciência do que sentimos? Quando nosso cérebro reconhece um sentimento? Quer dizer, o sentir por sentir não seria nada, se a gente não pensasse sobre ele. Você pode romancear e dizer que seu coração foi partido, mas como é que seu cérebro sabe que você se magoou tanto?

Então, o neurologista do livro fez um experimento com o rapaz que não aprende. Durante uma semana, fez com que o moço fosse sempre na mesma cafeteria comprar café. Lá, era atendido em dias alternados por três garçons diferentes: um malvado, um bonzinho e um neutro.

Descobriu-se que, mesmo que hostilizado, por não aprender com sua experiência, o moço não era capaz de evitar, por exemplo, no dia seguinte, de ser atendido pelo malvado que lhe atendera de maneira rude no dia anterior. Ele não aprendera que aquela pessoa era cruel, então não aprendera a evitá-la.

Da mesma forma, se notou que ele podia ser atendido eternamente pela pessoa boazinha, sem reconhecer seu carinho, pois não aprendia que ela era capaz de ser melhor para ele do que os outros.

Ao fim da semana de testes, o autor mostrou para o rapaz retratos dos três garçons que lhe atenderam. E pediu que o moço apontasse qual lhe parecia mais confiável, embora o moço não lembrasse dos seus rostos e não lembrasse das interações que trocaram (lembrar também é um aprendizado, perceba).

Mesmo sem ter conhecimento, o moço apontou o garçom bonzinho como aquele que lhe parecia uma pessoa melhor. Ele não lembrava da experiência que tivera com ele, mas de algum modo sentia que aquela pessoa era a mais confiável entre as três. Ele não era capaz de aprender coisas novas, mas de algum modo, em seu coração, ele sabia.

Ele não aprendia nada, no entanto ainda resistia em seu cérebro a capacidade de sentir.

O outro caso era o da mulher incapaz de sentir medo. Dito assim até parece que ela era uma heroína que saía pela madrugada defendendo os cidadãos incautos, eu sei. O ponto, no entanto, era outro.

Essa moça nasceu com uma falha no cérebro que a tornava inapta para reconhecer expressões faciais que demonstravam medo. Ou seja, ela conhecia a dor, a raiva, o amor, a felicidade. Mas se você a encarasse com medo, ela não era capaz de entender, pois não conhecia essa sensação. Nasceu sem ela.

No livro, o neurologista conta que essa moça sofrera muito durante toda a vida, sendo vítima de vários golpes e de pessoas que se aproveitavam de sua “inocência” e “coração aberto”. Por ser como era, a moça se tornara uma pessoa muito expansiva, solta. Ela beijava, conversava, abraçava e interagia com toda e qualquer pessoa que lhe surgisse na frente. Ela confiava em todos. Sem medo, lembra?

Para ela, o medo era um conceito entendível, que já lhe fora explicado diversas vezes. Ainda assim, ela não era capaz de senti-lo. Como você aprende a sentir algo? Isso não existe, não se você não tem esse sentimento dentro de você. Ou você sente ou não sente, não tem como forçar. E assim, a mulher sem medo vivia sua vida de maneira totalmente exposta.

Perigoso, se você for pensar.

No entanto, diz o autor, ela era a pessoa mais feliz que ele já conhecera. Apesar dos prejuízos (materiais e sentimentais) que a falta de medo já haviam lhe causado, ela compensava em alegria o que de ruim acontecera. Mesmo as experiências negativas não eram capazes de prepará-la para o futuro. Ela não podia evitar de se meter em enrascadas, pois o aprendizado não trazia o medo consigo. O medo não existia para ela. E, assim, ela viveu uma vida inteira sem saber os riscos que corria, sem aprender com o que de mau lhe acontecia. E sem sofrer por isso.

São dois casos que me fizeram pensar. Em como o sentimento vai do coração até o cérebro. E do que realmente vale sentir algo, se você não é capaz de compreender esse sentimento. Será que a gente é capaz de compreender tudo o que se passa no nosso coração? Será que sentir ou deixar de sentir algo pode nos levar a uma vida melhor?

Eu não tenho essas respostas. Infelizmente. Sigo lendo, então.


O livro que estou lendo se chama “O Mistério da Consciência”, de António Damásio. Eu ainda não terminei de ler, então é provável que ainda escreva novamente sobre ele, se eu continuar aprendendo algo com a leitura. Você pode encontrar o livro para a venda através deste link.

Resenhas

Leia mulheres: Loredana Frescura e Lindsey Kelk

Photo by Montse Monmo on Unsplash

Com títulos diversificados, Editora Fundamento traz o amor sob a perspectiva de mulheres em diferentes fases da vida.

O amor é tema constante na literatura feminina. E ele aparece nela de várias formas.

Seja com o idealismo romântico comum da adolescência ou sob o viés comedido de alguém já mais maduro, temos sempre na literatura feita por mulheres um bom lugar para encontrar as mais variadas histórias de amor.

Um exemplo desse olhar feminino para o mais nobre dos sentimentos é o romance da italiana Loredana Frescura, “Vejo o Mundo Nos Seus Olhos”.

Lançado no Brasil pela Editora Fundamento, o romance conta a história de uma adolescente descobrindo o amor. Com forte pegada romântica, temos a trajetória de Constância, uma menina apaixonada e sentimental, que vê em seu interesse amoroso algum tipo de perfeição. Algo que logo é derrubado pela realidade, como não poderia deixar de ser.

O primeiro amor é sempre algo impactante, que deixa marcas e define em maior ou menor grau como lidaremos com as relações amorosas no decorrer de nossas vidas. Com seu romance curto e poético, Loredana nos mostra como vemos o amor com muito mais pureza e idealismo no começo de nossas vidas.

Uma característica interessante do livro é que ele é escrito em quatro mãos, junto com o professor italiano Marco Tomatis. Em uma dinâmica muito interessante, Loredana é responsável pelos capítulos narrados pela personagem feminina, e Marco escreve os trechos que trazem o viés do protagonista masculino da história.

Se trata de uma abordagem poética sobre o primeiro amor, em um livro curtinho e delicioso de ler.

Em contraponto aos devaneios adolescentes do primeiro namoro está “Eu Amo Paris”, de Lindsey Kelk.

Terceiro livro da série “Eu Amo” (você pode ver a resenha do livro um aqui e do livro dois aqui), nesse volume nossa heroína Angela desbrava o solo parisiense, enquanto precisa aprender a lidar com um namoro subitamente em crise.

O olhar de Angela para o amor é diferente do de Constância, a protagonista de “Vejo o Mundo Nos Seus Olhos”, é claro. No auge dos seus vinte e poucos anos, depois de passar alguns apuros em seus casos, Angela também amadureceu como personagem.

