crônicas

A vida se revirando e ele sorrindo

Trainspotting — Danny Boyle (1996)

Memórias de dois segundos atrás sobre um cara incrível

O cinema nem estava lotado, mas fervia de animação. A bateria do celular tinha acabado antes mesmo de comprar a pipoca, quem tirou a foto dele na frente do cartaz fui eu, na telona o seu filme favorito, no rosto o sorriso de criança ganhando o melhor presente nunca antes imaginado: assistir na maior tela de todas a história mais amada.

A cada cena trágica ele ria; nas de violência, gargalhava. E eu tentava entender como podia ser engraçado ver um cara arranjar briga no bar pura e simplesmente por diversão, no entanto entendi rápido que ali isso não era para ser um problema. Na telona diante de nós, tudo que acontecia ele já sabia de cor. Antecipava os diálogos e revelava detalhes de produção. E ria das cenas tristes.

Não foram poucas as vezes em que ele me carregou no colo. Na saúde e na doença, dizem os votos que fizemos primeiro para nós mesmos, depois para o cartório. No mais escuro dos meus dias, eu chegava a acreditar que era simples passar pela pior doença de todas, aquela cujo nome nunca é dito em voz alta, só porque ele me dizia que ficaria tudo bem. E ficou. Um dia após o outro. Uma batalha de cada vez. Porque ele estava lá.

Cortaram a luz uma vez. O aluguel atrasou e o senhorio vinha bater na porta. Você viu que vai ter jogo no mesmo dia que eu vou cobrir a premiação? Para tudo há uma saída, ele procura até que acha. Faz o impossível, resgata soluções, faz por onde. Faz. Essa noite mesmo, passou acordado resolvendo a nossa vida enquanto eu dormia. Questão de meia hora depois da briga, sorria para mim e me mostrava quão ridícula era a foto exposta na parede do hotel. Me fazia rir, enquanto por dentro eu tremia de medo das coisas tão pequenas que sempre teimam em querer me derrubar.

A vida é escolha, você sabe. Você sempre pode optar entre permanecer em pé ou cair. Alguns dias são mais difíceis e você acaba indo ao chão contra a sua vontade, mas é importante que saiba, sempre existirá outra saída, uma melhor, mesmo quando você já estiver no chão.

Ter alguém que te mostra saídas é uma dádiva. É um presente. Um presente raro, daqueles que você carrega no coração por todos os segundos da sua vida e agradece se jogando no sofá para ler um livro enquanto ele fica jogando video game até às duas da manhã em um dia comum. Faz cócegas no seu pé enquanto carrega a próxima partida. No outro dia de manhã, você deixa ele dormir até o último segundo antes do “tchau”. Ele fica tão bonitinho dormindo, além do mais.

Não existe o impossível se a sua vontade é de coração. Não existe a dor se você quiser vencê-la. Isso eu sei por ter aprendido com ele. Até a felicidade, essa quimera, nós conseguimos de tanto tentar. De tanto não desistir. Somando méritos em uma conta que nunca foi feita, sei que devo quase tudo o que sou e o que somos à ele. Seu jeito calmo de resolver nos momentos de tensão. Seu jeito bravo que se acalma quando cai em si. O riso sempre pronto para acontecer e nos salvar de qualquer perrengue. Os absurdos inesperados que me fala e viram Histórias de Facebook. Um filtro de esperança e humor foi acrescentado à minha vida desde que ele me encontrou. E eu me apaixonei.

Me apaixonei pelas risadas, pela força de vontade, pela calma nos momentos difíceis, pela humildade de reconhecer erros e fraquezas, pela grandeza de caráter de nunca abaixar a cabeça e nem se deixar levar por sonhos que não sejam os seus. Nessa vida que é uma briga constante, ele anda sorrindo e desviando dos socos, sem jamais beijar a lona.

Você sabe aquela cena em Trainspotting em que o Begbie joga para trás o copo cheio de cerveja, acaba acertando a cabeça de um cara e tudo vira uma enorme confusão, tudo vira um inferno? Aquela cena é a vida. Diante de um cenário desses, você pode chorar, partir pro soco ou simplesmente rir. Eu tenho a maior sorte do mundo porque com ele, o mundo acabando e a gente fazendo piada, com ele a escolha é sempre rir.

