crônicas

A vida se revirando e ele sorrindo

Trainspotting — Danny Boyle (1996)

Memórias de dois segundos atrás sobre um cara incrível

O cinema nem estava lotado, mas fervia de animação. A bateria do celular tinha acabado antes mesmo de comprar a pipoca, quem tirou a foto dele na frente do cartaz fui eu, na telona o seu filme favorito, no rosto o sorriso de criança ganhando o melhor presente nunca antes imaginado: assistir na maior tela de todas a história mais amada.

A cada cena trágica ele ria; nas de violência, gargalhava. E eu tentava entender como podia ser engraçado ver um cara arranjar briga no bar pura e simplesmente por diversão, no entanto entendi rápido que ali isso não era para ser um problema. Na telona diante de nós, tudo que acontecia ele já sabia de cor. Antecipava os diálogos e revelava detalhes de produção. E ria das cenas tristes.

Não foram poucas as vezes em que ele me carregou no colo. Na saúde e na doença, dizem os votos que fizemos primeiro para nós mesmos, depois para o cartório. No mais escuro dos meus dias, eu chegava a acreditar que era simples passar pela pior doença de todas, aquela cujo nome nunca é dito em voz alta, só porque ele me dizia que ficaria tudo bem. E ficou. Um dia após o outro. Uma batalha de cada vez. Porque ele estava lá.

Cortaram a luz uma vez. O aluguel atrasou e o senhorio vinha bater na porta. Você viu que vai ter jogo no mesmo dia que eu vou cobrir a premiação? Para tudo há uma saída, ele procura até que acha. Faz o impossível, resgata soluções, faz por onde. Faz. Essa noite mesmo, passou acordado resolvendo a nossa vida enquanto eu dormia. Questão de meia hora depois da briga, sorria para mim e me mostrava quão ridícula era a foto exposta na parede do hotel. Me fazia rir, enquanto por dentro eu tremia de medo das coisas tão pequenas que sempre teimam em querer me derrubar.

A vida é escolha, você sabe. Você sempre pode optar entre permanecer em pé ou cair. Alguns dias são mais difíceis e você acaba indo ao chão contra a sua vontade, mas é importante que saiba, sempre existirá outra saída, uma melhor, mesmo quando você já estiver no chão.

Ter alguém que te mostra saídas é uma dádiva. É um presente. Um presente raro, daqueles que você carrega no coração por todos os segundos da sua vida e agradece se jogando no sofá para ler um livro enquanto ele fica jogando video game até às duas da manhã em um dia comum. Faz cócegas no seu pé enquanto carrega a próxima partida. No outro dia de manhã, você deixa ele dormir até o último segundo antes do “tchau”. Ele fica tão bonitinho dormindo, além do mais.

Não existe o impossível se a sua vontade é de coração. Não existe a dor se você quiser vencê-la. Isso eu sei por ter aprendido com ele. Até a felicidade, essa quimera, nós conseguimos de tanto tentar. De tanto não desistir. Somando méritos em uma conta que nunca foi feita, sei que devo quase tudo o que sou e o que somos à ele. Seu jeito calmo de resolver nos momentos de tensão. Seu jeito bravo que se acalma quando cai em si. O riso sempre pronto para acontecer e nos salvar de qualquer perrengue. Os absurdos inesperados que me fala e viram Histórias de Facebook. Um filtro de esperança e humor foi acrescentado à minha vida desde que ele me encontrou. E eu me apaixonei.

Me apaixonei pelas risadas, pela força de vontade, pela calma nos momentos difíceis, pela humildade de reconhecer erros e fraquezas, pela grandeza de caráter de nunca abaixar a cabeça e nem se deixar levar por sonhos que não sejam os seus. Nessa vida que é uma briga constante, ele anda sorrindo e desviando dos socos, sem jamais beijar a lona.

Você sabe aquela cena em Trainspotting em que o Begbie joga para trás o copo cheio de cerveja, acaba acertando a cabeça de um cara e tudo vira uma enorme confusão, tudo vira um inferno? Aquela cena é a vida. Diante de um cenário desses, você pode chorar, partir pro soco ou simplesmente rir. Eu tenho a maior sorte do mundo porque com ele, o mundo acabando e a gente fazendo piada, com ele a escolha é sempre rir.

Dicas

Dez curiosidades da vida dos grandes autores

Sem querer ser a leva-e-traz do mundinho literário, mas você soube da última? Resolvi tirar a poeira dos babados mais antigos que acercam os nossos heróis dos livros e trazer para você uma listinha básica deles. Aproveite!

  • J. D. Salinger perdeu uma namorada para Charles Chaplin

O autor de “Apanhador no Campo de Centeio” sempre prezou por levar uma vida discreta, mas alguns escândalos sempre conseguem escapar mesmo quando você é o mais discreto dos romancistas. Quando tinha 20 e poucos anos, Salinger sofreu de amor ao namorar Oona O’ Neil e ser trocado por Chaplin alguns meses depois. O ator era 36 anos mais velho que Oona e a “roubou” de Salinger, deixando o autor furioso. Salinger mostrou que não sabia perder ao escrever uma carta raivosa e completamente desrespeitosa para Chaplin, explicitando em detalhes sórdidos como ele imaginava que seria a vida sexual de Chaplin e Oona — baseado no que ele conhecia dela. Que babaca.