Em comparação com os livros anteriores da série, as trapalhadas e imprevistos estão ali ainda, sim, mas é possível notar que a personagem de Lindsey Klerk vem em uma crescente de amadurecimento. Desse modo, o que temos nesse Livro 3 é uma trama muito mais coesa e centrada, sem deixar de lado o humor e o improvável que lhe é característico.

Um ponto notável de “Eu Amo Paris”, e da literatura de Lindsey Klerk em geral, é como a trama consegue ser leve e ao mesmo tempo abordar sem frivolidade os questionamentos da personagem. Como uma jovem mulher independente, Angela precisa lidar com questões como ciúmes, rivalidade entre mulheres e os dilemas de morar ou não junto com o namorado. Tudo isso sem perder o bom humor e procurando surtar o mínimo possível — algo que a gente conhece bem.

Assim, seja para relembrar os encantos da descoberta do amor ou para aprender junto a lidar com ele na vida adulta, sempre haverá um livro incrível escrito por uma mulher disposto a te ajudar. ❤


Livros recebidos em parceria pela Editora Fundamento. Você pode adquirir Vejo o Mundo Nos Seus Olhos e Eu Amo Paris através do site da editora.

Disney101

#Disney101: A Bela e a Fera

A Bela e a Fera (2017)

Assistindo aos filmes da Disney depois de adulta

A Bela e a Fera, em suas duas versões, a de 91 e a de 2017, foram os filmes que escolhemos para ver naquela tarde já tão distante de sete de julho. Esse sem dúvida é um dia que ficará marcado na minha memória, não exatamente pelos motivos que eu esperava. De todo modo, ao menos temos os filmes para lembrar da parte boa daquele sábado.

É mesmo uma vergonha que eu nunca tivesse visto A Bela e a Fera até então. Engraçado como, com o tempo, a gente vai perdendo a pressa de ver os clássicos: chega tudo tão mastigado até a gente que nem se precisa ir à fonte para entender as referências. Ainda assim, consegui me surpreender bastante com o dois filmes. E descobrir que Bela é a princesa com quem mais me identifico. Até agora.

Não se sabe o amanhã (infelizmente?), é claro.

A Bela e a Fera (1991)

Como eu disse, eu nunca tinha visto o filme e foi uma surpresa compreender que, na verdade, a Fera é que pode ser considerada a grande princesa dessa história da Disney. Afinal, é ela quem recebe o encantamento perverso que a condena a uma condição indesejada, da qual só pode se libertar caso encontre o verdadeiro amor. E a Bela surge como aquela que vai quebrar a maldição e salvar a Fera!

Inversão de valores, toma essa, críticos da Disney.

Bela é um anjo de menina, inteligente, leal e doce. Não é afetada como a maioria das princesas que vieram antes dela, não é caricata. Está sempre lendo, o que também é um jeito de passar a principal mensagem do filme: não julgue um livro pela capa. Ao conhecer a Fera, se assusta com a aparência dele, mas não deixa isso impedir a aproximação dos dois, que acaba se tornando uma grande paixão.

Ah, o amor.

Uma coisa interessante é que Bela é a única da cidade a usar roupas azuis. Gaston, o vilão, usa vermelho, que também é a cor do traje da Fera logo que a conhecemos. Mais para o final do filme, a Fera passa a vestir azul, em um indicativo não só de que está em sintonia com Bela, mas também como para mostrar uma suavização de seu caráter.

Doideira.

Eu gostei demais desse filme. Até o tom meio alucinógeno dos objetos domésticos com vida deu um ar especial. Quer dizer, um candelabro womanizer e uma chaleira fofuxa é tudo o que todos queriam ter em casa, depois de um dia difícil.

Eu, pelo menos, adoraria.

A Bela e a Fera (2017)

E aí, se eu já gostei do filme de 1991, a versão de 2017 veio para selar o meu destino inexorável frente à narrativa de que a Bela é a minha princesinha fav. Apesar do grande buchicho, não vi esse filme ano passado, quando foi lançado, apenas porque a vida não quis. Não tenho outra desculpa.

Quem sabe o momento ideal fosse mesmo aquela tarde de sete de julho. Essa sim é uma boa desculpa, de fato. Por que lembrar do filme nos dias seguintes foi um grande alento para o meu coração despedaçado.

O filme é uma recriação perfeita do original em desenho, porém com mais algumas músicas, além de acrescentar um pouco mais de complexidade aos personagens auxiliares. Assim, temos quase uma hora a mais de filme, se comparado com o de 91. E vale cada minuto.

Hermione (não me matem) está perfeita como Bela. Sempre lembro daquela história de que ela abriu mão de La La Land para fazer esse filme, e o Ryan Gosling abriu mão desse filme para fazer La La Land. O destino, né mores. Será que eles se odeiam? É muito fácil detestar o Gosling, mas é preciso ser um MONSTRO COMPLETO para não gostar da Hermione. Ainda mais depois desse filme. Ela é a princesa perfeita que precisávamos, mesmo não merecendo.

Tudo é perfeito nesse remake, na verdade. Gaston e LeFou estão tão incríveis que simplesmente não é problema meu se eles são vilões. Eu os amo enlouquecidamente mesmo assim. O número musical deles juntos é absolutamente tudo o que quero para mim, pelo resto da vida (entrei no Youtube para linkar aqui para vocês, mas só tem versão shipper do “casal”, risos).

Depois do filme, vimos os extras e é brutal o trabalho que foi feito para produzir esse live action. Só por isso já deveria ser obrigatório ver esse filme. Além de tudo, ele é lindo, atemporal, divertido, emociona. AH! TANTOS SENTIMENTOS. Um filme maravilhoso, capaz de te salvar no pior dos seus dias.

Obrigada, Disney.


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crônicas

Do que ficou, as manhãs e as maçãs

Photo by Annie Spratt on Unsplash

Os sábados eram os nossos dias juntos. E em um sábado você partiu para sempre.

Por muitos anos durante a nossa infância, os sábados eram o nosso dia e as manhãs de sábado eram dedicadas à uma tarefa tão aborrecida quanto inusitada: catequese das 8h às 10h na Igreja Matriz. A gente se encontrava por lá mesmo, no pátio dos fundos da igreja, e ia juntos para a sala.

Durante a aula, trocávamos olhares espantados e cúmplices, dando de ombros a cada lição alarmista da freira e professora. Folheando o livro de catecismo, a gente perguntava um para o outro com o olhar: seria Deus tão malvado assim?

Até hoje, ainda tenho minhas dúvidas.

Depois corríamos até o ponto de ônibus e juntos íamos para a casa da vó, onde você morava e eu passava o sábado. No ônibus, você o moleque esperto e eu a menina tímida, conversávamos sobre todas as suas grandes artes da semana. Você me contava da escola, do video game, da piscina do vizinho. Eu ouvia quieta, jamais seria tão descolada quanto você.

Você que tinha o computador e a piscina do vizinho, o quarto só seu e a vó só sua, todos os livros da sala que você não lia, você que mesmo assim encarava todos esses privilégios de um jeito tranquilo, humilde, sem alardear nada. E era generoso o suficiente para dividi-los comigo como um irmão mais velho.

