
- Esse texto não tem spoiler de nada. Caralho, deve ser exaustivo ser você!
Sentimentos! O que mais senti nessa maratona do Oscar foi, não vou mentir, sentimentos. O que não chega a ser novidade para ninguém. O ponto interessante aqui, a meu ver, é que hoje, manhã pós-Oscar, a cidade de São Paulo submersa em chuva e ódio lento, acordei e ainda me sinto eufórica, um pouco boba e, por que não?, com a sensação de que eu de alguma forma faço parte de algo grandioso.
Por que eu vi 30 filmes dos 53 indicados e eu fiz uma festa em casa para ver a premiação.
Sendo o cinema uma ilusão que nos embala e nos ajuda no que é essencial, ainda mais hoje: escapismo.
Eu sempre gostei de filmes. Como qualquer pessoa. Sempre acompanhei os lançamentos da sétima arte, até aí nada demais. Alguns anos atrás, tive a oportunidade de trabalhar na cobertura das premiações do entretenimento e aí as engrenagens começaram a girar de fato para mim. Por que até então parecia um processo aleatório e incompreensível. No entanto, quando você começa a acompanhar de perto os prêmios, você percebe como tudo segue um raciocínio lógico (ou pelo menos deveria seguir) e como cada prêmio da temporada vai construindo o que vai acontecer (ou deve acontecer) no Oscar, que é a premiação máxima.

E na verdade, é aí que começa a ficar divertido. Há pelo menos três anos eu desenvolvi um sentimento muito forte de gameficação com o Oscar, onde tento ao máximo ver todos os filmes indicados. O que é invariavelmente impossível, mas devo dizer que tenho me aprimorado a cada ano.
O que nos leva a hoje, 2020, quando eu consegui ver 30 filmes dos 53 indicados, como falei. Nunca tinha ido tão longe. Uma das vantagens desse feito é, como já devem ter notado, ficar repetindo-o sem parar. Mas a principal vantagem, e é sobre ela que se debruça esse meu texto, é o quão gratificante e confortável é você sentir que tem embasamento sobre um assunto sobre o qual todos estão falando. E mais, o quanto você aprende e amplia sua visão de mundo quando se propõe a assistir, basicamente, todos os filmes que importam daquele ano.

Por exemplo, esse documentário Life Overtakes Me, tem na Netflix, sobre crianças que simplesmente “apagam” em situações de muito stress. Elas podem ficar assim por anos, do nada, como se estivessem em coma. Tem acontecido principalmente com crianças refugiadas na Suécia. A medicina ainda não entende como funciona, e o documentário tenta mostrar o quanto essa situação vem crescendo e como ela é pesada para as famílias dessas crianças. Eu nem sabia de nada disso até ver o doc.
Além disso, maratonar os indicados ao Oscar me faz ver filmes que eu normalmente não assistiria. O que me faz descobrir favoritos em lugares improváveis e aumenta a quantidade de gêneros cinematográficos para os quais eu tenho algum respeito. Nesse sentido, esse ano a grande surpresa para mim foi 1917, que eu jamais assistiria por ser filme de guerra, normalmente um gênero chatinho, mas que me cativou absurdamente tanto pela narrativa quanto pelo poder de sua fotografia.

Maratonar o Oscar é, de fato, bastante simples. Você só precisa abrir mão da sua vida pessoal ter um pouco de organização e disposição. Claro, a lista de indicados sai apenas um mês antes da cerimônia, mas antes disso você já pode estar atento e procurando assistir aos filmes que estão sendo mais comentados. Para me ajudar na organização, levei para o meu bullet journal a lista oficial e ia anotando quais já tinha visto, tendo uma visão melhor dos que eu ainda precisava ver e me programando a partir disso.
A parte de gameficação fica ainda mais divertida quando você faz essa maratona junto com outra pessoa. Assim como nos anos anteriores, para 2020 eu e minha melhor amiga, a Carol, combinamos de ver os filmes da lista, o máximo que conseguíssemos. Nem sempre juntas, claro, mas sempre que possível sim. Então, isso também rendeu um grande aprimoramento da nossa amizade, pois tivemos mais motivos para nos encontrar e também mais assunto para conversar no dia a dia.
No fim das contas, a Carol viu poucos filmes a menos do que eu. Mas ela venceu no bolão e acertou mais vencedores (emplacou 15, eu só acertei 12). Outro momento divertido que o Oscar nos rendeu, quando ontem nos reunimos para fazer as nossas apostas, tomar Mimosas, comer salgadinhos de padaria e assistir à premiação na minha casa.
Para além de toda essa festa do escapismo, o Oscar esse ano foi muito impactante pelos inesperados, mas extremamente merecidos, prêmios para o filme Parasita, inclusive o prêmio mais importante da noite, de Melhor Filme. É claro que em celebrações como essas a gente tende a ceder facilmente à frivolidade dos looks e dos rostinhos bonitos. Mas é importante lembrar o peso que tem uma premiação dessas e o quanto ela define os rumos da nossa cultura. Por isso, é um sopro de esperança quando acontece algo como o que aconteceu ontem: um filme em língua não inglesa vence.
Isso significa que estamos, ainda que muito devagar e muitas vezes sem vontade, rompendo a bolha do nosso mundinho colorido de ver apenas produções americanas sendo celebradas nas premiações. E isso é algo de que se orgulhar, eu acredito.

Tudo isso, veja, todo esse universo de informações, descobertas e oportunidades de pensar de outra forma nos é dado em eventos culturais como o Oscar. Dessa maneira, maratonar os filmes é uma oportunidade incrível de mergulhar nesse universo, que se renova e se expande a cada ano. Por isso é tão divertido. Por isso é tão bom fazer parte.
Sentimentos! Fiquei muito feliz em acompanhar os indicados tão de perto esse ano. Parece besteira e é um privilégio inegável, mas no fim do dia é tão bom. Se sentir parte de algo, aprender algo novo. Comer salgadinhos e beber Mimosas usando roupas chiques e chinelos.
Mal posso esperar para a próxima maratona. 🙂




















































