Processo Criativo

5 dicas para escrever mais

Inspirações para voltar (ou começar) a produzir mais conteúdo

Li não sei onde, escrever é bom porque une as duas maiores alegrias: falar sozinho e falar para uma multidão. Como uma pessoa que tem a escrita como profissão e como principal lazer, é com certo espanto que reajo a declarações de amigos do tipo “queria tanto escrever, não sei como você consegue”. Oras, não sei como você não consegue. É só colocar as palavras no papel, assim uma a uma, e ver o que vai dar lá na frente. Não?

Ok, concordo que não é assim tão simples, mas é tão bom! E fica mais fácil com a prática. Recentemente ministrei um workshop sobre processo criativo em escrita e vi que uma das maiores questões para as pessoas que querem produzir mais é esse medo de não estar no caminho certo. Bom, é difícil saber se o seu caminho está certo se você não começa caminho nenhum. É preciso tentar, experimentar! Por isso, resolvi trazer para cá algumas das dicas sobre as quais conversamos por lá. Não que eu possa ser uma grande professora para alguém ou esteja contando algum segredo dourado que só eu saiba sobre a arte de escrever. Pelo contrário, acho que esses conselhos são bons justamente porque são coisas que você já sabe. E, como a maioria das coisas que já sabemos, precisamos que outra pessoa nos diga para que a gente acredite.

  • Escreva tudo primeiro, sem critério

Se a inspiração veio, escreva de uma vez só. Não se preocupe em lapidar seu texto em um primeiro momento, não se preocupe sequer em fazer sentido. Apenas escreva e deixe que o bruto do que você quer dizer seja dito. Esse é o ponto inicial e o mais importante. Pode ser que sua ideia inicial tenha cinco linhas. Escreva-a e depois se preocupe em transformá-la em cinco parágrafos, cinco páginas ou capítulos — ou cinco livros, se você for a J.K. Rowling. Comece pelo fim e termine pelo começo, se assim desejar. Não importa a ordem, dando o pontapé inicial você já abriu o caminho e isso é o que vale.

  • Não se force, mas se force um pouco

Se está difícil demais, dê um tempo. Tome um café, assista a um seriado. E volte. Lembre-se que um texto que foi chato de escrever, provavelmente será chato de ler. Se não está rolando, dê um tempo até voltar a rolar. Certo? Certo. Mas aí… Você deixou aquele texto de lado para pensar um pouco e já faz seis dias. E a vontade de escrevê-lo já é uma lembrança distante. Procure não deixar isso acontecer, porque quanto mais você demora, mais a sua ideia inicial perde a força. Tente mais um pouco, não desperdice o que já começou. Tente lembrar das emoções que te motivaram a escrever aquele texto. E continue.

  • Escreva o texto que você gostaria de ler

Com as redes sociais e o vício de aprovação que se criou, é comum a gente sempre se perguntar se vale o esforço fazer algo. No caso de escrever, sempre rola um “ah, mas ninguém vai ler”. Nisso as pessoas caem em dois erros: ou simplesmente deixam de escrever porque acham que ninguém vai se interessar, ou passam a escrever coisas que não as interessa, mas que podem despertar a atenção dos outros. Bom, se a ideia é ser verdadeiro com você mesmo, acredito que o ideal seja escrever mesmo sem saber se vai render likes, dizendo o que você quer dizer e não o que acha que os outros querem ler. É claro, não existe certo ou errado e seu conteúdo pode ser bom mesmo não sendo exatamente o que você queria falar. Mas ele te deixará feliz? Fará você se sentir realizado como se sentiria ao escrever o que realmente queria passar? Eu acredito firmemente que quando você é sincero de coração no que produz, as pessoas chegam até você. Honestidade cativa, entusiasmo cativa. E isso só é possivel quando você escreve sem pensar nos outros, mas sim em você, por mais egoísta que isso possa parecer.

  • Lembre-se que seu conhecimento pode não ser único, mas a sua experiência é

Mais do que aprender 25 dicas sobre como passar 18 dias na Disney gastando pouco, as pessoas querem saber como você se sentiu lá. Como foi conhecer? Você se cansou? Esse tipo de coisa. Detalhes técnicos podem ser adquiridos em sites de viagem, a sua experiência é única. Uma resenha sobre Trainspotting 2, que você viu no cinema, pode ser legal, mas o que as pessoas querem saber é: você gostou do filme? Te fez chorar, te emocionou? Escreva sobre coisas que não se acham no Google. Isso importa.

  • Não tenha medo de parecer um pouco bobo

Por fim, acredite que a coragem para falar te dá a autoridade para falar. Eu levei cinco anos para criar coragem de escrever ficção porque, embora fosse meu sonho, morria de vergonha de escrever diálogos. Até que me dei conta: “Oras, e quem é que sabe que eu não sei o que estou fazendo?”. Quando você dá a cara a tapa, você conquista o direito de tentar. E só de estar tentando você já está muito, muito à frente de qualquer pessoa que, sem ter a coragem para nada parecido, ouse te criticar.

Acho que é isso! Se escrever é a sua paixão ou simplesmente a sua vontade, não desista disso. Encontre meios, descubra seu jeito de escrever e faça disso parte de você. Nunca desista de algo que te faz feliz, minimamente que seja.

Brain Dump*

Zen e a arte de sentir raiva

Imagem: Death For Stock

É possível conciliar inconformismo com paz de espírito?

