
Eu seria hipócrita se negasse que às vezes penso no Maluma. Presença constante nas paradas musicais de sucesso já há alguns anos, o impressionantemente bem-diagramado artista sempre se faz notícia quando o assunto é nos dar material para refletir.
Nascida e criada na Tríplice Fronteira, meu gosto para música sempre foi tão diverso e permissivo quanto uma barraquinha de camelô do Paraguai: contanto que divirta e esteja na boca do povo, estou consumindo. Sendo assim, não seria diferente no que diz respeito à obra do cantor Maluma: gosto e consumo sim. Eu amo reggaeton.
Deus abençoe o reggaeton.
No entanto, antes de ser uma consumidora eu sou uma pensadora, ou assim me vejo quando me olho no espelho da auto-afirmação. Assim, gosto sempre de analisar o que consumo pelo viés da construção de narrativa e, esses dias, ouvindo Maluma enquanto caminhava a pé por uma rua escura, me veio esse pensamento de como ele criou essa persona que hoje impacta tantas mulheres de meia-idade como eu.
Se não, vejamos.

Em seu debut em 2012, Maluma chega com o álbum “Magia“. Tendo como conceito um nada (ou, sendo otimista, uma sugestão de impacto do tipo “vejam que rosto bonito”), Maluma começa a galgar seu lugar ao Sol com um reggaeton básico de letras simplórias sobre amar mulheres casadas ou sobre como está obcecado por essa mulher que aparentemente tem critérios e não aceita seus cortejos. Mesmo que sem nenhuma narrativa explícita, esse álbum chama a atenção porque em algumas músicas Maluma se auto-intitula “rude boy“, um título que não colou, mas serviu de prenúncio para o personagem que ele começava a criar.
Com esse disco, Maluma trabalhou feito louco tentando emplacar com seu rostinho imberbe algum tipo de persona de predador sexual com sentimentos. No entanto, o flop nos charts aponta que ele era então muito novo para conseguir imprimir esse conceito em um cenário musical onde ou você é o anjinho doce ou é o machão pegador.
Apostando no segundo caminho, três anos depois, Maluma dá uma de louco e lança dois CDs no mesmo ano. Em 2015, então, temos “PB.DB. The Mixtape” e “Pretty Boy, Dirty Boy”, dois álbuns que apontam a guinada do cantor para o rumo do machão pegador.


Aqui temos a consolidação da narrativa que Maluma escolheria seguir principalmente porque deu certo: com “Pretty Boy, Dirty Boy” (ou Pretty Dirty Boy Boy, para os disléxicos), Maluma conseguiu emplacar seus primeiros hits, como El Perdedor e El Tiki. Essas canções ainda versam sobre os principais temas que o cantor gosta e conhece: ser rejeitado emocionalmente e continuar em pé na balada. Porém, o destaque aqui é que ele afina seu personagem e crava seu título: Maluma é o pretty boy, dirty boy: o cara bonito, mas safado.
Puxa vida.
Também é com esses trabalhos que Maluma consegue outro subtítulo, esse que o popularizou até mais do que o que dá nome aos CDs. Em quase todas as músicas, Maluma diz seu nome, o que é comum no reggaeton, e diz também “baby“, de uma maneira extremamente sedutora. Tais palavras impregnaram de tal forma no imaginário de seu público que por muitos anos o cantor ficou conhecido como Maluma Baby, como se ele fosse, sei lá, uma marca de pão bisnaguinha. O que é cômico e quem sabe até indesejado, mas é aquela coisa.. Whatever works.
E funcionou. Com “Pretty Boy, Dirty Boy”, Maluma estourou na música mundial, fazendo feats. com vários artistas de seu gênero musical (ou não), turnês ao redor do mundo e aparições diversas na TV. Era a fama e era perfeito. Era o auge.
Depois de anos de construção, chegava a hora de desconstruir o personagem. Afinal, nada grita mais “conceito” na música pop do que levar anos criando uma imagem para depois chegar com um CD e dizer: este sou eu de verdade, tudo que veio antes foi imposição da gravadora!
Tá chorando por que, Miley Cyrus?

Desse modo, nos dando absolutamente tudo o que queríamos e mais, Maluma surge em 2018 com cabelo e barba crescidos, além de uma fixação por fumar charuto e usar casacos de pele.
Quer dizer, tudo.
Absolutamente tudo.

