Brain Dump*

A gente devia

É tudo tão simples, a gente devia

A gente devia beber mais vezes. E sentar mais no meio-fio em noites geladas pra conversar, mesmo sem ter o que dizer. Ficar ali inventando assunto para preencher o vazio, até o vazio inevitavelmente surgir e a gente perceber que ele nem é tão ruim assim. E deixar ele ficar.

E, bêbados, repensar em tudo para então concluir que nada é tão grave assim. Rir das coisas que nos fizeram chorar de raiva até algumas horas atrás. Enrolar os dedos em nossos cabelos, arranhar a borda do copo com a unha. Perceber o quanto é outro é bonito. Agarrar a barra da camiseta. Reconhecer a sua voz de longe e se entender só com um olhar. Dizer coisas idiotas só pra rir um do outro. Prometer que amanhã vai ser melhor, agora que a gente sabe que é tudo tão simples.

É tão simples como desistir de brigar e de ter razão. Tão simples como retomar a conversa depois de discutir. Pedir desculpa não pelo o que fez, mas por ter magoado. É tão simples como voltar pra casa no começo da madrugada, se jogar na cama, jogar os gatos pro alto, puxar você pra perto e esquecer que um dia, um dia tão distante, a gente achava que tudo isso era impossível. Nada é impossível pra gente, a cada dia sabemos mais disso. Um pequeno passo de aproximação, a certeza do seu amor, beijar seu sorriso, rir de você pra te fazer rir. É tudo tão simples e a gente devia ser assim pra sempre. E a gente vai ser, eu sei.


Texto publicado originalmente em 11 de outubro de 2013 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.

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