crônicas

Os heróis que são nossos

Palmeiras x Chapecoense, 27 de novembro, pelo Brasileirão de 2016 — Créditos: Pedro Martins (MoWa Press)

Mais nossos do que qualquer razão pode explicar

Corri pro carro do meu pai e chorei escondida no banco de trás. Estacionado na frente da casa dos amigos que visitávamos naquela manhã de domingo, ninguém podia me ver dentro do Fusca bege enquanto eu tentava entender o que sentia. Era 1994 e Senna tinha morrido.

Por semanas, dormi abraçada com a fita K7 que recém tinha ganho da minha mãe. Era a minha banda favorita e eu sabia de cor todas as músicas. No dia em que aconteceu eu achei tão poético que até parecia certo, embora doesse demais. Era 1996, eu tinha 12 anos e a Mamonas Assassinas inteira tinha morrido em um acidente de avião.

A tragédia é da família e dos que ficam. Algo tão íntimo e fundo, ninguém é capaz de mensurar a dor de quem perde um amigo, um pai, um irmão ou um filho em uma catástrofe assim. Para nós que observamos de fora, os olhos vidrados na TV, fica o vínculo que criamos com aqueles ídolos. O quanto eles eram nossos por conta das alegrias que nos deram, dos feitos heroicos, da trajetória de anos ou meteórica, das fotos, das histórias. O quanto eles eram nossos por parecerem tão divinos a cada vitória e tão humanos a cada derrota, mais nossos ainda a cada declaração polêmica e até nos deslizes mais prosaicos.

No domingo, vi meu time ser campeão. Em um país que ama e odeia o futebol na mesma medida, é quase aos socos metafóricos a argumentação de você que quer impor algum respeito por amar um time com o mais irracional dos corações. Na festa antes do jogo, barreiras policiais nos impediam de chegar até o estádio. Perto do estádio, calor e multidão, uma multidão de iguais, nos atrasava para entrar em campo junto com nossos jogadores. Na hora do jogo, toda essa angústia, as horas, os dias, meses e anos de espera foram esquecidos.

É difícil amar o futebol, mas é lindo. Os jogadores que você conhece de longe, os vê pequenos sendo gigantes lá no gramado — do Gol Norte fileira HH é bem distante e ainda assim vemos tudo. Personagens que você ama com todo o ódio do mundo. As contratações que especula, a tática que não é bonita ainda que funcione, a raiva dos desmandos do presidente, a ansiedade que transborda em unhas roídas, vozes alteradas, braços arrepiados quando o atacante chuta e… Quase é gol. As vezes é.

No domingo, vi meu time ser campeão. Amei cada um dos seus jogadores, ri de suas falhas com o carinho de quem ama sem ter outra saída senão amar. Pude ver o quanto o futebol é grande, enorme, maior que qualquer outra emoção que eu já possa ter inventado para mim. Soube do mais lindo que se pode chegar, a alegria febril de voltar a pé do estádio até em casa, sete quilômetros debaixo de chuva e rindo feito imbecis.

Hoje um time inteiro morreu. São nove da manhã e eu choro no meio da rua, segurando sacolas, esperando o táxi, me sentindo pequena demais para caber sequer no meu bolso. Tão pequena quanto em 1994, menor ainda do que em 1996. Enxugo as lágrimas e penso que não posso chorar aqui, não posso chorar em lugar nenhum a não ser na minha casa e até eu voltar para ela ainda demora. Do time, dos setenta e um mortos nessa tragédia, não sabia muito além do fato de terem sido eles nossos adversários naquele jogo de domingo em que fomos campeões. Sendo assim, e era muito e era o suficiente, eles eram mais nossos do que quaisquer outros virão a ser.

A minha medida não serve para todos, mas pode ser comum a vários. Não muda o que aconteceu, só torna claro o fato de que é uma tragédia que os familiares vão sentir na carne, enquanto sentimos naquela fina linha de idolatria que nos faz amá-los tanto a ponto de achar que eram parte nossa. E por pertencerem tanto a cada um de nós, cada um a seu modo, os ídolos são de todos e transcendem a morte. Mito na raiz da palavra, antes de virar expressão gasta de internet.

