Brain Dump*

Diga adeus ao passado

Foto: Death to Stock

Aceite que terminou

Tudo vai virar passado. Essas amizades e a necessidade de mim que elas têm, os assuntos e os feitos, as pequenas vitórias e os retumbantes ataques de riso.

Sobrarei só eu e os livros. E os jogos e o futebol. Teimosias de caráter que fortalecem quem eu sou e me afastam dos outros.

Hemingway olhava todas as suas amizades de fora, nenhuma chegou a lhe alcançar.

Murakami, quieto e sábio, modesto e esperto, apertava com força na palma da mão a gilete que continha cada crítica. Do que sangrava, escrevia mais, o rosto plácido e confiante guardava para si toda a dor.

King não deixou passar nada, blindado por seu incrível ego.

Sozinha com meus escritos, me afundo em crateras sentimentais que abafam o som que vem lá de fora. Fica só um zumbido. Ninguém vai me achar.

Prontamente esquecida em um mundo que não para, beijo o chão e me despeço. Lindas atualizações das quais não faço parte, atravesso a rua e o caminho já é totalmente outro.

Na minha cabeça, a tatuagem já está lá. Eles não vão saber meu nome até que eu vá embora.

Tudo vai virar passado, dois segundos antes de virar eterno. Diga adeus e agradeça (é, agradeça): Não foi dessa vez.

Brain Dump*

Zen e a arte de sentir raiva

Imagem: Death For Stock

É possível conciliar inconformismo com paz de espírito?

Ainda estou aprendendo sobre até que ponto é bom se deixar afetar pelas coisas (e como). Dia desses escrevi sobre a necessidade de sentir raiva e disso fiquei pensando um pouco mais. É preciso sentir raiva, sim, mas como não deixar que isso envenene seu dia? Como não se tornar uma pessoa amarga com todo o inconformismo que você sente? E como não perder a ternura, como diz aquele jargão, ao se posicionar com determinação pelas suas lutas?

É difícil achar um meio-termo. Ontem assisti a uma palestra da Monja Coen em um evento do trabalho e ela falou sobre como é melhor para o nosso coração nos sentirmos sempre gratos por tudo e atentos para a beleza da vida, mesmo diante das adversidades e tal. Porque a vida é mesmo muito bonita, mesmo quando tudo está errado. Estamos em uma fase de mudanças que não se pensaria em algumas décadas atrás, então é preciso ter consciência de que ainda que a vida esteja difícil, ela está acontecendo. Estamos caminhando para algum lugar que ainda não sabemos como será e se manter otimista é fundamental. Eu sei, no discurso tudo isso é lindo e eu concordo, a questão é que existe um ponto entre ser grato e ser passivo — e é este ponto que me intriga.

Se ela diz, por exemplo, que é uma benção estar vivo e ter um trabalho, eu consigo ver isso. No entanto, também vejo que todas essas condições poderiam ser bem melhores para mim e isso me enraivece de certo modo. Essa raiva, eu acredito, é a minha força para mudar e conquistar o que desejo. Essa raiva me leva a algum lugar. O desafio é conseguir chegar até lá sem destruir relações e até oportunidades pelo caminho, cega como você pode estar com tudo de errado que consegue ver. Nisso, veja, a raiva pode até mais atrapalhar do que ajudar.

Como disse, ainda estou buscando esse meio-termo entre saber o lado bom das coisas sem deixar de me enraivecer com o que ainda está longe de ser o ideal para mim. Não quero ser uma pessoa que tem sempre razão, mas é irremediavelmente amarga. Quero ser uma pessoa feliz e consciente, que sabe quais são seus direitos e luta por eles sem prejudicar ninguém e nem a si mesma. Pesquisando um pouco, achei o Mova Filmes, um canal no Youtube com conteúdos da Monja Coen falando sobre questões diversas de espiritualidades trazidas para o contexto do nosso cotidiano. Esse em especial eu achei ideal para essa questão que trago aqui:

Acho que o problema, quem sabe, não seja sentir raiva. A questão é identificá-la e saber que ela diz respeito apenas a isso ou aquilo na sua vida e não deixar que se torne um monstro que te devore, engolindo junto também a sua razão e o sentido da sua insatisfação. A chave da raiva é saber como usá-la, como direcioná-la, algo que também estou aprendendo. Falando sobre isso no Twitter, uma amiga me indicou alguns vídeos legais no Youtube com outros monges falando mais ou menos sobre esse tema (na verdade, desdobrando-o em outros temas mais amplos). Vou deixá-los aqui para vocês verem também:

Dito isso, queria acrescentar uma nota adicional e esclarecer que não sou a mais espiritualizada das pessoas e nem acho que exista uma religião ou linha de pensamento definitiva que vá explicar ou sarar todas os nossos tormentos. Mas estou buscando, sim, respostas e reparando de onde elas chegam. Eu sei que existe certo cinismo e desconfiança quando falamos de religião e seus porta-vozes, o famoso “pra você é fácil” quando quem quer que seja vem querer nos dar respostas prontas para nossos questionamentos mais profundos. No entanto, acho importante abrir o coração e ouvir. Tentar. Eu quero mesmo ficar em paz comigo e, nesse intuito, toda ajuda é bem-vinda.

Abra os olhos e fique atento, como eu disse, não só para a raiva, mas para tudo que ela te traz junto. Buscar um meio-termo para a avalanche de coisas que sentimos não é fácil, mas desconfio que comece com a humildade de ouvir o outro, sendo ele religioso ou não, e pensar um pouco sobre o que se sente.

Brain Dump*

Flutuando em indecisões

Imagem: Ryan McGuire

Andando por aí, procurando um bom lugar

Não consigo mais ler livros, nem escrevê-los. Isso acontece de tempos em tempos e é normal, no entanto saber disso não me impede de ficar angustiada com o tempo que perco. Minha atenção está flutuante e não consegue se fixar em nada. Quase perco o ônibus, pensando na vida. Não escuto quando falam comigo. Na noite gelada, na volta para casa, fico imaginando quantos dias faltam para esse ser o último e algo novo começar. Esse parece ser um daqueles momentos que antecedem um acontecimento maior. Espero. Por enquanto, permaneço aqui crente de que em algum momento a grande roda vai girar e eu terei respostas. Respostas que me deixarão contente, ao menos até as próximas dúvidas.

Acordei cedo e cheguei adiantada demais, como sempre. Escolhi a roupa pensando em cada detalhe, chegando lá era como se tivesse errado tudo dos pés à cabeça muito antes, logo quando nasci. E daí então, nada mais deu certo. Respirei fundo e afastei os pensamentos ruins. Engoli meu medo. Foi simples, longos goles de chá quente no copo frágil de plástico. Tentei me encaixar o quanto pude, fica mais fácil quando as pessoas estão dispostas. Eu, mesmo quando disposta, ainda me perco.

Minha voz sempre sai baixa, como se minhas próprias cordas vocais soubessem que não confio na importância do que digo. Se ninguém me escutar, tudo bem, nem era tão legal mesmo o que eu dizia. Tentei me impor baseado no que tinha para mostrar. Tentei manter a coluna ereta, mas o olhar sempre ia para baixo, para os pés, para o chão, para o buraco que não havia — e, não havendo, eu não podia me esconder. Acabei sentada sozinha em um canto por horas. E tudo bem. Eu gosto de ficar quieta.

Está tudo bem mesmo quando acho que é o fim do mundo. O fim do mundo já foi, eu sempre tenho isso em mente.

A coragem de fazer algo te dá a autoridade para fazê-lo. Tudo que eu invento eu acabo conseguindo terminar, ainda que não saia como pensei a princípio. No fim das contas, acho até que fui bem, gaguejando e me repetindo, sorrindo quando esquecia as palavras e me perdia. Pessoas gentis me destroem mais que as malvadas, com as malvadas eu já me acostumei. Só é difícil mesmo quando gostam de você.

