Falando sério, não dá. Até tento em alguns momentos, mas é só abrir o Twitter ou qualquer outra rede social e você é soterrado por tanta notícia ruim que é impossível manter a fé.
Tudo é ultrajante e desesperador, em níveis que são ultrapassados a cada dia. O que é terrível sob qualquer ponto de vista, deixando a gente exausto só de começar a pensar.
Mesmo aqueles recortes raros onde algo de bom acontece são capazes de trazer algum tipo de tristeza. E nem é por cinismo, o que acontece é que você vê aquilo e pensa no quanto precisa se agarrar naquela notícia para acreditar que as coisas vão ficar bem.
Eu não acho que as coisas vão ficar bem.
Uma saída possível é a negação, apagando todas as redes sociais e vivendo de literatura e séries na TV.
No clipe de um de seus singles mais recentes, J. Balvin divide a cena com Maluma. Em uma brincadeira logo no início do vídeo, J. Balvin imita Maluma, se filmando com a câmera frontal do celular e dizendo todo galã “Mamacita… Maluma Baby”. Já Maluma se olha no espelho e, em uma caricatura de J. Balvin, entoa: “blá, blá, blá…Colômbia…. blá, blá, blá… Cultura!”.
Como qualquer um disposto a concordar comigo pode confirmar, toda brincadeira esconde um fundo de verdade. Para além de nos mostrar o duelo de titãs entre os dois maiores nomes do reggaeton atual, o clipe de Que Pena!nos aponta uma verdade inegável: enquanto Maluma só pensa em ser sensual, J. Balvin tem sempre seu discurso apontado para a cultura.
No entanto, quando começou, em 2009, com seu primeiro álbum de estúdio, Real, J. Balvin ainda estava incerto sobre sua mensagem. Nessa pérola perdida, Balvin mescla consciência territorial com lamentos de algum tipo de amor platônico e genérico por qualquer mulher que lhe dê o mínimo de atenção.
Como esperado, o impacto foi zero. Para o ouvinte mediano, era apenas mais um cantor de reggaeton vestido de roupa social para poder ser aceito pela sociedade. Era preciso ir além.
Em seus discos seguintes, além dos vários singles e mix tapes para rádios, J. Balvin foi encontrando seu tom. Você nota isso pelo primeiro verso da primeira música de J Balvin Mix Tape, álbum de 2012, quando em “Seguiré Subiendo” ele diz: Y yo quiero seguir… / Y seguiré subiendo / Yo quiero ser la voz del pueblo. Quando J. Balvin finalmente entende isso e diz isso em voz alta, as coisas começam a acontecer.
Você pode pensar que o maior dilema para um cantor latino é que tamanho deixar o cabelo, mas a verdade é que o debate é muito mais complexo. Ao tomar para si a missão de levar sua cultura para o resto do mundo, J. Balvin se aprofundou em suas raízes colombianas, dando abertura para o resgate de uma música que é tipicamente latina e tornando-a amplamente palatável para o gosto mundial.
Por outro lado, a coisa de ser bonito ou um símbolo sexual, típica dos cantores latinos, ficou em segundo plano, usado quando convém ou para quem a química bate: tanto faz, o ponto não é esse. O ponto para J. Balvin é, Maluma mesmo disse, Colômbia, cultura. Ele não quer te levar para a cama, ele quer te levar para a América Latina.
Para tornar isso uma persona, a chave foi investir em um discurso pesado de valorização da cultura colombiana, ao mesmo tempo que o fazia através de feats com talentos nacionais e também de países amigos. Outra estratégia foi trabalhar não apenas com álbuns de estúdio, mas propagar sua mensagem por meio de muitos singles e participações soltas por aí, fazendo de J. Balvin um diamante partido em mil pedaços, difícil de ser catalogado, se espalhando pelo mundo em uma obra tão vasta quanto densa.
Assim, tivemos La Familia (2013) e La Familia B Sides (2014), além de Energia (2016) e Energia Lado B (2017), álbuns onde J. Balvin reforça valores como família, tradição e cultura, tendo o amor romântico como um pano de fundo útil, mas não imprescindível.