O resto do dia revelava momentos melhores que as manhãs cheias de medo cristão. Quando a tarde de sábado caia, a vó dava um cesto de frutas para a gente vender na rua. Hoje eu vejo que ela só inventava aquilo porque queria ter um descanso da nossa bagunça em casa. A gente andava um pouco, não vendia nada, olhava um para o outro, dava de ombros e sentava no meio-fio para comer todas as maçãs da cesta. Voltávamos para casa com a cesta vazia e a barriga cheia. Nossa vó nunca pediu o dinheiro das “vendas”, porque ela sabia e a gente sabia.

Até hoje, sempre que vejo maçãs eu lembro de você e da gente, e da nossa inocência ao comer maçãs na beira da rua vendo o Sol ir embora e a tarde morrer.

Você sempre foi a síntese de alguém que sabia aproveitar a vida em cada mínimo segundo. Hoje eu penso que, de algum modo, você sabia que não seria para sempre, não para sempre como agora dolorosamente é para nós que teremos que continuar sem você. Você sempre foi o festeiro, o sorriso aberto, o deboche até o limite, o improvável irritante inaceitável adorável.

Você sempre foi a nossa alegria e agora foi tirado de nós.

Da última vez que estive em Foz, você estava bem como há tempos eu não via. A gente tinha a coincidência bizarra de dividir não só idade, família e histórias, mas também a mesma trágica doença. Mas nunca falávamos sobre isso, nunca dividimos nossas dores como pacientes de câncer porque nunca quisemos nos ver como vítimas. E porque você era legal demais para perder tempo se lamentando, você aproveitava vivendo cada chance que tinha de viver.

Naquela última vez que saímos juntos, você estava tão feliz. Lembro de olhar para você e pensar que esse seria você pela vida toda, se não fosse o destino trágico que te limitava há anos. Naquela noite, nada te impedia. E fomos de bar em bar, rindo, dançando, arranjando encrenca, dirigindo perigosamente bêbados pela cidade que dormia. Eu como sempre querendo acreditar em romance, te perguntei se você amava a menina que passou a noite toda de olho em você. Você disse que sim, mas que essas coisas não eram para você, que nunca iria namorar ou casar.

Mais uma vez, eu acho que você sabia.

No dia seguinte, nós dois na casa da minha mãe, cada um jogado em um sofá olhando o celular. A gente não precisava alardear muito a vida, a gente sabia que ela era um sopro, então ficávamos em silêncio fingindo não saber a fragilidade de tudo o que acontecia. Você me mostrava coisas no celular, a gente ria. Alguns minutos depois, se levantou e foi embora. Sem maiores despedidas, por que quem imaginaria? Foi a última vez que te vi.

Agora, nunca mais.

Fico pensando no que fizemos de tão terrível para Deus tirar você da gente tão cedo. Pensar isso enche meu coração de raiva e mágoa. E então entendo que a pergunta é outra: o que fizemos para merecer ter você na nossa vida por tanto tempo? Esse foi um presente maior do que qualquer outro, sem dúvida.

Você foi o filho tardio que a minha vó precisava ter, enchendo a vida dela de emoção, humor e vida. Foi o filho crescido que a minha mãe precisava, quando viu os seus próprios saindo de casa e seguindo a vida. Foi o irmão e o pai que a minha prima precisou. Foi o alívio cômico dessa família que ri junto e chora escondida.

Você foi um raio de alegria que cruzou a nossa vida. Nem sempre perfeito, muitas vezes irritante, mas sempre bom, sempre generoso, sempre presente.

Ontem eu vi uma série, o personagem dizia que as pessoas têm um tempo certo para nascer e para morrer e que quando elas vão embora, é porque cumpriram sua missão na Terra. Não sei muito sobre isso, acredito que você ainda tinha tanto para viver. No entanto, não posso fazer nada além de aceitar.

A injustiça de tudo isso machuca como poucas coisas no mundo, mas existe a marca que você deixou por aqui, não é? Sua lição foi a alegria, o amor, a galhofa, o inesperado. Vou levar isso comigo para sempre, assim como a lembrança do presente que você foi em nossas vidas.

E te agradeço por ser um filho para minha mãe, um irmão para o meu irmão, um neto para a minha vó. E te agradeço pelas maçãs e pelas manhãs de sábado. Foi uma boa aventura, primo. Obrigada por me deixar participar dela junto com você.

Resenhas

Leia mulheres: Lindsey Kelk e Kate Atkinson

Photo by Thought Catalog on Unsplash

Títulos da Fundamento trazem autoras falando sobre amor e suspense em livros sequenciais, sempre com muito humor e delicadeza.

Estava lendo aqui os livros que a Fundamento me enviou em cortesia, dois títulos escritos por mulheres, e que integram séries literárias, e parei para pensar: quantas autoras que escrevem séries de livros a gente conhece?

Claro, assim de cabeça o primeiro nome que nos vem é J. K. Rowling, autora da saga Harry Potter. Um caso de sucesso entre, possivelmente, milhões de tentativas. Escrever livros sequenciais é um desafio enorme. Se já é difícil manter uma história que apresente qualidade e “interessância” constante por 300 páginas, imagine repetir essa fórmula por mais dois ou três livros? Sem dúvida, é um dom que vem para poucos. No caso das escritoras sobre as quais falaremos hoje, esse dom veio com muita propriedade.

Títulos da Fundamento trazem aos holofotes as autoras de livros sequenciais.

Para começar, vamos falar de “Eu ❤ Hollywood”, título de Lindsey Kelk e segunda obra da série “Eu ❤”. Já falamos de Kelk aqui e do quanto a sua trajetória é inspiradora: de ghost writter a talento contratado pela HarperCollins, gigante da literatura feminina.

Em “Eu ❤ Hollywood”, a britânica Kelk novamente brinca com a fantasia feminina de mudar de cidade e mudar completamente de vida. Aqui, nossa heroína Angela Clark se vê tendo que ir para a cidade dos famosos em busca de uma entrevista com um grande galã de cinema.

Deslumbramento, paqueras, uma boa dose de inconsequência e temos todos os ingredientes para uma chick lit perfeita. Para a série “Eu ❤”, Kelk criou a fórmula de sempre levar sua protagonista para uma cidade diferente a cada livro, criando novas aventuras e novos interesses amorosos. Neste segundo livro da saga, a fórmula ainda está fresca e viva em sua ousadia. O livro dois não repete esquemas do um e temos uma aventura realmente diferente para a jornalista Clark. Com muito humor e leveza, como aprendemos ser característica da autora. É uma excelente continuação e não deixa nada a dever para o livro que inicia a série, outra pérola da Fundamento.

