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STARDUST: SEMPRE ESTAR LÁ? EU DIRIA QUE NEM TANTO

O pessoal ficou nervoso de ansiedade, depois de ódio, com o lançamento de Stardust, uma biopic safada do David Bowie. Primeira coisa que você precisa saber é isso. Biopic safada. A partir daí, é tudo achismo e sangue nos olhos para atacar algo que você não conhece. Particularmente, uma das coisas mais gostosas da internet: atacar! Eu pessoalmente amo.

Só que eu sou uma profissional do audiovisual. Eu sou cinéfila. E se por um lado eu não conheço nada de David Bowie, por outro, esse lado que bate Sol, eu entendo muito de cinema. E mais, eu sou uma profunda entusiasta de filme ruim. Rapaz, me dá um filme ruim que eu me esbaldo.

Eu sou da opinião de que o filme ruim tem o mesmo exato valor de um filme bom. Acho que já falei isso aqui. É a mesma coisa. O sentimento de ver um filme ruim, as coisas que dá no cérebro, é o mesmo de ver um filme bom. Por isso eu gosto.

Então, eu falei. Vou ver esse filme. Essa biopic safada. Vamos nessa emoção. Qual a outra opção? Ficar no Twitter xingando prestadora de serviço? Pelo amor de Deus, acorda. Estamos em 2020. Vamos ver o filme.

1. O ator escolhido

Eu assisti ao filme e vou falar dele, sem spoilers. É claro que é sem spoilers, eu trabalho na indústria, eu sei o que estou fazendo e sei como fazer as coisas.

Tendo dito isso, primeiro de tudo: Johnny Flynn. Você vai respeitar o Johnny Flynn. O ator escolhido para viver David Bowie no filme Stardust é um ser humano como qualquer outro, quem sabe com um empresário pior que a média, eu posso concordar com isso, mas ainda assim… É uma situação complicada, cadê a sua empatia?

Fora de brincadeira, sou super fã do Johnny Flynn. De verdade. Ele é o protagonista de Lovesick, uma série britânica que eu adoro, divertidíssima, cujas três temporadas estão todas na Netflix. Depois assiste.

Além disso, Flynn é músico e tem mais de seis álbuns lançados. Ele é muito bom, canta e tudo. O som dele se parece um pouco com um Ed Sheeran que simplesmente desistiu de ter vida sexual, algo nesse sentido. Britânico tem disso, né? Vale ouvir, tem no Spotify.

Então, o que quero dizer… O johnny Flynn é ótimo! E eu acredito que ele entrou nesse projeto de coração, disposto a dar o seu melhor. O problema não é ele. O problema é só todo o resto que envolve essa produção, como veremos a seguir.

2. A trama

A trama não tem, amor. Vou ficar te devendo.

É piada minha, pessoal. O filme tem sim uma trama. Mas olha, nem parece. Acho que é um movimento assim do novo cinema, sabe? Meio pointless, maluquinho.

Parece o filme da Hebe (não estou falando das perucas): o filme mostra um recorte da vida do protagonista, só que é um recorte tão sem pé nem cabeça que você fica tipo???? Por que esse recorte???? E por que o recorte foi feito com uma motosserra enferrujada e não com uma tesoura, bem bonitinho? São questões.

De qualquer forma, Stardust aborda a fase do Bowie lá nos anos 70, quando ele tentava acontecer no mercado estadunidense com seu álbum The Man who Sold the World. Nessa jornada, ele encontra várias adversidades, ninguém acredita no seu talento, seu visual choca a sociedade (zzzzz), e ele se afunda em uma bad trip de casamento ruim, traumas familiares e esse mesmo medo que te assombra todas as noites, o medo do fracasso. Tranquilo.

Daria um bom filme? Daria. A maneira com que essa trama é apresentada, no entanto, é muito estranha. A narrativa começa do nada, você é jogado ali sem contexto, e fica difícil criar empatia. Durante as quase duas horas de filme, você espera qual vai ser o momento mágico em que o filme vai começar a fazer sentido dentro de uma linha razoável de raciocínio. Esse momento não acontece. É só um amontoado de cenas brevemente conectadas, onde a sensação maior é a de “Olha, a gente conseguiu fazer isso sem ter os direitos da música. Até que ficou bom, né?” (já falo disso).

