Resenhas

Mas não se matam cavalos?

They Shoot Horses, Don’t They? (1969)

A história real das maratonas de dança que iam até a morte nos anos 30

Fiz um teste esses dias. Consigo dançar por duas horas ininterruptas até começar a ficar meio zonza. No conforto da minha casa, bem de saúde e disposta, parece até pouco. Lembro então das maratonas de dança da década de 30 e me sinto mal. Imagina como deve ser dançar por dias, semanas, meses. Dançar até morrer.

Parece bizarro pensar nisso nos dias de hoje, mas aconteceu de verdade. O pano de fundo, como não poderia deixar de ser, foi uma crise financeira e um desemprego sem precedentes. Durante a Grande Depressão, o maior desastre econômico na história, milhões de pessoas perderam seus empregos e casas, o que as fez recorrer a medidas desesperadas para sobreviver, como roubo e mendicância. Na esteira disso, surgiram as maratonas de dança.

Parecia perfeito e até honesto: você competia para ver quem conseguia dançar por mais tempo e em troca ganhava alimentação, um teto para dormir (as competições eram longas) e, com sorte, vencendo, um prêmio em dinheiro que podia chegar a até cinco vezes o valor do salário padrão da época. Parecia perfeito, como toda forma de exploração sempre parece ser, quando se está desesperado.

Em seu auge, as maratonas de dança chegavam a durar meses. A maior de todas aconteceu em Chicago e durou 1. 638 horas. Isso equivalente a setenta dias.

Como seria dançar por setenta dias seguidos? Sem comer direito, dormindo apenas por minutos? Sendo que você já está com um emocional abalado por conta da vida lá fora, sendo que você não tem preparação física para isso.

Você dança para se divertir e passar um tempo agradável. Nos anos 30, em um período terrível de fome e desesperança, esses concursos revelavam uma agressividade e uma violência social que não costumamos associar ao hábito de dançar.

A maioria se sujeitava a passar dias dançando apenas pelas refeições grátis oferecidas. Você comia em pé, em uma mesa na altura do peito, e não podia parar de se mexer, caso contrário seria desclassificado. Uma buzina avisava dos períodos de descanso. Era quando você podia sentar, descansar ou dormir por onze minutos a cada uma hora dançada. Após esse período, mulheres que não conseguissem acordar eram reavivadas com tapas e cheiros fortes. Homens, com água gelada no rosto.

O cansaço era tanto que os competidores chegavam a algo semelhante ao coma enquanto dançavam, quando não eram os episódios de histeria ou delírios de perseguição. É claro que chega uma hora que você não dança mais, você apenas se mexe minimamente. Pelas regras, os pés não podiam parar e os joelhos não podiam tocar o chão: qualquer um desses dois deslizes causavam desclassificação imediata. Se enlouquecia lentamente. Os pés não podiam parar.

E as pessoas pagavam para ver isso? É lógico que pagavam. Degradação era entretenimento (e não sejamos ingênuos, ainda é) e por 25 centavos você podia assistir as maratonas e se sentir um pouco superior por não ser você ali quase morrendo na pista de dança. Se dançando no salão haviam muitos, o lado de fora da pista não ficava por menos: as plateias lotavam.

Aliado à fome, o brutal cansaço e esforço físico levavam os competidores a dois destinos fatais: coma ou morte. E ainda que sobrevivessem, existiam os demônios internos sempre à espreita. Em Seattle, uma competidora tentou o suicídio após dançar por 19 dias e conquistar apenas o quinto lugar na competição. O episódio fez com que a cidade fosse a primeira na história a proibir as maratonas de dança. Até o final dos anos 1930, elas foram proibidas na maioria dos estados dos Estados Unidos e então, desaparecendo.

Pesquisando sobre isso, você não acha muitos artigos e quase não há livros que abordem o tema. Em 1935, Horace McCoy trouxe as maratonas de dança à tona em seu romance “Mas Não Se Matam Cavalos?”, com a história fictícia de Robert Syverten e Gloria Beatty, duas pessoas sem perspectiva que se conhecem por acaso e decidem participar de uma maratona de dança em busca de oportunidades em Hollywood.

O livro já começa com Robert sendo levado à julgamento por ter assassinado Gloria. Em suas densas 139 páginas, vamos entendendo os motivos que levaram o rapaz ao crime e sabendo a verdade desse cenário tão sombrio quanto angustiante. O título do livro, que de início parece descabido, vai se mostrando compreensível de uma forma cruel. Em um relato duro e seco, repleto de amargura, repensamos o ato de sacrificar um animal ferido para que ele não sofra mais. Não se matam cavalos quando eles estão agonizando? No caso de humanos, isso é certo ou errado? É o que o júri decidirá por nós e por Robert.

Um trecho do livro de McCoy:

O promotor público estava enganado quando disse ao júri que ela morrera em agonia, sem amigos, sem outra companhia senão a de seu brutal assassino, ali, naquela noite negra à beira do Pacífico. Ele estava enganado, tanto quanto um ser humano pode estar. Ela não morrera em agonia. Estava em repouso, numa grande felicidade e sorria… Foi a primeira vez que a vi sorrir.