Dicas

Dez curiosidades da vida dos grandes autores

Sem querer ser a leva-e-traz do mundinho literário, mas você soube da última? Resolvi tirar a poeira dos babados mais antigos que acercam os nossos heróis dos livros e trazer para você uma listinha básica deles. Aproveite!

  • J. D. Salinger perdeu uma namorada para Charles Chaplin

O autor de “Apanhador no Campo de Centeio” sempre prezou por levar uma vida discreta, mas alguns escândalos sempre conseguem escapar mesmo quando você é o mais discreto dos romancistas. Quando tinha 20 e poucos anos, Salinger sofreu de amor ao namorar Oona O’ Neil e ser trocado por Chaplin alguns meses depois. O ator era 36 anos mais velho que Oona e a “roubou” de Salinger, deixando o autor furioso. Salinger mostrou que não sabia perder ao escrever uma carta raivosa e completamente desrespeitosa para Chaplin, explicitando em detalhes sórdidos como ele imaginava que seria a vida sexual de Chaplin e Oona — baseado no que ele conhecia dela. Que babaca.

  • Jack Kerouac era um andarilho mesmo

Durante a época em que morou em Northport, Long Island, o autor de “On The Road” era sempre visto perambulando pela cidade descalço, bêbado e puxando um carrinho de mão. Alcoólatra a vida toda, sua única companhia nessa vida andarilha era um vinho barato chamado Thunderbird, que era também a sua bebida favorita.

  • Virgínia Woolf levou um tapa de Rodin, o escultor

Só de imaginar que Woolf e Rodin estiveram juntos no mesmo lugar já é um choque, mas a coisa não para por aí. Quando menina, muito antes de escrever o clássico “Ao Farol”, Woolf visitou o estúdio do escultor francês junto com algumas amigas. Explicitamente instruída a não mexer nas peças inacabadas que Rodin mantinha ocultas enroladas em faixas, ela fez o quê? Exatamente, foi lá e desenrolou uma das esculturas proibidas. Surgindo do nada como um bombeiro vendo o circo pegar fogo, Rodin avançou para Woolf e lhe deu sonoro tapa no rosto na frente de todo mundo. Ah, se já existisse Facebook naquela época, imagina o textão…

  • Arthur Conan Doyle acreditava em fadas

Eis um mistério que nem Sherlock Holmes seria capaz de resolver: como seu criador podia ser tão ingênuo? Quem sabe a fase literária mais infame de Doyle, em 1920 ele publicou “The Coming of The Fairies”, uma acalorada defesa de duas adolescentes inglesas que afirmavam ser amigas de um grupo de fadas minúsculas e aladas. As fotos das meninas brincando com os supostos seres místicos eram claramente forjadas -e, mais tarde, expostas como falsas-, mas Doyle não se privou jamais do seu direito de ser trouxa. Por toda a década de 20 ele continuou a proclamar a existência real de fadas em artigos e palestras — a despeito de absolutamente ninguém o levar a sério.

  • Edgard Allan Poe foi educado em um cemitério

Isso com certeza explica muita coisa. Quando estudou em um internato na Inglaterra, a classe de Poe era ao lado de um cemitério e acabou sendo seu maior campo de estudo. Mesquinho para comprar livros didáticos, o professor do futuro poeta e romancista levava seus alunos para aulas práticas no meio das tumbas e jazigos. Segundo se conta, cada criança escolhia um túmulo como “seu” e aprendia subtração ao descobrir a idade do morto diminuindo o ano de nascimento do ano da morte dele. A ginástica ficava por conta da pá de madeira que cada aluno ganhava já no primeiro dia de aula — quando um novo defunto chegava, os meninos ajudavam a escavar a cova e já garantiam o esforço físico do dia.