Já a inglesa Kate Atkinson empresta outro tipo de verniz aos seus livros seriados. Com forte pegada de suspense e mistério em sua escrita, seus livros são tão populares que o personagem Jackson Brodie, um ex-policial que se tornou investigador particular, acabou virando protagonista de uma série televisiva da BBC de Londres. A escritora já recebeu vários prêmios literários por sua obra e, em 2011, foi agraciada pela rainha Elizabeth II com o título de Membro da Ordem do Império Britânico por serviços prestados à literatura.

Em “Saí Cedo, Levei Meu Cachorro”, único título da autora traduzido para o Brasil, temos Jackson Brodie em mais uma aventura. O romance é o quarto livro da autora a trazer seu consagrado personagem e o faz em uma trama que mistura passado e presente para contar contar uma história que está longe de ter apenas um lado. O livro conta história de três personagens em paralelo: Jackson Brodie, o ex-policial que atualmente trabalha como detetive particular; Hope MacMaster, uma mulher que procura Brodie para descobrir quem são seus pais biológicos; e Carol Braithwaite, uma garota de programa que fora assassinada há mais de 25 anos e teve o caso arquivado por “força maior”. Em uma narrativa onde a brutalidade é vencida pela ternura, a história desses três personagens se conecta para contar essa trama cheia de mistério e, inesperadamente, humor.

Se temos muitas autoras que escrevem livros em série? Acredito que sim e estas são um bom exemplo de como essa arte é preciosa. Lindsey Klerk e Kate Atkinson, cada uma a seu modo, acrescentam doçura e força à literatura mundial, um livro de cada vez.


Livros recebidos em parceria pela Editora Fundamento. Você pode adquirir Eu ❤ Hollywood e Saí Cedo, Levei Meu Cachorro através do site da editora.

crônicas

Isso é só seu

Photo by Seth Macey on Unsplash

Apenas aceite e acelere, vá em frente

Calcei os patins e fiquei em pé. A vertigem envelopou meu medo e me fez procurar o chão novamente. Sentei. Pensei: é isso, não consigo, foda-se, vou colocar o tênis de novo e voltar para casa. Me contrariando, a avenida bonita se abria em Sol e pessoas bonitas e estilosas, que diziam que era um dia bonito demais para ser desperdiçado por medo.

Levantei novamente. Andei. Passos tímidos, remadas ansiosas, as rodas sob os meus pés trepidavam no asfalto maltratado. Olhei para mim mesma, em pé e mais alta por conta dos patins. Aceitei meu sorriso e acelerei o passo. O chão estava longe, em poucos minutos eu voava.

Fazia três anos que eu não andava de patins. Parei por conta da doença, depois ficou difícil demais voltar. Prioridades mudam. Sentia falta de voar baixo, de sentir o vento no rosto. Sentia falta e nem sabia, algumas saudades a gente soterra no meio de outras necessidades, em busca de viver sem mágoa.

Nesse domingo, eu quase alcancei o céu, pelo menos na sensação que tive. De reencontro. Insegura, andava devagar, tão atenta à tudo que parecia uma maníaca. As pessoas ao meu redor me olhavam com simpatia: um patins quad sempre chama a atenção. Eu me arriscava e me surpreendia comigo mesma.

Seu corpo lembra o que você esquece. Descobri que ainda sei ficar no derby stance, postura de jogadora de Roller Derby. Descobri que ainda consigo desviar bem e rápido das pessoas, evitando colisões. Sei ainda qual piso é melhor para as minhas rodas, intuitivamente eu seguia pelo asfalto melhor na longa Paulista.

Em trinta minutos, percorri a avenida toda uma vez e meia. Descalcei o patins, absolutamente surpresa. Eu consegui fazer isso, então? Consegui. Sozinha.

Voltei no feriado. Dessa vez andei por uma hora, fiz dez quilômetros. Chegou um ponto em que eu nem sabia mais onde estava. Só sei que estava na Paulista. Voando baixo, não como antigamente, mas melhor do que imaginava que seria, após tanto tempo. Com o patins nos pés e a mochila nas costas. De óculos escuro, abaixando até o chão para fazer graça. Parando para tomar ar, de tanto ar a boca secava.

Esse momento é só meu, eu penso sem meme nenhum.

Não tenho tido mais tanta vontade de me dividir. Redes sociais, interações sem graça só para manter a amizade. Tenho vontade de ficar quieta e ser só minha. Quero melhorar como pessoa, mas para isso preciso olhar para mim. Fazia tempo que eu não olhava, só olhava para fora.

Nesses dias, de patins, eu me reencontrei. A Paulista tão linda e boa, fervendo de gente e de sons. O calor da tarde, que aquece sem incomodar. De patins pela avenida, eu não incomodo ninguém.

Existe algo que é só seu no que você sente, não adianta tentar passar para os outros. Ninguém vai entender por completo a importância disso para mim, esse momento é só meu, eu digo sem meme nenhum, mais uma vez. A sabedoria está em entender a natureza disso e aceitar sem mágoa. Ninguém vai entender, então que bom. Isso é só seu. Aceite. E agradeça.

Fico na ponta dos pés, me aprumo e me equilibro em cima dos meus freios. Arranco em direção à avenida, rápida como um dia já fui. O mundo é meu, na mesma medida que tenho coragem de tomá-lo para mim. Ao final da tarde, uma certeza abraça meu coração: eu posso e vou, só depende de mim. Sempre dependeu só de mim. Descalço os patins, as pernas bambas de alegria e esforço físico, um sorriso gigante toma conta do meu rosto. Pensei: é isso, eu consigo, foda-se, vou colocar o tênis e voltar para casa.

Voltei para casa, ainda a mesma e completamente diferente, pois um novo mundo se abria.

Processo Criativo

Como eu publiquei 3 livros de uma só vez

Photo by Thought Catalog on Unsplash

Não parece fácil e realmente não é — mas também não é impossível

Tem essa história que eu sempre conto de como sempre escrevi sobre tudo, mas não escrevia ficção porque tinha vergonha (!) de escrever diálogos. Aí meu marido me disse que isso era a única coisa que me impedia de criar coisas maiores, o que era uma grande besteira. Então, eu simplesmente parei com essa bobagem de ter vergonha e comecei a escrever romances, histórias de ficção.

Incrível como as suas maiores limitações geralmente são apenas coisas da sua cabeça. Difícil mudar isso, mas tendo essa noção, o caminho da mudança fica muito mais suave.

O primeiro livro que escrevi na vida se chama All Across The World. Ele foi um trabalho bruto e brutal, quase físico, já que, enquanto o escrevia, eu estava em tratamento de quimioterapia de um câncer de intestino. De certa forma, escrever era um alívio no meio da realidade dura que eu vivia então. Ele foi publicado no Wattpad e eu escrevia um capítulo e já publicava, uma clara atitude de quem está louca de remédios. A revisão era pífia, o planejamento era inexistente. Eu queria apenas escrever enquanto estava viva.

