Viagens, filmes no cinema, um livro de que você gosta. Futilidades que acalentam o coração. Memes imbecis. Debates inúteis e irresistíveis: arroz por baixo ou por cima do feijão? Besteiras que te ajudam a passar o dia. Enquanto isso, o país fervilha em mudanças e exige que você vá para a rua protestar ou apoiar. Você quer ficar quietinho na sua bolha sem filtro do Instagram, mas as coisas não param de acontecer e estão a cada dia piores. Não vai ter jeito, algum posicionamento você precisa ter, ainda que fique quieto e guarde apenas para si.
A vontade é de não sentir nada. Não está sendo possível. Tenho dito ultimamente que o Brasil me obriga a ingerir açúcar. São bolos e mais bolos de cenoura com calda de chocolate na doceria em frente ao trabalho para tentar me convencer de que a vida ainda pode ser doce. Sobremesas empurradas goela abaixo, a seco, enquanto as notícias não param de chegar: mudanças na lei, novos subterfúgios para político poder roubar tranquilo e a minha caixa de e-mail lotada de avisos ridículos enviados com o intuito de deixar claro, de maneira velada, que o trabalhador não tem direito a nada, muito menos ao famigerado “respeito”.
Nem todo açúcar do mundo é capaz de conter a raiva que cresce em você quando o dinheiro acaba e ainda sobra muito dia no mês. Sobra muito mês e pouco dinheiro faz muitos anos.
Eu gostaria de não sentir raiva. Ser a pessoa apaziguadora que vê a luz no fim do túnel e conduz todos nós para a salvação. Queria não sentir raiva porque ela me corrói o estômago, azeda meu dia e me faz compensar frustração com comida, com uma barra inteira de chocolate em apenas uma tarde. Pelo menos eu ainda tenho dinheiro para comprar uma barra de chocolate, você vai dizer. Ainda.
No entanto, sacolejando no ônibus lotado que demora para chegar, cobra caro e não oferece conforto algum, todos os dias, eu me pergunto se não é mesmo a raiva o único sentimento possível hoje em dia. Preciso ser boa com os outros, sim. Preciso não deixar nada atrapalhar o meu sorriso, sim. Mas, pelo amor de Deus, vamos sentir raiva. Vamos perceber o que está acontecendo lá fora, vamos fazer algo. Deixar de aceitar calado, nem que seja para morrer gritando.
Ainda quero os livros, os filmes, os memes. Ainda quero sorrir e comer meu bolo de cenoura com calda de chocolate. Só que por vontade e não por frustração. É preciso continuar sendo uma pessoa boa, mas é preciso sentir raiva, alguma coisa a gente tem que sentir. Não tem como continuar assim, alienado em uma bolha enquanto o mundo lá fora desaba. Essa bolha não vai nos sustentar por muito tempo.
O blogueiro viaja e posta milhares de fotos lindas que nos isolam da realidade. Que efeito ele usou? Onde eu compro essa camiseta? Será que parcelam a viagem? Cuidado. Não se isole. Entre uma atualização e outra no seu feed, é lógico que você precisa ser feliz de alguma forma nem que seja rolando a tela do seu Facebook, mantenha os olhos abertos.
Estão acabando com a sua vida enquanto você pisca os olhos com o brilho das distrações. Fique atento, sinta raiva.
Bastidores de “Breaking Bad”: os atores Bryan Cranston e Aaron Paul com Vince Gillian, criador da série
Romance, produção própria, mistérios. Teve de tudo esse mês.
Esse mês eu li uns sete livros, o que considero pouco. Minha justificativa é que foquei mais na escrita do que na leitura, além de ter tido alguns problemas com o Kindle Unlimited. Com tudo solucionado, mais pro final do mês a leitura entrou nos eixos e trago agora os livros que ainda não tinha resenhado por aqui. Vamos a eles?
Eu não disse que na próxima lista de lidos já teria um livro meu?! Invisível foi lançado em versão digital no comecinho de fevereiro, embora eu na verdade tenha escrito-o ano passado. Após uma boa revisão, uma linda capa nova (obrigada, Jules & Tico), ele chegou à Amazon pronto para roubar seu coração. Ou quase isso. Se trata de uma história curtinha sobre um mochileiro que encontra o amor, e algumas dores de cabeça, ao fazer de São Paulo sua nova morada passageira. Pra ler rapidinho agora e te deixar feliz depois. Dá pra comprar aqui.