  • Jack Kerouac era um andarilho mesmo

Durante a época em que morou em Northport, Long Island, o autor de “On The Road” era sempre visto perambulando pela cidade descalço, bêbado e puxando um carrinho de mão. Alcoólatra a vida toda, sua única companhia nessa vida andarilha era um vinho barato chamado Thunderbird, que era também a sua bebida favorita.

  • Virgínia Woolf levou um tapa de Rodin, o escultor

Só de imaginar que Woolf e Rodin estiveram juntos no mesmo lugar já é um choque, mas a coisa não para por aí. Quando menina, muito antes de escrever o clássico “Ao Farol”, Woolf visitou o estúdio do escultor francês junto com algumas amigas. Explicitamente instruída a não mexer nas peças inacabadas que Rodin mantinha ocultas enroladas em faixas, ela fez o quê? Exatamente, foi lá e desenrolou uma das esculturas proibidas. Surgindo do nada como um bombeiro vendo o circo pegar fogo, Rodin avançou para Woolf e lhe deu sonoro tapa no rosto na frente de todo mundo. Ah, se já existisse Facebook naquela época, imagina o textão…

  • Arthur Conan Doyle acreditava em fadas

Eis um mistério que nem Sherlock Holmes seria capaz de resolver: como seu criador podia ser tão ingênuo? Quem sabe a fase literária mais infame de Doyle, em 1920 ele publicou “The Coming of The Fairies”, uma acalorada defesa de duas adolescentes inglesas que afirmavam ser amigas de um grupo de fadas minúsculas e aladas. As fotos das meninas brincando com os supostos seres místicos eram claramente forjadas -e, mais tarde, expostas como falsas-, mas Doyle não se privou jamais do seu direito de ser trouxa. Por toda a década de 20 ele continuou a proclamar a existência real de fadas em artigos e palestras — a despeito de absolutamente ninguém o levar a sério.

  • Edgard Allan Poe foi educado em um cemitério

Isso com certeza explica muita coisa. Quando estudou em um internato na Inglaterra, a classe de Poe era ao lado de um cemitério e acabou sendo seu maior campo de estudo. Mesquinho para comprar livros didáticos, o professor do futuro poeta e romancista levava seus alunos para aulas práticas no meio das tumbas e jazigos. Segundo se conta, cada criança escolhia um túmulo como “seu” e aprendia subtração ao descobrir a idade do morto diminuindo o ano de nascimento do ano da morte dele. A ginástica ficava por conta da pá de madeira que cada aluno ganhava já no primeiro dia de aula — quando um novo defunto chegava, os meninos ajudavam a escavar a cova e já garantiam o esforço físico do dia.

  • Charles Dickens era superticioso pra caramba

O que “Grandes Esperanças” tem de lindo, seu autor tinha de esquisito. Tocava em tudo três vezes para “não dar azar”, considerava sexta-feira seu “dia de sorte” e sempre saia da cidade quando o último fascículo dos seus romances era publicado no jornal. Mas a mania mais maluca era mesmo acreditar que o alinhamento dos campos magnéticos do planeta (?) ajudava a promover a criatividade (??) — o que ele garantia ao fazer a sua parte e sempre dormir com a cabeça virada para o Pólo Norte. É. Vai entender…

  • A vida sexual de Liev Tolstói era um livro aberto (mesmo)

Pelo jeito tínhamos aqui alguém que gostava bastante de se gabar… Na noite de núpcias, o escritor russo compartilhou sua extensa história sexual com a esposa Sophia, de apenas 18 anos, encorajando-a a ler todos os seus diários pessoais antes de irem para a cama. Eles tiveram 13 filhos.

  • Lewis Carroll inventou a lombada

Não aquela das ruas, mas a dos livros. Entre seus vários inventos, foi o autor de “Alice No País das Maravilhas” que teve a ideia de imprimir o título do livro na lombada da capa protetora, para que o se pudesse ser facilmente encontrado na estante. Ah, Carroll também inventou um modelo próprio de triciclo.

  • Mark Twain era uma chaminé ambulante

Só de ficar do lado do autor de “As aventuras de Tom Sawyer” você já podia ter um ataque de tosse. O romancista fumava desde os oito anos de idade, com uma incrível marca de entre 20 e 40 charutos por dia. E foi neste ritmo até o dia da sua morte. Apesar de poder se dizer um especialista no pigas, Twain não era um purista do fumo: preferia as marcas de charuto mais baratas e vagabundas que podia encontrar.