Ainda estou aprendendo sobre até que ponto é bom se deixar afetar pelas coisas (e como). Dia desses escrevi sobre a necessidade de sentir raiva e disso fiquei pensando um pouco mais. É preciso sentir raiva, sim, mas como não deixar que isso envenene seu dia? Como não se tornar uma pessoa amarga com todo o inconformismo que você sente? E como não perder a ternura, como diz aquele jargão, ao se posicionar com determinação pelas suas lutas?

É difícil achar um meio-termo. Ontem assisti a uma palestra da Monja Coen em um evento do trabalho e ela falou sobre como é melhor para o nosso coração nos sentirmos sempre gratos por tudo e atentos para a beleza da vida, mesmo diante das adversidades e tal. Porque a vida é mesmo muito bonita, mesmo quando tudo está errado. Estamos em uma fase de mudanças que não se pensaria em algumas décadas atrás, então é preciso ter consciência de que ainda que a vida esteja difícil, ela está acontecendo. Estamos caminhando para algum lugar que ainda não sabemos como será e se manter otimista é fundamental. Eu sei, no discurso tudo isso é lindo e eu concordo, a questão é que existe um ponto entre ser grato e ser passivo — e é este ponto que me intriga.

Se ela diz, por exemplo, que é uma benção estar vivo e ter um trabalho, eu consigo ver isso. No entanto, também vejo que todas essas condições poderiam ser bem melhores para mim e isso me enraivece de certo modo. Essa raiva, eu acredito, é a minha força para mudar e conquistar o que desejo. Essa raiva me leva a algum lugar. O desafio é conseguir chegar até lá sem destruir relações e até oportunidades pelo caminho, cega como você pode estar com tudo de errado que consegue ver. Nisso, veja, a raiva pode até mais atrapalhar do que ajudar.

Como disse, ainda estou buscando esse meio-termo entre saber o lado bom das coisas sem deixar de me enraivecer com o que ainda está longe de ser o ideal para mim. Não quero ser uma pessoa que tem sempre razão, mas é irremediavelmente amarga. Quero ser uma pessoa feliz e consciente, que sabe quais são seus direitos e luta por eles sem prejudicar ninguém e nem a si mesma. Pesquisando um pouco, achei o Mova Filmes, um canal no Youtube com conteúdos da Monja Coen falando sobre questões diversas de espiritualidades trazidas para o contexto do nosso cotidiano. Esse em especial eu achei ideal para essa questão que trago aqui:

Acho que o problema, quem sabe, não seja sentir raiva. A questão é identificá-la e saber que ela diz respeito apenas a isso ou aquilo na sua vida e não deixar que se torne um monstro que te devore, engolindo junto também a sua razão e o sentido da sua insatisfação. A chave da raiva é saber como usá-la, como direcioná-la, algo que também estou aprendendo. Falando sobre isso no Twitter, uma amiga me indicou alguns vídeos legais no Youtube com outros monges falando mais ou menos sobre esse tema (na verdade, desdobrando-o em outros temas mais amplos). Vou deixá-los aqui para vocês verem também:

Dito isso, queria acrescentar uma nota adicional e esclarecer que não sou a mais espiritualizada das pessoas e nem acho que exista uma religião ou linha de pensamento definitiva que vá explicar ou sarar todas os nossos tormentos. Mas estou buscando, sim, respostas e reparando de onde elas chegam. Eu sei que existe certo cinismo e desconfiança quando falamos de religião e seus porta-vozes, o famoso “pra você é fácil” quando quem quer que seja vem querer nos dar respostas prontas para nossos questionamentos mais profundos. No entanto, acho importante abrir o coração e ouvir. Tentar. Eu quero mesmo ficar em paz comigo e, nesse intuito, toda ajuda é bem-vinda.

Abra os olhos e fique atento, como eu disse, não só para a raiva, mas para tudo que ela te traz junto. Buscar um meio-termo para a avalanche de coisas que sentimos não é fácil, mas desconfio que comece com a humildade de ouvir o outro, sendo ele religioso ou não, e pensar um pouco sobre o que se sente.

Brain Dump*

Flutuando em indecisões

Imagem: Ryan McGuire

Andando por aí, procurando um bom lugar

Não consigo mais ler livros, nem escrevê-los. Isso acontece de tempos em tempos e é normal, no entanto saber disso não me impede de ficar angustiada com o tempo que perco. Minha atenção está flutuante e não consegue se fixar em nada. Quase perco o ônibus, pensando na vida. Não escuto quando falam comigo. Na noite gelada, na volta para casa, fico imaginando quantos dias faltam para esse ser o último e algo novo começar. Esse parece ser um daqueles momentos que antecedem um acontecimento maior. Espero. Por enquanto, permaneço aqui crente de que em algum momento a grande roda vai girar e eu terei respostas. Respostas que me deixarão contente, ao menos até as próximas dúvidas.

Acordei cedo e cheguei adiantada demais, como sempre. Escolhi a roupa pensando em cada detalhe, chegando lá era como se tivesse errado tudo dos pés à cabeça muito antes, logo quando nasci. E daí então, nada mais deu certo. Respirei fundo e afastei os pensamentos ruins. Engoli meu medo. Foi simples, longos goles de chá quente no copo frágil de plástico. Tentei me encaixar o quanto pude, fica mais fácil quando as pessoas estão dispostas. Eu, mesmo quando disposta, ainda me perco.