All Across The World gerou entrevistas para portais de notícias, um fandom (que resiste bravamente até hoje), mais de 18 mil visualizações no Wattpad e duas continuações: uma direta, que saiu como All Across The World 2 e um tipo de spin off, intitulado Perto.

São romances novelescos, chick lit sem medo de ser piegas. Moça encontra rapaz. Tem muito do meu coração ali, bastante erros de principiante e etc, mas o mais importante é que esses livros carregam a minha verdade mais profunda: a certeza de que para escrever um livro você não precisa ser o Bukowski ou a Ferrante. Você não precisa ter tudo pronto. Não precisa saber de tudo ou fazer milhões de cursos para te dar alguma confiança.

Você só precisa começar. Ter uma ideia e trabalhar por ela.

Pode ser que leve anos, mas você consegue.

Essas são as primeiras capas de AATW, meu primeiro livro. A primeira, claramente feita no paint por mim. A outra foi feita depois, pelo Tico. ❤

Nesse ponto, preciso esclarecer que All Across The World surgiu como uma fanfic do Daniel Johns, ex-líder da silverchair e atual artista andrógino do pop eletrônico (Jesus!). Eu me inspirei muito nele nos meus dias de doença porque ele cantou muito sobre seus problemas de saúde (artrite, anorexia, depressão) e ele, tipo, SOBREVIVEU. Eu também queria sobreviver.

Então, inventei Nicky, essa moça paulistana que conhece um cara misterioso e se apaixona por ele, até que um dia… Nada de novo, mas para mim era um mundo sendo descoberto. E consegui imprimir a minha marca ali, criando uma história cativante, divertida e adorável (isso foi o que me contaram).

Capas originais do livro dois. Mais uma vez, a primeira capa eu fiz no paint. Anos depois, o Tico faria essa nova para mim. ❤

O segundo livro surgiu logo em seguida, continuando aquela história. Nicky estava de volta com aventuras ainda mais loucas. Criei algumas tramas paralelas para dar sustentação e, nisso, um personagem que tinha surgido apenas para criar um conflito acabou crescendo muito. Com o final do livro dois, achei que ele merecia um desfecho só dele. Foi aí que surgiu “Perto”.

Capa original de Perto. Essa eu não importunei o Tico e fiz no PicMonkey!

“Perto” foi importante para mim como escritora porque foi o primeiro romance “não-fanfic” que escrevi. Aqui eu já estava um pouco mais experiente — e não estava mais doente — então pude trabalhar um pouco mais a minha ideia, escrever com mais calma e desenvolver melhor os personagens e a minha escrita.

Todos esses três livros foram publicados no Wattpad em menos de dois anos. Como eu disse, eu tinha muita pressa em estar viva.

Eu ainda escreveria mais dois contos (“Invisível” e “Malvarrosa”) no Wattpad, até criar coragem de começar a publicar na Amazon.

Então, fiz o caminho inverso, fui do fim para o começo: peguei esses dois últimos contos e levei para lá como teste. Deu certo, escrevi um terceiro (sexto?) livro, este inédito, Despertar, e publiquei direto na Amazon.

Tendo passado quase quatro anos, com esses seis livros escritos (e mais uma curta fanfic #NeyMessi, pois uma vez fanfiqueira, sempre fanfiqueira!), eu sentia que estava na hora de criar uma história totalmente nova. Quem sabe até uma trama que não fosse uma história de amor, algo totalmente diferente do que já fiz, sabe?

Porém, eu sentia também que faltava alguma unidade na minha obra, porque essa trilogia de AATW estava jogada no Wattpad e os outros livros estavam bonitinhos na Amazon. Parecia que algo estava fora do lugar, incompleto e injusto.

Foi quando me dei conta de que para andar para frente, eu precisaria parar um pouco e dar uma boa olhada para trás. Antes de seguir naquele turbilhão de um novo romance, precisava parar e deixar a casa arrumada. A solução me veio com clareza: eu teria que trilhar o caminho das pedras novamente, pegar aqueles primeiros livros e revisá-los adequadamente para levá-los para a Amazon e deixar minha bibliografia unificada.

Escrever um livro é difícil, reescrever é infinitamente pior. Em agosto de 2017 eu comecei esse processo, que fez com que eu me odiasse, risse de mim, sentisse orgulho e vontade de morrer, tudo ao mesmo tempo.

Em um primeiro momento, a principal preocupação da revisão era tirar o verniz de fanfic da história, então eu mudei nomes de alguns dos personagens e adaptei características que os tornavam caricatos nesse sentido.

Depois, tratei de tirar algumas referências que já soavam datadas, além de, é claro, corrigir enganos e até alguns erros de digitação. Por último, tentei ver o livro como um todo (algo inédito no caso dos dois primeiros, que foram escritos capítulo a capítulo) e tornar a história mais coesa. Foi o momento de tomar a história novamente pelas mãos e ver o que podia mudar, o que tinha que ser cortado.

Nisso muita coisa mudou e foi eliminada, porque quando você escreve um capítulo por semana (e as pessoas esperam a semana toda por esse capítulo), você acaba fazendo-o mais extenso do que deveria, para “durar mais” para o leitor. Em um livro único, essas partes a mais precisavam ser enxugadas, em prol de tornar o livro mais dinâmico. Os capítulos também precisavam ser menores, para dar ao leitor a sensação de que ele leu mais rápido (sim, tem isso), então houve essa reestruturação também.

Para além desses aspectos práticos, foi também um tremendo exercício de olhar para a minha escrita, ver o quanto eu tinha mudado, o que eu pensava de início e como poderia seguir adiante depois de tudo isso. Foi um processo muito trabalhoso, intenso de sentimentos, mas valeu a pena porque eu queria isso. Eu quero isso, então não desistiria jamais.

Ainda pensando na necessidade de desvincular da fanfic (“All Across The World” é o nome de uma música da silverchair), eu precisava de um título novo para os dois primeiros livros da série — “Perto” seguiria sendo “Perto”. Isso é um assunto muito delicado, mudar o título de um livro é como tirar a toalha de uma mesa posta. Conversando com o fandom, chegamos juntas a um novo nome, que condizia com a história e com o meu alinhamento como escritora: Encantamento. Uma palavra só, como em todos os meus livros posteriores. Uma palavra forte e bonita, como a história que ela agora passaria a dar nome.

Meus amigos Tico & Jules mais uma vez entraram em ação e produziram novas capas, tão lindas quanto ver um sonho se realizar com o suor do seu trabalho.

E então, passados quatro anos desde a primeira página escrita e oito meses desde o começo da revisão mais terapêutica que já fiz na vida, eu tinha meus primeiros três livros prontos para serem publicados na Amazon e ganharem o mundo (sendo o mundo tão vasto quanto um Kindle pode dizer).

É com muito orgulho que os apresento agora para você.

Encantamento 1, Encantamento 2 e Perto. Mais uma vez, capas do mais do que talentoso Tico.