  • Oscar Wilde se vestia de menina

Acontece que o sonho da mãe de Wilde era ter uma menina. Ao dar à luz ao pequenino futuro autor de “O Retrato de Dorian Gray”, a progenitora não se fez de rogada: vestiu Wilde com vestidos, saias, laços e fitas durante toda a infância do menino. Não venha concluir apressadamente que isso tem alguma ligação com homossexualidade, hein? Ernest Hemingway, por exemplo, passou pela mesma situação na infância — e isso sim pode explicar um pouco do seu machismo extremo na vida adulta: supercompensação, será?

Fonte: A Vida Secreta dos Grandes Autores, de Robert Schnakenberg.

Resenhas

As primeiras leituras do ano

Paulo Leminski — Foto: Divulgação

Resenhas rápidas dos livros que li nesse comecinho de janeiro

Não sei como surgiu esse número cabalístico (de tanto ler Nick Hornby, quem sabe), mas decidi que a cada cinco livros lidos, faria um post aqui com resenhas rápidas sobre eles. Para meu mais completo espanto, cheguei rápido aos meus primeiros cinco livros lidos de 2017, então estou cumprindo o prometido e trazendo minhas impressões sobre as primeiras histórias do ano.

Esse livro é um apanhadão de todos os livros já publicados do Leminski e mais alguns conteúdos novos. Mesmo para quem já leu tudo dele (como eu), vale a leitura, pois condensada assim sua obra parece fazer ainda mais sentido e ser ainda mais forte. Eu tinha começado a lê-lo no finalzinho de dezembro e foi o primeiro livro que terminei em 2017. Leminski foi um poeta inovador e multi-facetado, sua obra mesmo nos dias atuais ainda é incrivelmente tocante e sem igual por aí. Um dos meus poetas favoritos.

Livro muito curtinho (49 páginas!) que eu achei por acaso no Kindle Unlimited e me interessei pela história porque se parece com a que estou escrevendo(!). Li em uma tarde e adorei, embora ache que o autor poderia ter desenvolvido mais para não deixar a gente tão no gostinho de quero mais. É uma história de amor bonitinha, com personagens cativantes, em um livro extremamente simples e direto.

Quando baixei esse livro no Kindle Unlimited, e eu nem lembro o que me levou a baixá-lo, eu juro que não imaginava que seria arrebatada por uma paixão tão avassaladora. Estou sendo deliberadamente piegas pois o tema permite, esse livro permite. Com poucas páginas de leitura já fiquei absolutamente apaixonada por essa história e pela escrita da Collen Hoover, a ponto de comprar todos os outros livros dela e ficar procurando notícias da produção do filme de O Lado Feio do Amor (dizem que sai em 2018). A história começa simples, mas engrena de plot twist em plot twist e você se envolve totalmente. Fala de uma moça que muda de cidade para morar com o irmão e poder trabalhar e estudar. No dia da mudança, o irmão fora à trabalho, ela dá de cara com um cara bêbado dormindo na porta do apartamento deles. Eles discutem horrores e ela ainda tem que cuidar dele naquela noite, pois descobre que esse cara bêbado vida loka é o melhor amigo do irmão dela e será presença constante em sua vida agora. E aí as coisas começam a acontecer. Eu amei tudo nesse livro. O amor cafona, a mocinha bad ass, o mocinho que é a bruta flor do romantismo. E fiquei feliz, muito feliz, de ter achado tão rápido o meu livro favorito de 2017.

Quis ler esse assim que foi lançado e só agora arrisquei. Achei a capa lindinha e a premissa parecia boa, no entanto me decepcionou. Não que seja um livro ruim, mas para mim não bateu. Conta a história de um adolescente armênio que se apaixona por um bad boy skatista da turma dele. Até aí tudo bem, o que realmente incomoda aqui é que parece que o autor usou o livro apenas como desculpa para falar da cultura de seu país, jogando com isso como se fosse uma barreira para a história de amor do livro, o que acaba se mostrando claramente que não é. Narrado na primeira pessoa, o menino só faz enfatizar tudo o que existe nos costumes e culinária do seu povo, no quanto são diferentes e no tanto que sofrem preconceito até hoje. Até receita de prato típico tem no final do livro. Achei um pouco forçado, embora a história em si, isoladamente, seja bem fofa.

CHEGOU A VICIADA EM COLLEN HOOVER (carinhosamente chamada de CoHo nos fóruns de literatura, já aprendi)! Foi o livro de estréia dela (O Lado Feio do Amor é o oitavo), então o estilo ainda está se desenvolvendo, mas a escrita apaixonada que lhe é característica já está ali. Esse é o primeiro volume de uma trilogia que aqui começa a contar a história de Lake, uma adolescente que descobre o amor em meio a um mar de tragédias pessoais. O que eu chorei no busão lendo esse livro não foi pouco e em dois dias já tinha lido tudo. Vale pelas lágrimas, pelas lições de vida que absorvemos através dos personagens principais, pela fofura dos personagens mirins e por nos ensinar o que é slam, um tipo de competição de poesia que já chegou até no Brasil. Maravilhoso.

E é isso. Se for nesse ritmo, consigo bater fácil minha meta de leitura de 2017. Fixei o desafio em 35 livros para esse ano. E vocês, como estão as leituras nesse comecinho de janeiro?