Resenhas

Eu li “O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares”

Estava morrendo de medo, mas que baita história

Não existe um dado oficial que eu possa usar como fonte confiável, mas se acreditam na minha palavra, posso garantir que sou uma das pessoas mais medrosas da face da Terra. Tenho aí algum problema que qualquer coisa um pouquinho mais misteriosa ou horripilante me faz correr léguas para longe. Não quero, não gosto.

No entanto, tem horas que você precisa dar o braço a torcer se quer estar por dentro do que está todo mundo falando.

Já tem um tempo que todo mundo está falando de “O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares”, o tal livro eleito uma das 100 obras mais importantes da literatura jovem de todos os tempos, traduzido para não sei quantos idiomas e best seller em não sei quantos países. Dos blogs de literatura que eu leio, as resenhas positivas era unânimes e vinham aos montes. Pelo o que li nesse sentido, achava a história um pouco creepy demais pro meu gosto, mas foi tanta gente falando que resolvi ler logo e me livrar disso (sim, é dessa maneira que eu ajo).

Ainda bem que tomei essa atitude, pois foi dos melhores livros que li esse ano, se não o melhor.

A história começa assim: Jake, um menino de 16 anos, perde o avô e fica muito abalado emocionalmente. A proximidade entre os dois era imensa. O avô era um veterano de guerra que costumava contar histórias sobre o orfanato onde viveu por um tempo, onde crianças com poderes estranhos eram acolhidas durante a segunda guerra mundial. Mostrava fotos, entre assustadoras e claramente forjadas, dessas crianças que ele chamava de peculiares. Essas fotos ficaram todas com Jacob e pareciam assombrá-lo e tornar luto ainda mais pesado.

Em busca de superar a perda, Jacob começa a frequentar um psiquiatra que endossa uma ideia meio maluca do garoto: viajar até os confins onde esse orfanato está e conhecer um pouco dessa história com os próprios olhos, para desmistificar a figura do avô. A família de Jacob topa, com a condição de que ele vá junto com o pai.

E assim, Jacob e o pai (filho do avô falecido), embarcam em uma jornada até uma ilha remota na costa do País de Gales em busca do tal orfanato. E aí, claro, coisas estranhas começam a acontecer.

Algumas das fotos (e personagens) do livro

Para contar essa história, Riggs mistura literatura e fotografia. Sabe aquelas fotos muito antigas, meio fantasmagóricas em preto & branco? Elas estão presentes no livro todo e ajudam a ambientar a trama. Acho que o maior mérito do Ransom Riggs aqui nesse livro é justamente esse: juntar um monte dessas fotos antigas e bizarras de freak show e conseguir criar não apenas uma história, mas um universo. Segundo li, o autor colecionava esse tipo de fotografia e analisou cerca de 10.000 fotos (entre suas e de outros colecionadores) para escolher as aproximadamente 50 contidas em O Orfanato…, seu romance de estréia.

Não espere um livro bobinho para adolescentes. O tema é pesado e tratado de maneira séria, ainda que fantástica. Acima de tudo, é um livro sobre perdas e sobre descobertas pessoais. A escrita é rápida e coesa, não perde tempo em floreios e nem tenta “encher linguiça”. Falando de um livro para jovens, sua maior qualidade aqui é que ele não perde tempo tentando explicar demais, teorizar demais. As coisas acontecem, acontecem muito rápido e você corre para acompanhar. Corre junto.

Mais algumas fotos (e personagens) do livro

Agora, o grande burburinho é que o livro virou filme, que estreia em setembro sob a direção de Tim Burton. Eu acho isso ótimo, só lamento que, como sempre acontece, a divulgação do filme está aos poucos matando a importância do livro. Não gostaria que isso acontecesse sobretudo com esse livro em especial, que é tão bem escrito e tão rico. Ele merece muito a leitura.

Até por, como eu disse, ter todo um universo em volta dele. Depois do livro original, Ransom ainda escreveu mais dois para fechar a trilogia, além de outros livros que servem como complemento à história. É todo um mundo criado apenas com base em umas fotos antigas que o autor colecionava. Dá pra sacar a grandiosidade disso? Não é qualquer um que consegue criar uma obra desse porte e com essa qualidade toda.

Sobre o meu medo, no final não achei a história tão assustadora assim. E percebi que nem é essa a intenção. As fotos são de arrepiar, sim, mas a mensagem aqui é de encantamento, de descoberta e de valores. É uma história linda e acho que você deveria ler antes do filme. O filme vai ser incrível, não tenho dúvidas, mas dificilmente chegará aos pés do que é o livro (até por que, já vimos que vão mudar de modo absurdo personagens centrais).