E depois. Sem o peso nas costas, me aventurei pelo lugar. Senti orgulho de mim, simplesmente por estar viva e dizendo coisas. Por estar no meio de tantos e ainda conseguir ser eu mesma. Não me moldo aos lugares, só me encaixo o tanto que caiba e que fique fácil de desencaixar a qualquer momento. Depois, segundos depois, eu logo quis voltar para casa, eu logo quis o conforto que mora no abraço sempre disponível para mim. As risadas que vão lá do quarto te encontrar na sala, os gatos miando, o amor.

Foi um bom dia. Saber o que não se quer conforta mais do que saber o que se quer. Eu me senti bem. Testada e aprovada. Um passo maior do que as pernas e cheguei inteira do outro lado. Incrível! Me afundei nas cobertas macias e dormi como tenho dormido nessas últimas noites, esperando a grande roda girar, quieta mesmo, tudo bem. O momento vai chegar e estou pronta.

Brain Dump*

Você não quer ter raiva

Imagem: Ryan McGuire

Mas alguma coisa você precisa sentir

Viagens, filmes no cinema, um livro de que você gosta. Futilidades que acalentam o coração. Memes imbecis. Debates inúteis e irresistíveis: arroz por baixo ou por cima do feijão? Besteiras que te ajudam a passar o dia. Enquanto isso, o país fervilha em mudanças e exige que você vá para a rua protestar ou apoiar. Você quer ficar quietinho na sua bolha sem filtro do Instagram, mas as coisas não param de acontecer e estão a cada dia piores. Não vai ter jeito, algum posicionamento você precisa ter, ainda que fique quieto e guarde apenas para si.

A vontade é de não sentir nada. Não está sendo possível. Tenho dito ultimamente que o Brasil me obriga a ingerir açúcar. São bolos e mais bolos de cenoura com calda de chocolate na doceria em frente ao trabalho para tentar me convencer de que a vida ainda pode ser doce. Sobremesas empurradas goela abaixo, a seco, enquanto as notícias não param de chegar: mudanças na lei, novos subterfúgios para político poder roubar tranquilo e a minha caixa de e-mail lotada de avisos ridículos enviados com o intuito de deixar claro, de maneira velada, que o trabalhador não tem direito a nada, muito menos ao famigerado “respeito”.

Nem todo açúcar do mundo é capaz de conter a raiva que cresce em você quando o dinheiro acaba e ainda sobra muito dia no mês. Sobra muito mês e pouco dinheiro faz muitos anos.

Eu gostaria de não sentir raiva. Ser a pessoa apaziguadora que vê a luz no fim do túnel e conduz todos nós para a salvação. Queria não sentir raiva porque ela me corrói o estômago, azeda meu dia e me faz compensar frustração com comida, com uma barra inteira de chocolate em apenas uma tarde. Pelo menos eu ainda tenho dinheiro para comprar uma barra de chocolate, você vai dizer. Ainda.

No entanto, sacolejando no ônibus lotado que demora para chegar, cobra caro e não oferece conforto algum, todos os dias, eu me pergunto se não é mesmo a raiva o único sentimento possível hoje em dia. Preciso ser boa com os outros, sim. Preciso não deixar nada atrapalhar o meu sorriso, sim. Mas, pelo amor de Deus, vamos sentir raiva. Vamos perceber o que está acontecendo lá fora, vamos fazer algo. Deixar de aceitar calado, nem que seja para morrer gritando.

Ainda quero os livros, os filmes, os memes. Ainda quero sorrir e comer meu bolo de cenoura com calda de chocolate. Só que por vontade e não por frustração. É preciso continuar sendo uma pessoa boa, mas é preciso sentir raiva, alguma coisa a gente tem que sentir. Não tem como continuar assim, alienado em uma bolha enquanto o mundo lá fora desaba. Essa bolha não vai nos sustentar por muito tempo.