O sucesso veio em um crescendo, em paralelo com essas obras, através dos singles extraídos delas, sendo que consagração internacional viria mesmo em 2017, quando J. Balvin lançou o single“Mi Gente” com Willy William, que posteriormente foi regravado com feat de ninguém menos que Beyoncé. Dando a tônica de seu discurso, a letra da música não fala de amor romântico, fala de amor à música – e de como esse sentimento pode fazer o mundo girar:
Toda mi gente se mueve Mira el ritmo cómo los tiene Hago música que entretiene El mundo nos quiere, nos quiere, y me quiere a mí
“Mi Gente”, inclusive, aparece posteriormente em Vibras, álbum de 2018 e um dos mais coesos da história do cantor. Mais uma vez indo contra a coisa do galã latino, a capa é uma simples ilustração: J. Balvin não tem tempo para isso.
Vibras, o álbum, é o CD definitivo do cantor – pelo menos até o momento. Com um conceito que segue contando uma história faixa a faixa, tudo ali é perfeito e faz sentido dentro da mensagem maior: vamos honrar nossas raízes aqui. E, ah, você é muito bonita dançando. Dando seguimento à tradição dos feats, a obra traz parcerias com Yandel, Wisin, Anitta, e até com a expoente Rosalía (a faixa é Brillo, um feat que se repetiria posteriormente com o single Con Altura), entre outros.
Já em 2019, chega Reggaeton, o single que define, resume e condensa toda a carreira e mensagem de J. Balvin. Com um clipe que resgata figuras definitivas do reggaeton, trazendo veteranos do gênero como Daddy Yankee, Nicky Jam e Don Omar, entre outros, a estética 90′ e quase grunge, além da coisa da união de um povo são os destaques da história contada aqui. Vale assistir:
É uma afirmação do reggaeton “old school” de J. Balvin, um artista que não se curva ao pop americano, imprimindo a sua cultura pelo mundo todo.
A letra é literal e direta: Deus abençoe o reggaeton.
Ya tú sabes quienes son Me resalto del montón Dios bendiga el reggaetón, amén (amén) Hasta abajo, así soy yo Yankee pa’ esta me inspiró Bajo fuerte como ron, ron, ron
Y si el pueblo pide (reggaetón, reggaetón) No se lo voy a negar (reggaetón, reggaetón) Si las mujeres piden (reggaetón, reggaetón) Pues yo le’ voy a dar (reggaetón, reggaetón)
Nesse ponto, você entende que J. Balvin não está para brincadeira. É cativante e até doce ele reverter o clichê do discurso pop e, ao invés de prometer amor eterno por si só, dizer que traz o que as mulheres querem (reggaeton!) e faz isso por elas. É a malandragem do homem latino, que faz tudo por você, mostrando que te ama sem nunca dizer “eu te amo” de fato.
O que vemos ainda mais em seu novo álbum, lançado esses dias, Oasis. Abraçando de vez o feat., o trabalho é uma parceria com Bad Bunny, porto-riquenho conhecido por seu reggaeton que flerta com o trap.
O resultado é um CD altamente dançante, reggaeton sem frescura e sem bula. É como se, depois de passar décadas explicando o gênero (inclusive com uma música que literalmente se chama REGGAETON!), Balvin nos considerasse prontos para receber um álbum com canções que se explicam por si só.
Se você gostava dele até aqui, vai gostar mais. Se não gostava, já pode ir embora, porque ele é isso, é reggaeton, Colômbia e cultura e nada além disso. Gostem ou não.
O próximo passo? Difícil dizer, é um artista tão inventivo quanto imprevisível. De qualquer modo, sabemos que o caminho está pavimentado e, para J. Balvin, a trilha é tão clara quanto verdadeira: seguirá rompiendo e dando o que as mulheres querem: cultura & reggaeton.
Falar sobre o passado é complicado, o que não é doloroso per se é doloroso pela saudade. Eu tenho essa relação um tanto delicada com o que deixei para trás – algo que já comecei a tratar em terapia, não se preocupem.
Trazendo esse tema para um contexto mais ameno, vou contar uma história boa do meu passado recente. Não é nada demais, mas sempre lembro dela com um sorriso.
Foi um dia depois de alguns exames, ainda durante o tratamento de câncer. Minha amiga Carol me acompanhou ao médico e depois disso estávamos livres. Era um dia útil, meio de semana, e nós duas estávamos de folga por conta desses compromissos. Saindo do laboratório, eu não me sentia exatamente bem, mas queria estar. Vinhamos falando sobre cuidado pessoal e beleza, essas coisas mais leves, quando tivemos a ideia de cortar o cabelo.