Comprei O Orfanato… em formato digital por míseros oito reais na Amazon. A versão física sai por inacreditáveis quinze reais. Link aqui.

Ou seja, não tem desculpas pra não ler. Até eu li!

Resenhas

Li 3 livros do David Levithan essa semana

O autor sensação do momento é tudo isso o que dizem dele

Fazia anos que eu estava a fim de ler os livros de David Levithan, mas por um motivo ou outro acabava deixando para depois e esse depois nunca vinha. As capas me interessavam, as sinopses me chamavam a atenção, todo mundo estava lendo… E eu ali. Parada. Eu via ele lançar um livro após outro, via esses livros virarem filme e eu cada vez mais atrasada para começar. É daqueles autores “modinha”, mas que se sustentam porque seus livros são realmente bons. Ele é muito bom. E ele vende muito bem. Eu tinha certeza disso, só precisa comprovar logo.

David Levithan, o autor

Norte-americano de 43 anos de idade, Levithan é o grande nome da literatura jovem atual. Suas obras fazem um sucesso tremendo por trazer o universo gay adolescente de maneira divertida, improvável e carregada de sentimentos sem ser piegas. Seu livro de maior sucesso (ainda não li) é Will & Will, escrito com John Green e primeiro livro jovem adulto gay a entrar para a lista do The New York Times, com mais 70 mil exemplares vendidos. Ele também é autor de Nick and Norah’s Infinite Playlist, este escrito junto com Rachel Cohn (ele adora uma parceria), que rendeu aquele filme fofuxo com o Michael Cera e a Kat Dennings. Ao todo, David já escreveu doze livros até agora e tudo indica que não vai parar tão cedo.

Pelo menos, não no que depender de mim. Assim que finalmente comecei a ler seus livros, me apaixonei de imediato e fui atrás de mais. Como você deve imaginar, achei tudo no Kindle Unlimited. Baixei sete livros dele de graça pelo serviço e gostei tanto do primeiro que escolhi para ler que acabei lendo mais dois em seguida. Os outro quatro da fila, lerei intercalando com outros autores, senão vira bagunça, né?

Essa imersão na obra de Levithan deu todo um gás ao meu instinto literário. Até comecei a escrever meu sexto livro, de tão inspirada que fiquei. Mas esse assunto é para depois, bem depois. Vamos falar agora desses livros que li essa semana.

Comecei por Todo Dia, que era o que eu mais queria ler, antes mesmo de saber quem era David Levithan. Publicado em 2013, esse é quem sabe o mais maduro dos livros do autor. Embora fale ao público jovem, seu foco aqui vai além da questão gay que é sempre presente em sua obra. Em Todo Dia, o autor expande seu território costumeiro e traz um realismo fantástico para a trama, algo que nos prende logo na primeira página.

Todo Dia conta a história de A, um adolescente de 16 anos que todo dia acorda no corpo de alguém. E fica neste corpo até que dê meia-noite, sem que ninguém saiba, nem mesmo a pessoa “possuída”. Assim, ele vive a vida dessa pessoa por apenas um dia e, quando amanhece, já está no corpo de outra. É algo que ele não tem controle e com o que tem que lidar desde o nascimento. Acompanhamos dia após dia na vida de A, cada história que ele toma posse por apenas 24 horas, até que o inesperado acontece: ele se apaixona por uma menina e precisa lutar para ficar com ela, apesar de sua condição. Será que tem como conseguir isso?

Em sua jornada de não-pertencer, de não ter passado nem futuro, A traz reflexões lindas. Em uma analogia perfeita, Levithan traz o personagem como a personificação de uma das nossas maiores angústias: a de não-pertencer a nada, a de ver tudo como efêmero e sem duração. Além disso: a solidão de não ter mais ninguém no mundo além de você que saiba exatamente como você se sente.

Esse foi um dos livros mais lindos que já li na vida. Soube que tem a continuação (a mesma história contada pelo ponto de vista da menina por quem A se apaixona), um spin-off lançado apenas como e-book contando a história que precede a que vemos no livro e também existe a possibilidade de um filme. Vamos acompanhar. Provavelmente consumirei todos esses produtos, mas ainda estou me recuperando do baque da história inicial, que é muito forte e muito bonita.

Empolgada com o autor, fui para Garoto Encontra Garoto, esse sim literatura jovem gay em toda a sua essência. Esse é o primeiro livro do David Levithan, onde ele já mostra a que veio. Traz a história de Paul, um adolescente gay totalmente assumido e resolvido que se apaixona por Noah, outro menino gay de boas. Eles namoram, mas aí algumas tretas acontecem e Paul precisa reconquistar o amor de seu amado. Até aí tudo bem, mas a escola onde Paul estuda é quase uma realidade utópica: nada convencional, lá os líderes de torcida andam de moto, a rainha do baile é uma quarterback drag-queen, e a aliança entre gays e héteros ajudou os garotos héteros a aprenderem a dançar. Todos ali tem uma sexualidade fluída e ficam entre si, independente de gênero, e nada disso parece ser um problema para ninguém. Eu gostaria muito que essa fosse a realidade entre os jovens, essa coisa toda sem preconceito. Não sei se realmente é, mas espero muito que seja ou que logo venha a ser.