Minha voz sempre sai baixa, como se minhas próprias cordas vocais soubessem que não confio na importância do que digo. Se ninguém me escutar, tudo bem, nem era tão legal mesmo o que eu dizia. Tentei me impor baseado no que tinha para mostrar. Tentei manter a coluna ereta, mas o olhar sempre ia para baixo, para os pés, para o chão, para o buraco que não havia — e, não havendo, eu não podia me esconder. Acabei sentada sozinha em um canto por horas. E tudo bem. Eu gosto de ficar quieta.

Está tudo bem mesmo quando acho que é o fim do mundo. O fim do mundo já foi, eu sempre tenho isso em mente.

A coragem de fazer algo te dá a autoridade para fazê-lo. Tudo que eu invento eu acabo conseguindo terminar, ainda que não saia como pensei a princípio. No fim das contas, acho até que fui bem, gaguejando e me repetindo, sorrindo quando esquecia as palavras e me perdia. Pessoas gentis me destroem mais que as malvadas, com as malvadas eu já me acostumei. Só é difícil mesmo quando gostam de você.

E depois. Sem o peso nas costas, me aventurei pelo lugar. Senti orgulho de mim, simplesmente por estar viva e dizendo coisas. Por estar no meio de tantos e ainda conseguir ser eu mesma. Não me moldo aos lugares, só me encaixo o tanto que caiba e que fique fácil de desencaixar a qualquer momento. Depois, segundos depois, eu logo quis voltar para casa, eu logo quis o conforto que mora no abraço sempre disponível para mim. As risadas que vão lá do quarto te encontrar na sala, os gatos miando, o amor.

Foi um bom dia. Saber o que não se quer conforta mais do que saber o que se quer. Eu me senti bem. Testada e aprovada. Um passo maior do que as pernas e cheguei inteira do outro lado. Incrível! Me afundei nas cobertas macias e dormi como tenho dormido nessas últimas noites, esperando a grande roda girar, quieta mesmo, tudo bem. O momento vai chegar e estou pronta.

Brain Dump*

Você não quer ter raiva

Imagem: Ryan McGuire

Mas alguma coisa você precisa sentir

Viagens, filmes no cinema, um livro de que você gosta. Futilidades que acalentam o coração. Memes imbecis. Debates inúteis e irresistíveis: arroz por baixo ou por cima do feijão? Besteiras que te ajudam a passar o dia. Enquanto isso, o país fervilha em mudanças e exige que você vá para a rua protestar ou apoiar. Você quer ficar quietinho na sua bolha sem filtro do Instagram, mas as coisas não param de acontecer e estão a cada dia piores. Não vai ter jeito, algum posicionamento você precisa ter, ainda que fique quieto e guarde apenas para si.

A vontade é de não sentir nada. Não está sendo possível. Tenho dito ultimamente que o Brasil me obriga a ingerir açúcar. São bolos e mais bolos de cenoura com calda de chocolate na doceria em frente ao trabalho para tentar me convencer de que a vida ainda pode ser doce. Sobremesas empurradas goela abaixo, a seco, enquanto as notícias não param de chegar: mudanças na lei, novos subterfúgios para político poder roubar tranquilo e a minha caixa de e-mail lotada de avisos ridículos enviados com o intuito de deixar claro, de maneira velada, que o trabalhador não tem direito a nada, muito menos ao famigerado “respeito”.

Nem todo açúcar do mundo é capaz de conter a raiva que cresce em você quando o dinheiro acaba e ainda sobra muito dia no mês. Sobra muito mês e pouco dinheiro faz muitos anos.

Eu gostaria de não sentir raiva. Ser a pessoa apaziguadora que vê a luz no fim do túnel e conduz todos nós para a salvação. Queria não sentir raiva porque ela me corrói o estômago, azeda meu dia e me faz compensar frustração com comida, com uma barra inteira de chocolate em apenas uma tarde. Pelo menos eu ainda tenho dinheiro para comprar uma barra de chocolate, você vai dizer. Ainda.

No entanto, sacolejando no ônibus lotado que demora para chegar, cobra caro e não oferece conforto algum, todos os dias, eu me pergunto se não é mesmo a raiva o único sentimento possível hoje em dia. Preciso ser boa com os outros, sim. Preciso não deixar nada atrapalhar o meu sorriso, sim. Mas, pelo amor de Deus, vamos sentir raiva. Vamos perceber o que está acontecendo lá fora, vamos fazer algo. Deixar de aceitar calado, nem que seja para morrer gritando.

Ainda quero os livros, os filmes, os memes. Ainda quero sorrir e comer meu bolo de cenoura com calda de chocolate. Só que por vontade e não por frustração. É preciso continuar sendo uma pessoa boa, mas é preciso sentir raiva, alguma coisa a gente tem que sentir. Não tem como continuar assim, alienado em uma bolha enquanto o mundo lá fora desaba. Essa bolha não vai nos sustentar por muito tempo.

O blogueiro viaja e posta milhares de fotos lindas que nos isolam da realidade. Que efeito ele usou? Onde eu compro essa camiseta? Será que parcelam a viagem? Cuidado. Não se isole. Entre uma atualização e outra no seu feed, é lógico que você precisa ser feliz de alguma forma nem que seja rolando a tela do seu Facebook, mantenha os olhos abertos.

Estão acabando com a sua vida enquanto você pisca os olhos com o brilho das distrações. Fique atento, sinta raiva.