Naquele domingo do título, onde sorri por vinte e quatro horas seguidas, me senti tão enorme que era invencível. Hoje o choro tomou conta de tudo em uma nuvem pesada que me botou de volta no meu lugar.

Nos colocou de volta em nosso lugar. O sorriso virou reverência, o grito de felicidade virou silêncio respeitoso. Você para pra pensar e não acredita. Se eram tão nossos e tão heroicos, tão invencíveis e incríveis, como pode acabar assim? Então você lembra dos dias no estádio, na paixão de cada dia pelos onze em campo e mais os que ficaram no banco. E entende que não acaba aqui. Como não acabou naquela curva em 1994, como não acabou na Serra da Cantareira em 1996. Porque tudo o que nos ensinaram e nos fizeram sentir nunca vai se perder, como a taça que se ergue e os inúmeros lances improváveis que viram conversa no dia seguinte. Todos os pequenos detalhes que faziam da história deles um pouco a da gente e tornavam a nossa vida mais emocionante por conta do que eles viviam.

É assim no futebol e em qualquer paixão que se sinta. Só que no futebol parece que é mais. Pode ser impressão minha, não sei. Uma coisa é certa, nossos ídolos são nossos e, sendo nossos, não serão esquecidos jamais.

Resenhas

Resenhas rápidas: Diane Keaton, DNA e romances

Francis Ford Coppola, Al Pacino e Diane Keaton by Harry Benson, 1971.

Os seis livros que li no último mês — mais ou menos

Na verdade, tem dois livros aí que eu li anteriormente esse ano, mas só agora foram publicados e entraram nos Skoob e GoodReads da vida. Então, resolvi deixar tudo atualizado nessas redes e inclui-los nas minhas resenhas do mês. Vamos lá?

  • Alucinadamente Feliz: Um Livro Engraçado Sobre Coisas Horríveis — Jenny Lawson: Esse livro tem uma capa linda e foi por isso que comprei. A história é boa, só não me cativou tanto. Não é um romance e nem ficção, é a autora falando do seu cotidiano como alguém com ansiedade, depressão, distúrbio de automutilação, transtorno de personalidade esquiva e um ocasional transtorno de despersonalização, além de tricotilomania. Pois é. Apesar disso, ou justamente por isso, Jenny é uma pessoa (alucinadamente) feliz e essa sua felicidade inebriante é o tema do livro. Eu gosto desse tom de superação e de “você pode ser feliz apesar de todos os problemas”, mas ali achei meio cansativo o quanto ela é eufórica demais sobre tudo. Acho que não era o que estava procurando em um livro, escolhi o momento errado para lê-lo e por isso me cansei tão rápido. De todo modo, é um livro legal e você certamente dará umas boas risadas (eu ri bem). A alegria de Jenny Lawson parece ser verdadeira e ela dá boas lições de vida, além de contar causos hilários.
  • A Melhor Coisa Que Nunca Aconteceu na Minha Vida — Laura Tait & Jimmy Rice: Possivelmente um dos melhores romances que li esse ano. O mais divertido, fofinho, melhor escrito e gostoso de ler. Conta a história de um rapaz e uma moça que são amigos desde a adolescência, apaixonados em segredo um pelo outro, até que se reencontram na vida adulta e a pergunta é: será que ainda é tempo de se declarar e viver esse romance? Cada capítulo traz o ponto de vista de um dos personagens, Holy e Alex, e você vai descobrindo os pontos escondidos da história que fizeram com que os dois se distanciassem no decorrer da vida e o motivo de nunca terem revelado um para o outro o amor que sentem. O meu favorito é o Alex, o jeito dele descrever seu dia, seus amigos, é muito engraçado e verdadeiro. Eu amei esse livro e leria tudo o que os autores escrevessem pelo resto da vida.
  • Um Encontro (Depois do Fim #1) — Lillian Lyra: Esse eu já tinha lido antes, lá pelo meio do ano no Wattpad, mas agora chegou na Amazon e eu baixei para prestigiar a amiga. A história de “Um Encontro” é bem bonita e pesada, um caso de amor improvável que poderia dar certo, mas a moça esconde um segredo terrível que… Leiam! A Lillian prometeu que a história terá continuação e eu vivo por isso.
  • Malvarrosa — Tati Lopatiuk: TE METE! Meu primeiro livro publicado pela Amazon, Malvarrosa esteve disponível durante todo o ano no Wattpad e esse mês se tornou exclusivo para Kindle e seus assemelhados. Obviamente sou suspeita para resenhar, então vamos à sinopse. Se trata de uma história de amor e amizade com um tom meio sobrenatural. É bem curtinho, 62 páginas e você lê rapidão. Compre aqui, depois me diga o que achou!
  • Agora e Sempre: Memórias — Diane Keaton: Lindíssimo livro que uma amiga fez questão que eu lesse e me emprestou o seu. E acertou na imposição literária (adoro), o livro é ótimo. Não é exatamente uma autobiografia da Diane Keaton e sim uma homenagem da atriz à sua mãe, onde vasculhando os inúmeros diários que esta deixou descobrimos de onde veio a base para Diane ser a pessoa incrível que é. É um retrato muito delicado e emotivo da relação entre mãe e filha e, claro, refletindo sobre a história da mãe, Diane também abre espaço para que conheçamos a sua. Dos tempos do teatro, o começo da carreira no cinema, o relacionamento com Woody Allen, a eterna paixão por Al Pacino, a maternidade solo e tardia com a adoção, está tudo ali sem censura. Leitura para emocionar e ficar de coração quentinho.
  • O Polegar do Violinista: E outras histórias da genética sobre amor, guerra e genialidade — Sam Kean: Esse livro é incrível, daqueles que você lê quando quer se sentir bastante inteligente e de um jeito pop. Eu estava com saudades de ler livros tipo os do Oliver Sacks, sabe? Aquelas não-ficções sobre temas cabeçudos, porém tratadas de um jeito leve e divertido. O livro de Sam Kean é perfeito nesse sentido, aprendemos sobre DNA e genética desde o começo dos tempos ao mesmo tempo em que ficamos sabendo de histórias absurdas que aconteceram para que hoje pudéssemos desfrutar de conhecimentos como genoma e outras tretas. Recomendo demais, muito mesmo.