E então, sem grana para comprar um livro novo, você se pega dando uma olhada na enorme fila de espera do seu kindle e acha um pequeno tesouro. Não sei o motivo de ter demorado tanto para ler As Virgens Suicidas, mas foi bom saber que ele estava ali me esperando o tempo todo. Difícil quem não conheça o filme inspirado no livro, aquela poesia visual diáfana criada pela Sofia Copolla em 1999. O livro ecoa as lembranças que temos do filme, o tempo todo oscilando entre sombrio e etéreo ao contar a trágica e instigante história das cinco jovens irmãs que se suicidam uma após a outra sem nenhum motivo aparente. Dá para ficar bastante angustiada lendo, principalmente porque, embora não se aponte culpados, qualquer mulher que já teve 13 anos de idade é capaz de entender que o suicídio nunca é uma ideia nova. Ou absurda.
Polícia da literatura cafona, pode me prender mais uma vez. Esse livro é da mesma autora do famigerado “O Ar Que Ele Respira”, que resenhei no artigo passado e me fez cair prostrada de joelhos (drama, drama, drama) com o quão lindo pode ser um livro puramente sobre amor. Aqui em Sr. Daniels temos a história de um amor moderno meio que proibido, aluna apaixonada por professor, tudo embalado com versos de Shakespeare, algumas fatalidades dolorosas e cenas quentes de sexo. Se você gosta de ler suspirando e pensando “que homão da porra”, este livro pode ser para você.
Preciso dizer que levei um ano para terminar de ler esse livro. Ficava me demorando na leitura, sem querer que acabasse, porque amo Breaking Bad e lê-lo era assisti-la novamente com um aprofundamento arrebatador. Como o nome já entrega, Vamos Cozinhar? revive cada episódio da série em análise minuciosa, entregando detalhes de roteiro, direção, fotografia, edição e trilha sonora, além de curiosidades sobre a série, seus personagens, atores e substâncias químicas. Absolutamente tudo o que você precisa saber sobre Breaking Bad está ali, disposto em listas e tópicos objetivos cheios de amor e humor. De fã para fã. Se você gosta de Breaking Bad, precisa ler esse livro.
Fazia muito tempo que queria ler esse, Deus me ajudou e ele chegou ao Unlimited. Não achei que a história seria tão sombria quanto a capa já anuncia, mas a surpresa foi boa. Conta a história de uma adolescente que sobrevive à uma tragédia onde perdeu amigas e o namorado e com isso sua família decide pela mudança de cidade para tentar superar o trauma. O problema é que o fantasma do que viveu não abandona Mara Dyer — e desde a primeira página já ficamos sabendo que nada é muito normal na vida dela. Mistério, suspense, um tom meio sobrenatural e, quem diria, romance juvenil, dão o tom desse thriller angustiante que vai te pegar pelo colarinho de maneira certeira. O livro é a Parte 01 da trilogia Mara Dyer, o que muito me contraria pois detesto trilogias, mas não tem muito o que fazer. Depois desse começo aniquilador, vou acabar lendo a série toda.
Em tempo: à exceção de “As Virgens Suicidas” (digital emprestado por amiga) e “Vamos Cozinhar?” (físico comprado em sebo), todos os livros dessa lista foram adquiridos de maneira gratuita através do Kindle Unlimited.
Ler e simplesmente esquecer não é mais uma opção. Reflexo dessa urgência moderna de dar check in em toda e qualquer atividade nossa nas redes sociais, sentimos a necessidade de ter um controle dos livros lidos assim como temos das séries vistas, por exemplo, até mesmo para tornar aquela experiência mais palpável e para mostrar para os amigos e indicar aquele livro do coração.
Em uma conversa de Twitter, amigas debatiam sobre qual é o melhor aplicativo para catalogar nossas leituras. Eu só conheço (e uso) dois, o Skoob e o GoodReads. Como não coube lá o comparativo completo entre eles, resolvi trazer minhas impressões para cá. Importante dizer desde já que esse comparativo é baseado na minha experiencia pessoal e não reflete uma opinião geral, apenas a minha. Já adianto também que não acho que um seja melhor do que o outro, ambos são ótimos e servem para diferentes necessidades. A gente sabe que em se tratando de aplicativos muitas coisas contam, das importantes às supérfluas e o que acaba imperando é mesmo o gosto pessoal. Eu gosto dos dois!
Para começar, tanto Skoob quanto GoodReads tem suas versões para web e também como aplicativo — disponíveis gratuitamente para iOS e Android. O modo de logar em ambos é simplificado, você pode atrelar seu perfil à sua conta do Facebook. E, caso opte por isso, pode compartilhar tanto no Facebook quanto no Twitter suas atividades como livros lidos, abandonados ou que quer ler.