  • Charles Dickens era superticioso pra caramba

O que “Grandes Esperanças” tem de lindo, seu autor tinha de esquisito. Tocava em tudo três vezes para “não dar azar”, considerava sexta-feira seu “dia de sorte” e sempre saia da cidade quando o último fascículo dos seus romances era publicado no jornal. Mas a mania mais maluca era mesmo acreditar que o alinhamento dos campos magnéticos do planeta (?) ajudava a promover a criatividade (??) — o que ele garantia ao fazer a sua parte e sempre dormir com a cabeça virada para o Pólo Norte. É. Vai entender…

  • A vida sexual de Liev Tolstói era um livro aberto (mesmo)

Pelo jeito tínhamos aqui alguém que gostava bastante de se gabar… Na noite de núpcias, o escritor russo compartilhou sua extensa história sexual com a esposa Sophia, de apenas 18 anos, encorajando-a a ler todos os seus diários pessoais antes de irem para a cama. Eles tiveram 13 filhos.

  • Lewis Carroll inventou a lombada

Não aquela das ruas, mas a dos livros. Entre seus vários inventos, foi o autor de “Alice No País das Maravilhas” que teve a ideia de imprimir o título do livro na lombada da capa protetora, para que o se pudesse ser facilmente encontrado na estante. Ah, Carroll também inventou um modelo próprio de triciclo.

  • Mark Twain era uma chaminé ambulante

Só de ficar do lado do autor de “As aventuras de Tom Sawyer” você já podia ter um ataque de tosse. O romancista fumava desde os oito anos de idade, com uma incrível marca de entre 20 e 40 charutos por dia. E foi neste ritmo até o dia da sua morte. Apesar de poder se dizer um especialista no pigas, Twain não era um purista do fumo: preferia as marcas de charuto mais baratas e vagabundas que podia encontrar.

  • Oscar Wilde se vestia de menina

Acontece que o sonho da mãe de Wilde era ter uma menina. Ao dar à luz ao pequenino futuro autor de “O Retrato de Dorian Gray”, a progenitora não se fez de rogada: vestiu Wilde com vestidos, saias, laços e fitas durante toda a infância do menino. Não venha concluir apressadamente que isso tem alguma ligação com homossexualidade, hein? Ernest Hemingway, por exemplo, passou pela mesma situação na infância — e isso sim pode explicar um pouco do seu machismo extremo na vida adulta: supercompensação, será?

Fonte: A Vida Secreta dos Grandes Autores, de Robert Schnakenberg.

Resenhas

As primeiras leituras do ano

Paulo Leminski — Foto: Divulgação

Resenhas rápidas dos livros que li nesse comecinho de janeiro

Não sei como surgiu esse número cabalístico (de tanto ler Nick Hornby, quem sabe), mas decidi que a cada cinco livros lidos, faria um post aqui com resenhas rápidas sobre eles. Para meu mais completo espanto, cheguei rápido aos meus primeiros cinco livros lidos de 2017, então estou cumprindo o prometido e trazendo minhas impressões sobre as primeiras histórias do ano.

Esse livro é um apanhadão de todos os livros já publicados do Leminski e mais alguns conteúdos novos. Mesmo para quem já leu tudo dele (como eu), vale a leitura, pois condensada assim sua obra parece fazer ainda mais sentido e ser ainda mais forte. Eu tinha começado a lê-lo no finalzinho de dezembro e foi o primeiro livro que terminei em 2017. Leminski foi um poeta inovador e multi-facetado, sua obra mesmo nos dias atuais ainda é incrivelmente tocante e sem igual por aí. Um dos meus poetas favoritos.

Livro muito curtinho (49 páginas!) que eu achei por acaso no Kindle Unlimited e me interessei pela história porque se parece com a que estou escrevendo(!). Li em uma tarde e adorei, embora ache que o autor poderia ter desenvolvido mais para não deixar a gente tão no gostinho de quero mais. É uma história de amor bonitinha, com personagens cativantes, em um livro extremamente simples e direto.

