
A história real das maratonas de dança que iam até a morte nos anos 30
Fiz um teste esses dias. Consigo dançar por duas horas ininterruptas até começar a ficar meio zonza. No conforto da minha casa, bem de saúde e disposta, parece até pouco. Lembro então das maratonas de dança da década de 30 e me sinto mal. Imagina como deve ser dançar por dias, semanas, meses. Dançar até morrer.
Parece bizarro pensar nisso nos dias de hoje, mas aconteceu de verdade. O pano de fundo, como não poderia deixar de ser, foi uma crise financeira e um desemprego sem precedentes. Durante a Grande Depressão, o maior desastre econômico na história, milhões de pessoas perderam seus empregos e casas, o que as fez recorrer a medidas desesperadas para sobreviver, como roubo e mendicância. Na esteira disso, surgiram as maratonas de dança.
Parecia perfeito e até honesto: você competia para ver quem conseguia dançar por mais tempo e em troca ganhava alimentação, um teto para dormir (as competições eram longas) e, com sorte, vencendo, um prêmio em dinheiro que podia chegar a até cinco vezes o valor do salário padrão da época. Parecia perfeito, como toda forma de exploração sempre parece ser, quando se está desesperado.
Em seu auge, as maratonas de dança chegavam a durar meses. A maior de todas aconteceu em Chicago e durou 1. 638 horas. Isso equivalente a setenta dias.
Como seria dançar por setenta dias seguidos? Sem comer direito, dormindo apenas por minutos? Sendo que você já está com um emocional abalado por conta da vida lá fora, sendo que você não tem preparação física para isso.
Você dança para se divertir e passar um tempo agradável. Nos anos 30, em um período terrível de fome e desesperança, esses concursos revelavam uma agressividade e uma violência social que não costumamos associar ao hábito de dançar.


A maioria se sujeitava a passar dias dançando apenas pelas refeições grátis oferecidas. Você comia em pé, em uma mesa na altura do peito, e não podia parar de se mexer, caso contrário seria desclassificado. Uma buzina avisava dos períodos de descanso. Era quando você podia sentar, descansar ou dormir por onze minutos a cada uma hora dançada. Após esse período, mulheres que não conseguissem acordar eram reavivadas com tapas e cheiros fortes. Homens, com água gelada no rosto.
O cansaço era tanto que os competidores chegavam a algo semelhante ao coma enquanto dançavam, quando não eram os episódios de histeria ou delírios de perseguição. É claro que chega uma hora que você não dança mais, você apenas se mexe minimamente. Pelas regras, os pés não podiam parar e os joelhos não podiam tocar o chão: qualquer um desses dois deslizes causavam desclassificação imediata. Se enlouquecia lentamente. Os pés não podiam parar.
E as pessoas pagavam para ver isso? É lógico que pagavam. Degradação era entretenimento (e não sejamos ingênuos, ainda é) e por 25 centavos você podia assistir as maratonas e se sentir um pouco superior por não ser você ali quase morrendo na pista de dança. Se dançando no salão haviam muitos, o lado de fora da pista não ficava por menos: as plateias lotavam.


Aliado à fome, o brutal cansaço e esforço físico levavam os competidores a dois destinos fatais: coma ou morte. E ainda que sobrevivessem, existiam os demônios internos sempre à espreita. Em Seattle, uma competidora tentou o suicídio após dançar por 19 dias e conquistar apenas o quinto lugar na competição. O episódio fez com que a cidade fosse a primeira na história a proibir as maratonas de dança. Até o final dos anos 1930, elas foram proibidas na maioria dos estados dos Estados Unidos e então, desaparecendo.
Pesquisando sobre isso, você não acha muitos artigos e quase não há livros que abordem o tema. Em 1935, Horace McCoy trouxe as maratonas de dança à tona em seu romance “Mas Não Se Matam Cavalos?”, com a história fictícia de Robert Syverten e Gloria Beatty, duas pessoas sem perspectiva que se conhecem por acaso e decidem participar de uma maratona de dança em busca de oportunidades em Hollywood.
O livro já começa com Robert sendo levado à julgamento por ter assassinado Gloria. Em suas densas 139 páginas, vamos entendendo os motivos que levaram o rapaz ao crime e sabendo a verdade desse cenário tão sombrio quanto angustiante. O título do livro, que de início parece descabido, vai se mostrando compreensível de uma forma cruel. Em um relato duro e seco, repleto de amargura, repensamos o ato de sacrificar um animal ferido para que ele não sofra mais. Não se matam cavalos quando eles estão agonizando? No caso de humanos, isso é certo ou errado? É o que o júri decidirá por nós e por Robert.
Um trecho do livro de McCoy:
O promotor público estava enganado quando disse ao júri que ela morrera em agonia, sem amigos, sem outra companhia senão a de seu brutal assassino, ali, naquela noite negra à beira do Pacífico. Ele estava enganado, tanto quanto um ser humano pode estar. Ela não morrera em agonia. Estava em repouso, numa grande felicidade e sorria… Foi a primeira vez que a vi sorrir.
McCoy foi escritor e roteirista, tendo diversas ocupações até se firmar em Hollywood fazendo adaptações de romances para o cinema. Ganhou destaque nessa área e morreu aos 58 anos, sem ver seu romance mais famoso ser adaptado para as telonas, como ele mesmo poderia ter feito. Lançado em 1969, o filme tem o mesmo nome do livro e no Brasil teve seu título traduzido para “A Noite dos Desesperados”. Com direção de Sydney Pollack, manteve com maestria os tons sombrios do livro. É um mergulho doloroso no desespero humano.

Lembro de ter assistido e ter ficado com a sensação de ter visto a versão dançante de Christiane F. Jane Fonda brilha com uma luz que nos cega ao dar vida à desesperada Gloria Beatty. Das nove indicações ao Oscar que o filme recebeu, uma foi para ela, como Melhor Atriz. Infelizmente, injustamente, não levou. Como em um bom concurso, aliás.
Uma história absurda esquecida pelo tempo, em 2009 a Vanity Fair fez um ensaio de moda homenageando alguns filmes aleatórios e trouxe uma foto de Mark Seliger recriando a atmosfera de “A Noite dos Desesperados” com as presenças luxuosas de Kat Dennings, Anton Yelchin, Maya Rudolph, John Krasinski, Elizabeth Banks e Hugh Dancy. Não vou mentir, achei que ficou bonito. Parece até que tem algum glamour uma tragédia social desse porte. Para isso servem as revistas e a mídia.

Desde que li o livro de McCoy e, posteriormente, assisti ao filme de Pollack, essa história nunca mais saiu da minha cabeça. Anos se passaram e eu ainda lembro, volta e meia, como em um sonho ruim.
Imagino o quão desesperador deve ser se ver em uma situação em que você precise gastar suas forças até o limite por um prato de comida ou um teto. Até morrer, até enlouquecer. Pense nas crises econômicas atuais e na nossa indústria do entretenimento, os reality shows e a necessidade constante que temos de consumir produtos midiáticos que de alguma forma escarneçam as pessoas ali expostas. Esse cenário não está tão distante de nós hoje. É incrível que as maratonas sejam algo tão perigosamente esquecido diante do que foram. Um colapso social reduzido a algumas fotos assustadoras de época, um romance e um livro.
Dançando apenas por duas horas, bem de saúde, disposta e no conforto da minha casa, espero que nunca ninguém precise dançar se não puramente por diversão.
Só nos resta torcer.