O livro é bom. Os diálogos são maravilhosos e afiados e é mesmo impossível escapar de amar Paul. No fim, é um grande livro sobre amizade e eu gostei bastante. Como ele é bem curtinho (240 páginas), em dois dias eu já tinha terminado e começado outro.

Assim cheguei a Naomi & Ely e a Lista do Não-Beijo. Outra parceria com Rachel Cohn, tem uma capa absolutamente fabulosa e todo o clima de ser espertinho e fofo. Mas eu não gostei tanto.

Temos Naomi e Ely, amigos desde a infância, vizinhos de porta. Ela, a garota mais popular e linda do prédio (tudo se passa no prédio onde moram), ele, o gay mais requisitado de todos. É a dupla perfeita, os dois são lindos, desejados e são carne e unha um do outro. O problema é que Naomi é completamente apaixonada por Ely e ele nunca, nunca mesmo, ficaria com uma menina. Naomi vai levando essa situação até que Ely faz o imperdoável: fica com o namorado de Naomi. E o que ela não consegue aceitar não é a traição em si, e sim o fato de que Ely pode ficar — e vai — com qualquer pessoa, menos com ela, que é quem mais o ama no mundo.

A premissa é boa, mas foi o modo de contar a história que não me cativou. A linguagem é muito acelerada, emojis no lugar de algumas palavras, cada capítulo é um personagem falando (nem sempre um personagem relevante), enfim… Muito confuso, muita informação para uma história simples. É lógico, não sou o público alvo do livro. Sou velha. Mas ainda assim, os livros anteriores que li de Levithan eram perfeitamente aceitáveis para o meu paladar geriátrico. Só esse não colou, li até o fim em um esforço tremendo. Eu gostei da história, não da maneira como foi contada. O que consola é saber que tem filme do livro e eu assistirei essa noite, pra tirar esse ranço. Espero que seja mais legal que o livro.

Desse modo, acabou que li os livros na ordem em que mais gostei deles. Mas a verdade é que gostei de tudo, em um todo. Ainda tenho mais quatro do David aqui pra ler e mal posso esperar! É muito bom descobrir um novo autor para amar.

Você deveria tentar também. Que tal começar por esses?

Dicas

16 livros para quando você quiser ler algo romântico

Foto: Julie Fernanda

Se tem algo que não cansa, é o amor

Como se não estivesse com uns vinte livros na fila de leitura, dia desses resolvi perguntar para os meus amigos no Facebook que livro eles me indicavam. Queria alguma recomendação que trouxesse o “amor romântico” como tema, mas que não fosse adolescente (young adult) ou muito meloso (chick lit). Sabe aqueles romances mais maduros, mais sérios? Era isso o que eu tinha em mente. De todas as dicas incríveis que recebi, resolvi fazer um post sobre isso para ter registrado. E vai que alguém também se interessa?

Alguns eu já tinha lido, outros não conhecia nem o autor. De todo modo, estão todos aí.

Os títulos estão linkados ao Skoob porque lá já tem uma resenha legal e buscador de preço/disponibilidade.

Dessa lista, por já ter lido, eu recomendo as obras de Llosa e de Cuenca — são daquelas que você não esquece jamais. Funny Girl eu ainda não terminei de ler, mas Nick Hornby eu sempre recomendo de olhos fechados. Os outros eu nunca li, mas já adianto que Livre foi efusivamente recomendado, assim como Liberdade. Já 40 Days of Dating me chamou a atenção pela premissa moderninha: se trata do registro de um experimento real de dois amigos que tentaram namorar um com o outro por quarenta dias.

E é isso! Não deixe de me contar se começar a ler algum desses livros por conta desse post. Vou adorar saber!

Brain Dump*

Fui comprar café e chorei

Foto: Death to Stock

Essa cidade pode te deixar sentimental feito o diabo

Tenho pensado nisso ultimamente: até que idade você pode ser sentimental? Com 32 anos me parece que não se pode mais ser emotiva, ter dúvidas e aflições e escrever sobre elas. Parece que é exclusividade dos adolescentes escrever longos desabafos, abrir o coração e pedir ajuda. Dos adultos, se espera que você seja mais calado e tranquilo. Bom, ainda que eu seja tranquila, é impossível ficar imune ao sentimentos que me assombram vez ou outra.