Resenhas

Resenhas rápidas: livros de final de fevereiro

Bastidores de “Breaking Bad”: os atores Bryan Cranston e Aaron Paul com Vince Gillian, criador da série

Romance, produção própria, mistérios. Teve de tudo esse mês.

Esse mês eu li uns sete livros, o que considero pouco. Minha justificativa é que foquei mais na escrita do que na leitura, além de ter tido alguns problemas com o Kindle Unlimited. Com tudo solucionado, mais pro final do mês a leitura entrou nos eixos e trago agora os livros que ainda não tinha resenhado por aqui. Vamos a eles?

Eu não disse que na próxima lista de lidos já teria um livro meu?! Invisível foi lançado em versão digital no comecinho de fevereiro, embora eu na verdade tenha escrito-o ano passado. Após uma boa revisão, uma linda capa nova (obrigada, Jules & Tico), ele chegou à Amazon pronto para roubar seu coração. Ou quase isso. Se trata de uma história curtinha sobre um mochileiro que encontra o amor, e algumas dores de cabeça, ao fazer de São Paulo sua nova morada passageira. Pra ler rapidinho agora e te deixar feliz depois. Dá pra comprar aqui.

E então, sem grana para comprar um livro novo, você se pega dando uma olhada na enorme fila de espera do seu kindle e acha um pequeno tesouro. Não sei o motivo de ter demorado tanto para ler As Virgens Suicidas, mas foi bom saber que ele estava ali me esperando o tempo todo. Difícil quem não conheça o filme inspirado no livro, aquela poesia visual diáfana criada pela Sofia Copolla em 1999. O livro ecoa as lembranças que temos do filme, o tempo todo oscilando entre sombrio e etéreo ao contar a trágica e instigante história das cinco jovens irmãs que se suicidam uma após a outra sem nenhum motivo aparente. Dá para ficar bastante angustiada lendo, principalmente porque, embora não se aponte culpados, qualquer mulher que já teve 13 anos de idade é capaz de entender que o suicídio nunca é uma ideia nova. Ou absurda.

Polícia da literatura cafona, pode me prender mais uma vez. Esse livro é da mesma autora do famigerado “O Ar Que Ele Respira”, que resenhei no artigo passado e me fez cair prostrada de joelhos (drama, drama, drama) com o quão lindo pode ser um livro puramente sobre amor. Aqui em Sr. Daniels temos a história de um amor moderno meio que proibido, aluna apaixonada por professor, tudo embalado com versos de Shakespeare, algumas fatalidades dolorosas e cenas quentes de sexo. Se você gosta de ler suspirando e pensando “que homão da porra”, este livro pode ser para você.

Preciso dizer que levei um ano para terminar de ler esse livro. Ficava me demorando na leitura, sem querer que acabasse, porque amo Breaking Bad e lê-lo era assisti-la novamente com um aprofundamento arrebatador. Como o nome já entrega, Vamos Cozinhar? revive cada episódio da série em análise minuciosa, entregando detalhes de roteiro, direção, fotografia, edição e trilha sonora, além de curiosidades sobre a série, seus personagens, atores e substâncias químicas. Absolutamente tudo o que você precisa saber sobre Breaking Bad está ali, disposto em listas e tópicos objetivos cheios de amor e humor. De fã para fã. Se você gosta de Breaking Bad, precisa ler esse livro.

Fazia muito tempo que queria ler esse, Deus me ajudou e ele chegou ao Unlimited. Não achei que a história seria tão sombria quanto a capa já anuncia, mas a surpresa foi boa. Conta a história de uma adolescente que sobrevive à uma tragédia onde perdeu amigas e o namorado e com isso sua família decide pela mudança de cidade para tentar superar o trauma. O problema é que o fantasma do que viveu não abandona Mara Dyer — e desde a primeira página já ficamos sabendo que nada é muito normal na vida dela. Mistério, suspense, um tom meio sobrenatural e, quem diria, romance juvenil, dão o tom desse thriller angustiante que vai te pegar pelo colarinho de maneira certeira. O livro é a Parte 01 da trilogia Mara Dyer, o que muito me contraria pois detesto trilogias, mas não tem muito o que fazer. Depois desse começo aniquilador, vou acabar lendo a série toda.

Em tempo: à exceção de “As Virgens Suicidas” (digital emprestado por amiga) e “Vamos Cozinhar?” (físico comprado em sebo), todos os livros dessa lista foram adquiridos de maneira gratuita através do Kindle Unlimited.

Dicas

Como catalogar suas leituras?

Ler e simplesmente esquecer não é mais uma opção. Reflexo dessa urgência moderna de dar check in em toda e qualquer atividade nossa nas redes sociais, sentimos a necessidade de ter um controle dos livros lidos assim como temos das séries vistas, por exemplo, até mesmo para tornar aquela experiência mais palpável e para mostrar para os amigos e indicar aquele livro do coração.

Em uma conversa de Twitter, amigas debatiam sobre qual é o melhor aplicativo para catalogar nossas leituras. Eu só conheço (e uso) dois, o Skoob e o GoodReads. Como não coube lá o comparativo completo entre eles, resolvi trazer minhas impressões para cá. Importante dizer desde já que esse comparativo é baseado na minha experiencia pessoal e não reflete uma opinião geral, apenas a minha. Já adianto também que não acho que um seja melhor do que o outro, ambos são ótimos e servem para diferentes necessidades. A gente sabe que em se tratando de aplicativos muitas coisas contam, das importantes às supérfluas e o que acaba imperando é mesmo o gosto pessoal. Eu gosto dos dois!