E foi isso! Desses livros, a maioria eu peguei pelo Kindle Unlimited. As excessões foram Alucinadamente Feliz, que comprei a versão digital pela Amazon e Agora & Sempre, que emprestei a versão física da amiga. Tinha fechado uma meta de leitura em 35 livros no GoodReads para esse ano. Já estou em 29, acho que consigo!

crônicas

A Festa do Bife

Foto via Cruising The Past

Do tempo em que um pedaço de carne era o suficiente

Originária da Idade Média e sem data para ser extinta, a Festa do Bife surgiu da vontade de um grupo de amigos em se encontrar e, bem, comer bife. Idealizada inicialmente por pessoas interessadas somente em bife e conversa prosaica, a Festa tornou proporções maiores quando foi introduzido o purê de batata no cardápio, algo que a princípio causou revolta, mas depois da primeira garfada o pessoal meio que ficou mais tranquilo e começou a ver vantagem.

Salada? Sim, se possível de alface. Arroz? Certamente, pois agregar é a palavra-chave da Festa do Bife. Incrível como as pessoas, quando querem, conseguem acertar na medida e proporcionar festas inesquecíveis utilizando somente itens da cesta básica. Simplicidade e amor parecem ser os ingredientes não tão secretos dessa receita que tem aproximados corações e forrado estômagos através dos séculos.

Bebida é outro ponto primordial da Festa. Não raro os comensais se divertem entre garfadas no bife e goladas de cerveja gelada, quando não um refrigerantezinho também desce bem. Existem os entusiastas do suco de frutas, mas francamente, é um bife, um purê de batata e um arroz, estamos entre amigos, não precisa fingir ser saudável. Até porque depois terá a sobremesa.

Ah, a sobremesa. Delícia doce que nos inebria a alma. Açúcar desempenhando a sua função e tornando o mundo mais tolerável. Em se tratando de Festa do Bife, toda doçura é bem-vinda e incentivada. Há registros de que a Torta de Limão é a grande estrela nessa função, mas não foi confirmado a tempo, os pedaços acabaram muito rápido. Era Torta de Limão ou Mousse de Chocolate? Hipnotizados pelas boas sensações, fica só o registro pouco claro da saudade.