Orbitando em missões espaciais pelos confins do universo, astronautas podem ver mesmo da Lua que eu sou a pessoa mais feliz deste planeta. Ao meu lado, meu marido pode ver o quanto estou feliz. Julie, minha melhor amiga, tem recebido incontáveis áudios meus onde eu apenas grito, com uma calma que não tenho, um infinito “aaaaaaaaaaaaaaa” febril e entusiasmado.

Essa é a minha maior realização. E, ao mesmo tempo, é só a primeira.

Com o lançamento desses três livros, encerro um ciclo. Essa foi a minha primeira “era” como escritora. Foram as minhas primeiras experimentações, a época de dar a cara a tapa.

E o que eu aprendi? Escrever não é fácil, mas você precisa tentar. Publicar não é impossível, mas você precisa correr atrás. Seus amigos de verdade continuarão ao seu lado mesmo você só tendo um assunto por quatro anos seguidos. Todo trabalho vale o esforço quando chega ao final.

Escrever pode curar sua alma ao estraçalhar ela todinha. E vai ser bom para você.

Por último? Ah, sim. Eu aprendi que escrever diálogos não é nenhum bicho de sete cabeças. Aliás, hoje eu até escrevo contos inteiros só de diálogos!

Com esses seis livros na rua, eu volto para dentro de casa. E recomeço a criar. Limpo a estante dessas velhas ideias e personagens que me acompanharam por tantos anos e abro espaço para o novo. Dou a vocês essas histórias, para que as conheçam ou as revisitem.

É tudo lindo e maravilhoso, tudo feito com um amor que sempre tive e uma coragem que eu nem sabia que tinha.

Obrigada a todos que estiveram comigo nessa jornada.

Alex, Julie, Tico, Carol e Daniel Johns (poxa, lógico): eu não conseguiria sem vocês.

Aguardem novas histórias. E curtam muito essas, enquanto isso.


Encantamento 1, Encantamento 2, Perto, Invisível, Malvarrosa e Despertar. Você pode encontrar todos os meus livros à venda em formato digital na Amazon. Já Amor em Jogo, a minha fanfic #NeyMessi, você lê gratuitamente no Wattpad.

Estou produzindo meu oitavo livro, ainda com o título provisório de “A Mulher Que Todo Dia Desaparecia”. Não prometo data, mas a intenção é publicar ainda este ano pela Amazon.

Resenhas

Leia mulheres: Lindsey Kelk e Sarah Rayner

Imagem: Lindsey Kelk / Sarah Rayner (divulgação)

Apostando na delicadeza, escritoras da Fundamento trazem novo ar para a literatura mundial

Quando se fala em literatura feminina, é comum ainda o pensamento de que tal gênero verse apenas sobre o que se considera o “universo feminino”, como relacionamentos amorosos, algumas futilidades e questões sentimentais diversas. Limitada assim, por muito tempo, a literatura feita por mulheres, como um todo, foi vista com certo demérito, como se falar sobre sentimentos ou futilidades fosse algo menor ou até mesmo simples.

No entanto, quanto mais o mercado se abre para as escritoras, mais elas provam que podem produzir obras incríveis de todo o tipo, quebrando inclusive o estigma de que “literatura feminina” é algo fútil e raso. Afinal de contas, não existe gênero quando um livro é bem feito. E, quando a narrativa é boa, ela se impõe independente do tema sobre o qual verse.

É o que podemos observar nas obras de Lindsey Kelk e de Sarah Rayner, duas autoras com vertentes diferentes dentro da literatura e, ainda assim, com muitos valores e qualidades em comum. Falando sobre o universo feminino, os dois nomes da Editora Fundamento nos apresentam narrativas incríveis e poderosas sobre mulheres comuns e maravilhosas, como todas as mulheres são.

É sobre o que falaremos a seguir.

Vamos começar por “Eu Amo New York”, da britânica Lindsey Kelk.

A trajetória de Kelk como escritora é inspiradora, para dizer o mínimo. Jornalista de formação e trabalhando como editora de livros infantis, ela teve a ideia para seu primeiro romance ao voltar à Londres após passar um feriado em Nova York.

Foi assim que escreveu “Eu Amo Nova York”, precisamente a história de Angela Clark, uma londrina editora de livros infantis que, após uma grande decepção amorosa, decide de supetão ir para Nova York para fugir de seus problemas.

Coincidências à parte, Kelk usou sua paixão pela cidade de Nova York para construir uma chick lit adorável, onde narra as agruras da mocinha em conflito com seu futuro e presente ao ter seu passado destruído — tudo isso enquanto afoga as mágoas em compras, chocolates e romances de uma noite apenas.

O sonho de toda garota, dirão alguns.

Mas a narrativa de “Eu Amo Nova York” é boa, a protagonista cativa e o livro mostra uma coesão incrível, sem apelar para saídas fáceis e indo para caminhos imprevistos. Existe algum tipo de força em romances assim, escritos com o coração e sem pretensões. E foi com esse romance inaugural que Kelk, então com vinte e poucos anos, bateu de porta em porta nas editoras. Como não poderia deixar de ser, ela teve seu livro negado e seu talento questionado inúmeras vezes: sugeriram que ela fosse ghost writter e até que mudasse de nome — um agente chegou a dizer que Lindsey Kelk parecia “o som de um gato ficando doente”.

Sem jamais desistir, ela acabou conseguindo um contrato de três livros com a HarperCollins, gigante da literatura feminina. Foi o início de sua carreira como romancista.

Hoje, até o momento, Lindsey Klerk já escreveu 13 livros. “Eu Amo Nova York” acabou virando uma série de livros com sete títulos contando as aventuras da nossa heroína Angela Clark nos mais diversos pontos de planeta. Para uma garota com uma escrita “de mulherzinha”, você pode perceber que ela conseguiu ir bem longe — e, certamente, conseguirá ainda muito mais.

Vindo de uma formação e uma vivência diferente, mas com a mesma sensibilidade para tratar de narrativas sobre mulheres, está Sarah Rayner e seu sensível “Um Momento, Uma Manhã”.

Antes de se tornar escritora, Rayner trabalhava como redatora de publicidade. O contrato com uma editora veio em 2001, dois títulos foram lançados, mas foi só em 2010, com seu terceiro livro, “Um Momento, Uma Manhã” que ela alcançou o posto de bestseller.

Também, pudera. O livro vendeu 300 mil cópias apenas no Reino Unido e muitas mais pelo mundo contando uma história delicada e emocionante sobre três mulheres que tem seu destino interligado por uma fatalidade que acontece no trem que elas pegam todas as manhãs.

Abruptamente no trem das 7h44, a caminho do trabalho, um homem morre de um ataque cardíaco fatal. Karen (a esposa), Ana (melhor amiga de Karen), e Lou (uma desconhecida que presencia tudo), são as vítimas indiretas dessa tragédia, sendo afetadas em diferentes níveis. A forma com que vão lidar com isso também difere entre elas, mostrando que não existe jeito certo ou errado de lidar com um sentimento.