O blogueiro viaja e posta milhares de fotos lindas que nos isolam da realidade. Que efeito ele usou? Onde eu compro essa camiseta? Será que parcelam a viagem? Cuidado. Não se isole. Entre uma atualização e outra no seu feed, é lógico que você precisa ser feliz de alguma forma nem que seja rolando a tela do seu Facebook, mantenha os olhos abertos.

Estão acabando com a sua vida enquanto você pisca os olhos com o brilho das distrações. Fique atento, sinta raiva.

Brain Dump*

Vamos tentar apenas gostar das coisas?

Crédito da imagem: TIMOTHY A. CLARY/AFP/Getty Images via artnet.news

Sem dar nota, sem comparar com tudo, sem tecer teorias

Eu não aguento mais precisar defender as coisas que eu gosto. Os livros, os filmes, as bandas, as canções, os clipes dessas canções e as escolhas de cada artista que eu escolho gostar. E eu nem quero defender ninguém. Eu não quero entrar em briga nenhuma. Eu só quero poder gostar das coisas em paz. Será que podemos?

Não existe um filme que possa ser apenas bom. Obra que acertou em cheio seu coração, se colocada em debate ela será comparada com outras do gênero e do diretor, será fatiada em partes e apontada como fraca no começo, perdida no meio e inconclusiva no fim. Não me atentei a esses detalhes enquanto assistia. Do que sei deste filme é que ele me emocionou, me fez chorar até. Eu gostei dele. Não se pode gostar. É preciso lembrar que esse filme é um caça-Oscar. É preciso saber que a atriz conseguiu o papel porque outra não quis. Nada foi feito para ser assim. Não se pode confiar em filme nenhum.

Se formos conversar sobre curiosidades e seus que tais, eu realmente me interesso por isso. Eu quero saber, faz parte do gostar. Só não entendo como não se pode gostar por gostar, é como se você fosse inferior na sua percepção apenas por querer um sentimento simples. Para tudo é preciso uma análise enorme e minuciosa. Um comparativo e uma problematização expressa.

A performance daquela diva pop não foi tão boa se comparada ao show de 2013 à tarde quando ela era outra que não essa. As músicas de agora não são como anteriores, então não são boas. O clipe não se parece com nada que ela fez antes, logo não é bom. A música é baladinha, é ruim. Se fosse baladona, ruim também. Temos especialistas para te convencer a não gostar de nada. Estamos blindados, estamos nos blindando de sentir.

Querendo apenas ser tocada por algo que te faça sentir, logo seus sentimentos são postos em cheque por uma barreira que se cria. É como se gostar de algo fosse uma concessão dourada que ninguém pudesse se dar ao luxo de conceder. Gostando de algo, você se torna vulnerável. Melhor não gostar de nada, nada pode ser bom o suficiente para merecer você.

É como se as pessoas quisessem se proteger de serem afetadas pelas coisas.

Eu não quero. Eu quero gostar das coisas. Ouvir uma música e decorar cada palavra da letra, mesmo o cantor sendo tido como cafona. Quero gostar do que fizeram aqui, esta olhada firme que o mocinho do filme deu para a moça amiga da protagonista. Me lembrou um livro que eu li e gostei também. Me lembrou que é bom sentir tudo isso. É bom sentir, é bom gostar. De olhos vidrados, amar. Podemos?

Brain Dump*

A gente devia

É tudo tão simples, a gente devia

A gente devia beber mais vezes. E sentar mais no meio-fio em noites geladas pra conversar, mesmo sem ter o que dizer. Ficar ali inventando assunto para preencher o vazio, até o vazio inevitavelmente surgir e a gente perceber que ele nem é tão ruim assim. E deixar ele ficar.