No fim, termina que é uma história sem moral, sabe? Ok, ele quer acontecer nos EUA. Nada dá certo. Problemas na família. Normal. O que acontece para mudar? Sei lá, a vida. Do nada, Ziggy Stardust. Agora vai. Espera o que eu perdi? Nada, é só tudo jogado, mesmo. Você que lute.

3. A caracterização

Vivemos em uma sociedade em que a aparência conta mais do que tudo. Fato. Se esse filme tivesse uma produção legal, com uma caracterização bacana, ainda dava pra salvar. Não digo assim algo no nível Rocketman, eu não peço tanto. Só uma luz boa, sabe? Uns figurinos decentes, oh meu caralho, é do Bowie que estamos falando.

Bom, nem isso.

É engraçado pensar que o Bowie desse filme é o da mesma época da Christiane F., a famosa zé droguinha icônica, que era muito fã dele. O filme dela (de 1981) e esse parecem ter sido gravados no mesmo ano, inclusive.

Stardust é um filme escuro, manchado, sujo. Parece que foi gravado dentro de um pneu cheio de água parada, encostado em um terreno baldio. A caracterização é horrível, resultando em uma cópia de uma cópia do que Bowie vestia na época.

O pessoal reclamou muito das perucas. Honestamente, nem acho que elas são o problema principal nesse sentido. É ruim, ok, mas tudo ali é ruim. Me incomodou mais os dentes histericamente estragados que colocaram no Flynn. Ok, eu sei que Bowie não era o Bocão da Cepacol, entretanto… Os caras zoaram, viu?

Também é ruim a pele do Bowie de Stardust. Entendo que quiseram trazer o mais próximo de como era, mas galera… Se eu quisesse ver realidade eu abria o jornal. Deus me livre abrir o jornal. Podia ter um pouco de cuidado aqui. Se você não tem nada onde se destacar, não vai pegar um dos seus únicos trunfos e fazer dele um exercício de humildade.

Flynn é um homem bonito. Na luz certa e com seu talento, ele até parece um pouco com o Bowie. Com a make ruim, a prótese dentária ridícula e a peruca, porém, o que temos é um Bowie além do caricato. Constrangedor, pra dizer o mínimo.

4. As músicas

Eu simplesmente amei essa parte. Sabe o mais interessante nesse filme sobre o músico David Bowie? Não tem as músicas dele!!! É incrível! Maravilhoso! Inovador!

Eu fico encantada como conseguiram fazer esse filme com absolutamente nada. Nada. A produção não teve autorização da família e, logo, não teve os direitos para usar as músicas do cantor na trilha. E aí, como resolve?

Coloca o Bowie como um atormentado consumido pela comparação com os outros. O filme todo, ele só fala de outros artistas mais famosos e “melhores” do que ele. Cita vários. T-Rex, Rolling Stones, Iggy Pop… Nas cenas em que toca nos shows, ele faz covers desses artistas pelos quais sente inveja. O David Bowie, como sabemos, era um grande invejoso.

Puta merda, como eu amo.

David Bowie no EUA para promover seu novo álbum sem tocar uma música sequer dele. É perfeito.

Não que eu tenha conseguido pegar isso assim de cara. Como falei, conheço pouco de David Bowie. Minha favorita dele é Astronauta de Mármore. Nem essa toca no filme. Eu tenho certeza de que o Nenhum de Nós cederia os direitos, se pedissem com jeitinho.

Infelizmente, não rolou. Faltou iniciativa.

5. O que eu achei, afinal?

Acho que ficou bem óbvio, não é? Eu amei esse filme. De um jeito extremamente coeso, ele caiu no meu coração feito uma bigorna, para me lembrar que se tá ruim pra mim, também tá ruim pra todo mundo.

Quer fazer um filme, um livro, um bolo, um prédio, sei lá, mas não tem nada nas mãos para isso? Meu filho, faça! Tem gente que não faz e tá morrendo. Simplesmente faça! Acredite no seu potencial, oh inferno, meu filho, voa!

David Bowie mesmo morto e a contragosto nos ensina tanto… Puts!

Para não dizer que tudo são flores, falando sério aqui, usando essa analogia reversa, eu digo com total sinceridade que a sequência final do filme, com Flynn no palco como Ziggy Stardust é linda. Sério mesmo, é de arrepiar. Pra mim, é o melhor momento do filme. Apesar de nem saber que música é aquela que ele canta. Do Bowie não é. Deve ser alguma cantiga de roda britânica, essas músicas costumam ser de domínio público.

