
Estava morrendo de medo, mas que baita história
Não existe um dado oficial que eu possa usar como fonte confiável, mas se acreditam na minha palavra, posso garantir que sou uma das pessoas mais medrosas da face da Terra. Tenho aí algum problema que qualquer coisa um pouquinho mais misteriosa ou horripilante me faz correr léguas para longe. Não quero, não gosto.
No entanto, tem horas que você precisa dar o braço a torcer se quer estar por dentro do que está todo mundo falando.
Já tem um tempo que todo mundo está falando de “O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares”, o tal livro eleito uma das 100 obras mais importantes da literatura jovem de todos os tempos, traduzido para não sei quantos idiomas e best seller em não sei quantos países. Dos blogs de literatura que eu leio, as resenhas positivas era unânimes e vinham aos montes. Pelo o que li nesse sentido, achava a história um pouco creepy demais pro meu gosto, mas foi tanta gente falando que resolvi ler logo e me livrar disso (sim, é dessa maneira que eu ajo).
Ainda bem que tomei essa atitude, pois foi dos melhores livros que li esse ano, se não o melhor.

A história começa assim: Jake, um menino de 16 anos, perde o avô e fica muito abalado emocionalmente. A proximidade entre os dois era imensa. O avô era um veterano de guerra que costumava contar histórias sobre o orfanato onde viveu por um tempo, onde crianças com poderes estranhos eram acolhidas durante a segunda guerra mundial. Mostrava fotos, entre assustadoras e claramente forjadas, dessas crianças que ele chamava de peculiares. Essas fotos ficaram todas com Jacob e pareciam assombrá-lo e tornar luto ainda mais pesado.
Em busca de superar a perda, Jacob começa a frequentar um psiquiatra que endossa uma ideia meio maluca do garoto: viajar até os confins onde esse orfanato está e conhecer um pouco dessa história com os próprios olhos, para desmistificar a figura do avô. A família de Jacob topa, com a condição de que ele vá junto com o pai.
E assim, Jacob e o pai (filho do avô falecido), embarcam em uma jornada até uma ilha remota na costa do País de Gales em busca do tal orfanato. E aí, claro, coisas estranhas começam a acontecer.

Para contar essa história, Riggs mistura literatura e fotografia. Sabe aquelas fotos muito antigas, meio fantasmagóricas em preto & branco? Elas estão presentes no livro todo e ajudam a ambientar a trama. Acho que o maior mérito do Ransom Riggs aqui nesse livro é justamente esse: juntar um monte dessas fotos antigas e bizarras de freak show e conseguir criar não apenas uma história, mas um universo. Segundo li, o autor colecionava esse tipo de fotografia e analisou cerca de 10.000 fotos (entre suas e de outros colecionadores) para escolher as aproximadamente 50 contidas em O Orfanato…, seu romance de estréia.
Não espere um livro bobinho para adolescentes. O tema é pesado e tratado de maneira séria, ainda que fantástica. Acima de tudo, é um livro sobre perdas e sobre descobertas pessoais. A escrita é rápida e coesa, não perde tempo em floreios e nem tenta “encher linguiça”. Falando de um livro para jovens, sua maior qualidade aqui é que ele não perde tempo tentando explicar demais, teorizar demais. As coisas acontecem, acontecem muito rápido e você corre para acompanhar. Corre junto.

Agora, o grande burburinho é que o livro virou filme, que estreia em setembro sob a direção de Tim Burton. Eu acho isso ótimo, só lamento que, como sempre acontece, a divulgação do filme está aos poucos matando a importância do livro. Não gostaria que isso acontecesse sobretudo com esse livro em especial, que é tão bem escrito e tão rico. Ele merece muito a leitura.
Até por, como eu disse, ter todo um universo em volta dele. Depois do livro original, Ransom ainda escreveu mais dois para fechar a trilogia, além de outros livros que servem como complemento à história. É todo um mundo criado apenas com base em umas fotos antigas que o autor colecionava. Dá pra sacar a grandiosidade disso? Não é qualquer um que consegue criar uma obra desse porte e com essa qualidade toda.
Sobre o meu medo, no final não achei a história tão assustadora assim. E percebi que nem é essa a intenção. As fotos são de arrepiar, sim, mas a mensagem aqui é de encantamento, de descoberta e de valores. É uma história linda e acho que você deveria ler antes do filme. O filme vai ser incrível, não tenho dúvidas, mas dificilmente chegará aos pés do que é o livro (até por que, já vimos que vão mudar de modo absurdo personagens centrais).
Comprei O Orfanato… em formato digital por míseros oito reais na Amazon. A versão física sai por inacreditáveis quinze reais. Link aqui.
Ou seja, não tem desculpas pra não ler. Até eu li!
