Não obstante a sedução alimentar, ainda existe a parte recreativa da Festa. A festa em si. Os folguedos. A alegria. Jogos, conversas paralelas, cachorro pulando pela casa toda. Disputas por melhores pontuação em apostas. Descer ali rapidinho comprar mais pilhas. Isso é eterno na Festa, é o que o torna tão viva em nossos corações.

Atualmente, a Festa do Bife vem perdendo lugar entre os jovens para baladinhas e Manifestações na Rua, mas quem é de Bife jamais deixará de ser de Bife. Embora tenha raras edições nos dias de hoje, a Festa do Bife ainda resiste, tal qual um bife cheio de nervos a ser estraçalhado pela juventude sem rumo.

A saudade machuca, mas a certeza de que a Festa do Bife não morreu é o que nos empurra adiante. Mesmo nos dias atuais em que somos engolidos pelo cotidiano e mal temos tempo de fazer um purê de batata, a Festa do Bife está ali em nosso pensamento, só esperando o momento certo para acontecer. E acontecerá, um dia. Um dia nos encontraremos novamente em volta de um prato de bife, amigos.


Texto publicado originalmente em 21 de junho de 2013 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.

Brain Dump*

Nada mudou

Foto: Death to Stock

Um reencontro consigo mesmo podem trazer novidades antigas

Você pode encontrar seu eu do passado ao andar desavisada pela rua, tomar um susto e se arrepiar como um gato pelo o que vê e lembrou. Também pode encontrá-lo no meio da noite, na cena de algum filme. Quieta e sozinha na casa vazia, enquanto faz um café. Falando ao telefone com sua mãe e lembrando como costumava se sentir ao estar ao lado dela, do outro lado da linha. Você se reencontra e se surpreende consigo mesmo. O que mudou?

No fundo, continuamos sempre os mesmos. O susto vem daí, de ver que nada mudou. Daquele tempo de antes, mais livros, filmes, seriados, pessoas e festas vieram, mas continuamos os mesmos. A insegurança de falar olhando pra baixo, a ousadia de repetir mais alto quando não te escutam da primeira vez. Arriscar contar uma piada em público, como quem se joga na piscina com carteira e celular no bolso. E o frio na barriga que já é velho amigo.

Nada nunca muda e é confortável viver assim. A gente se abraça mentalmente e diz “sou desse jeito”, nada precisa mudar porque nada nunca muda. Nos reencontramos dentro de lembranças, de memórias e tudo não passa de uma continuação dessa história que desde o começo já foi definida como seria. Não temos escolha. Nos reencontramos com nosso “eu antigo”, sentimos ternura pela ingenuidade dele, que um dia pensou que seria diferente. O café no meio da noite, o telefone da mãe, a cena do filme. Tudo serve para lembrar: nada nunca muda e ainda estamos aqui.


Texto publicado originalmente em 04 de março de 2014 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.

Processo Criativo

Levei dez anos para realizar um sonho

Foto: Death to Stock

Ou como “da noite pro dia” eu publiquei meu primeiro livro

Um bom poema leva anos, já diria Paulo Leminski. Até entrar na faculdade, eu tinha cadernos onde escrevia religiosamente sobre o meu dia. Não eram exatamente “diários”, eu tentava dar um brilho na minha narrativa criando crônicas cotidianas com tiradinhas engraçadas, análises de comportamento humano, reflexões cheias de humor sobre mim mesma. Era apenas um exercício literário, mesmo que eu ainda não soubesse, da filha da Neti e do Nica que era metida a escritora, como diziam as vizinhas.

Depois veio a internet. Abri um blog e abandonei os manuscritos dos cadernos. Com dois ou três anos de Respeite Meus Mullets (esse era o nome do blog), já tinha uma base respeitável, para a época, de leitores. Ainda escrevia apenas crônicas, devaneios cômicos que as pessoas entravam na onda e riam comigo. Peguei gosto pela escrita ali, trabalhando em cada texto, vendo o que funcionava e o que não rendia. Quando o RMM acabou, seis anos depois, eu fundei o Elvis Costello Gritou Meu Nome, um blog um pouco mais introspectivo e sério, onde eu apurei ainda mais o meu estilo e inclui outras “editorias” como resenhas literárias — já que eu sempre fui a doida dos livros e sentia necessidade de contar o que eles me faziam sentir.