Hoje fui comprar café, sai para a rua e dei de cara com uma banda tocando ao vivo na Paulista. Um trio metal de meninos novinhos e estilosos, eles tocavam uns Bruno Mars de raiz, uns hits do pop que tanto me cativam, e aquilo me atingiu feito um soco. Lembrei do meu pai, guitarrista e luthier fã de “boa música”, pensei no quanto ele ficaria encantando em andar pela Paulista junto comigo e ver essas bandinhas dando show a cada cem metros.

É claro, eu fiz uma escolha. Se não estou agora ao lado do meu pai e do restante da minha família é porque eu quis. E eu sou feliz com essa escolha, mas ainda assim existem esses momentos. Esses em que nada acontece e você chora. Você sempre vai encontrar pequenos vestígios do que deixou, essas lembranças doídas, essas possibilidades que são feridas abertas que não fecham nem com o passar dos anos.

Gravei alguns segundos da apresentação dos caras, mandei pra minha mãe falando pra ela mostrar pro meu pai. Guardei o celular no bolso e chorei. Ridículas e cafonas, lágrimas escorriam por baixo do meu óculos de grau. Pelo amor de Deus, como você se constrange e me constrange, eu disse para mim mesma em silêncio.

Depois passou.

Eu imagino as pessoas me vendo na rua chorando, as pessoas vendo meus textos na timeline e pensando “Jesus Cristo, você já é adulta, cresça”. A verdade é que eu sou meio assim mesmo e não tem muito o que fazer. Provavelmente ainda vou escrever sobre meus sentimentos até o final da vida, ainda vou constranger e afastar conhecidos e desconhecidos sempre que tiver a chance.

Ainda vou ver um cara tocando guitarra na rua e lembrar do meu pai. Ler um livro e pensar “caralho, como eu queria poder abraçar o protagonista”. Ainda vou me magoar quando notar pela enésima vez que ninguém liga para o que escrevo.

Mas é isso. A gente seca as lágrimas e continua. Aos 15, aos 32, o resto da vida e a vida toda.

Resenhas

“Redoma” e “Desenhos”: mais um pouco de Sylvia Plath

Uma das artes que integra a coletânea “Desenhos”, de Sylvia Plath

Como era de se esperar, eu não consegui parar em um livro só

Antes sequer de saber da existência de Sylvia Plath, eu vi na Amazon um livro que me chamou a atenção pela capa. Na breve sinopse do site, dizia que ele era inspirado em “A Redoma de Vidro”. Nunca tinha ouvido desse, então decidi que deveria lê-lo antes de ler esse que eu tinha me interessado em primeiro lugar. Foi aí que tudo começou…

Com a leitura de A Redoma de Vidro, um novo universo se abriu para mim. Após digerir a leitura e escrever sobre o tema, quis ler mais da autora. Infelizmente, não achei muitas obras autorais, essas estão fora de circulação em peso faz anos. Encontrei, sim, muitas análises e biografias não-autorizadas escritas por outras pessoas — o que não me interessou de cara. Do que achei da autora, Ariel, sua obra mais famosa, estava custando R$120 em média, um dinheiro que eu não poderia gastar com isso agora.

Mas a gente não desiste e, procurando muito, achei Desenhos de graça no Kindle Unlimited. Ele é do mesmo selo desse relançamento de A Redoma de Vidro (que também está de graça no Kindle Unlimited). Talvez não seja o livro ideal para se ler em um leitor digital, posto que são ilustrações e tal. Ainda assim, dá pra aproveitar bastante: são apenas 80 páginas que passam muito rápido, entre textos e desenhos.

O livro traz uma coletânea de desenhos e de cartas de Sylvia Plath para a mãe e para o marido, o também poeta Ted Hughes, datadas de antes, durante e depois da Lua de Mel que passaram na França e Espanha. Conhecemos então uma Plath diferente da que vemos em A Redoma de Vidro. Em Desenhos, ela está feliz, inspirada, cheia de expectativas e bom humor. A paixão por Hughes a move a sair mais pelas ruas em busca de inspiração e a se testar nos desenhos, arte na qual ela descobre ter talento e logo se vê publicada em alguns jornais.

Amo realmente essa cidade, mais do que qualquer outra onde alguma vez estive; é doce e graciosa e elegante e é tudo o que a gente fizer dela.

Em Paris, Plath se vê feliz como nunca esteve. Amando e sendo amada, com um futuro promissor pela frente. É difícil imaginar que, seis anos depois, tudo mudaria de maneira tão drástica: as traições de Hughes, o divórcio, a depressão e o suicídio.