Para começar, tanto Skoob quanto GoodReads tem suas versões para web e também como aplicativo — disponíveis gratuitamente para iOS e Android. O modo de logar em ambos é simplificado, você pode atrelar seu perfil à sua conta do Facebook. E, caso opte por isso, pode compartilhar tanto no Facebook quanto no Twitter suas atividades como livros lidos, abandonados ou que quer ler.

Ela é carioca. O Skoob é uma plataforma brasileira, do Rio de Janeiro, cuja missão é “socializar e incentivar o hábito da leitura”. No ar desde 2009, o site vem crescendo e trazendo cada vez mais recursos para seus usuários. Começou como uma plataforma para troca de livros usados e aos poucos o foco foi mudando para o modelo de rede social para leitores e catalogação. No Skoob você pode criar sua estante virtual e separá-la por “prateleiras” com os livros que já leu, os desejados, os que tem em casa e os que desistiu de ler, entre outras categorias. Também é possível adicionar livros não encontrados no catálogo, assim como dar nota e resenhar os livros lidos — e suas resenhas ficam disponíveis para o público, que pode votar e comentar.

Recentemente trouxeram a função de Meta de Leitura, que funciona da seguinte maneira: você lista os títulos que quer ler no ano e conforme vai lendo, vai subindo no ranking geral e dos amigos. Essa meta funciona principalmente para você que tem uma lista definida de livros para ler, já comprados ou emprestados. É uma forma de se organizar e de se incentivar para colocar os livros encostados em dia. Para além dessa lista de Metas, no final do ano o Skoob prepara uma página exclusiva para você com seus livros lidos em quantidade e qualidade e média de páginas por dia.

O grande diferencial do Skoob são seus sorteios e cortesias de livros, resultados de suas muitas parcerias com editoras. São muitos sorteios mensais. Para participar, basta acessar a página de cortesia, clicar nos livros cujos sorteios deseja participar e você já está concorrendo.

A função de rede social bomba por aqui. As pessoas podem te pedir em amizade, deixar recados no seu mural, votar nas suas atividades e um feed na página de home te mostra o que os amigos andam fazendo. Também existem os grupos de debate, que funcionam mais ou menos como as saudosas comunidades de Orkut e trazem temas tão amplos como “Ficção Científica” quanto curiosos como “O cinema estragou o livro!”.

Contras? Múltiplos banners de publicidade que poluem um pouco a página e uma certa instabilidade do aplicativo se você acessa pelo iPhone.

Skoob: web | Android | iOS | Me adiciona!

Pra gringo ver. O Goodreads é uma plataforma americana criada em 2007 e comprada pela Amazon em 2013, quando as coisas realmente começaram a acontecer. Seu mote é “Encontre seu próximo livro favorito” e sua missão é “ajudar as pessoas a encontrar e compartilhar os livros que elas amam”.

Todo em inglês, segue o modelo básico de estantes virtuais onde você cataloga suas leituras e lista seus livros desejados. No entanto, se você usar só a parte de catalogação vai perder muito: o lado “rede social” é o que realmente se destaca nessa plataforma. Você pode, sim, avaliar e resenhar livros, mas o que chama mesmo a atenção é ver o que seus amigos e autores estão lendo, participar de fóruns e grupos incríveis sobre uma ampla variedade de temas e ter contato direto com autores. Atenção para a seção “Ask the Author”, onde você tem uma grande lista de escritores para os quais pode mandar perguntas. Para você que é leitor e também autor, é fácil vincular seu perfil “normal” com o de escritor com suas obras — mais uma forma de aproximar o autor de seu público.

Contando com um motor potente como a Amazon, o GR tem hoje mais de 55 milhões de usuários que fomentam discussões e ajudam a ampliar o catálogo de livros (você pode adicionar os que não encontrar), o que torna a plataforma das mais completas e vivas. Navegando pelo menu “Community” você encontra questionários e trívias, cotações, listas de livros por gênero, quotes e dicas de eventos. No menu “Browse” você encontra artigos sobre o mundo literário, notícias, entrevistas e recomendações de lançamentos. Você também pode escolher receber por e-mail boletins regulares sobre livros novos, sugestões, entrevistas com autores e até poesias.

É realmente um mergulho no universo da literatura. Como ferramenta respeitada que é, o Goodreads também tem seus próprios prêmios literários e anualmente escolhe os melhores livros do ano através da votação popular do “Goodreads Choice Awards”. A premiação é separada por gênero literário, veja os vencedores do ano passado aqui.

Das minhas seções favoritas, o Desafio Literário deles é baseado em números: você define em janeiro quantos livros quer ler no ano e em dezembro recebe seu resumo em um gráfico caprichado e bastante detalhado.

Contras? O fato de ser todo em inglês pode tornar a experiência um pouco limitadora se você não domina o idioma. Além disso, não é tão fácil achar alguns títulos em português — é preciso estar atento para cadastrar a versão correta do livro na sua estante e não a edição em inglês.

Goodreads: web | Android | iOS | Me adiciona!

crônicas

Cinco pessoas

Uma rápida passada de olhar por algumas amizades

Pessoa um.