E, bêbados, repensar em tudo para então concluir que nada é tão grave assim. Rir das coisas que nos fizeram chorar de raiva até algumas horas atrás. Enrolar os dedos em nossos cabelos, arranhar a borda do copo com a unha. Perceber o quanto é outro é bonito. Agarrar a barra da camiseta. Reconhecer a sua voz de longe e se entender só com um olhar. Dizer coisas idiotas só pra rir um do outro. Prometer que amanhã vai ser melhor, agora que a gente sabe que é tudo tão simples.

É tão simples como desistir de brigar e de ter razão. Tão simples como retomar a conversa depois de discutir. Pedir desculpa não pelo o que fez, mas por ter magoado. É tão simples como voltar pra casa no começo da madrugada, se jogar na cama, jogar os gatos pro alto, puxar você pra perto e esquecer que um dia, um dia tão distante, a gente achava que tudo isso era impossível. Nada é impossível pra gente, a cada dia sabemos mais disso. Um pequeno passo de aproximação, a certeza do seu amor, beijar seu sorriso, rir de você pra te fazer rir. É tudo tão simples e a gente devia ser assim pra sempre. E a gente vai ser, eu sei.


Texto publicado originalmente em 11 de outubro de 2013 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.

Brain Dump*

Nada mudou

Foto: Death to Stock

Um reencontro consigo mesmo podem trazer novidades antigas

Você pode encontrar seu eu do passado ao andar desavisada pela rua, tomar um susto e se arrepiar como um gato pelo o que vê e lembrou. Também pode encontrá-lo no meio da noite, na cena de algum filme. Quieta e sozinha na casa vazia, enquanto faz um café. Falando ao telefone com sua mãe e lembrando como costumava se sentir ao estar ao lado dela, do outro lado da linha. Você se reencontra e se surpreende consigo mesmo. O que mudou?

No fundo, continuamos sempre os mesmos. O susto vem daí, de ver que nada mudou. Daquele tempo de antes, mais livros, filmes, seriados, pessoas e festas vieram, mas continuamos os mesmos. A insegurança de falar olhando pra baixo, a ousadia de repetir mais alto quando não te escutam da primeira vez. Arriscar contar uma piada em público, como quem se joga na piscina com carteira e celular no bolso. E o frio na barriga que já é velho amigo.

Nada nunca muda e é confortável viver assim. A gente se abraça mentalmente e diz “sou desse jeito”, nada precisa mudar porque nada nunca muda. Nos reencontramos dentro de lembranças, de memórias e tudo não passa de uma continuação dessa história que desde o começo já foi definida como seria. Não temos escolha. Nos reencontramos com nosso “eu antigo”, sentimos ternura pela ingenuidade dele, que um dia pensou que seria diferente. O café no meio da noite, o telefone da mãe, a cena do filme. Tudo serve para lembrar: nada nunca muda e ainda estamos aqui.


Texto publicado originalmente em 04 de março de 2014 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.

Brain Dump*

Me distanciando de tudo

E ficando mais perto de mim, então.

Uma amiga disse que assistindo Mad Men todo mundo quer ser a Peggy. A princípio não, já que ela começa como uma baita perdedora, mas no decorrer da série, sim, é óbvio que toda mulher quer ser a Peggy. Conseguindo controlar seu impulso por lanches, largando os relacionamentos tóxicos (é real, estou usando este termo) e superando seu mestre — sem contar o quanto o armário dela melhorou de uma temporada para a outra.

No entanto, o que principalmente queremos quando queremos ser a Peggy é essa certeza que ela tem de que é boa e está no caminho certo. Queremos essa certeza dela de que temos algum talento, que vale a pena tentar. Que vão valorizar isso aqui, seja lá o que isso aqui for, pois é sem dúvida uma obra de arte qualquer coisa que a gente faça. Esse brilho no olhar que ela tem quando defende um projeto, essa convicção raivosa que a impulsiona para frente.