McCoy foi escritor e roteirista, tendo diversas ocupações até se firmar em Hollywood fazendo adaptações de romances para o cinema. Ganhou destaque nessa área e morreu aos 58 anos, sem ver seu romance mais famoso ser adaptado para as telonas, como ele mesmo poderia ter feito. Lançado em 1969, o filme tem o mesmo nome do livro e no Brasil teve seu título traduzido para “A Noite dos Desesperados”. Com direção de Sydney Pollack, manteve com maestria os tons sombrios do livro. É um mergulho doloroso no desespero humano.

Michael Sarrazin e Jane Fonda em “They Shoot Horses, Don’t They?” (1969)

Lembro de ter assistido e ter ficado com a sensação de ter visto a versão dançante de Christiane F. Jane Fonda brilha com uma luz que nos cega ao dar vida à desesperada Gloria Beatty. Das nove indicações ao Oscar que o filme recebeu, uma foi para ela, como Melhor Atriz. Infelizmente, injustamente, não levou. Como em um bom concurso, aliás.

Uma história absurda esquecida pelo tempo, em 2009 a Vanity Fair fez um ensaio de moda homenageando alguns filmes aleatórios e trouxe uma foto de Mark Seliger recriando a atmosfera de “A Noite dos Desesperados” com as presenças luxuosas de Kat Dennings, Anton Yelchin, Maya Rudolph, John Krasinski, Elizabeth Banks e Hugh Dancy. Não vou mentir, achei que ficou bonito. Parece até que tem algum glamour uma tragédia social desse porte. Para isso servem as revistas e a mídia.

Foto: Mark Seliger para Vanity Fair (2009)

Desde que li o livro de McCoy e, posteriormente, assisti ao filme de Pollack, essa história nunca mais saiu da minha cabeça. Anos se passaram e eu ainda lembro, volta e meia, como em um sonho ruim.

Imagino o quão desesperador deve ser se ver em uma situação em que você precise gastar suas forças até o limite por um prato de comida ou um teto. Até morrer, até enlouquecer. Pense nas crises econômicas atuais e na nossa indústria do entretenimento, os reality shows e a necessidade constante que temos de consumir produtos midiáticos que de alguma forma escarneçam as pessoas ali expostas. Esse cenário não está tão distante de nós hoje. É incrível que as maratonas sejam algo tão perigosamente esquecido diante do que foram. Um colapso social reduzido a algumas fotos assustadoras de época, um romance e um livro.

Dançando apenas por duas horas, bem de saúde, disposta e no conforto da minha casa, espero que nunca ninguém precise dançar se não puramente por diversão.

Só nos resta torcer.

Brain Dump*

Diga adeus ao passado

Foto: Death to Stock

Aceite que terminou

Tudo vai virar passado. Essas amizades e a necessidade de mim que elas têm, os assuntos e os feitos, as pequenas vitórias e os retumbantes ataques de riso.

Sobrarei só eu e os livros. E os jogos e o futebol. Teimosias de caráter que fortalecem quem eu sou e me afastam dos outros.

Hemingway olhava todas as suas amizades de fora, nenhuma chegou a lhe alcançar.

Murakami, quieto e sábio, modesto e esperto, apertava com força na palma da mão a gilete que continha cada crítica. Do que sangrava, escrevia mais, o rosto plácido e confiante guardava para si toda a dor.

King não deixou passar nada, blindado por seu incrível ego.

Sozinha com meus escritos, me afundo em crateras sentimentais que abafam o som que vem lá de fora. Fica só um zumbido. Ninguém vai me achar.

Prontamente esquecida em um mundo que não para, beijo o chão e me despeço. Lindas atualizações das quais não faço parte, atravesso a rua e o caminho já é totalmente outro.

Na minha cabeça, a tatuagem já está lá. Eles não vão saber meu nome até que eu vá embora.

Tudo vai virar passado, dois segundos antes de virar eterno. Diga adeus e agradeça (é, agradeça): Não foi dessa vez.

Processo Criativo

Diário de uma revisão

Foto: Julie Fernanda

Dois anos depois, corações ainda pulsam

Em um universo paralelo, Pedro e Gabo ainda vivem. Sentados à mesa do Mickey’s, o bar sujo da esquina, eles bebem cerveja e riem, dez ou vinte anos depois da última página.

Renascerão em breve, uma história lapidada para que possa ser contada novamente. Beijando boas lembranças, cortando as inspirações ruins, nenhum livro será mais uma válvula de escape para frustrações. Aqui só será permitida a beleza. Sem mágoas, sem indiretas, sem projeções. O retrato fiel do que tenho a oferecer, vindo do material emocional que só pertence à mim.

Nicky renascerá. Divertida, doce, forte e coesa.

Daniel renascerá. Irresistível, pessoa que evolui através do amor.

Pedro renascerá. O homem forte que descobriu a si mesmo.

Eu renascerei. Dona de mim e do que produzo. Auto suficiente e durona. Plena e íntegra. Eu serei quem eu sempre fui, quem eu sofri tanto para ser.

E serei minha.