É a era F.A.M.E., onde com um álbum de mesmo nome Maluma finalmente mostra a que veio. Com 15 canções, o CD traz um Maluma mais maduro, mas ainda capaz de dançar muito enquanto chora.
Os feats servem para mostrar o prestígio que conquistou, enquanto as letras seguem versando sobre desamor e balada, em um recorte fino do que o cantor realmente acredita: este é um homem que só se apaixona pela mulher errada.
A desconstrução de Maluma, aliás, é exatamente essa: deixando de lado a coisa do machão predador, o artista explora algumas narrativas interessantes das suas aventuras amorosas. Turns out, ele também tem sentimentos. Turns out, é sempre por mulheres comprometidas ou com critérios, como já víamos desde o começo. No entanto, o que muda aqui é que Maluma se permite falar sobre isso com mais dor do que arrogância, o que o expõe como um ser humano mais crível do que um simples e fantasioso pretty boy, dirty boy.
Fato é que, em algumas músicas de F.A.M.E., parece que o grande resumo da mensagem a ser passada é: “sei que você merece algo muito melhor e sei que sou um lixo de pessoa, mas a balada já está no final, então será que CUSTA me beijar?”
Existe sentimento mais humano do que esse? Eu acho que não.
Vindo nessa narrativa, chega 11:11, no ano seguinte. E mais uma vez somos impactados com algumas mudanças e afinamento de discurso.

Tirando com uma mão o que um dia nos deu com outra, Maluma surge com luzes neon, cabelos curtos e roupas de material sintético, o que é estranho e bom?
Trazendo parcerias ainda mais pesadas, como Ricky Martin e Madonna (falo mais disso lá para frente), em 11:11 Maluma abandona os títulos: não é mais pretty boy, dirty boy, não é mais Maluma Baby. Tal qual uma regra de português pouco usada, Maluma não tem justificativa ou motivos, ele apenas é.

A linearidade com as obras anteriores é mantida, no entanto, através de um fio muito sutil. Continuando sua narrativa, Maluma usa muito uma auto-referência que já tinha sido explorada em discos anteriores, de maneira quase subliminar: Maluma diz várias vezes em suas canções que ele é o seu “perro”.
Ou seja, ele diz que é o seu cachorro. O seu cachorrinho.
Tá chorando por que, Iggy Pop?
Se não é um personagem ou um alter ego, é um desejo pouco escondido e agora escancarado. Com 11:11, Maluma foi onde poucos seres humanos foram capazes de chegar, se apresentando pelo mundo todo e chegando ao alto escalão da música pop.
E de tudo isso, a consagração oficial veio com uma madrinha. De todos os feitos memoráveis que 2019 trouxe com esse CD, o maior de todos foi, sem dúvida, ter gravado 3 (eu disse três) músicas com Madonna: duas para o CD novo dela, uma para esse CD dele.
Era, enfim, o auge real oficial, com Maluma conquistando o topo sendo ele mesmo.
E ele mesmo é um cachorrinho.
Em Medellín, seu feat com Madonna, Maluma canta:
Discúlpame, yo sé que eres Madonna
Pero te voy a demostrar cómo este perro te enamora
O que é, honestamente, a tampa de qualquer caixão de resistência a este artista.
Com música e clipe, Madonna apresenta Maluma para a pequena parcela do mundo que ainda não o conhecia e é assim que Maluma chega: dizendo que é um cachorrinho por você. Tomando como uma alcunha isolada, você pode achar graça em um homem feito dizer que quer ser o cachorrinho da mulher amada.
Sendo uma mulher, você sabe o poder que isso encerra. Sendo uma pessoa ainda em dúvida, você pode simplesmente ver o clipe da música e conferir com seus próprios olhos como Madonna, the one and only, responde à esse chamado.

Assim, temos o desfecho do arco que Maluma começou a escrever lá em 2012, em “Magia”. Muito sem saber, e provavelmente se conhecendo mais conforme errava e acertava, o cantor finalmente se encontrou e chega ao final de 2019 com sua persona consolidada: Maluma é o cachorrinho do pop. O homem que se apaixona errado e não desiste, que faz tudo o que você pedir, que é másculo e carinhoso, que é um lixo, mas poxa, ele te ama.
Resistir à isso é um problema todo seu. Eu nasci na Tríplice Fronteira, como disse, não tenho condições de querer ir contra o que meu coração pede.
Eu sou o cachorrinho do meu próprio gosto musical.