Assim, virando uma rua e entrando em outra, passeando de carro, paramos em um salão.
Meu cabelo é bem cheio, tenho muito mesmo. Com a quimioterapia, ele vinha caindo, mas não a ponto de me deixar careca, só com algumas falhas. Explicar isso para o cabeleireiro foi tranquilo, apesar daquela costumeira comoção inicial. O meu corte não foi muito radical, só diminui um pouco o tamanho, e foi curioso ver como o caimento dele ficou melhor por conta da diminuição de volume que o tratamento causava.
Minha amiga Carol também fez um corte básico, e tudo bem. A gente não estava ali pelo chock value, era mais a coisa simbólica mesmo. Eu quero dizer, a minha vida desmoronando e eu sentada no salão cortando o cabelo com a minha melhor amiga.
Posteriormente, acho que no ano seguinte, tive uma experiência similar com outra melhor amiga, a Julie, que foi comigo cortar o cabelo do nada, nós duas saindo do salão tarde da noite com nossos novos penteados.
Olhando de fora até parece besteira, no entanto quando estamos vivendo sabemos que não é. Foi bom ter vivido esses momentos, com essas duas amigas tão importantes para mim. Serviu para me mostrar o que realmente importa.
Toda vez que eu entro em uma livraria eu penso nisso. Se é isso o que eu realmente quero, se isso me traria a felicidade definitiva. Se um dia eu vou conseguir conquistar isso e – mais importante – se conquistando isso um dia, vai ser como eu imagino e vai me dar a satisfação que eu penso que dará.
Os meios estão mudando. Um livro físico, hoje, já é um artigo quase ultrapassado. Cresce a quantidade de pessoas que têm e-book reader, um item muito mais prático e moderno para a leitura. Ainda assim, não se pode desprezar o encanto e o alcance de um livro “de verdade”, de papel, palpável e feito para durar. Ter um livro publicado assim, por uma editora, é um sonho para mim.
Mas sonhos são diferentes de ambições. Ambição, eu penso, fala muito mais sobre desejos que você almeja e pelos quais luta de maneira prática. Nesse ponto, a conversa fica muito mais delicada. Já tentei inúmeras vezes tornar o meu sonho realidade. Conversas e tentativas diversas com as mais diversas editoras. Contratos que ficaram em aberto com pessoas que diziam que podiam me agenciar.
No fim, nunca dá em nada. Já ouvi mais “não” do que você imagina. Vai cansando. Acabo preferindo trilhar sozinha e a meu modo o meu caminho. Não é plenamente satisfatório porque não contempla tudo o que sonho. Ter meus livros publicado online e com algum sucesso não me impede de pensar “e se…?” toda vez que entro em uma livraria. O que pode ser bem frustrante.
Talvez me falte ser mais ambiciosa do que sonhadora. De qualquer modo, a minha energia é valiosa, e eu prefiro gastá-la produzindo. O que virá disso, só o tempo vai dizer.
Completando a primeira semana desse desafio de textos, percebo que desvirtuei totalmente a proposta da página que o desenvolveu. Era para ser um espaço para compartilhar pensamentos sobre saúde mental, no entanto eu só fiz dizer abobrinhas e até escrever fanfic!
E o que se pode fazer? Se eu dou um passo para frente, já é tarde demais para voltar para trás. Eu simplesmente sigo em frente, estando certa ou não!
Coisa da minha cabeça, mas quando penso em espaço eu sempre lembro do David Bowie! E nem é como se eu fosse uma profunda conhecedora da obra dele, uma fã nervosa ou algo do tipo. Simplesmente ficou na minha mente desse jeito, um tipo de associação sem sentido.
Ou quem sabe faça sentido, de algum modo.
Bom, jogando no Google eu compreendi que essa conexão provavelmente se deve por conta de Space Oddity que é, até onde entendi, (não estou sendo pedante, é que pode ser também um CD ou um livro, sei lá) uma música do David Bowie. Clicando na letra eu logo lembro que canção é essa, e então tudo faz sentido!