Quando baixei esse livro no Kindle Unlimited, e eu nem lembro o que me levou a baixá-lo, eu juro que não imaginava que seria arrebatada por uma paixão tão avassaladora. Estou sendo deliberadamente piegas pois o tema permite, esse livro permite. Com poucas páginas de leitura já fiquei absolutamente apaixonada por essa história e pela escrita da Collen Hoover, a ponto de comprar todos os outros livros dela e ficar procurando notícias da produção do filme de O Lado Feio do Amor (dizem que sai em 2018). A história começa simples, mas engrena de plot twist em plot twist e você se envolve totalmente. Fala de uma moça que muda de cidade para morar com o irmão e poder trabalhar e estudar. No dia da mudança, o irmão fora à trabalho, ela dá de cara com um cara bêbado dormindo na porta do apartamento deles. Eles discutem horrores e ela ainda tem que cuidar dele naquela noite, pois descobre que esse cara bêbado vida loka é o melhor amigo do irmão dela e será presença constante em sua vida agora. E aí as coisas começam a acontecer. Eu amei tudo nesse livro. O amor cafona, a mocinha bad ass, o mocinho que é a bruta flor do romantismo. E fiquei feliz, muito feliz, de ter achado tão rápido o meu livro favorito de 2017.

Quis ler esse assim que foi lançado e só agora arrisquei. Achei a capa lindinha e a premissa parecia boa, no entanto me decepcionou. Não que seja um livro ruim, mas para mim não bateu. Conta a história de um adolescente armênio que se apaixona por um bad boy skatista da turma dele. Até aí tudo bem, o que realmente incomoda aqui é que parece que o autor usou o livro apenas como desculpa para falar da cultura de seu país, jogando com isso como se fosse uma barreira para a história de amor do livro, o que acaba se mostrando claramente que não é. Narrado na primeira pessoa, o menino só faz enfatizar tudo o que existe nos costumes e culinária do seu povo, no quanto são diferentes e no tanto que sofrem preconceito até hoje. Até receita de prato típico tem no final do livro. Achei um pouco forçado, embora a história em si, isoladamente, seja bem fofa.

CHEGOU A VICIADA EM COLLEN HOOVER (carinhosamente chamada de CoHo nos fóruns de literatura, já aprendi)! Foi o livro de estréia dela (O Lado Feio do Amor é o oitavo), então o estilo ainda está se desenvolvendo, mas a escrita apaixonada que lhe é característica já está ali. Esse é o primeiro volume de uma trilogia que aqui começa a contar a história de Lake, uma adolescente que descobre o amor em meio a um mar de tragédias pessoais. O que eu chorei no busão lendo esse livro não foi pouco e em dois dias já tinha lido tudo. Vale pelas lágrimas, pelas lições de vida que absorvemos através dos personagens principais, pela fofura dos personagens mirins e por nos ensinar o que é slam, um tipo de competição de poesia que já chegou até no Brasil. Maravilhoso.

E é isso. Se for nesse ritmo, consigo bater fácil minha meta de leitura de 2017. Fixei o desafio em 35 livros para esse ano. E vocês, como estão as leituras nesse comecinho de janeiro?

Dicas

Os meus filmes em 2016

Caça-Fantasmas (2016)

Listei todos que assisti e indico os mais legais

Como vocês já devem ter percebido, eu gosto bastante de listas. Nos últimos anos tenho testado vários sites e apps para listar filmes, buscando um que funcionasse melhor para mim. Por muito tempo usei o Listal, uma espécie de rede social de filmes e séries, mas hoje em dia ele me parece muito confuso. Esse ano, resolvi focar na função de listas do IMDB e gostei bastante. Além do IMDB ter a estrutura mais completa, com todas as informações que se pode querer, as listas ainda podem ser ordenadas em vários critérios e você pode incluir anotações e dar nota para cada filme. Tudo isso via web e via app também. Em paralelo à isso, eu dava check in direto no Facebook em cada filme que assistia, assim eles ficavam ordenados cronologicamente na seção de filmes do meu perfil — isso ajuda a lembrar no decorrer dos meses.