Peggy nem sempre teve essa certeza. Foi preciso alguns sacodes da vida, do Don e da Joan, o que você chamaria de bullying ali foi construção de caráter. Algumas mágoas, os grandes olhos verde-azuis arregalados de ultraje e decepção com basicamente toda e qualquer pessoa que cruzou seu caminho. No fim, deu certo. Quando ela entra marchando na agência nova, o cigarro no canto da boca manchando seu sorriso que vai de orelha a orelha, você sabe que deu certo. E você quer ser como ela. A questão é que ali era final de temporada. Ali já tinha acontecido um milhão de coisas e ela já tinha sofrido um bocado, então era de se esperar a redenção final. Já nós, pobres mortais, não sabemos em que temporada estamos.

Que baque. Falando de mim, não poderia estar mais feliz e confusa. E nem está acontecendo nada. Nada. Só que eu notei que, ultimamente na minha vida, uma a uma as coisas estão indo embora. Amizades, gostos, hobbies, vontades, rotinas antigas. Acreditasse em horóscopo, diria que é a Lua em não sei o que com o Sol em não sei que lá que está me fazendo rever tudo o que eu sou. Se bem que, pensando bem, acho que nem se acreditasse em horóscopo eu aceitaria uma explicação tão simplória, como se não tivesse nada a ver comigo pessoalmente.

Pois, tal qual Peggy pulando de episódio em episódio, eu estou galgando temporadas buscando aquela certeza. Já são 32. Inspiro e expiro, perdida nas mudanças que meu coração joga na minha cara me obrigando a agir. Corro atrás da ansiedade, inspiro e expiro, tento não surtar. Não há motivos para surtar. Hoje eu me despedi de mais um pedaço do meu passado e foi tão simples e rápido quanto uma resposta por inbox. A gente tem pressa, todo mundo tem pressa e precisa resolver tudo rápido.

Quanto mais me despeço das pessoas e das coisas, mais sobra de mim. Peggy na ponta dos pés, olhando por cima da divisória da baia, o cara que morreu. Quanto mais sobra de mim, mais me assombro com o fato de que preciso conhecer e entender essa pessoa que eu sou. Peggy pegando o pacote de cigarros sem marca e dizendo que agora ela fuma, sim. Procuro me acostumar com essa pessoa que descubro ser, procuro gostar da maneira que ela pensa. Procuro ver o que de bom essa pessoa tem e ter orgulho dela.

Quanto mais me despeço, mais me encontro. E me isolando eu me sinto bem e me sinto culpada ao mesmo tempo. Não por nada, na vida sempre sobra culpa por todos os lados mesmo. A gente sempre se sente superior por estar se distanciando e se sente inferior por estar longe de tudo.

Dizem que você só odeia nas pessoas o que não suporta em si mesmo. Eu não aguento mais odiar as pessoas. Também por isso estou me distanciando. Não é covardia se você muda de batalha ao invés de insistir na mesma. Eu escuto músicas que não conheço, não quero nada do que já saiba.

Minha amiga disse, todo mundo quer ser a Peggy e eu sou a Sally. Entendo seu ponto, porém eu não quero ser diferente, eu quero ser eu. Nisso tudo eu fiquei pensando, eu sou muito a Peggy, mas uma Peggy que ainda está sendo escrita, uma bem diferente e igual ao mesmo tempo e que, com sorte, será tão boa quanto a original.

Peggy engolindo o choro no começo do episódio e sorrindo feliz na última cena. Vai ser assim.

Brain Dump*

Fui comprar café e chorei

Foto: Death to Stock

Essa cidade pode te deixar sentimental feito o diabo

Tenho pensado nisso ultimamente: até que idade você pode ser sentimental? Com 32 anos me parece que não se pode mais ser emotiva, ter dúvidas e aflições e escrever sobre elas. Parece que é exclusividade dos adolescentes escrever longos desabafos, abrir o coração e pedir ajuda. Dos adultos, se espera que você seja mais calado e tranquilo. Bom, ainda que eu seja tranquila, é impossível ficar imune ao sentimentos que me assombram vez ou outra.