Indo além e procurando pelo clipe, me deparo com essa versão de 2019 para ele, o que me lembra (olha essas sinapses acontecendo!) que o Phelipe indicou mesmo esse vídeo na última edição de Um Milkshake Chamado Wanda. Por que é uma nova versão para esse clipe clássico, com algumas imagens inéditas. Quando ele disse isso no podcast eu não liguei muito, mas repare no mundo girando e me obrigando a assistir o tal clipe.
Vamos ver juntos:
Hmmm, muito bonito mesmo. Bowie era um homem tão chique, não é mesmo? Você podia colocar ele com um cumbuca de miojo, comendo em pé escorado na parede e o homem era lindo da mesma forma. Interessante.
Gente, para o próximo post eu prometo me emendar e falar a sério sobre algo.
A primeira coisa que eu penso quando penso na palavra strength (força, no original), é na músicaGod Give Me Strength, do Elvis Costello com o Burt Bacharach. Sempre achei essa música muito curiosa e até cômica, pois o que está se dizendo literalmente é “Deus, me dê forças!!”, o que é engraçado pela dramaticidade, se você for pensar.
Elvis Costello sempre foi conhecido por suas parcerias, onde tiver duas pessoas com um atabaque e um violão ele se junta e tira um pagode. Não seria diferente com os medalhões da música chique. Por isso, em 1998 ele lançou Painted From Memory, um álbum em colab com ninguém menos do que o ilustre pianista Burt Bacharach.
Com 12 faixas, o CD versa sobre a dor de ser um homem, trazendo outros título tão interessantes como Toledo, The Sweetest Punch, The House is Empty Now, e a minha favorita, I Still Have That Other Girl (olha que filho da puta?).
Burt e Costello rindo muito, pois são amigos.
Desse álbum é que temos God Give Me Strentgh, uma música escrita e performada pela dupla. De uma poesia quase gospel, a canção tem sua intenção resumida por seu título: é isso mesmo, uma pessoa pedindo pelas forças celestiais, posto que já está no seu limite.
Uma situação com as quais muitos aqui podem se relacionar, sendo que eu mesma a vejo como uma canção para a qual eu posso facilmente erguer os braços e gritar “minha músicaaaa”, etc.
Quando você pensa na letra, aliás, é até de se espantar com a beatice, já que o Elvis Costello não é disso. Conhecido por suas letras raivosas, ciumentas e mundanas, foi com grande espanto que recebemos essa canção ecumênica. É de se apostar na boa influência de Bacharach na índole de Costello para tal milagre, acredita-se. De todo modo, não se pode deixar de considerar que as pessoas podem mudar. Em sua caminhada inevitável para a melhor idade, Costello tem mais e mais apostado em temas amenos e litúrgicos, voltados para a família, mostrando que água mole em pedra dura tanto bate até fura.
O que não é segredo para ninguém.
Now I have nothing, so God give me strength ‘Cos I’m weak in her wake And if I’m strong I might still break And I don’t have anything to share That I won’t throw away into the air
That song is sung out This bell is rung out She was the light that I’d bless She took my last chance of happiness So God give me strength God give me strength
E se ainda restassem dúvidas, você vê que a música é do Costello mesmo quando ele diz “Ela tirou minha última chance de felicidade”, pois nada é mais corno amargurado do que isso — e ser corno amargurado constitui 70% da obra do músico inglês.
Agora, a música é boa? Não sei, esse é um conceito relativo. Eu particularmente gosto bastante, mais pelo improvável da coisa do que pela qualidade da obra. A qualidade da obra eu deixo para o julgamento de vocês, que são críticos. Eu sou apenas uma pessoa amargurada cansada, dramática e cômica, erguendo os bracinhos e pedindo “Deus, me dê forças!”.
Uma coisa é certa: baita música chique. Sofrer de smoking é diferente.
Sei pouca coisa sobre a solidão além de que ela só é boa quando acontece por opção própria. Muito se fala sobre curtir a própria companhia e ver valor em fazer tudo sozinho, no entanto para mim essa só é uma alternativa que pode ser encarada como totalmente saudável se ela não é a única que você tem.
Tenho noção do quanto dói estar sozinho. Às vezes, é preferível estar longe de si mesmo do que sendo sua única companhia. Não tenho muita vivência sobre isso, entretanto. Não que eu seja uma pessoa sempre cercada de gente ao meu redor. A questão é que tenho poucas pessoas na minha vida e tenho a sorte de tê-las sempre presentes de alguma forma. De modo que solidão é algo que pouco experimentei no meu cotidiano.