A exemplo da minha retrospectiva literária, não vou dizer qual filme é bom ou ruim, vou apenas destacar aqui os que me marcaram de alguma forma. Afinal, qual o sentido de fazer uma lista o ano todo, senão refletir sobre ela ao final?

Em 2016 eu assisti a 69 filmes. No ano anterior, eu comecei a testar a lista do IMDB lá pela metade do ano e cheguei a marcar 30 filmes, então não é um registro fiel. Esse ano eu fiz certinho, além de só adicionar à lista os filmes que assisti até o final.

O primeiro filme que assisti esse ano foi Perdido em Marte, na casa da Carol. Nós duas temos esse “projeto” de todo ano assistir o máximo de concorrentes ao Oscar de melhor filme e este se enquadrava na categoria. O último filme do ano foi Rogue One: Uma História Star Wars, no cinema, em uma inesperada concessão à saga (eu não manjo nada de Star Wars, mas um amigo queria ver ver).

Desses 69 filmes de 2016, 20 eu assisti no cinema — na maioria das vezes sozinha. Eu adoro ir ao cinema sozinha e quando não é assim, vou com minha amiga Carol ou com meu marido. Foram 59 filmes inéditos e 10 reprises — e ainda tive a alegria de ver uma dessas reprises no cinema, quando Trainspotting entrou por uma semana na programação do Cinemark.

Sem mais enrolações, listo alguns dos filmes que mais mexeram comigo esse ano e deixo a minha lista toda (em ordem cronológica) como curiosidade!

Prêmio Tati Lopatiuk de filmes assistidos em 2016

E por fim… O Grande Favorito & Mais Amado de 2016: Caça-Fantasmas!

Minha lista de assistidos em 2016:

Para 2017 não tenho nenhuma meta a não ser continuar anotando todos os filmes que assisto e perder cada vez mais o medo de ver filmes de suspense ou terror. Acho que estou gostando mais desse gênero (muito por conta das séries que tenho assistido) e quero me aprofundar nele no próximo ano.

O IMDB parece não dar a opção de seguir um perfil, mas de qualquer forma a minha página por lá é essa, caso tenham curiosidade de ver como funciona. Se você gosta de listas, também pode gostar da minha lista de livros lidos em 2016 e das músicas que mais ouvi no ano.

crônicas

Lili

Foto: Death to Stock

Verdades e sentimentos sobre minha melhor amiga

Lili é uma pessoa um tanto quanto reclusa, que só sai quando é para apoiar seus amigos ou passear com eles. A reclusão vem do fato de que Lili é de poucos amigos. Lili não é pra qualquer um, não é para iniciantes. Os raros sortudos que têm a dádiva de sua amizade ganham a felicidade aos baldes a cada conversa com ela. De gestos largos, assuntos amplos, conversas que vão madrugada adentro, cada encontro com Lili é uma chance de voltar a gostar mais da vida.

O que é curioso, por que Lili vive querendo bancar a mal-humorada o tempo todo. Não acho que ela minta, porém fica difícil acreditar em mau-humor quando a pessoa vive só de alegrar a vida de quem a ama. Quando uma pessoa só traz felicidade, como fica essa rabugice de dizer “vocês são jovens, eu já estou às portas da morte”, se ela dá uma gargalhada logo depois de dizer uma sandice dessa?

Quando conheci Lili eu falei pouco com ela, pois achei que ela era “muito adulta” e eu muito pequena. Eu sempre penso nisso de “gente adulta”, que pra mim são pessoas que consideramos serem muito mais inteligentes e corretas que a gente — e ficamos só parados, admirando e pensando: “um dia quero ser assim”. Naquele dia, me senti pequenina do lado daquela mulher de voz forte, que contava histórias, monopolizava conversas, fazia todos gargalharem com seus causos. Então, ela ficou só conversando mais com meu marido (que também a conheceu naquele dia e é extremamente adulto) e outros adultos da mesa.

Um dia quando fomos visitá-la em casa, eu fiquei só quieta escutando-a enquanto tomava um potão de sorvete. Em outra ocasião, na mesa de jantar, Lili e Alex ficaram conversando horas entre si e eu fiquei só dando risadinhas e fazendo barulho sem querer. Acho que isso encerra minha argumentação sobre ser adulta versus ser pequena.