A coletânea também é interessante por trazer um prefácio de Frieda Hughes, filha mais velha da poeta, que abre o livro dando um contexto das obras que vamos encontrar nele e também afirmando que sua mãe, como se pode ver, nem sempre foi uma pessoa infeliz e magoada pela vida. Ela também teve momentos de alegria e esperança. É o que temos em Desenhos e só por isso já vale a leitura.

Então, eu já estava pronta para finalmente ler aquele primeiro livro que me interessou pela capa.

Redoma, de Meg Wolitzer, foi eleito o melhor livro jovem do ano pela Time em 2014. Ele também pode ser adquirido de graça pelo Kindle Unlimited e foi assim que eu consegui o meu (note que em menos de um mês eu já li três livros incríveis a custo zero — e você ainda tem dúvidas).

Ele é inspirado pelo livro da Sylvia Plath e, depois de toda essa imersão, confesso que passei a ver com outros olhos essa ideia. Como assim, alguém acha que pode ser capaz de imitar Plath? Mas a verdade é que Redoma não é uma tentativa de cópia e nem uma releitura. É um tipo muito mais delicado e bonito de homenagem.

Redoma conta a história de Jam, uma menina de 16 anos que, após a morte do namorado, mergulha em uma depressão quase catatônica. Sem ter mais para onde correr, seus pais a internam em um retiro para jovens intelectuais (sim) “emocionalmente frágeis” (pois é), o Celeiro. O lugar funciona como um internato com acompanhamento psicológico. Chegando lá, Jam não se vê muito disposta a colaborar, ninguém pode imaginar a dor que ela sente por ter perdido Reeve, até que é incluída na aula de “Tópicos Especiais em Inglês”, ministrada por uma senhorinha misteriosa e fofa, a Sra. Quenell.

O livro de estudo escolhido pela professora é A Redoma de Vidro. Jam e os outros quatro alunos da reduzida turma precisam ler e debater diariamente sobre ele. Além disso, Sra. Quenell lhes dá um diário, onde eles devem escrever sobre o que tiverem vontade e quando. Diante disso, algumas coisas começam a mudar dentro de Jam. E acontecimentos fantásticos passam a acontecer.

O diário fica dentro de uma gaveta da minha escrivaninha, pulsando como um pequeno coração arrancado do corpo.

Da escrita de Plath, o que mais gostei foram as analogias poéticas que ela faz. Também temos disso em Redoma, principalmente do meio para o fim, quando as coisas realmente começam a acontecer. Narrado em primeira pessoa, vemos junto com a protagonista o seu amadurecimento acontecer. Jam é toda medo e tristeza, para então ir evoluindo em empatia e coragem. Os outros quatro integrantes da sua turma de estudo são tão disfuncionais quanto ela, com seus próprios traumas e questões a serem resolvidas, e juntos eles acabam se descobrindo.

A força que os leva adiante é a amizade que desenvolvem e a imersão na obra de Sylvia Plath. E embora um livro triste como A Redoma de Vidro não pareca ser o mais indicado para um grupo de cinco jovens depressivos, acabamos por descobrir que é algo que funciona. Saber que outras pessoas já se sentiram como você, que sua dor não é a única — isso ajuda a curar.

Redoma é curtinho, menos de 300 páginas, e eu devorei em menos de três dias. Sem dúvida, merece os prêmios todos que levou. É de uma delicadeza incrível e tem um dos finais mais inesperados que já li. Eu fiquei realmente sem ar enquanto lia o capítulo final. Isso era algo que eu não esperava com a leitura, achei que seria só superação & aprendizado, mas o modo como a autora entrega essa lição é dos mais improváveis.

E foi assim que querendo ler um livro, acabei lendo três. Três livros incríveis que, cada um a seu modo, me ensinaram um pouco sobre mim e sobre empatia pela dor dos outros. Obrigada, Sylvia Plath.

Dicas

Sim, você deveria ter um Kindle!

Foto: Death For Stock

Acredite, você consegue aderir aos livros virtuais

Tenho um Kindle há pouco menos de dois anos. Oscilo entre momentos de leitura voraz, até dois livros por semana, e de preguiça retumbante, quando me enrolo por quase um mês para terminar um livro de 250 páginas. Seja como for, é sempre bom tê-lo por perto.

Falo especificamente do Kindle porque é o que eu tenho, mas as vantagens de se ter um leitor digital não se restringem a esse modelo — e são vários no mercado. É sempre uma livraria que cria o seu leitor digital e o coloca no mercado. Pela Livraria Cultura, temos o Kobo; o Lev é da Saraiva. E tem o Kindle, da Amazon. Com algumas variações técnicas entre si, todos servem para o que você precisa: ler mais. Não precisa ler um milhão de livros por ano para o investimento valer à pena. Pode ser, apenas, uma página por dia. Isso já é ler mais!