Crônicas do Câncer

Crônicas do câncer — #05 A última cirurgia

Arte de Hajin Bae.

Para sempre e mais um dia

Cheguei em casa e me joguei na cama. Coloquei “Forever And a Day”, da The Dissociatives para tocar no último volume. Era o começo da tarde e o dia estava lindo, raios de Sol entrando pela janela. A voz melancólica e doce de Daniel Johns encheu o quarto, meu coração e meu peito.

Tinha tempo que não ouvia essa música. Anos. Fugia dela como o Diabo foge da cruz. Versos rebuscados em um ar de tragédia confortável e aguardada, foi a canção que mais escutei enquanto fazia quimioterapia. Ela embalou os meus momentos mais difíceis e solitários, eu dormia ouvindo e sonhava com nada. Acordava e escrevia aquele que seria o meu primeiro livro.

Waiting for this jury into unwind / ‘Coz it’s been so hard wearing my heart up my sleeve

Meu gato subiu na cama e cheirou minha respiração, seu nariz gelado no meu nariz morno, checando se eu ainda estava viva. Ele sempre tem essa dúvida, eu já não tenho mais. Foram três anos em suspenso, mas agora eu sei. Eu estou viva.

A última cirurgia aconteceu no final do mês passado. O que foi feito é que retiraram o cateter de quimioterapia que eu tinha implantado no peito. Após o diagnóstico do câncer, a cirurgia para a retirada do tumor, a cirurgia para colocar o cateter da quimio, a quimio em si e o processo de remissão, esse foi a última fase do meu tratamento. Foram três anos, como eu disse. Esse cateter só poderia ser retirado após dois anos da quimioterapia, contanto que nesse período não tivesse havido nenhum tipo de suspeita da volta do câncer.

Não houve.

I’m feeling lonely and stable / And it’s believed that soon I’ll be…

E então, novamente eu voltei naquele hospital, naquele quarto, naquela sala de espera e esperei por horas. Nua, soterrada em cobertas no ar condicionado gelado da sala de cirurgia, eu revisitei aquela solidão inominável que só a doença traz. Mas dessa vez eu não estava doente. Eu estava curada.

Time has never been a friend of mine / But it has owed me a favour / Since everything was fine / And I’m desperate change as familiar as a moon

A cirurgia foi rápida e a recuperação, intensamente dolorosa. Engraçado como eu não lembrava de ter sentido tanta dor quando da implantação do cateter, quase três anos atrás. Verdade, naquele tempo eu tinha preocupações e dores emocionais infinitamente maiores e uma bolotinha cirurgicamente implantada sob a minha pele parecia até perfumaria. Hoje, curada, com mil planos e ansiedades, louca para jogar meu corpo no mundo e dançar até cair exausta, me pareceu um contratempo irritante demais parar minha rotina e ficar internada por um dia em um hospital carregado de lembranças que eu não queria revisitar.

Fiquei com pontos por uma semana. Revi também a rotina de limpá-los, trocar curativos, ver minha pele cortada tentando se recuperar, como eu tentava também. Não achava jeito de dormir, me revirava na cama como uma criança mimada. Me desacostumei de estar doente. Não queria mais estar.

E então, os pontos foram retirados. Parecia até que pesavam quilos, saindo do consultório do médico eu nunca me senti mais leve. Na volta para casa, e eu estava sozinha, Forever And a Day voltou a tocar na minha cabeça após anos de forçada ausência, o fim de tudo era o recomeço também. Um recomeço melhor.

Deitada na cama, sem pontos e sem câncer, ouço a música e choro dando risada, desacreditada da minha sorte. Guilherme, o gato, me olha muito sério e simplesmente desiste, saindo do quarto.

Words won’t say the sounds that I can hear / A thousand sunshines on rainclouds / The truth is I’d believe and be

Pedi demissão do lugar onde trabalhei no últimos quatro anos, cortando este último laço sem dor alguma, já que laços nasceram para serem cortados. Decidi que vou aprender a coreografia das músicas pop que eu amo, tenho treinado todos os dias com o jogo de video game que meu amor me deu. De repente, minha vida toda se abriu em possibilidades brilhantes, pois eu estava livre. Livre como nunca estive.

Fiz as pazes com o meu passado recente e suas lembranças. Já podia ouvir novamente a minha música favorita, sem medo. Peguei os livros que escrevi enquanto estava doente e comecei a revisá-los para lançar na Amazon junto com todos os outros que escrevi após o final do tratamento. Também eles eu evitava reler, sequer conseguia falar sobre. Uma carga emocional tão pesada, eu podia lembrar exatamente de cada dia de tratamento que estava por trás daquelas páginas. Mas agora eu não tinha mais medo dos sentimentos que estavam ali, pois eram passado.

E o passado pode ser revisitado infinitas vezes, contanto que você não tenha mais medo dele. E eu vou viver para sempre e mais um dia, como diz a minha música favorita, porque o que o meu medo acabou.


Acredito que uma das maneiras mais eficazes de desmitificar o câncer é falar sobre ele sem medos. Estou fazendo a minha parte com essa série de textos sobre a minha experiência pessoal com a doença. Você pode ler todos aqui.