
Memórias de dois segundos atrás sobre um cara incrível
O cinema nem estava lotado, mas fervia de animação. A bateria do celular tinha acabado antes mesmo de comprar a pipoca, quem tirou a foto dele na frente do cartaz fui eu, na telona o seu filme favorito, no rosto o sorriso de criança ganhando o melhor presente nunca antes imaginado: assistir na maior tela de todas a história mais amada.
A cada cena trágica ele ria; nas de violência, gargalhava. E eu tentava entender como podia ser engraçado ver um cara arranjar briga no bar pura e simplesmente por diversão, no entanto entendi rápido que ali isso não era para ser um problema. Na telona diante de nós, tudo que acontecia ele já sabia de cor. Antecipava os diálogos e revelava detalhes de produção. E ria das cenas tristes.
Não foram poucas as vezes em que ele me carregou no colo. Na saúde e na doença, dizem os votos que fizemos primeiro para nós mesmos, depois para o cartório. No mais escuro dos meus dias, eu chegava a acreditar que era simples passar pela pior doença de todas, aquela cujo nome nunca é dito em voz alta, só porque ele me dizia que ficaria tudo bem. E ficou. Um dia após o outro. Uma batalha de cada vez. Porque ele estava lá.
Cortaram a luz uma vez. O aluguel atrasou e o senhorio vinha bater na porta. Você viu que vai ter jogo no mesmo dia que eu vou cobrir a premiação? Para tudo há uma saída, ele procura até que acha. Faz o impossível, resgata soluções, faz por onde. Faz. Essa noite mesmo, passou acordado resolvendo a nossa vida enquanto eu dormia. Questão de meia hora depois da briga, sorria para mim e me mostrava quão ridícula era a foto exposta na parede do hotel. Me fazia rir, enquanto por dentro eu tremia de medo das coisas tão pequenas que sempre teimam em querer me derrubar.
A vida é escolha, você sabe. Você sempre pode optar entre permanecer em pé ou cair. Alguns dias são mais difíceis e você acaba indo ao chão contra a sua vontade, mas é importante que saiba, sempre existirá outra saída, uma melhor, mesmo quando você já estiver no chão.
Ter alguém que te mostra saídas é uma dádiva. É um presente. Um presente raro, daqueles que você carrega no coração por todos os segundos da sua vida e agradece se jogando no sofá para ler um livro enquanto ele fica jogando video game até às duas da manhã em um dia comum. Faz cócegas no seu pé enquanto carrega a próxima partida. No outro dia de manhã, você deixa ele dormir até o último segundo antes do “tchau”. Ele fica tão bonitinho dormindo, além do mais.
Não existe o impossível se a sua vontade é de coração. Não existe a dor se você quiser vencê-la. Isso eu sei por ter aprendido com ele. Até a felicidade, essa quimera, nós conseguimos de tanto tentar. De tanto não desistir. Somando méritos em uma conta que nunca foi feita, sei que devo quase tudo o que sou e o que somos à ele. Seu jeito calmo de resolver nos momentos de tensão. Seu jeito bravo que se acalma quando cai em si. O riso sempre pronto para acontecer e nos salvar de qualquer perrengue. Os absurdos inesperados que me fala e viram Histórias de Facebook. Um filtro de esperança e humor foi acrescentado à minha vida desde que ele me encontrou. E eu me apaixonei.
Me apaixonei pelas risadas, pela força de vontade, pela calma nos momentos difíceis, pela humildade de reconhecer erros e fraquezas, pela grandeza de caráter de nunca abaixar a cabeça e nem se deixar levar por sonhos que não sejam os seus. Nessa vida que é uma briga constante, ele anda sorrindo e desviando dos socos, sem jamais beijar a lona.
Você sabe aquela cena em Trainspotting em que o Begbie joga para trás o copo cheio de cerveja, acaba acertando a cabeça de um cara e tudo vira uma enorme confusão, tudo vira um inferno? Aquela cena é a vida. Diante de um cenário desses, você pode chorar, partir pro soco ou simplesmente rir. Eu tenho a maior sorte do mundo porque com ele, o mundo acabando e a gente fazendo piada, com ele a escolha é sempre rir.