Nesse ponto, a grande diferença entre livro físico e livro digital quem sabe seja essa. Se você fica por uma semana com um livro na bolsa e não o lê, fatalmente desiste de ficar carregando aquele peso e joga o livro pro canto. Com o e-reader, tão levinho, fino e imperceptível no meio da bagunça da mochila, isso dificilmente vai acontecer. O que acaba se tornando uma chance maior de retomar a leitura quando você finalmente estiver a fim.

Sem contar que o leitor digital cabe centenas de livros e você pode ler qual quiser, quando quiser. Sabe aquilo que a internet te ensinou de ter tudo ao mesmo tempo agora? Os leitores digitais te entregam de bandeja. E você já se imaginou carregando dezoito livros físicos porque não sabe qual ler naquele dia? Pois é…

Estou sempre defendendo a bandeira do e-reader, pois vejo que tê-lo realmente dá um gás nas nossas leituras. Eu sei que ele é recomendado massivamente “para quem lê muito”, mas acho que não é só para isso. O e-reader também é para quem lê pouco. E é, principalmente, para quem quer retomar o hábito da leitura.

Acredito que, do mesmo jeito que mudamos a nossa maneira de encarar a TV, a música e os jornais, também precisamos mudar a forma de encarar os nossos hábitos de leitura. Isso é possível com o leitores digitais.

Quando eu digo para alguém que já li dez livros esse ano (o que é pouco dentro dos meus padrões, mas é o que consigo nesse ritmo de vida atual), sempre tenho suspiros tristes como resposta. “Queria ler mais, também. Queria ter tempo para ler…”, é o que sempre ouço. A questão é que eu também não tenho tempo!

Ainda vemos a leitura de um livro como um momento sagrado. Algo que precise de um ritual a ser seguido, em que você senta perto da lareira, pés pro ar no sofá e roupa limpinha, então coloca seus óculos de leitura e abre a primeira página daquele catatau de mil páginas. As coisas não são mais assim. Ninguém mais tem tempo para isso (para nada!) e precisamos aproveitar cada brecha se queremos ler algo. Por isso, os livros virtuais são tão importantes.

A verdade é que eu arranjo tempo para ler porque eu não paro para ler. Eu leio enquanto estou esperando ônibus. No banheiro, fazendo número um ou dois. Leio enquanto estou tomando café da manhã ou enquanto espero o delivery entregar o meu jantar. Não precisa ser todo dia e muito menos o dia todo. Não precisa ser um capítulo inteiro. Muitas vezes, não precisa nem ser uma página inteira. Você lê um trecho, pensa naquilo de modo não esquecer por completo assim que tirar os olhos e segue em frente na sua rotina.

Assim como vamos pulando de uma rede social para outra, de uma conversa para outra e de uma atividade para outra, vamos incluindo a leitura em nossa rotina nesses intervalos entre isso e aquilo.

Tirar a leitura do pedestal e inclui-la no cotidiano: essa é, quem sabe, é a maior vantagem do e-reader. Mas não é a única.

Falando do Kindle, que é o que conheço melhor, ainda existem mais facilidades para ler o que quiser, quando quiser, quanto quiser. Para começar, ele tem um app para mobile que é uma mão na roda. Com ele, eu leio do iPhone mesmo. É ótimo para você dar um tempo do FOMO de redes sociais. Você vai lá no app para ler uma página só, ali enquanto espera uma reunião começar, e quando viu já leu três e evitou de ficar se irritando com Twitter ou Facebook. Não se esqueçam, ler é algo que acalma. Acalma ainda mais se você usa a literatura para te tirar do vórtex de ansiedade que são as redes sociais.

Ainda sobre o aplicativo, se você tem receio e acha que não vai se adaptar à leitura na tela, pode usar o app para se testar, antes de se decidir pelo leitor digital. Se bem que com o tempo que a gente passa diante do celular, acho que isso de não conseguir ler na telinha já não serve mais de desculpa…

Mas e os livros? Tem muitos? Tem todos os que vemos na livraria? Sim! E até mais! É comum livros mais antigos ou muito procurados se esgotarem rapidamente nas livrarias quando são relançados. Nas livrarias virtuais, eles nunca acabam. Sem contar o fato de serem mais baratos e de você não ficar juntando volumes em casa. Você deixa para comprar a versão física apenas daquele livro que gostou demais ou que gostaria de presentear alguém.