Ela fala rápido, conta milhares de histórias, se interessa pelas minhas, bebe um gole do copo a cada silêncio que deixamos escapar. Estamos tímidos, mas a alegria de poder conversar anula um pouco isso e nos sentimos confortáveis para sermos um tanto idiotas. Ser idiota é engraçado e ser engraçado é idiota. E ser engraçado é o que todo mundo quer. Confessa que está apaixonada por uma determinada pessoa, pessoa essa que se encontra em outra rodinha de amigos, ali perto de nós. “Casava agora mesmo”, ela diz e não sabemos até que ponto está sendo sincera, então rimos. Escondemos as verdades que sobrevoam a sua confissão com piadas e memes de internet, disso sabemos bem. Rimos muito, gargalhamos com nada. Estamos sendo idiotas, estamos seguros.

Pessoa dois.

Chega como um furacão na mesa. Joga óculos de Sol num canto debaixo da carteira para não esquecer, pega o celular, dá check in, atende ligações, responde e-mail e Whatsapp enquanto fala com você e te conta todas as novidades que surgiram nos últimos dez minutos em que vocês ficaram sem se falar. Você chega cheia de segredinhos e medos e temores e bobagens para contar e desabafar e pedir ajuda, ela passa por cima deles como um trator e termina com um “eu vou dar na sua cara se continuar falando essas bostas”. Ela está certa, você sorri, fica feliz, imensamente feliz por tê-la na sua vida. Ela vai embora, você pensa “essa é a pessoa mais incrível que já conheci”. No elevador, ela já te manda inbox falando várias bostas e você ri.

Pessoa três.

Você ainda não sabe muito bem como é o rosto dela, só sabe que é bonita. Vocês são amigas a pouco tempo, então você ainda não se sente muito segura de falar olhando em seus olhos. Mas você sabe que ela é bonita. Só não decorou ainda todas as linhas do rosto, o que os olhos dizem ou o que sugerem as sobrancelhas dela durante uma conversa. Não sabe as dicas que uma hesitação na conversa quer dar. Não entendeu ainda que esse tom de voz é pra impor e esse outro é pra pedir. Você ainda não decorou tudo, ainda não sabe dizer. Está em terreno desconhecido.

Pessoa quatro.

Não sabemos se nos odiamos ou nos amamos. Provavelmente, os dois. Sabemos com certeza o que odiamos uma na outra e volta e meia somos surpreendidas por momentos que nos fazem sentir que na verdade, é tudo amor. Detestamos tudo sobre nós duas. Mandamos indiretas uma pra outra, sabendo que ela sabe que eu sei que ela sabe que é dela que estou falando. E vice e versa. Nos odiamos e nos adoramos na mesma intensidade e ao mesmo tempo. Não tem como se magoar assim. Pro bem ou pro mal, o sentimento é sempre recíproco.

Pessoa cinco.

Meu ombro dói intensamente por conta de um treino onde exagerei nas flexões e a pessoa cinco me pergunta se eu estou bem. No geral. “No geral estou bem”, digo. A pessoa cinco pondera antes de falar. Pensa. Olha para os lados. E, ainda assim, fala de várias coisas ao mesmo tempo e aparentemente não se abala com nenhuma. Temos vários assuntos em comum pelos quais podemos flanar sem nos comprometer em ser pessoais. Falamos, então. Não rimos muito, estamos cansadas, o dia foi duro, a vida lá fora está terrível. Eu gosto de pessoas que não ligam pro que eu digo, gosto de pessoas que falam e me deixam ficar calada. A pessoa cinco é assim, por isso é uma das minhas melhores amigas. Mas, como falo pouco, ela nem imagina isso.


Texto publicado originalmente em 08 de março de 2014 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.

Brain Dump*

Vamos tentar apenas gostar das coisas?

Crédito da imagem: TIMOTHY A. CLARY/AFP/Getty Images via artnet.news

Sem dar nota, sem comparar com tudo, sem tecer teorias

Eu não aguento mais precisar defender as coisas que eu gosto. Os livros, os filmes, as bandas, as canções, os clipes dessas canções e as escolhas de cada artista que eu escolho gostar. E eu nem quero defender ninguém. Eu não quero entrar em briga nenhuma. Eu só quero poder gostar das coisas em paz. Será que podemos?

Não existe um filme que possa ser apenas bom. Obra que acertou em cheio seu coração, se colocada em debate ela será comparada com outras do gênero e do diretor, será fatiada em partes e apontada como fraca no começo, perdida no meio e inconclusiva no fim. Não me atentei a esses detalhes enquanto assistia. Do que sei deste filme é que ele me emocionou, me fez chorar até. Eu gostei dele. Não se pode gostar. É preciso lembrar que esse filme é um caça-Oscar. É preciso saber que a atriz conseguiu o papel porque outra não quis. Nada foi feito para ser assim. Não se pode confiar em filme nenhum.

Se formos conversar sobre curiosidades e seus que tais, eu realmente me interesso por isso. Eu quero saber, faz parte do gostar. Só não entendo como não se pode gostar por gostar, é como se você fosse inferior na sua percepção apenas por querer um sentimento simples. Para tudo é preciso uma análise enorme e minuciosa. Um comparativo e uma problematização expressa.

A performance daquela diva pop não foi tão boa se comparada ao show de 2013 à tarde quando ela era outra que não essa. As músicas de agora não são como anteriores, então não são boas. O clipe não se parece com nada que ela fez antes, logo não é bom. A música é baladinha, é ruim. Se fosse baladona, ruim também. Temos especialistas para te convencer a não gostar de nada. Estamos blindados, estamos nos blindando de sentir.

