Resenhas

ENCONTROS: Uma romcom dos nossos tempos

Mélanie vive com a cara no celular, nervosa com uma palestra que precisa apresentar no trabalho, só faz trabalhar e dormir. Rémy tem passado por maus bocados quando toda a sua equipe no trabalho é demitida e só ele fica, pelo stress disso não consegue descansar de jeito nenhum. Os dois moram um do lado do outro, e nunca se viram.

Assim começa ENCONTROS (Deux Moi), novo longa do diretor Cédric Klapischi. Um conto moderno sobre amor, o filme mostra os caminhos que vão fazer Mélanie e Rémy descobrirem mais sobre si mesmos antes de conseguir olhar para fora e enxergar o outro.

Falando sobre questões atuais como amor líquido, depressão e a solidão dos tempos modernos, ENCONTROS traz uma história possível e que se relaciona muito com o que vivemos cotidianamente. Mélanie e Rémy, cada um a seu modo, tem suas próprias questões que travam suas interações sociais. Reclusos e solitários, são adultos funcionais, aparentemente felizes, mas quebrados por dentro de alguma forma.

Separadamente, buscam por terapia e nessas conversas perseguem o entendimento das suas reais motivações, descobrindo quais são os gatilhos que destravam esses medos que os impedem de ter uma vida feliz.

A terapia

Por motivos diferentes, os dois protagonistas buscam auxílio médico (ou “ver alguém”, como dizem) para tratar das angústias que estão impedindo que suas vidas corram normalmente. Rémy é o que mais demonstra resistência ao assunto, se questionando sobre a real necessidade disso. Mélanie, por sua vez, encontra nas sessões um canal imediato para desabafar sobre traumas recentes.

O olhar do filme sobre a questão da terapia é muito positivo e esclarecedor. Uma das bases do longa, é interessante notar como os profissionais que atendem os protagonistas têm abordagens diferentes e tratam de auxiliar os personagens a encontrar seu caminho, enquanto desmistificam o preconceito que paira sobre a necessidade que temos de cuidar da nossa saúde mental.

As coincidências, a graça de tudo isso

Mas se fosse só para falar de dores e traumas, essa não seria uma comédia romântica. O grande trunfo de ENCONTROS é trazer essa conversa sobre saúde mental de uma maneira leve, o que está longe de dizer que é de uma maneira rasa, trabalhando paralelamente com alguns alívios cômicos que nos colocam em uma posição confortável.

De fato, são nesses momentos engraçados do filme que vemos como ele se relaciona com a vida real. Mesmo em um quadro de stress, nem tudo são lágrimas. A jornada dos protagonistas é suavizada com alguns encontros divertidos e com uma linguagem amigável, que nos torna íntimos deles, nos fazendo torcer para que consigam ter sucesso em suas aspirações.

O jogo de gato e rato que nos leva a acreditar que Mélanie e Rémy vão se encontrar em algum momento cria escapes cômicos, que dão todo o charme da trama. A gente torce muito por eles, mesmo sabendo, no decorrer do longa, que não é o fato de eles ficarem juntos, se ficarem, que vai solucionar todos os seus problemas.

Solidão em um mundo que não para

Mais do que falar sobre saúde mental ou criar um trama de coincidências que pavimente o encontro dos protagonistas, que nunca sabemos se acontecerá de fato ou não, ENCONTROS tem o mérito de mostrar suas jornadas para além da busca pelo amor pura e simples.

Ao falar de depressão, solidão e da busca pelo autoconhecimento, o filme encanta ao mostrar que cada indivíduo é único — e que o amor, nesse contexto, vem para complementar, não para suprir uma falta.

Com humor, delicadeza e um poderoso discurso sobre a necessidade de cuidarmos da nossa saúde mental, ENCONTROS surpreende pela doçura com que aborda o amor em nossos tempos modernos. É uma comédia romântica dos nossos tempos, mais do que tudo, onde amor romântico e cuidado próprio andam lado a lado, somando e nunca tomando o lugar um do outro.

Imperdível.


〰️ ENCONTROS estreia nos cinemas brasileiros em 03 de outubro. O blog viu o filme antes na pré-estreia à convite do Adoro Cinema.

Brain Dump*

#THINKTOBERTHINKTATI – Dia 01: Ghost

“A Maldição da Residência Hill” é um bom exemplo de produto de entretenimento que mescla fantasmas com ARTE.

Tenho uma história envolvente recheada de misticismo barato envolvendo fantasmas (ou ghosts, no original do nosso desafio).

Sempre fui muito medrosa nesse sentido, ao mesmo tempo em que adorava me embalar na perigosa euforia de ler livros do Stephen King — um autor que tem como principal objetivo borrar as calças do leitor, seja pela mente, seja pelo coração.

Hoje eu vejo que ler tantos (e quase todos) do King (já notaram como parece pedante o autor se chamar REI?) foi o que amaciou os meus nervos para, muito recentemente, lá pelo meio de 2018, eu começar a encarar sem tanto medo os filmes de fantasma. Muito dessa transformação também é crédito do meu amigo pessoal Bruno Frika, que foi me dando o caminho das pedras nesse seara. Sendo um grande entendido dos filmes horripilantes, Frika foi me indicando títulos e assim eu comecei a ver todos, percebendo que não são tão assustadores assim. De fato, estando a situação do país como está, às vezes o filme de medo é a coisa menos assustadoras que você vê no dia, comparado com as notícias no jornal.

Dessa forma, hoje eu posso dizer que o tal do filme de fantasmas é um dos meus gêneros favoritos dentro da indústria cinematográfica. Não obstante, eu continuo sendo uma pessoa que morre de medo de assombração. Tal dualidade entre ser fã e mesmo assim temer aparições de entidades do além dá um gostinho da minha personalidade conflituosa e complexa.

O que me torna tão diferente e tão igual a todos nós.