Processo Criativo

#NaNoWriMo ou o mês em que escrevi TODOS os dias

Bom, primeiro que é engraçado dizer “o mês em que escrevi TODOS os dias”, porque eu escrevo todos os dias sempre, o meu trabalho é escrever. É literalmente a minha profissão, fora de brincadeira. No entanto, nesse contexto aqui, o que quero contar é que em novembro eu escrevi todos os dias para o meu livro, o meu novo projeto, o meu livro de número 14, que ainda está em construção e teve um avanço enorme com o NaNoWriMo.

E o que é o NaNoWriMo, me pergunta você, os olhos vidrados, a sola do pé coçando porque nesse calor tá assim de mosquito embaixo da mesa. Eu explico. Não os mosquitos, essa eu deixo para a ciência. Já o NaNoWriMo, eu meio que consigo explicar.

NaNoWriMo, este é o site, o povo adora uma sigla, nada mais é do que o National Novel Writing Month, um desafio anual de escrita literária que acontece na internet durante todo o mês de Novembro. O projeto consiste em fazer os participantes escreverem um texto de 50 mil palavras entre 1º de Novembro até o dia 30 do mesmo mês.

Para ajudar nessa missão, a plataforma oferece vários conteúdos inspiradores e também técnicos, além de ferramentas para ajudar você no monitoramento da sua evolução na meta, e mais bagdes e conteúdos fofinhos que não acrescentam em nada, mas ficam lindos na tela. A ideia geral é que um conteúdo com 50 mil palavras já é um livro, então a promessa é de que, participando do desafio, no primeiro dia de dezembro você já tenha um livro pronto para publicar. E publique.

Claro que, na prática, não é tão simples assim. Ter 50 mil palavras não quer dizer que você tem um livro. No entanto, ter um rascunho de 50 mil palavras já é um começo e algo bem difícil de conquistar, e por isso considero esse desafio tão válido.

A iniciativa existe desde 1999 e eu já tentei participar outras vezes, sem sucesso. Dessa vez, decidi meio no improviso e rolou. Mais do que bater as 50k palavras, eu quis usar a plataforma para me ajudar a ter algum senso de organização na minha escrita para esse meu novo livro em questão, que andava bem caótica.

Então, peguei esse meu rascunho, já com 37 mil palavras, e decidi retrabalhar nele durante o NaNoWriMo. Assim, passei o mês reescrevendo basicamente tudo e descobrindo, palavra por palavra, aonde aquela história queria me levar.

Aqui e nas imagens a seguir, prints do meu perfil no NaNoWriMo.

Para ajudar também, e isso o NaNoWriMo não faz, mandei esse rascunho inicial para uma leitora beta, que me retornou com vários pontos onde eu poderia desenvolver melhor a história. Assim, eu tinha bastante no que trabalhar.

Vale dizer que o NaNoWriMo é muito (parece ser muito) sobre números, bater a meta, mas a verdade é que essa gameficação de ter que atingir 50 mil palavras impulsiona você a escrever mesmo naqueles momentos em que está meio blé e “sem inspiração” (já explico as aspas). E isso desbloqueia a sua criatividade não só para esses momentos, mas para quase todos.

Cada pessoa tem um processo diferente. Normalmente quando escrevo um livro, gosto da coisa romantizada de escrever durante 22 horas seguidas e depois ficar dez dias sem lembrar que existe o rascunho. Foi esse ritmo que fez, em parte, o meu rascunho começado em agosto estar tão longe de sua conclusão no começo de novembro. No entanto, quanto mais escrevo, seja profissionalmente, seja por hobby, mais entendo que enxergar a escrita como arte possível apenas pela inspiração é algo muito bonito, mas pouco prático. Em algum ponto do processo, você precisa arregaçar as mangas e se forçar um pouquinho para fazer acontecer.

Isso ficou muito claro para mim com o NaNoWriMo. Me forçando a escrever todos os dias, não é que eu chegava no meu rascunho e escrevia 100 palavras quaisquer só para bater meta. Na verdade, o que aconteceu é que passei a desdobrar o ato de escrever em mais possibilidades entre primeiro escrever tudo e depois revisar tudo, que era o meu ritmo padrão. Nem sempre eu tinha ideias de como avançar com a história, então eu voltava em algum ponto já definido e desenvolvia melhor, acrescentava uma cena, explicava melhor um contexto. Em outros dias, já chegava animada para um novo capítulo e avançava na trama — e avançava com mais qualidade, porque ali nos dias anteriores “sem inspiração” eu já tinha construído a “cama” para essas novas ideias.