Ela é carioca. O Skoob é uma plataforma brasileira, do Rio de Janeiro, cuja missão é “socializar e incentivar o hábito da leitura”. No ar desde 2009, o site vem crescendo e trazendo cada vez mais recursos para seus usuários. Começou como uma plataforma para troca de livros usados e aos poucos o foco foi mudando para o modelo de rede social para leitores e catalogação. No Skoob você pode criar sua estante virtual e separá-la por “prateleiras” com os livros que já leu, os desejados, os que tem em casa e os que desistiu de ler, entre outras categorias. Também é possível adicionar livros não encontrados no catálogo, assim como dar nota e resenhar os livros lidos — e suas resenhas ficam disponíveis para o público, que pode votar e comentar.
Recentemente trouxeram a função de Meta de Leitura, que funciona da seguinte maneira: você lista os títulos que quer ler no ano e conforme vai lendo, vai subindo no ranking geral e dos amigos. Essa meta funciona principalmente para você que tem uma lista definida de livros para ler, já comprados ou emprestados. É uma forma de se organizar e de se incentivar para colocar os livros encostados em dia. Para além dessa lista de Metas, no final do ano o Skoob prepara uma página exclusiva para você com seus livros lidos em quantidade e qualidade e média de páginas por dia.
O grande diferencial do Skoob são seus sorteios e cortesias de livros, resultados de suas muitas parcerias com editoras. São muitos sorteios mensais. Para participar, basta acessar a página de cortesia, clicar nos livros cujos sorteios deseja participar e você já está concorrendo.
A função de rede social bomba por aqui. As pessoas podem te pedir em amizade, deixar recados no seu mural, votar nas suas atividades e um feed na página de home te mostra o que os amigos andam fazendo. Também existem os grupos de debate, que funcionam mais ou menos como as saudosas comunidades de Orkut e trazem temas tão amplos como “Ficção Científica” quanto curiosos como “O cinema estragou o livro!”.
Contras? Múltiplos banners de publicidade que poluem um pouco a página e uma certa instabilidade do aplicativo se você acessa pelo iPhone.
Pra gringo ver. O Goodreads é uma plataforma americana criada em 2007 e comprada pela Amazon em 2013, quando as coisas realmente começaram a acontecer. Seu mote é “Encontre seu próximo livro favorito” e sua missão é “ajudar as pessoas a encontrar e compartilhar os livros que elas amam”.
Todo em inglês, segue o modelo básico de estantes virtuais onde você cataloga suas leituras e lista seus livros desejados. No entanto, se você usar só a parte de catalogação vai perder muito: o lado “rede social” é o que realmente se destaca nessa plataforma. Você pode, sim, avaliar e resenhar livros, mas o que chama mesmo a atenção é ver o que seus amigos e autores estão lendo, participar de fóruns e grupos incríveis sobre uma ampla variedade de temas e ter contato direto com autores. Atenção para a seção “Ask the Author”, onde você tem uma grande lista de escritores para os quais pode mandar perguntas. Para você que é leitor e também autor, é fácil vincular seu perfil “normal” com o de escritor com suas obras — mais uma forma de aproximar o autor de seu público.
Contando com um motor potente como a Amazon, o GR tem hoje mais de 55 milhões de usuários que fomentam discussões e ajudam a ampliar o catálogo de livros (você pode adicionar os que não encontrar), o que torna a plataforma das mais completas e vivas. Navegando pelo menu “Community” você encontra questionários e trívias, cotações, listas de livros por gênero, quotes e dicas de eventos. No menu “Browse” você encontra artigos sobre o mundo literário, notícias, entrevistas e recomendações de lançamentos. Você também pode escolher receber por e-mail boletins regulares sobre livros novos, sugestões, entrevistas com autores e até poesias.
É realmente um mergulho no universo da literatura. Como ferramenta respeitada que é, o Goodreads também tem seus próprios prêmios literários e anualmente escolhe os melhores livros do ano através da votação popular do “Goodreads Choice Awards”. A premiação é separada por gênero literário, veja os vencedores do ano passado aqui.
Das minhas seções favoritas, o Desafio Literário deles é baseado em números: você define em janeiro quantos livros quer ler no ano e em dezembro recebe seu resumo em um gráfico caprichado e bastante detalhado.
Contras? O fato de ser todo em inglês pode tornar a experiência um pouco limitadora se você não domina o idioma. Além disso, não é tão fácil achar alguns títulos em português — é preciso estar atento para cadastrar a versão correta do livro na sua estante e não a edição em inglês.