Hoje fui comprar café, sai para a rua e dei de cara com uma banda tocando ao vivo na Paulista. Um trio metal de meninos novinhos e estilosos, eles tocavam uns Bruno Mars de raiz, uns hits do pop que tanto me cativam, e aquilo me atingiu feito um soco. Lembrei do meu pai, guitarrista e luthier fã de “boa música”, pensei no quanto ele ficaria encantando em andar pela Paulista junto comigo e ver essas bandinhas dando show a cada cem metros.

É claro, eu fiz uma escolha. Se não estou agora ao lado do meu pai e do restante da minha família é porque eu quis. E eu sou feliz com essa escolha, mas ainda assim existem esses momentos. Esses em que nada acontece e você chora. Você sempre vai encontrar pequenos vestígios do que deixou, essas lembranças doídas, essas possibilidades que são feridas abertas que não fecham nem com o passar dos anos.

Gravei alguns segundos da apresentação dos caras, mandei pra minha mãe falando pra ela mostrar pro meu pai. Guardei o celular no bolso e chorei. Ridículas e cafonas, lágrimas escorriam por baixo do meu óculos de grau. Pelo amor de Deus, como você se constrange e me constrange, eu disse para mim mesma em silêncio.

Depois passou.

Eu imagino as pessoas me vendo na rua chorando, as pessoas vendo meus textos na timeline e pensando “Jesus Cristo, você já é adulta, cresça”. A verdade é que eu sou meio assim mesmo e não tem muito o que fazer. Provavelmente ainda vou escrever sobre meus sentimentos até o final da vida, ainda vou constranger e afastar conhecidos e desconhecidos sempre que tiver a chance.

Ainda vou ver um cara tocando guitarra na rua e lembrar do meu pai. Ler um livro e pensar “caralho, como eu queria poder abraçar o protagonista”. Ainda vou me magoar quando notar pela enésima vez que ninguém liga para o que escrevo.

Mas é isso. A gente seca as lágrimas e continua. Aos 15, aos 32, o resto da vida e a vida toda.

Brain Dump*

Sites de deixaram de nos amar como deviam — e que a gente segue amando

Foto: Death for Stock

Eu ainda não te perdoei, LastFM, e ainda não te esqueci, Google Reader

Sem aviso, sem explicação, sem alardes. Tudo muda e a gente fica se sentindo traído e abandonado. Como alguém que entrou para a vida adulta sendo mimada pelas redes sociais em seus mais distintos serviços fúteis & fundamentais, tem horas em que me pego pensando, entre magoada e saudosista, nos sites que não deram certo.

Ou que deram certo enquanto duraram, se formos pensar de maneira mais poética.

Eu não posso nem pensar no Google Reader que a minha perna treme. Tudo era perfeito ali. Vivíamos em uma comunidade clandestina onde nós contrabandeávamos textos científicos, artigos opinativos, fotos bonitas de tumblr, entre outros. Era tudo nosso, era íntimo e perto. No pouco tempo que durou, o Reader foi o meu clubinho virtual de leitura, onde me sentia muito especial compartilhando conteúdo interessante com meus amigos, trocando referências e piadinhas nerds só nossas. Um dia, decidiram que não tinha mais a ver e acabaram com tudo. Foi doloroso.

Sim, eu já tentei outros serviços similares. Sim, você adivinhou, eu não gostei de nenhum.

Além dos que somem por completo, existem os serviços que mudam e perdem a identidade que nos cativou a princípio. Isso aconteceu com o Foursquare, por exemplo. Era muito emocionante dar check in nos lugares e ler as dicas — escrever dicas também era toda uma chiqueza. E tinha as badges, medalhas virtuais que a gente ganhava quando batia alguma meta inventada por eles. Nosso sonho era que essas badges se tornassem físicas por meio de bottons ou adesivos, batalhávamos para consegui-las, mas tudo foi pelos ares quando resolveram mudar a plataforma e dividi-la em duas: o Foursquare e o Swarm. Agora, a parte de check in e badges (sem todo aquele glamour) fica com o Swarm e para o Foursquare sobrou apenas a parte de dicas. Assim desmantelado, feito por dois o serviço não vale por um e perdeu o encanto de vez.