A minha rotina de escrita seguiu a mesma durante todo o mês. Como acordo às 5h, era das primeiras coisas do meu dia, e me dava duas horas para escrever até começar a trabalhar (estou de home office). Nem sempre eu escrevia por duas horas inteiras, teve dias em que eu pensava por duas horas inteiras e escrevia três frases. Nesses momentos, lembrava sempre do que li na newsletter do Vitor Martins, de tentar escrever por pelo menos dez minutos. Muitas vezes, esses dez minutos viravam quinze, trinta e até 45, e assim ia. Às vezes, se tornavam dois turnos em horários distintos. Eu acho que nunca teve um dia em que escrevi apenas por 10 minutos de fato, mas muitos dos dias em que escrevi por horas não teriam acontecido se eu não tivesse me esforçado por aqueles dez minutos iniciais.

Por isso eu coloco aspas em “sem inspiração”, já que a inspiração é, na verdade, um conceito muito subjetivo e, mais do que tudo, uma ferramenta que precisa ser alimentada. É claro que ficar sentada bebendo uma cerveja pensando na história que você um dia vai escrever quando tudo der certo é uma delícia, mas a verdade é que essa inspiração só vai servir a você se você colocá-la em ação. Caso contrário, você só está se frustrando, desperdiçando a sua energia e as suas ideias em projetos que nem tem a coragem de começar. Porque, no fim, não importa se você acha que não sabe como colocar aquela ideia no papel, não importa se você acha que ainda não é o momento porque você não sabe como começar. Você precisa tentar de qualquer forma, porque é só fazendo que você descobre como fazer.

Além disso, o fato de escrever todos os dias mantém a história muito fresca e presente na sua memória. Como eu escrevo pela manhã, era muito comum passar o dia atenta a detalhes, músicas, filmes, conversas e histórias que eu presenciava e descobrir maneiras de aproveitar isso no meu texto.

Nos finais de semana, eu tentava mudar um pouco e escrever à noite. O que me mostrou que sou uma pessoa zero noturna, pois nesses dias minha história evoluía bem menos.

Ainda assim, sim, escrevi todos os dias. Em alguns dias, mais de 2 mil palavras, em outros, só 100. Em muitos, apagando 500 palavras e escrevendo 95, mas ainda assim, evoluindo.

E então, ontem, dia 30 de novembro, o NaNoWriMo chegou ao fim e o meu rascunho inicial de 37 mil palavras tinha se transformado em uma história muito mais aprofundada de 53.252 palavras.

Para além dos números e da meta batida, eu terminei o desafio pessoalmente muito satisfeita comigo. E sabendo muito mais, imensamente mais, sobre meus personagens e minha história, o que vai me possibilitar seguir a diante com muito mais facilidade e qualidade.

Eu avancei consideravelmente na história, corrigi rotas, aprendi mais sobre mim e sobre o meu processo de escrita. E agora? Pois é, esse é o próximo passo.

E agora?

Os meses após o NaNoWriMo são conhecidos na comunidade como “What Now?”. Nesse ponto, a ideia é que se foque em revisar o projeto e, estando pronto, publicar. Com alguma margem de erro, 50 mil palavras equivale a um romance de 150 páginas, o que já está ótimo para uma publicação regular.

No meu caso, no entanto, publicar ainda está bem longe nesse processo. Geralmente meus livros têm, de fato, 50 mil palavras. Para esse projeto, porém, eu sinto que ainda vou precisar de mais para concluir a história. Até por ter me aprofundado mais na escrita, descobri que existem alguns arcos que ainda preciso arrematar antes de dizer que o livro está pronto para suas muitas revisões, leitura de critique partner e leitura sensível, passos imprescindíveis antes da obra chegar ao público.

Assim, o que vou fazer agora é tirar uns dias de folga (se é que eu vou conseguir, estou tão envolvida!), tentar arejar meus pensamentos e voltar com tudo para concluir esse projeto. E isso, então, seguindo a rotina que aprendi com o desafio, e principalmente a regrinha dos dez minutos.

Tudo isso para dizer que, sim, valeu muito a pena participar do NaNoWriMo e que pretendo levar ele comigo de alguma forma não só para esse projeto, mas para tudo o que envolve a minha escrita.

E pensar que, em outubro, esse era um rascunho prestes a ser jogado fora simplesmente porque eu não via como continuar, por mais que amasse a história. Acho que o que o NaNoWriMo deixa de lição maior para mim é nunca desistir de algo que você quer de verdade, de todo coração. Você só precisa buscar os meios para fazê-lo, e eles estão todos por aí, incluindo dentro de você, apenas esperando que você se aproprie deles.