Quando o ECGMN acabou, mudei aqui pro Medium. Eu nunca parei de escrever, desde aquele primeiro caderno, nunca. Com o tempo, vi que tinha uma identidade no que eu escrevia. Que aquilo era meu, mais do que meu, aquilo era eu. Escrever era parte de mim, como é parte de mim ter nascido no Paraná ou torcer para o Palmeiras. Diante disso, me senti mais segura em publicar meus textos e me ver como alguém que escreve. Passei a trabalhar com redação também. Escrever por lazer e por obrigação ajudou a minha escrita e deu corpo ao meu trabalho, uma coisa completando a outra. Sentia ser mais sólido o meu jeito de escrever. Quando sentava diante do computador, já tinha as palavras prontas na cabeça, não passava um dia inteiro martelando aquilo — como era no começo. Foi aí que comecei a sonhar em escrever meu próprio livro. Mas como? Sobre o quê? Enquanto não tinha a resposta para essas perguntas, escrevia mais. E lia mais ainda.

Anos atrás, conversando com meu marido, ele disse que eu devia escrever ficção. A crônica eu já dominava, a meu modo, era hora de inventar histórias. Só que eu não conseguia nem me imaginar fazendo isso, não sabia por onde começar e nem se tinha talento mínimo para tanto. Essa foi mais uma das ideias que ficaram guardadas no meu coração por anos sem que eu soubesse o que fazer com ela. Durante o câncer, me aventurei a escrever meu primeiro romance. Não sei o que me deu, mas de repente eu estava cansada de esperar ser boa para escrever um livro. Eu já tinha escrito muito, por anos a fio, sobre todas as coisas, em todos os formatos. Eu já tinha entendido que não precisava ser boa porque não existe isso de “ser boa”: não pode existir juízo de valor em algo feito de coração. Com a doença e os anos pensando na ficção como próximo passo, achando que morreria amanhã eu queria escrever sem me importar no que daria.

Foi assim que surgiu All Across The World, uma história de amor meio doida, publicada capítulo a capítulo no Wattpad — plataforma digital para escritores iniciantes. Com o sucesso inesperado de AATW, foram mais de 15 mil leituras até a sua conclusão, hoje já passa das 18 mil, eu fui em frente e não parei mais.

Até o momento já escrevi seis livros, a maioria no Wattpad, alguns engavetados e ainda inéditos. Não sei se hoje em dia escrevo bem ou pelo menos melhor que antes, mas sigo escrevendo até descobrir. As coisas foram acontecendo pouco a pouco e sem planejamento: AATW virou uma trilogia, escrevi um livro pra um desafio de 10 mil palavras em trinta dias, outro é uma antologia dos melhores textos do RMM. No momento, estou escrevendo meu sétimo livro, uma história de amor sobre uma moça solitária em São Paulo.

E escrevi Malvarrosa. Malvarrosa foi um livro que eu tive a ideia de escrever quando uma das minhas melhores amigas, que hoje mora na Espanha, publicou uma foto que ela tirou de um festival que acontece por lá. Eu levei uma semana para delinear a ideia e dois meses para escrevê-la. Ali eu vi que já tinha uma obra, podemos dizer. Eram cinco livros no meu perfil do Wattpad e mais os arquivados. E agora?

Publicar livros não é fácil, pelo menos não no jeito clássico, com edição impressa, contrato com editora grande e coquetel de lançamento. Por todos esses anos, eu levei “não” de muitas editoras. Muitas pessoas me ajudaram também, ilustrando meus livros, ajudando a formatar, me apresentando a contatos. Ainda assim, não vingava. Parecia um panorama frustrante, não? Como fazer a transição de alguém que escreve para escritora sem ter nenhum livro publicado?

