
- Atenção: este texto contém spoilers de Letra & Música, um filme de mais de dez anos atrás.
Uma pérola da comédia romântica, esse gênero cinematográfico em vias de ser criminalizado e banido de todas as salas de cinema do mundo, Letra & Música entrou para o catálogo da Netflix essa semana – o que me deu a chance de rever esse que já foi um dos meus filmes favoritos até eu assistir a outros duzentos títulos e esquecer dele por completo.
De 2007, incríveis treze anos atrás, o filme conta a história de Alex Fletcher (Hugh Grant), um músico de sucesso nos anos 80, mas hoje em suave ostracismo vivendo de shows menores para balzaquianas saudosas. Sua vida pacata muda quando ele conhece Sophie Fisher (Drew Barrymore), uma moça maluquinha e atrapalhada (claro), que surge na sua casa para regar suas plantas(!), mas acaba colaborando para uma composição por encomenda que Alex precisa fazer para gravar com a nova sensação pop do momento, Cora (Haley Bennet), e assim, quem sabe, voltar aos holofotes.
Na primeira vez que vi esse filme, com vinte anos de idade, o que mais me encantou foi a dinâmica entre Alex e Sophie, a maneira como eles combinam. A química entre os dois é inegável (embora Hugh Grant tenha revelado posteriormente que eles detestaram trabalhar juntos e que fez Drew chorar várias vezes, do que se arrepende). Porém, à época, acho que não compreendi o filme por completo.
É interessante como Letra & Música se vende como um filme de amor clássico, garota encontra garoto, mas se você assistir sem tanta idealização romântica compulsória consegue perceber que ele é muito mais do que isso. Ele fala de amor de uma maneira muito mais madura do que estamos acostumados a ver nesse tipo de produção.

Para começo de conversa, Letra & Música é das poucas romcoms onde o foco está no homem. Essa quebra de padrão na escolha da ótica pela qual a história será contada já nos dá uma pista de que essa é uma trama diferente. Comédias românticas, por definição, nos contam a história de mulheres descobrindo o amor em lugares improváveis e lutando, com muito humor e estoicismo, para fazer esse relacionamento dar certo. Aqui, no entanto, o protagonista é o mocinho, Alex Fletcher, um cara chegando à meia-idade e no meio de uma cruzada pessoal entre aceitar o esquecimento ou tentar mais uma vez conquistar um lugar ao Sol, profissionalmente falando. É nesse ponto que somos apresentados à ele e é nesse ponto também que Sophie o conhece.
Sophie, a seu modo, também está em um ponto de estagnação quando Fletcher cruza seu caminho. Vinda de uma relação traumática, onde foi exposta por seu ex abusivo, ela se encontra meio perdida, em um sub-emprego no comércio da irmã e com um bloqueio criativo, fruto desse relacionamento anterior, que a impede de dar prosseguimento em sua carreira de escritora e poetisa.
Apesar dessas questões de ambos, o amor entre Sophie e Alex surge. E esse amor, curiosamente, não é mostrado como um desafio ou drama. Trajetórias diferentes, traumas, dinheiro ou idade, tudo isso poderia ser um conflito na história de amor de Letra & Música, mas não é. O amor entre eles não é mais um problema a ser resolvido, por que não é disso que se trata o filme. O que só fui entender agora.

Colocar o amor de Alex e Sophie como um problema seria uma abordagem fácil e previsível para uma comédia romântica, mas Letra & Música faz mais do que isso. Visando mostrar os verdadeiros conflitos dos personagens, a trama evita o caminho mais fácil e faz do amor dos protagonistas um amor tranquilo, que nasce espontaneamente e os ajuda a encontrar um novo caminho, um caminho melhor, para viver. E é esse todo o mote do filme, em contraponto às romcoms padrão: o amor dos dois é um meio e não um fim.
Como par, eles usam o amor que sentem um pelo outro como uma estrada e não como uma residência fixa: é o que os ajuda a seguir em frente. Quando, apaixonados, colaboram na escrita de uma canção, vão muito além de simplesmente compor uma música juntos: como casal, mostram um ao outro que existem outras possibilidades além de simplesmente aceitar a vida como ela está.
Quando Fletcher encontra Sophie, descobre nela uma nova inspiração para escrever, algo no que ele notoriamente não é muito bom. Mas Sophie tem a doçura e a leveza capaz de inspirá-lo, e mais, de motivá-lo a compor algo que possa mudar sua situação.
E da mesma forma que Sophie ajuda Alex ao compor com ele e o tira da escuridão, a vida de Sophie também é transformada por esse amor tranquilo que eles constroem. Sob a influência de Alex, com seu humor ferino e senso prático, Sophie encontra a motivação para voltar a escrever e até descobre forças para confrontar o ex (com o apoio gracioso de Alex, em uma cena memorável do filme).

I’ve been searching but I just don’t see the signs
Assim, a não ser por uma eventual briga para dar a tensão necessária para o desfecho do longa, inexiste conflito entre Sophie e Alex. Ao contrário da maioria dos filmes de amor, os protagonistas aqui não se envolvem em mentiras ou dilemas morais maiores que os impeçam de ficar juntos. Nada impede Sophie e Alex de ficar juntos, e eles ficam. E o filme é sobre isso: sobre duas pessoas que se encontram em um estado de estagnação conformada, e juntos acham um motivo novo para tentar, através de um relacionamento saudável e tranquilo.
Por isso, Letra & Música é sutilmente diferente de outros títulos do gênero: é uma história de amor sobre um amor que não se encerra em si, mas que é o ponto de partida para outros arcos possíveis para os personagens. Diferente do padrão, não é um filme que diz: “ok, a gente se ama, como vamos lidar com esse sentimento?”, mas sim um filme que diz: “ok, a gente se ama, então vamos juntos conquistar nossos sonhos”. É uma outra visão para o amor, uma visão mais madura e sólida.
Desse modo, assistindo hoje ao filme, na aurora dos meus 30+, consigo ver nele muito mais valor e profundidade do que encontrei na primeira vez que o assisti, quase uma década e meia atrás. Envolto em múltiplas camadas adoráveis de humor, música pop, diálogos afiados e questionáveis escolhas fashion da protagonista, Letra & Música fala ao coração daqueles que já estão no jogo a tempo suficiente para entender que o amor não é sobre relacionamentos apenas. O amor é sobre tudo, sobre absolutamente tudo do que a sua vida é composta. E se você é capaz de encontrar alguém disposto a trilhar esse caminho ao seu lado lhe ajudando a crescer e evoluindo junto com você, não pode perder isso por nada. Nada tem mais valor do que isso.
Revendo agora, Letra & Música retoma seu posto como um dos meus filmes favoritos, justamente por sua capacidade de dizer tantas coisas em uma história aparentemente superficial. Treze anos depois, foi preciso que eu amadurecesse para poder entender do que o amor é capaz, vivendo isso em minha própria vida. O que torna tão especial encontrar nesse filme simples muito do que acredito como pessoa.
E ainda querem criminalizar a romcom, imagine.