Mais uma vez puxando a sardinha pro meu queridinho Kindle, ele tem um catálogo expandido: é o Kindle Unlimited, serviço onde por R$19,90 por mês você tem acesso à imensidão do catálogo da Amazon “de graça”. Não tem os grandes lançamentos assim que saem, mas não demora a chegar. O Quarto de Jack, livro que originou o filme oscarizado ano passado, por exemplo, já está lá para ler de modo gratuito para quem assina o serviço. E os primeiros trinta dias são grátis…

Assim, mesmo que você não tenha o costume de ler muito, acaba indo no embalo da facilidade de adquirir o livro e de poder lê-lo a qualquer instante. Por isso eu digo que os leitores virtuais não são só para os ratos de biblioteca. Todo mundo pode criar o hábito e fazer dele algo divertido. É muito divertido, aliás! Para mim, não é muito diferente de um jogo. Eu escolho os livros que quero, leio no meu tempo, estou sempre por dentro do que de novo está rolando no mercado literário e tenho mais um passatempo para aqueles minutinhos em que estou à toa e sinto que deveria estar fazendo algo.

Aí você vem me dizer: “Ah, mas eu não consigo ler muito, perco o foco…”. Se eu consegui prender a sua atenção até aqui (mesmo que você tenha ido e voltado entre abas e apps), você consegue ler o suficiente para começar um livro e ser envolvido por ele. Vai por mim. Você deveria ter um leitor digital, sim!


Alguns links:

Processo Criativo

Inspiração é um negócio muito louco

Lindo e forte, renasce das cinzas

E ainda vai te enlouquecer também

Em algum momento todos ao meu redor se cansaram de me ouvir falar de Daniel Johns, meu role model de doença, se é que podemos chamar assim. O cara em quem me inspirei quando estava no pior do câncer. Parei de falar sobre o assunto, também. Hoje descobri, maravilhada e surpresa, que uma (uma! apenas uma!) amiga minha ainda não sabia da linda história de superação de Johnsty. O despertar se deu quando, casualmente, coloquei o clipe de Cool On Fire no nosso random diário.

– Menina, eu não sabia que ele tinha mudado! Achei que ainda estava cabisbaixo!

– Mulher, ele mudou! Ele agora é pop, é tipo Usher, ele superou as doenças todas e tacou o foda-se pro rock!

– Tô vendo! Ele passou por umas tretas sérias, eu lembro.

– Anorexia, artrite, depressão… Ficou sumido uns anos, aí voltou todo contente e saudável tocando música pop.

– Menina, que loucura.

– Quando eu descobri, fiquei desgraçada da minha cabeça. Foi bem na época da minha doença. Eu meio que me espelhei nele. Nessa coisa da superação, sabe?

– Menina…

– Foi aí que escrevi três livros sobre ele.

– Quando eu fico meio obcecada assim eu só procuro umas fotos do artista no Google…

– Pois é, é que eu…

Eu não tenho muita explicação para isso. Inspiração é um negócio muito louco. Mesmo.


Os livros estão aí.

Os novos trabalhos de Daniel Johns, todo pop & eletrônico, também.

Resenhas

Um olhar sobre ‘A Redoma de Vidro’, de Sylvia Plath

Direto dos anos 60, um retrato cru e poético da depressão clínica

A Redoma de Vidro foi lançado em 1963 e é o único romance da escritora e poetisa norte-americana Sylvia Plath. O livro conta a história da jovem Esther Greenwood, uma moça de dezoito anos que vai dos subúrbios de Boston para uma prestigiosa universidade para moças quando ganha uma bolsa de estudos e estágio em Nova York. Com essa chance, o mundo parecia estar se abrindo para a garota, enquanto sua rotina se divide entre o trabalho na redação de uma revista feminina e uma intensa vida social. Tudo parece correr bem, mas esse panorama promissor acaba sendo o gatilho de uma crise emocional que levaria Esther do glamour da Madison Avenue para a clinica psiquiátrica.

O livro é de uma delicadeza sublime. Narrado em primeira pessoa, ele nos mostra como a crise de Esther se dá sem nenhum motivo em particular. Não é de um dia para o outro, é extremamente sutil o modo como ela vai aos poucos sendo consumida pela depressão. Por meio da escrita doce e melancólica de Sylvia Plath, vamos nos perdendo junto com Esther. Em alguns pontos fica tudo um pouco confuso, não se sabe se o que está acontecendo é algo factual ou um delírio da personagem. Somos conduzidos por Esther e caminhamos ao seu lado enquanto ela se vê sendo engolida pela vida, sem defesas e sem escapatórias.

A escrita, eu já disse, é maravilhosa. Sylvia (ou Esther) faz uso de analogias tocantes e cheias de poesia, de modo que a experiência da leitura é quase como a de ler um poema um pouco mais extenso do que o usual.

Esther nos é apresentada como uma menina extremamente inteligente e esperta, até cínica, mas também frágil e sentimental. Tudo o que lhe acontece, por mais cotidiano que seja, lhe deixa marcas profundas sobre as quais ela se perde em pensamentos tão profundos quanto.