Romance pegado nas relações humanas, a narrativa alterna os pontos de vista dessas três protagonistas, dividindo a história em dias, minutos e horas. Sem cair no dramalhão e com uma maestria que impressiona, Rayner parece mesmo ter atingido seu ápice criativo em “Um Momento, Uma Manhã”. Deve ser mesmo verdade aquela crença de que para ser bom, você precisa praticar. Em seu terceiro livro, a autora finalmente se encontra e nos entrega o seu melhor. Se trata de tratado tocante sobre perda, amizade e superação, uma história delicada contada por Sarah de forma empática e inteligente.

Comparado com “Eu Amo New York”, o título de Sarah Rayner é um tanto mais profundo e maduro. Mas, de algum modo, a literatura das duas se completa. Nem tanto ao norte, nem tanto ao sul, é ótimo ter esse panorama amplo para que possamos escolher com propriedade para onde queremos navegar. Se nas ondas doces da descoberta pessoal ou nas águas profundas do redescobrimento interno.

Seja como for, uma mulher sempre poderá lhe contar essas histórias.


Livros recebidos em parceria pela Editora Fundamento. Você pode adquirir Eu Amo New York e Um Momento, Uma Manhã através do site da editora.

Disney101

#Disney101: A Bela Adormecida e Malévola

Malévola (2015)

Assistindo aos filmes da Disney depois de adulta

Nunca deixo de me encantar com as coincidências desse projeto. Nesse dia, tinha feito um caderninho todo temático da Malévola para presentear meu amigo. E quais filmes ele escolheu, sem saber disso? Pois é, Malévola e A Bela Adormecida.

Assistimos a essas duas obras primas do áudio visual enchendo a cara de Ben & Jerry’s em uma linda tarde ensolarada de sábado em que optamos por ficar enfurnados em casa vendo filme ao invés de sair e curtir a Paulista.

Em minha opinião, isso é que é viver.

Mas vamos às minhas impressões sobre os filmes.

A Bela Adormecida (1959)

Como qualquer ser humano com acesso básico a higiene, educação e civilidade, eu obviamente já conhecia a história da Bela Adormecida. A triste narrativa da princesa que ao nascer é amaldiçoada por uma bruxa, no que é condenada a cair no sono eterno quando completar 16 anos de idade.

No entanto, nunca tinha visto o filme. Nesse ponto do projeto, sem apontar culpados (bom, a Disney é a culpada), devo dizer que já estou exausta de princesa cuja única motivação é macho. Eu sei, era assim no começo, os tempos eram outros, hoje as coisas estão mudando (um beijo, Frozen), mas ainda assim fica esse ranço. Seguimos.

A versão de 1959 de A Bela Adormecida é muito importante para a história do cinema. Foi uma produção caríssima, a mais cara da história da Disney, que mesmo tendo lucrado muito não chegou a cobrir por completo seus custos. Por isso, entre outros motivos, após este filme o estúdio só voltaria a fazer contos de fadas exatos trinta anos depois, quando em 1989 lançou A Pequena Sereia.

Baseado em um conto de cinco ou seis parágrafos, A Bela Adormecida, o filme, teve sua trama encorpada para que pudesse ser levada às telonas e demorou cerca de dez anos para ficar pronto. Houve um cuidado especial da produção em criar a Princesa Aurora o mais diferente possível da Branca de Neve (1937), outra princesa com história similar, vítima de um feitiço que só pode ser quebrado com um beijo.

Bela Adormecida é das princesas com menos fala da história da Disney, tanto por seu destino cruel quanto por sua personalidade frívola. A moça descobre aos 16 anos que tem família, que é uma princesa, que está prestes a sucumbir a uma maldição, mas a única preocupação dela é se o moço que encontrou na Floresta poderá reencontrá-la. Eu sei, 16 anos, quem nunca, é uma fase que olha… Ainda assim, foi um pouco difícil de tolerar.

Dito isso, é preciso destacar que se trata de um filme lindo visualmente, sendo um dos mais especiais por ter Walt Disney envolvido diretamente em sua feitura. É um marco do cinema e por isso merece ser visto. Até por que, sem ele, não teríamos os desdobramentos que viriam depois.

O que nos leva ao segundo filme da tarde.

Malévola (2014)

Eu queria que a Angelina Jolie pessoalmente me perdoasse por todas as vezes que a vi como uma mulher detestável quando ela apenas, verdadeiramente, tinha a coragem que eu nunca tive. Nunca duvide de uma mulher poderosa.

Malévola foi uma obra quase totalmente pessoal de Jolie, fã desde a infância da vilã de A Bela Adormecida. Envolvida com o projeto desde seus primeiros passos, a atriz foi responsável pela produção executiva do filme e participou ativamente também das escolhas de roteiro, figurino, maquiagem e trilha sonora. Foi ela quem escolheu Lana Del Rey para dar nova voz ao clássico Once Upon a Dream”, música ícone da trama. Foi Jolie também quem trouxe a referência de Lady Gaga na era Born This Way para o look da sua personagem.

Mas a história? Malévola traz uma versão revisitada de A Bela Adormecida, contando a história pela ótica da vilã, a própria Malévola, interpretada por, claro, Angelina Jolie.

Com essa mudança de visão, muda também o foco, e a história ganha um respiro moderno. Não se trata apenas da humanização de uma vilã, mas de mostrar que toda história tem dois lados. E nem sempre é como a gente pensa…

Sem o cansativo véu da princesa indefesa, Malévola conta a história de uma mulher forte, poderosa, capaz de tudo para se vingar, mas que ainda guarda algum sentimento bom, apesar das muitas rasteiras da vida. É mesmo um filme muito fácil de relacionar a Angelina Jolie, uma mulher tão linda quanto forte, que por seu pulso firme é vista com um certo distanciamento que a torna inatingível.

Para mim, foi o favorito da tarde. Tanto por estar mais alinhado com nossa pauta atual, como por trazer algum tipo de humanização da própria Jolie, que teve ali a chance de realizar um sonho e mostrar mais de quem ela é de verdade.

O filme teve sequencia anunciada recentemente, com lançamento ainda sem data definida.

Já o nosso próximo encontro de #Disney101 deve ocorrer em algum sábado deste mês de abril. Vamos acompanhar.


Acompanhe meu projeto com minhas impressões sobre os filmes da Disney através da tag Disney101. Ajude a levar esse texto para mais pessoas clicando nas palmas ao final da página. Obrigada!

Processo Criativo

Bloqueio criativo e camadas de realidade: dicas na hora de criar histórias

Photo by Danielle MacInnes on Unsplash

Um pouco do que aprendi em uma aula de youtube

Ouvindo o maravilhoso podcast #ImaginaJuntas das meninas Jeska Grecco e Carol Tchulim (e do Gus Lanzetta), fiquei sabendo que o Lucas “da Fresno” Silveira estava promovendo um curso online sobre música. Achei incrível, pois sempre fui muito fã de Fresno – considero o Lucas um dos compositores mais primorosos do Brasil, além de um excelente cantor.