Se colocassem só aquela cena como trailer, eu acho que o filme poderia enganar muito mais pessoas.

Enfim. Um excelente filme. Experiência fantástica. Ainda bem que eu assisti. Qual era a outra opção mesmo? Xingar prestadora de serviço no Twitter?

Meu querido, eu sou cinéfila.


Stardust está disponível pela 44a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. O filme está na biblioteca do evento até o dia 05 de novembro. Você pode alugar para assistir clicando aqui.

Resenhas

É REAL: VOCÊ PRECISA ASSISTIR “A VERDADEIRA HISTÓRIA DE NED KELLY”

“A Verdadeira História de Ned Kelly”

Sherlock Holmes existiu? Cleópatra existiu? Ned Kelly existiu? Sei lá, e você? Chegando ao final desse 2020 caótico, será que você realmente existiu?

Algumas histórias são boas demais para serem contadas apenas uma vez. E a gente já sofre o suficiente quando resolve insistir nesse apego à realidade. Vamos apenas apreciar uma boa narrativa com cenografia e atuações incríveis (não estou falando da sua vida, estou falando desse filme).

Fiquei transtornada com “A Verdadeira História de Ned Kelly”, que estreia dia 22 nos cinemas e eu pude desfrutar antecipadamente, no conforto da minha cabine digital (leia-se: largada no sofá com a minha gata Bibi). Sendo honesta, eu pouco sabia sobre Ned Kelly. Sempre confundia com o Billy The Kid. Agora ficou bem claro para mim.

A história de Ned Kelly, dizem que é real, já foi contada cerca de 20 vezes entre séries, documentários, minisséries, curtas e filmes. Não sei se você já ouviu falar. Ned Kelly foi tipo o Lampião deles, um cara que sofreu algumas injustiças aqui e ali, teve seu orgulho ferido e juntou um bando para se vingar.

Isso em uma livre interpretação minha.

Em “A Verdadeira História de Ned Kelly”, lançado em 2019 lá fora e chegando por aqui só agora, temos um novo olhar para essa epopeia, em uma roupagem muito mais crua, meio gay friendly (não somos todos?), violenta, pesada mesmo. E eletrificante, como está sabiamente destacado no cartaz.

Aqueles fimes que você assiste pensando “o que é isso, eu só tenho seis anos”. Por aí.

“A Verdadeira História de Ned Kelly”

Justin Kursel, diretor do filme, disse que pensou na narrativa como uma música punk. É bem nessa pegada mesmo. Enquanto nos chocamos com a nudez, a crueza dos diálogos, a brutalidade das cenas de luta, a sensação que fica é de que o filme é todo um corte na carne. Muito real, muito chocante. E impossível de parar de olhar.

Muito desse impacto é crédito de George MacKay, que dá vida ao Ned Kelly punk dessa nova versão. Você pode conhecer MacKay de 1917, quando ele fez aquele soldado azarado que corre bastante, mesmo todo lascado. Aqui ele repete a resistência corporal e acrescenta mais toneladas de fúria. O Ned Kelly de MacKay é pura insanidade, força e ódio.

Como se fosse pouco, ainda temos as participações estreladas de Russell Crowe, Nicholas Hoult, Charlie Hunnam, e Essie Davis, entre outros. Eu assisti ao filme todo pensando “caramba, eles fizeram mesmo isso?”. A gente vive com a sensação de que o mundo lá fora acabou, mas aparentemente algumas coisas foram feitas antes. Como esse filme. O que me deixa muito feliz.

Por isso, eu acho que você deveria assistir também. De 1880 para cá, quando Ned Kelly existiu (existiu?) é claro, muita coisa rolou. Entre versões de outras versões, boatos e exageros, ele sobreviveu por sua loucura e brutalidade, tendo sua história sendo recontada até hoje.

E hoje chegou a versão definitiva desse narrativa.

Acha que estou exagerando? Olha o trailer. Na moral?

Ned Kelly existiu? Não sei, mas eu estou me sentindo viva horrores depois desse filme dele.


Com distribuição da A2 Filmes, “A Verdadeira História de Ned Kelly” chega aos cinemas em 22 de outubro. Eu assisti ao filme antes por cortesia da A2 Filmes (contem comigo para tudo).