Querendo apenas ser tocada por algo que te faça sentir, logo seus sentimentos são postos em cheque por uma barreira que se cria. É como se gostar de algo fosse uma concessão dourada que ninguém pudesse se dar ao luxo de conceder. Gostando de algo, você se torna vulnerável. Melhor não gostar de nada, nada pode ser bom o suficiente para merecer você.

É como se as pessoas quisessem se proteger de serem afetadas pelas coisas.

Eu não quero. Eu quero gostar das coisas. Ouvir uma música e decorar cada palavra da letra, mesmo o cantor sendo tido como cafona. Quero gostar do que fizeram aqui, esta olhada firme que o mocinho do filme deu para a moça amiga da protagonista. Me lembrou um livro que eu li e gostei também. Me lembrou que é bom sentir tudo isso. É bom sentir, é bom gostar. De olhos vidrados, amar. Podemos?

Resenhas

Resenhas rápidas: leituras do início de Fevereiro

Foto: Blog Palavras Radioativas

Mais seis livros para contar

Seguindo aquele formatinho de sempre que inventei aqui pro blog, vou fazer resenhas curtinhas para os livros que li recentemente. Estes foram lidos entre o final de janeiro e o comecinho de fevereiro. Seis livros em menos de um mês parece muito, mas não se assuste: metade deles são daqueles que você lê em um dia apenas. Vamos lá?

César Greco é o fotógrafo oficial do Palmeiras e nesse livro documenta em fotos a trajetória do time na Copa do Brasil 2012, a qual foi campeão. É daquelas edições bonitonas, com imagens de encher os olhos, típico livro de mesa (Olá, Kramer!). Tenho o livro em casa desde o ano passado e um dia em casa, meio à toa, resolvi tirar da fila de leitura. As fotos são mesmo lindas e passam a emoção do que foi a conquista do título. Para quem quiser ir além no trabalho do Greco, sem clubismo, o Instagram do fotógrafo é recheado de fotos incríveis — e dos mais lindos desse nicho de perfis de esporte.

Palahniuk é aquele escritor sem defeitos, não tem muito o que dizer. Fazia tempo que não lia nada dele, até descobrir que está com vários livros no Kindle Unlimited. Este aqui, ótimo como tudo o que ele toca, conta a história de um fanático religioso que sequestra um avião para se suicidar em pleno ar. Única coisa que me incomoda, parece que todo livro do Chuck Palahniuk precisa obrigatoriamente ter uma Marla Singer, a mulher louca e intensa, misteriosa e apaixonante em sua singularidade. Em Sobrevivente, ela atende pelo nome de Fertility Holly e é quem vai guiando o protagonista, Tender Branson, até o ato final: a morte de maneira trágica e espetacular, a redenção que nenhuma religião foi capaz de lhe entregar, por mais que se esforçasse. Nota “dez de dez”, como de costume.

Como eu amo ser cafona! Sério, olha essa capa. Olha esse título. E o conteúdo em si não fica longe. Tô de olho nesse livro desde o ano passado, porém meu guilty pleasure não me permite gastar mais de vinte reais em livros que eu sei que são apenas bobagens românticas. No entanto, esse mês O Ar Que Ele Respira entrou em promoção na Amazon por incríveis DOIS REAIS e não pude resistir. O livro é tão lindo (e quente) que dói. Conta a história de duas pessoas que passaram por tragédias pessoais em seu passado e acabam se encontrando ao tentar reconstruir a vida. Eles se atraem, se apaixonam, mas é tanto trauma que fica difícil estabelecer uma relação. Eles precisam lutar por esse amor. Eles sofrem. Eles fazem sexo sem parar. É bom demais. Como eu amo ser cafona, eu ainda vou acabar lendo tudo dessa autora (os livros dela dessa coleção ainda estão para chegar ao Brasil, O Ar… é o primeiro). Recomendo demais se você gosta de um romance açucarado e não tem medo de ser feliz.

Aí você fala “Mais um romance açucarado, Tati, você não tem vergonha?”, porque, né, olha esse título e essa capa. No entanto, te digo que aqui eu fui extremamente culta e refinada. E me dei muito bem. Quer Casar Comigo? é um clássico da literatura americana, relançado no Brasil recentemente pela Biblioteca Azul e inacreditavelmente disponível via Kindle Unlimited. Conta a história de um casal de amantes que precisa resolver se vai ficar junto e abrir mão de seus casamentos ou se coloca fim no caso secreto deles. Mais do que uma história de amor, é quase um tratado sobre o modo de vida da classe média americana, com seus sonhos e conflitos, hipocrisias e falta de ambição. A escrita de Updike é qualquer coisa de sublime, tudo corre em um ritmo diferente enquanto a história é contada, de uma maneira muito apaixonante. Dos melhores livros que li esse ano, quiçá na vida.

Esse livro me surpreendeu positivamente, achei que seria só uma coletânea de textos de blog (o autor é blogueiro), mas vi aqui uma história coesa e interessante sendo contada de um modo muito bonito. Enrique Coimbra, em uma escrita meio ficção, meio fatos reais, conta uma história de amor improvável e dolorosa entre um menino hétero e um menino gay, sob a ótica do menino gay (o próprio Enrique, no caso). Livro curtinho, menos de cem páginas, que você praticamente engole de tão bem escrito e tão instigante. Li em quarenta minutos, antes de dormir.

