
Atenção: esse post contém spoilers de O Diário de Bridget Jones, um filme de literalmente 20 anos atrás.
No dia (ontem) em que Harry Styles é apontado como affair de uma idosa de 36 anos (a minha idade) e coloca a internet em alvoroço a respeito dos caminhos tortuosos do amor, me pego pensando em poucas coisas além do fato de como o meu cabelo está bonito e na necessidade súbita que sinto de rever O Diário de Bridget Jones, um clássico das comédias românticas. São sentimentos simples, conhecidos de qualquer mulher boba como eu, em momentos inesperados precisar rever um filme que já viu mil vezes. Principalmente se tiver o Hugh Grant no elenco. E é impressionante como esses assuntos todos se relacionam, que é inclusive o motivo deste post.
Revendo O Diário de Bridget Jones, percebo que resenhar esse filme é tão desnecessário quanto irresistível. É como resenhar, hoje, em pleno 2021, Romeu & Julieta ou ficar falando sobre os benefícios de comer pão de alho em uma tarde de domingo. Falar sobre isso é uma delícia, mas o que mais existe para ser dito? Existe alguma novidade além do óbvio? Quem começou essa discussão? E ao mesmo tempo, é um lugar seguro ficar falando desses assuntos tão queridos nossos, ainda mais em uma realidade como a que vivemos, onde nada é mais confortável do que o passado.
Pensar na vida enquanto come pão de alho é hoje o que de mais puro uma mulher pode desejar em se tratando de autocuidado.
Então, eu simplesmente me sento em frente à TV, sintonizo no streaming que teve a caridade de colocar O Diário de Bridget Jones em seu catálogo e dou play.

É comum rever filmes de décadas passadas e ficar catando quão problemáticos eles parecem agora. Claro, o mundo muda o tempo todo e com ele o nosso olhar para relacionamentos, questões de gênero, etc. Lançado em 2001, O Diário de Bridget Jones não escapa dessa análise, e logo percebemos as piadas politicamente incorretas, os personagens estereotipados, a absoluta ausência de negros no elenco e assim segue a lista… Ainda assim, a mensagem desse filme é, de alguma forma, tão íntima nossa que ele consegue se manter tão verdadeiro e poderoso atualmente quanto 20 anos atrás, quando o vimos pela primeira vez.
É inevitável também perceber como hoje seria impossível fazer um filme como O Diário de Bridget Jones, porque o mote todo da trama é simplesmente sobre uma mulher que quer um homem. Meio que qualquer homem, mas não qualquer homem. Porque é disso que se trata o filme. Jones quer emagrecer, beber menos, caber nessas calças, parar de ser incomodada pela mãe, deixar de se envolver com caras problemáticos… Ela quer tudo isso, mas acima de tudo, ela pura e simplesmente quer um namorado! E mesmo quando ela evolui e conquista muita coisa, ela ainda quer o namorado!

Isso é a mulher em seu estado bruto, e não me entenda mal quando eu digo isso. O que quero dizer é que, no fim das contas, assim como nas histórias atuais, todos nós queremos amar e ser amados. No entanto, hoje as tramas românticas buscam isso por outro caminho: amor próprio, um grupo empoderado de amigas, realização profissional, um namorado que soma, mas não é a razão de tudo. Porém, no fim do dia, mesmo que os filmes de amor dessa geração tenham mudado, ainda é a cena do beijo a que mais aguardamos, ainda é a certeza do amor o que mais esperamos como conclusão.
O Diário de Bridget Jones é dolorosamente verdadeiro porque chega nessa conclusão sem precisar fingir que isso não é o mais importante. Isso é o mais importante. Quando Bridget revira os olhos ao ouvir a mãe falar do filho dos Darcy que está na festa e daria um bom par, ela desdenha, mas também logo pensa “e se…” enquanto analisa as belas costas de Colin Firth.
É claro, quero o mundo, dinheiro, posses, carreira, uma pele incrível. Mas também quero o amor.
Inclusive, quero o caminho tortuoso que me leva a ele. Que é, mais uma verdade aqui, pode ser, bem divertido.

Bridget descobre o amor procurando por ele em todos os lugares. Não é todo mundo que se permite isso, ainda mais hoje em dia, Deus me livre amar alguém, eu sou feito de ferro, mármore e memes, não preciso de nada, e ela se mostra tão humana exatamente por isso, quando em todas as suas falhas, mostra seu desejo sincero por esse amor. Como não poderia deixar de ser, desejando ela erra e acaba caindo na lábia e no lindo olhar de Daniel Cleaver.
O Harry Styles daquela geração.

É uma absurdo isso. Eu preciso abrir esse parêntese.






Chega a ser hilário assistir a O Diário de Bridget Jones hoje e perceber como o queridinho de todas as mulheres vivas entre 0 e 110 anos, Harry Styles, é parecido com Daniel Cleaver, o personagem de Hugh Grant no filme. Não só fisicamente, na beleza descompromissada do homem magrelo e engraçado, no estilo ou nas roupas, mas em toda a aura que compõe o personagem e se vê refletida na persona do (atribuído) novo namorado de Olivia Wilde.
Uma idosa de 36 anos, como muitas de nós.
E, no fim, é esse grito que nós balzaquianas seguramos por quase 90 minutos de filme, esse clamor que vem desde lá da adolescência e que fica ecoando infinitamente depois de libertado de nossos corações. É sempre a mesma história. A busca por amor, os arquétipos envolvidos nessa busca. O Harry Styles sendo esperto e se aproveitando disso, para horror dos maridos incautos, desespero de nós que temos 16 anos eternos, da nossa fraqueza por homens com sotaque britânico e a carinha de que vai desgraçar nossa vida.
Eu falei com você, Taylor Swift.
Sendo O Diário de Bridget Jones basicamente um spin off de fanfic de Orgulho & Preconceito, um romance de 1813, você percebe a facilidade com que essa história cai suave sobre nós. Ao revisitar essa trama secular, a história de Bridget traz o conto de fadas puro e honesto da mulher que quer muitas coisas, mas a principal delas é ter um cara que a ama assim como ela é.
A busca pelo amor, vamos ser sinceros aqui, é o que nos move. Seja uma idealização ultrarromântica, seja o amor próprio, você trabalhando para ser o seu próprio véio da lancha. Seja qual for o cenário, no fundo sempre existe esse: o que todas nós queremos, a aventura de ser desejada por um Hugh Grant (Harry Styles) sem o menor compromisso, um Colin Firth indo comprar um bullet journal novo pra gente, a gente correndo de calcinha na neve (na neve!) por esse homem tão sério e seu, este homem é seu, sabe?
Nenhum filme de hoje entrega isso. Poucos relacionamentos na vida real conseguem.

E então, você está lá fazendo as suas coisas, o cabelo lindo, mas a vida um caos, dez meses em casa com medo, do nada Harry Styles aparece de mãos dadas com uma mulher? Daniel Cleaver, é você? Vida? O sentido da vida? Estamos em plena pandemia e ainda acontece o amor e seus erros??????
Puta merda, que notícia boa. Vou até colocar um pão de alho na airfryer e respirar fundo, revigorada.