Parecia haver fumaça saindo dos meus nervos, como aquela que saia das churrasqueiras e da estrada. Toda a paisagem — praia, encosta, mar e pedras — tremia diante dos meus olhos como a cortina de um palco.

São as inúmeras possibilidades que confundem Esther e acabam por minar a sua sanidade. Em uma das passagens mais icônicas do livro, ela compara seu futuro com uma figueira, onde sua vida tomava diversas direções, como os galhos da árvore.

Na ponta de cada galho havia um figo maduro − um maravilhoso futuro. Um figo era um marido, um lar feliz e filhos; outro, ser uma poeta famosa; outro, uma professora ilustre e mais outro era ser Éxis, a incrível editora; outro, conhecer a Europa, África e América do Sul e ainda outro era Constantin, Sócrates, Átila e um monte de outros namorados com nomes estranhos e profissões esdrúxulas; e um figo era ser campeã olímpica de equipe de remo e além desses tinha tantos outros figos que eu não conseguia nem ver.

Imaginei que estava sentada embaixo da figueira, morrendo de fome por não decidir que figo escolher. Queria todos, mas, escolhendo um, não podia pegar os outros e, enquanto ficava sentada ali, incapaz de resolver, os figos começaram a amadurecer, apodrecer e cair aos meus pés.

A pressão da mãe e da sociedade para que ela “tome um rumo” e se case são angustiantes. Suas dúvidas quanto ao futuro a atormentam e, somadas ao seu medo de não conseguir ser boa em nada, fazem com que ela se veja refém de um bloqueio criativo e não consiga escrever mais. Sendo a escrita o principal foco de sua vida, o bloqueio acaba por deixar Esther absolutamente mortificada e paralisada. Do pavor ela vai à apatia. Não come mais, não toma banho, não dorme. E é aí que acaba sendo internada em uma clinica psiquiátrica. E aí vem os eletrochoques e as tentativas de suicídio.

É desconcertante imaginar uma pessoa sendo internada e levada a tomar choques no cérebro apenas por estar triste ou não saber o que fazer da vida. No entanto, à época em que o livro foi escrito, isso era relativamente comum. A depressão e o transtorno bipolar ainda eram vistos tão somente como um mal menor e bobo, do qual a pessoa poderia se livrar se tivesse força de vontade e quisesse de verdade. Em uma das passagens do livro, Esther leva o primeiro eletrochoque e diz não querer nunca mais voltar à clinica. “Eu sabia que minha bebê não era como eles. Eu sabia que você iria resolver voltar a ficar bem”, é o que a mãe da menina responde.

Ainda mais desconcertante é descobrir que o livro é repleto de referências autobiográficas. A narrativa é inspirada nos acontecimentos do verão de 1952, quando Sylvia Plath tentou o suicídio e foi internada em uma clínica psiquiátrica, onde foi submetida à uma série de eletrochoques, assim como Esther. Após esse período, Sylvia conseguiu reconstruir sua vida, na medida do possível, chegando a ser uma autora publicada, além de ter casado e ter dois filhos.

Com 30 anos de vida, família e carreira sólida, era de se pensar que Sylvia havia finalmente escolhido os figos de sua figueira. No entanto, cerca de um mês após a primeira publicação de A Redoma de Vidro, na manhã de 11 de fevereiro de 1963, Plath vedou completamente o quarto dos filhos com toalhas molhadas e roupas, deixando comida perto de suas camas, tendo ainda o cuidado de abrir as janelas do quarto para entrar ar. Em seguida, tomou uma grande quantidade de remédios, deitou a cabeça sobre uma toalha no interior do forno com o gás ligado e morreu em poucos instantes. Na manhã seguinte, seu corpo foi encontrado por uma enfermeira que ela havia contratado.

Sylvia Plath foi uma escritora incrível, um dos grandes nomes da poesia confessional. Com seu único e quase póstumo romance, ela abre o coração sobre suas feridas e lança luz sob uma doença que pode atingir qualquer um e para a qual todos devemos ter cuidado e respeito. Um retrato da depressão clínica e de como ela age silenciosamente, assim é A Redoma de Vidro. Poético, denso, bonito e extremamente triste. Com certeza, a leitura dele vai despertar algo em você. Pode ser um sinal de alerta, pode ser a compaixão por quem já passou ou passa por isso.

Seja como for, é um despertar necessário.


A edição mais recente de A Redoma de Vidro é da Editora Biblioteca Azul e se encontra indisponível na maioria das livrarias. Na Amazon, você encontra o ebook por menos de vinte reais ou de graça pelo Kindle Unlimited.

Todas as ilustrações deste artigo são de Julia Bereciartu e integram um projeto pessoal da artista inspirado pelo livro.