
Mais nossos do que qualquer razão pode explicar
Corri pro carro do meu pai e chorei escondida no banco de trás. Estacionado na frente da casa dos amigos que visitávamos naquela manhã de domingo, ninguém podia me ver dentro do Fusca bege enquanto eu tentava entender o que sentia. Era 1994 e Senna tinha morrido.
Por semanas, dormi abraçada com a fita K7 que recém tinha ganho da minha mãe. Era a minha banda favorita e eu sabia de cor todas as músicas. No dia em que aconteceu eu achei tão poético que até parecia certo, embora doesse demais. Era 1996, eu tinha 12 anos e a Mamonas Assassinas inteira tinha morrido em um acidente de avião.
A tragédia é da família e dos que ficam. Algo tão íntimo e fundo, ninguém é capaz de mensurar a dor de quem perde um amigo, um pai, um irmão ou um filho em uma catástrofe assim. Para nós que observamos de fora, os olhos vidrados na TV, fica o vínculo que criamos com aqueles ídolos. O quanto eles eram nossos por conta das alegrias que nos deram, dos feitos heroicos, da trajetória de anos ou meteórica, das fotos, das histórias. O quanto eles eram nossos por parecerem tão divinos a cada vitória e tão humanos a cada derrota, mais nossos ainda a cada declaração polêmica e até nos deslizes mais prosaicos.
No domingo, vi meu time ser campeão. Em um país que ama e odeia o futebol na mesma medida, é quase aos socos metafóricos a argumentação de você que quer impor algum respeito por amar um time com o mais irracional dos corações. Na festa antes do jogo, barreiras policiais nos impediam de chegar até o estádio. Perto do estádio, calor e multidão, uma multidão de iguais, nos atrasava para entrar em campo junto com nossos jogadores. Na hora do jogo, toda essa angústia, as horas, os dias, meses e anos de espera foram esquecidos.
É difícil amar o futebol, mas é lindo. Os jogadores que você conhece de longe, os vê pequenos sendo gigantes lá no gramado — do Gol Norte fileira HH é bem distante e ainda assim vemos tudo. Personagens que você ama com todo o ódio do mundo. As contratações que especula, a tática que não é bonita ainda que funcione, a raiva dos desmandos do presidente, a ansiedade que transborda em unhas roídas, vozes alteradas, braços arrepiados quando o atacante chuta e… Quase é gol. As vezes é.
No domingo, vi meu time ser campeão. Amei cada um dos seus jogadores, ri de suas falhas com o carinho de quem ama sem ter outra saída senão amar. Pude ver o quanto o futebol é grande, enorme, maior que qualquer outra emoção que eu já possa ter inventado para mim. Soube do mais lindo que se pode chegar, a alegria febril de voltar a pé do estádio até em casa, sete quilômetros debaixo de chuva e rindo feito imbecis.
Hoje um time inteiro morreu. São nove da manhã e eu choro no meio da rua, segurando sacolas, esperando o táxi, me sentindo pequena demais para caber sequer no meu bolso. Tão pequena quanto em 1994, menor ainda do que em 1996. Enxugo as lágrimas e penso que não posso chorar aqui, não posso chorar em lugar nenhum a não ser na minha casa e até eu voltar para ela ainda demora. Do time, dos setenta e um mortos nessa tragédia, não sabia muito além do fato de terem sido eles nossos adversários naquele jogo de domingo em que fomos campeões. Sendo assim, e era muito e era o suficiente, eles eram mais nossos do que quaisquer outros virão a ser.
A minha medida não serve para todos, mas pode ser comum a vários. Não muda o que aconteceu, só torna claro o fato de que é uma tragédia que os familiares vão sentir na carne, enquanto sentimos naquela fina linha de idolatria que nos faz amá-los tanto a ponto de achar que eram parte nossa. E por pertencerem tanto a cada um de nós, cada um a seu modo, os ídolos são de todos e transcendem a morte. Mito na raiz da palavra, antes de virar expressão gasta de internet.
Naquele domingo do título, onde sorri por vinte e quatro horas seguidas, me senti tão enorme que era invencível. Hoje o choro tomou conta de tudo em uma nuvem pesada que me botou de volta no meu lugar.
Nos colocou de volta em nosso lugar. O sorriso virou reverência, o grito de felicidade virou silêncio respeitoso. Você para pra pensar e não acredita. Se eram tão nossos e tão heroicos, tão invencíveis e incríveis, como pode acabar assim? Então você lembra dos dias no estádio, na paixão de cada dia pelos onze em campo e mais os que ficaram no banco. E entende que não acaba aqui. Como não acabou naquela curva em 1994, como não acabou na Serra da Cantareira em 1996. Porque tudo o que nos ensinaram e nos fizeram sentir nunca vai se perder, como a taça que se ergue e os inúmeros lances improváveis que viram conversa no dia seguinte. Todos os pequenos detalhes que faziam da história deles um pouco a da gente e tornavam a nossa vida mais emocionante por conta do que eles viviam.
É assim no futebol e em qualquer paixão que se sinta. Só que no futebol parece que é mais. Pode ser impressão minha, não sei. Uma coisa é certa, nossos ídolos são nossos e, sendo nossos, não serão esquecidos jamais.