Antes de tudo, dá uma olhada com mais atenção nessa capa MARAVILHOSA. Achei esse livro nem sei como, nas minhas andanças pela seção de livros gratuitos da Amazon. Uma história bem curtinha, nem cem páginas também, mas bem legal. É sobre uma mulher que teve um caso de amor sobrenatural — dizer mais do que isso seria entregar demais. Costumo ser meio reticente com literatura fantástica, mas essa aqui me conquistou. Único ponto negativo foi que o subtitulo dá a entender que se trata de uma saga, no entanto não achei nenhum outro livro da autora disponível.

E é isso! Uma novidade feliz (para mim, ao menos) é que no próximo post de resenhas já teremos um livro meu entre os lidos do mês. Aguardem! ❤

Processo Criativo

A jornada solitária de escrever um livro

Foto: Death to Stock

Aprendendo com o exercício de estar só

Comecei a escrever em agosto do ano passado o meu sexto livro. Tive a ideia para a história em uma noite de segunda-feira em que cheguei em casa especialmente cansada do trabalho. Deitada na cama com a cara afundada no travesseiro, o primeiro capítulo apareceu inteiro na minha cabeça e não tive outra alternativa senão levantar da cama, ligar o notebook e começar a escrever. Agora, faltando três capítulos para o fim, o que pensei a princípio para a história que quero contar já mudou inúmeras vezes.

Essas mudanças, longe de me desesperar, me motivam. Significam que finalmente estou me apropriando do argumento frágil que foi o sopro inicial deste livro. Peguei aquela ideia, a moldei como sabia e a transformei em algo. Doze capítulos prontos, o livro já tem um rosto e me convence que é bonito. Eu aprendi com ele, também. Principalmente sobre mim.

Uma coisa sobre escrever um livro, você nunca deixa por completo de pensar nele. Longe do ideal romântico do escritor atormentado, madrugadas em claro escrevendo embalado por doses de uísque e música blues, eu penso no meu livro enquanto estou me exercitando na academia. No banho ou ao lavar a louça. Se a reunião de trabalho atrasa. Enquanto estou descendo a rua à caminho do trabalho. Eu escrevo meu livro dentro do ônibus, uma mão digita no celular, a outra assume a responsabilidade de me manter firme no sacolejar daqueles cinquenta minutos que ao final me levarão para casa e me deixarão mais perto de ter um livro pronto quando finalmente for hora de descer.

Eu escrevo enquanto meu marido joga video game e também quando acordo mais cedo aos sábados e não consigo voltar a dormir. E penso o tempo todo na história que estou criando. Músicas me fazem lembrar, conversas ouvidas me inspiram, pessoas e seus trejeitos me trazem exemplos de como meus personagens podem ser.

Tudo isso dentro da minha cabeça. Meus outros livros eu publicava capítulo a capítulo, como um romancista do século passado com seus fascículos no jornal. Recebia feedback imediato dos leitores, o que acabava por interferir no meu modo de seguir com a história. Este não. Este é só meu. É o livro mais meu que já escrevi.

Existe o medo de, ao publicar, ninguém gostar. Só vou saber depois. Será que vão rir daquela piadinha que coloquei no começo do capítulo dois? Entenderão a referência do final deste mesmo capítulo? Será que terão dó de mim ao perceber que ousei tentar este ou aquele estilo no diálogo da página noventa? Fico um pouco angustiada. Sendo só meu, ele está protegido inclusive do fracasso. E se ninguém ler?

Todas essas questões e inseguranças não são nada além do reflexo das minhas próprias questões e inseguranças que já tenho normalmente em se tratando de qualquer assunto ou empreitada que invente de me meter. A diferença de encará-las através da produção de um livro é que elas tomam forma de uma maneira diferente dentro de você. É o mais introspectivo dos processos, por mais que tente dividi-lo com alguém que se importe em te ouvir, o mundo que você criou para sua história é absolutamente seu. Só depende de você. Só presta contas à você.

Um autor conhecido uma vez disse que o ruim de parar de fumar é que ele sentia que tinha perdido um amigo. Quando fumava, parava um pouco pra pensar na vida e nele mesmo. Escrever um livro é o cigarro mais longo que você fuma. Encostada no muro esperando a chuva passar, meu livro é a minha companhia e penso nele em longas tragadas.

Mudo cenas, invento motivações, coloco muito do meu coração ali. Não durmo sem reler pelo menos um capítulo e acabar mudando isso ou aquilo. Ao olhar a capa, já pronta, uma alegria inunda meu peito. Foi bom ter tido aquela ideia inicial, eu gosto mais de mim agora que tenho esse desafio. A história que criei é tão linda, eu adoro quando a protagonista sorri. Eu estou escrevendo o livro que gostaria de ler. Quando adolescente, queria ser escritora daqueles livros de banca de jornal tipo Julia, Bianca, Sabrina. Escrevendo eu realizo esse sonho como posso.

No exercício de escrever, calada e sozinha, me redescubro como alguém de quem eu gosto e sinto orgulho, pois estou fazendo algo que um dia só ousei sonhar. Perto do fim, se torna óbvio que vou sentir saudade quando terminar. Eu aprendi tanto com esse livro. A ideia de que mudei com ele se esclarece na minha mente. Acho que não mudei, não. Só me descobri um pouco mais com essa solidão que ele me trouxe. E, além do mais, acabei de conferir aqui: o primeiro capitulo é o único que permanece intacto desde aquele rascunho inicial que me fez levantar da cama e criar essa história.

Depois dali, tudo mudou.