Um bom poema leva anos, disse Leminski. Cinco jogando bola, mais cinco estudando sânscrito, seis carregando pedra. Depois de tanto tempo entre criar coragem de escrever e criar coragem de publicar on-line, percebi que é preciso coragem até mesmo para tomar o que é seu para si. O que define como seus sonhos serão realizados? Quem diz o “agora sim” dos desejos que são só seus? Não existe uma receita certa, não existe um Deus que vá dizer se você pode realizar ou não. Me frustrei por anos porque nenhuma editora me queria até perceber que não preciso de editora nenhuma. Para me dizer escritora, não preciso do aval de ninguém além de mim. Não preciso de nada além dos meus livros. E tendo meus livros, os levo comigo por onde eu for e como eu for, como filhos pequenos seguindo a mãe em ninhada. Foi quando descobri isso que cansei de esperar, desisti de fazer as coisas do jeito dos outros e resolvi fazer do meu jeito.

Por um ano inteiro analisei a ideia de publicar via Amazon. O programa deles de publicação direta é bem atrativo, razoavelmente rentável e totalmente intuitivo. Li bastante sobre, reparei nas entrelinhas dos tutoriais, vi outras pessoas conhecidas publicando por lá. Assimilei a ideia. E então, um belo dia, decidi que publicaria meu livro lá. Algum livro meu. Qual?

Escolhi Malvarrosa por ser dos meus livros mais recentes e, por isso, ter uma certa segurança em relação a qualidade dele. Em questão de dois dias, entre preparar o arquivo, fechar contrato e esperar aprovação, eu fiz tudo sozinha. E então, de uma hora para outra, após dez anos de espera e trabalho, eu tinha um livro publicado. Uau!

Não sei se pode ser visto como demérito um livro ser publicado apenas digitalmente, mas a verdade é que, para mim, dá um orgulho danado ligar o Kindle e ver meu livro lá, no meio dos outros que estou lendo. Vê-lo no Skoob e no Goodreads, redes sociais para leitores, também me deixa toda boba. Me alegra saber que mais gente verá isso também. Publicado pela Amazon, meu livro faz parte do Kindle Unlimited, programa que eu adoro, e pode ser baixado de graça em lojas Kindle do mundo todo. Muita gente pode lê-lo, muito mais do que leria se ele fosse publicado apenas no Wattpad. Ou se ficasse no fundo da gaveta. Isso é algo grandioso, eu acho, algo a ser comemorado por alguém que começou a escrever em caderninhos, para ninguém.

Então hoje, você pode olhar minhas redes sociais e dizer que “do nada” eu escrevi esse livro. Mas, se você mesmo trabalha diariamente nos seus sonhos, sabe que não é bem assim. Esse livro começou a ser escrito muitos anos atrás, nos meus testes de crônicas, nos livros que já li, nas rejeições de cada editora. Começou a ser desenhado quando decidi que iria escrever ficção mesmo sem saber escrever ficção e quando escrevi dois livros em um ano em que também tive câncer. Não acho que ele poderia ter sido publicado cinco anos atrás. Não acho que ele poderia ter sido publicado nem mesmo semana passada. Cada coisa aconteceu a seu tempo para que só agora ele fosse à venda. Cada pequena decisão e todo pequeno gesto de coragem em seguir em frente mesmo sem certeza alguma fez com que hoje, depois de tanto tempo, eu pudesse publicá-lo.

Um livro, você vai dizer, não é grande coisa. Quem sabe não seja mesmo. O sentido dele vem quando você vê que não se trata apenas de algumas páginas de uma história inventada. Para quem o escreveu, pode ter sido a vida toda. Pode ser o sonho de uma vida. O significado dele vem de saber que tudo é possível, basta você acreditar em você mesmo e lutar pelo o que quer. Ter paciência em alguns momentos, ter raiva em outros. Desistir por meses e então voltar, como se nada tivesse acontecido.

Acreditar em si mesmo é algo estranho, não tem a roupagem que a gente acha que tem. É um sentimento que vai e volta, não dura o tempo todo, mas dura o suficiente para que aos poucos você vença. E um dia você consegue. E eu te digo com toda certeza que você tem o dom, o talento e a coragem necessária para realizar o que quer que seja. Mesmo que leve um dia ou dez anos. Assim como eu consegui.


Em breve todos os meus livros estarão na Amazon, esse é o próximo passo. Enquanto isso, você pode comprar “Malvarrosa” e ler no Kindle e/ou ler no Wattpad meus outros livros disponíveis .