Não pense com isso que Lili não me dá bola. Em um desdobramento incrível da minha sorte galopante, Lili me ama. Eu não fiz nada, fiquei só o tempo todo ali quietinha ouvindo, ouvindo, ouvindo e Lili me ama. Ela se preocupa comigo, me manda e-mails gigantes tão lindos que me vem lágrimas só de lembrar aqui. Ela manda suco de cranberry quando adoeço e me ajuda a seguir meus sonhos. Ela me empresta quilos de livros que eu leio e nunca devolvo, grava filmes pra eu assistir, ela me dá seu ursinho da “Juve” pra eu abraçar durante o jogo e, claro, ela me dá incríveis potes de sorvete.

Quando você fica triste, pode pensar “eu não mereço”. Eu não penso isso da tristeza, penso isso da felicidade. E até hoje não entendo como Lili, essa pessoa tão especial, tão rara, tão para poucos, pode me escolher para ser sua amiga. Mesmo eu sendo pequena, sem nada a dizer e sendo atropelada pela timidez toda vez que tenho algo a contar. Mesmo assim ela me ama e vamos a jantares e almoços em seu restaurante favorito, com seu garçom favorito, com seus amigos favoritos. Ainda assim eu estou lá! Você vê a sorte que eu tenho?

Por isso eu digo que Lili é a minha chance de gostar mais da vida. Cada vez que a vejo ou conversamos, percebo que sou uma pessoa de sorte. Se uma pessoa incrível como ela vê qualidades em mim, então, poxa, eu devo mesmo ser boa em alguma coisa. Toda vez que Lili se faz presente na minha vida, com seu humor rabugento, suas histórias incríveis e cômicas, suas frases misteriosas no Facebook, suas imagens lindas aparecendo na timeline, eu me sinto mais feliz instantaneamente. E essa felicidade não me abandona nunca, pois Lili me ama, mesmo eu sendo pequena e ela sendo adulta.

E por todas essas coisas e muitas outras que não direi, pois sou tímida e pequena, eu a amo também.


Texto publicado originalmente em 06 de fevereiro de 2014 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.

crônicas

Seis anos de amor

Foto por Natália Nambara (2011)

E como aprendemos juntos nesses anos que se passaram

“Lembra daquela vez que saímos do mercado cheios de sacolas pra pegar ônibus e descobrimos que a São Silvestre ia passar pela rua? A gente era tão pequeno…”

Parece que todas as nossas lembranças tem esse mesmo fator em comum: a gente era tão pequeno quando nos conhecemos. “Pequenos” no sentido de jovens, inexperientes. Inocentes, quase. Eu vinda do Paraná especialmente para ficar contigo, incerta sobre continuar na minha profissão por aqui, você ainda enrolado em empregos desgastantes e nós dois juntos tentando alinhar esse nova vida dentro do que nos deixava feliz. Da parte do amor era tranquilo, sabíamos bem que estávamos absolutamente apaixonados. Agora, a vida prática era outra questão. Aprendemos juntos a ser adultos. As contas a pagar, os planos, as possibilidades de começar algo. Não queríamos um sonho, nunca foi idealizado o que vivemos. Sempre fomos nos ajustando ao que acontecia e sendo pé no chão o suficiente para viver um dia de cada vez, o que nos protegia de ilusões e nos fazia reconhecer de imediato quando as coisas boas surgiam.

Você me pediu em casamento em uma noite depois de um dia difícil desses. A grana curta, o futuro incerto, dúvidas sobre como resolver problemas que caiam aos montes em nossos colos, o calor da noite, nós dois debaixo das cobertas conversando e rindo, quando você fez a pergunta que eu jamais esperava: “Quer casar comigo?”. E eu disse sim.