Foi como cheguei à Universidade Invisível, o tal curso online. Se trata de uma plataforma virtual onde você pode aprender sobre tudo o que envolve o processo de criar música: a parte criativa, a questão de produção e até a etapa final, de se vender para o seu público.

É um curso mais voltado para músicos (e para os que querem se tornar músicos), no entanto, a parte de criatividade e inspiração, ministrada pelo Lucas, é muito interessante para escritores em geral, a meu ver.

Ao se cadastrar no site (as aulas são pagas, mas esse cadastro inicial é aberto ao público, sem taxas) você tem direto a assistir uma master class do Lucas Silveira, onde ele dá dicas ótimas sobre processo criativo. São 67 minutos de aula. Eu assisti a essa aula e dela pude depreender muitos tópicos importantes, os quais trago alguns aqui para vocês como aperitivo, baseados no meu aprendizado deles. Lembrando que para ver a aula completa (e se matricular no curso) é só acessar o site da Universidade Invisível.

O que mais me chamou atenção na aula como um todo foi a questão do bloqueio criativo e das camadas de realidade. É disso que vou falar a seguir.

Photo by Maaria Lohiya on Unsplash

Uma das coisas mais interessantes que o Lucas disse foi que a inspiração vem de uma ideia, a ideia vem de uma experiência de vida e a experiência de vida vem VIVENDO. Parece óbvio para você? Na verdade, não é tão óbvio assim quando a gente pensa em expressões famosas como “bloqueio criativo”.

É muito comum a gente sentar para escrever e não vir nada. Nada, nem uma frase sequer. Isso acontece, geralmente, não por não sermos bons, mas porque não estamos “abastecidos” o suficiente de vivências para transformar em um texto. Como alguém zerado de histórias pode produzir alguma? Como falar da vida se você não está vivendo-a?

Uma dica do Lucas é que quando o tal bloqueio pintar, você tente se perguntar se esse “branco” de ideias não é um branco na sua vida em geral. Existencialista demais? Que nada. Tente pensar aí: será que você não está trabalhando demais, preocupado demais com tudo e sem tempo de respirar e olhar a vida lá fora? Por que são essas coisas que nos trazem ideias para histórias: olhar a vida.

Mesmo um drama sci-fi que se passe em Marte e tenha como personagens extraterrestres mudos de vinte pernas pode ter sido originada de uma conversa de bar que você teve com um primo e ele te disse “nossa, parece que sou um ser bizarro de vinte pernas, ninguém me ouve!”.

Ou essa mesma inspiração pode vir de algum contato imediato de terceiro grau que você tenha vivido essa semana, é claro.

Quando a gente fala em “vivência”, não significa que você precisa todo dia escalar uma montanha, encontrar um ET ou dançar na chuva para dizer que tem uma história diferente para contar. Falando com base em minha própria experiência como escritora, as maiores inspirações que já tive vieram de acontecimentos cotidianos banais, diálogos bobos. Coisas que nem aconteceram comigo diretamente. Acredito que com você também seja assim.

É claro, têm dias que o texto não sai porque você está com a cabeça cheia de problemas ou tempo curto para desenvolver, mas, de um modo geral, um bom escritor (ou compositor ou contador de histórias, em seu sentido mais amplo) é uma pessoa que vive em constante estado mental de inspiração. Isso quer dizer que você precisa estar sempre de antenas ligadas, observando o que acontece ao seu redor e guardando esses momentos para costurar na colcha de retalhos que vai ser o seu texto.

O conceito de que um texto fictício nada mais é do que uma costura de acontecimentos reais contados de forma romanceada é algo muito frisado pelo Murakami em seu livro “Romancista Como Vocação”, aliás. Romanceando ou não, projetando ou não, escrevemos sobre o que vivemos ou observamos. Nunca se sabe de onde virá uma boa ideia para um texto que você está querendo escrever. Por isso, é tão importante estar atento e sair do seu casulo, que muitas vezes é fundamentado no medo de tentar (algo para um post futuro, sem dúvida).

Quando você é um produtor de conteúdo, precisa estar sempre ligado no que acontece ao seu redor. Um escritor se difere dos demais quando consegue ver algo que a maioria não vê, em algo que todos estão vendo. Por exemplo, e esse é um exemplo do Lucas, você pode andar na rua e se deparar com uma pessoa esperando a condução em um ponto de ônibus. E tudo bem, vida que segue. Já outra pessoa pode ver a mesma cena e se sentir inspirada por ela a escrever uma poesia, uma letra de música. E qual a razão dessa cena tão corriqueira despertar a atenção de uma pessoa e não de outra?

Tudo depende do olhar. Nada é o mesmo, cada um enxerga as coisas de um modo diferente e tira algo de diferente de cada situação. É o que podemos ver naquele famoso caso de “copo meio cheio ou meio vazio”, sabe? Tudo depende de como você encara as coisas e, nisso, você pode ver algo que ninguém viu, porque você está prestando atenção e está impulsionado pela sua inspiração e pela sua criatividade.

São as chamadas “camadas de realidade”, como o Lucas chama.

Onde alguém viu apenas uma pessoa esperando o ônibus, outro viu o argumento inicial para um livro de trezentas páginas. Onde ele viu isso? Ele despiu aquela cena de sua camada prosaica e descobriu uma outra camada mais poética. Nenhuma das duas camadas está errada. Ambas são verdadeiras e todas as duas servem — depende apenas do seu propósito para elas no momento.

Com isso eu não quero dizer que você precisa ver poesia em tudo, mas sim que você pode vê-la em algo que normalmente não veria, se estiver disposto a isso. Despida da camada de “apenas um dia comum”, pode ser que você encontre ali outra camada mais profunda, a camada que a sua poesia e a sua criatividade podem usar como tela para criar algo maior.

Quando você tem um olhar treinado, é capaz de ver essas camadas de realidade e fazer uso delas para a sua arte. Mas o olhar treinado só vem da tentativa e da prática, então não deixe de tentar.

Comece agora.

Vença o bloqueio criativo desacreditando dele e acreditando em você. Se muna de experiências, olhe lá fora, ouça as pessoas e se abra para o novo. Você já tem tudo o que você precisa para começar a escrever. Basta começar.


Os conceitos trazidos nesse artigo englobam apenas um trecho curto da master class do Lucas Silveira, que fica disponível por pouco tempo, então recomendo que você corra para assistir enquanto ainda está no ar! O curso já está em pré-venda na Universidade Invisível. Como dito, são lições focadas para produção musical, mas acredito que todos podem aprender muito sobre processo criativo, sendo músicos ou não.

Este não é um conteúdo pago pela Universidade Invisível (quem me dera!).