E como o que não vivo, escrevo – como dizia o poeta -, lembrei agora que tenho um livro todinho sobre uma moça que vive o suprasumo da solidão. Se chama Despertar, como você pode ver na imagem da capa, que leva direto para o livro na Amazon.
Despertar conta a história de Luíza, uma menina super solitária que mora em São Paulo e tem uma rotina mega pacata, até desenvolver um crush no metrô e ter com essa situação inesperada várias mudanças no meu modo de encarar a vida.
Quando escrevi esse livro, não tinha muito em mente além da vontade de contar uma história sobre alguém que “desperta para a vida” através do amor. Eu nem me pretendia soar tão melancólica assim, mas escrevendo você chega a lugares que muitas vezes não eram o destino final a princípio.
Gosto bastante dessa história, por mais suspeito que dizer isso soe, porque mostra a solidão de uma maneira quase poética, com uma boa perspectiva. Luiza não é infeliz por ser solitária, no entanto ela sabe que poderia ser mais feliz se essa realidade mudasse. A chave está, então, em entender isso e buscar uma mudança que caiba no que ela precisa sem mudar a essência de quem ela é.
E no fim, eu acho que é isso. A solidão não é um problema, se ela for a sua escolha. Se o caso não for esse, é importante buscar outras saídas. Você não precisa mudar sua vida por completo, apenas ajustar aqui e ali, até se sentir bem como gostaria de se sentir.
Da temperatura? O que é isso, uma conversa de elevador?
Eu vou te contar o que aconteceu nesse último domingo. Depois de muitos dias de frio e chuva, inesperadamente se abriu o Sol. As ruas ainda tinham poças de água da chuva e das nossas lágrimas por conta dessa economia. O Sol chegou sem ligar para isso. “Vocês que se virem”, teria dito o Sol.
Coloquei meu patins na mochila e fui para a Paulista. Eu poderia ter ido de patins de casa até lá, aliás, pois a ciclovia que corta a cidade me alcança nesse nível. No entanto, não sou assim tão destemida. Optei pelo mais seguro e só na beirada da principal avenida da cidade eu me sentei e calcei meu patins.
Eu vinha pelo caminho ouvindo a minha playlist “Conforto Emergencial”, um compilado das minhas canções favoritas da aclamada banda emo Panic! At The Disco. Nessa lista, tudo tem algum valor, nem que seja puramente emocional ou estético.
O que sei é que coloquei meus patins e comecei a andar pela avenida. É sempre um pouco estranho nesses primeiros minutos, você reconhecendo o piso e também se entendendo com o que carrega na costas, na mochila, tendo cuidado com as pessoas passando ao seu redor em todas as direções e velocidade possíveis.
Quando finalmente me senti à vontade, correndo com os cabelos ao vento, meu peso distribuído com exatidão e compensado na pressão nos meus joelhos, eu tendo a consciência de estar com meus braços e mãos perto do corpo, como é o certo, começou a tocar This Is Gospel, da Panic!.
Eu gosto muito dessa música, primeiro porque ela é linda, segundo porque ela tem um contexto muito bonito. O Brendon Urie escreveu a letra para quando um dos integrantes da banda precisou sair, para entrar em reabilitação. Por isso os versos são tão doloridos e tristes, como em:
If you love me let me go If you love me let me go ‘Cause these words are knives that often leave scars The fear of falling apart And truth be told, I never was yours The fear, the fear of falling apart
Onde Urie fala sobre a dor de não mais aguentar estar do lado do amigo e vê-lo sofrendo tanto.
Para mim, apenas uma reles mortal, o valor dessa canção se mostrou de maneira prática em muitos outros momentos diversos, mas principalmente nessa manhã de domingo, comigo patinando em um dia de Sol depois de muitos dias de chuva.
Foi, no mínimo, mágico. No máximo, loucura de um coração apaixonado. O fato é que, patinar por ali em um dia tão bonito ouvindo uma música tão perfeita foi um momento muito especial.
Então, se hoje você me pede para falar do clima, o que eu vou contar é isso. O dia lindo de Sol onde patinei pela rua indisfarçadamente cantando This is Gospel a plenos pulmões.