No dia do casamento, fomos só os dois no cartório e só os dois bebemos uma cerveja na padaria na rua de baixo, já com a certidão na mão, a certidão que dizia que agora era pra valer. O que nós dois já sabíamos. Parcelamos as alianças em seis vezes com o último cartão de crédito com saldo que eu tinha. A gente era tão pequeno naquela época, conhecíamos um ao outro e a nós mesmos a cada briga, silêncio ou negativa.

Seis anos depois, já não somos tão pequenos. Somos fortes e valentes, foram seis anos de imprevistos, sustos e alegrias, situações que exigiram demais de nós dois. Juntos, construímos e reconstruímos nosso amor, moldamos ele conforme fomos descobrindo quem somos de fato. Crescemos juntos nessa cidade imensa e exigente, caminhamos de mãos dadas debaixo de cada chuva de pedra que a Terra da Garoa jogava em nossas cabeças.

Seis anos depois, ainda somos nós dois contra o mundo, ainda é como no começo, mas agora de pequenos já temos pouco. Temos nossos planos e sonhos, gostamos de querer ir além do que já temos. Sonhamos alto e estipulamos rotas que nos levarão ao futuro que queremos.

Seis anos depois, do tempo em que éramos pequenos só ficou mesmo a lembrança e o que tinha que ficar: o nosso amor puro e forte, a certeza de que é feito para durar. Ainda te amo como no primeiro dia, quando você acenou para mim do outro lado da sala de desembarque do aeroporto e eu pensei “rapaz, não é que ele veio mesmo?”. Te amo mais, até. Amo a pessoa que você é, tenho orgulho de ter você comigo. Sou feliz por estarmos juntos. Mais feliz ainda por saber que não acaba aqui, que é só o começo. Seis anos é pouco para nós, agora que não somos mais pequenos e aprendemos a andar. Juntos.

Brain Dump*

A gente devia

É tudo tão simples, a gente devia

A gente devia beber mais vezes. E sentar mais no meio-fio em noites geladas pra conversar, mesmo sem ter o que dizer. Ficar ali inventando assunto para preencher o vazio, até o vazio inevitavelmente surgir e a gente perceber que ele nem é tão ruim assim. E deixar ele ficar.

E, bêbados, repensar em tudo para então concluir que nada é tão grave assim. Rir das coisas que nos fizeram chorar de raiva até algumas horas atrás. Enrolar os dedos em nossos cabelos, arranhar a borda do copo com a unha. Perceber o quanto é outro é bonito. Agarrar a barra da camiseta. Reconhecer a sua voz de longe e se entender só com um olhar. Dizer coisas idiotas só pra rir um do outro. Prometer que amanhã vai ser melhor, agora que a gente sabe que é tudo tão simples.

É tão simples como desistir de brigar e de ter razão. Tão simples como retomar a conversa depois de discutir. Pedir desculpa não pelo o que fez, mas por ter magoado. É tão simples como voltar pra casa no começo da madrugada, se jogar na cama, jogar os gatos pro alto, puxar você pra perto e esquecer que um dia, um dia tão distante, a gente achava que tudo isso era impossível. Nada é impossível pra gente, a cada dia sabemos mais disso. Um pequeno passo de aproximação, a certeza do seu amor, beijar seu sorriso, rir de você pra te fazer rir. É tudo tão simples e a gente devia ser assim pra sempre. E a gente vai ser, eu sei.


Texto publicado originalmente em 11 de outubro de 2013 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.

Resenhas

As músicas que mais ouvi em 2016

Bates Motel — 2013

O ano em que me rendi ao pop de vez

Essa é uma análise de final de ano que provavelmente interessa menos para os outros do que a que fiz dos livros, eu sei. Quando você fala dos livros que leu, é mais fácil que outras pessoas se inspirem a ler também. Já música é uma questão muito mais pessoal e se eu te disser que One Direction é bom, ainda que você acredite em mim duvido que seja a minha opinião que te fará escutar a banda se não for o tipo de música que você goste por princípio. E eu sou uma pessoa que basicamente só ouve música pop.