Também gostava muito do Get Glue, onde você dava check in em séries e ganhava badges — essas muito mais legais, pois você recebia pelo correio no formato de adesivo. Demorava uma vida para chegar, mas vinha. Eu recebi umas quatro remessas até que mudaram o formato da plataforma para algo que me decepcionou tanto que nem sei que fim levou. Só sei que nunca mais recebi os adesivos.

Mas nenhuma dessas mudanças me magoou mais do que a do Last.FM. Isso porque o que aconteceu com o Last não foi nem uma mudança exatamente. Na real, foi o contrário: ele nunca mudou de maneira significativa. E, com isso, ficou obsoleto, foi engolido pelas novidades que surgiam ao seu redor e ficou para trás.

Tenho perfil por lá desde 2008 e no decorrer dos anos acompanhei a plataforma tentar com todas as forças, sem sucesso, tomar parte na corrida das outras redes sociais que chegavam. Tentou mudar em algumas coisas, criou aquilo da rádio, o serviço pago e assinado, mas nada vingou. O site em si ficou meio defasado em seu layout com o passar do tempo. Não conversava mais com o que a gente via na aba ao lado. E os fóruns dentro dele passaram a morrer.

E era uma rede muito boa! Costumava ser. Por lá, você acompanhava os lançamentos dos seus artistas favoritos, agenda de shows e comparava seu gosto musical com o dos seus amigos. Na coluna lateral da direita, você podia instalar uns plugins descolados que traziam mais informações sobre o que você ouvia e suas bandas prediletas.

E, você sabe, nada diz mais sobre uma pessoa do que as músicas que ela escuta. Pelo menos é isso que nos fazem acreditar desde a adolescência, quando a gente se acha f#da pra crlh por ouvir rock ou conhecer aquela banda de garagem de uma cidadezinha do Sul do Texas.

Foi com o Last que eu descobri que, quem sabe, Elvis Costello fosse o meu artista favorito.

E é, até hoje, por onde eu me guio para ver o que estou ouvindo pouco ou como é que eu fui ficar tão obcecada por este ou aquele artista no mês.

Em que outro lugar Justin Bieber e Logic poderiam reinar em harmonia com tanta propriedade senão no meu coração? Além de nos aproximar de tudo o que havia de novo dentro do universo de artistas que a gente mais gostava, o LastFm agrupava nossos amores musicais de maneira exata e os apresentava em tabelas bonitas que faziam a gente se sentir muito moderno e cool.

Hoje em dia, essas tabelas bonitas são meio que a única coisa que restou de boa no site.

O que não se sustenta. Não quando você tem mais outras dezoito redes sociais para alimentar e dar banho. Não com o Orkut voltando e com o Snapchat ali do lado, te pedindo tanta atenção.

Com isso em mente, dá até pra pensar que esses sites todos morreram para que outros pudessem chegar. Quem sabe seja tudo melhor agora e a gente só esteja sendo saudosista. Pode ser, mas eu nunca mais li tanto online quanto lia quando tinha o Reader (ler timeline de Facebook não conta como leitura), pra citar um exemplo.

E nem tive mais aquela alegria de ser adicionada no LastFM e pensar, todo orgulhosa, meu perfil é um arraso mesmo.

Se bem que, bom, não ando tendo isso com rede atual nenhuma. É, quem sabe a culpa seja minha mesmo.

Admito.

Ainda assim, não te perdoei e nem te esqueci, Last.


Caso queira me adicionar no LastFM, pois ainda não desisti do meu perfil por lá, clique aqui.