De todo modo, o Last.FM — que segue quase firme e quase forte — fez um review bem bonitinho para seus usuários e eu quis analisar o meu. Vou separar por blocos para deixar minhas ̶j̶u̶s̶t̶i̶f̶i̶c̶a̶t̶i̶v̶a̶s̶ ̶ análises bem claras.

O review começa com esse “geralzão” que na verdade é impreciso: por mais que eu lute e me esforce, não consigo consertar um erro primordial do Last.FM que é o fato de ele não scrobbliar músicas que eu escuto na rua. Já notaram isso? Do que você escuta no Spotify, o Last.FM só manda pro seu perfil o que você ouve no desktop! Ou seja, a música que você escuta via mobile não conta. Isso é um erro deles que não vejo como contornar e sendo assim, esse review acaba sendo uma análise apenas do que escuto enquanto estou no trabalho, no computador, basicamente.

Dito isso, vamos em frente. One Direction continua sendo a minha banda mais ouvida, comprovando que a coisa mais perene que ficou da adolescência foi esse gosto incurável por pop e boy bands. A novidade é mesmo Silva, cantor que descobri esse ano (por indicação de um amigo! será que esse post servirá de algo, afinal?) e cujo álbum Júpiter foi o que mais ouvi no ano!

Pra quem se interessar, Silva é um cantor que toca MPB e é todo cheio de sentimentos envoltos em pianos e bela voz. A gente costuma defini-lo como “o Guilherme Arantes dessa geração”. Se você gosta de música que vem do coração, pode gostar do som do Silva.

Aqui algo que não sofre influência pelo fato da análise ser apenas do tempo em que estou no trabalho. Independente disso, o período que mais ouço música é mesmo das 11h ao meio-dia e na segunda-feira. Eu amo segunda-feira. É verdade. É sempre o dia em que estou mais pilhada para trabalhar, então ouço música o dia todo para manter o foco. O horário em que mais ouço também mostra isso: sempre sou mais animada pela manhã, então chego às 10h no trabalho, dou uma organizada no que tenho que fazer, ligo o som e vou que vou nos jobs.

Treze dias ouvindo música sem parar. Eu não sei que feitiço foi esse. E outra, o que aconteceu comigo em 01 de fevereiro de 2016? Era uma segunda-feira e eu devia estar atolada de trabalho… Dá pra notar que eu adoro ouvir música enquanto trabalho, né?

Eu acho que lembro desses dias do On Repeat. Tirando o de One Direction, que eu realmente ouço muito todo dia e não saberia diferenciar um deles em especial, esse do Video Hits foi de um dia em que acordei com muita saudade da banda. E do Mc João, foi quando descobri que tinha Baile de Favela no Spotify e fiquei feliz demais.

E acaba aí o review do Last.FM. Para não dizer que não falei das flores, amplio um pouco mais e mostro o que o Spotify me mandou. Sim, o Spotify também mandou uma análise do ano, essa bem mais completa e que reafirma o que eu já sabia: minha alma definitivamente foi vendida para o pop.

Essa parte dos “Seu gêneros” chega a ser hilária. Pop Christmas? Isso com certeza foi das vezes em que esqueci e deixei o CD de Natal do Hanson rolando. O que é post-teen pop? Será que são os álbuns mais recentes do Backstreet Boys, que já passaram da adolescência faz tempo? Não sei mesmo. E olha ali de novo: o dia que eu mais escuto música é na segunda-feira! No mais, muito pop, pop pra caramba, em todos os estilos.

Para 2017 eu não vou prometer nada, claro. Acho que música é muito mais de como você está se sentindo do que de objetivos a serem alcançados. Se bem que esses dias mesmo eu prometi que ouviria mais Fall Out Boy, uma banda que gosto muito, mas só lembro que existe quando sai música deles em filme. Então vai ser isso. E mais a avalanche pop de sempre.

E você, como foi seu ano em música? Descobriu bandas novas ou só ficou nas já queridas? Também prefere ouvir música quando trabalha? Segunda-feira é seu dia favorito da semana, igual a mim? Comenta aí, quero saber!

Para quem quiser ser meu amigo nas redes mencionadas neste post: meu perfil no Last.FM e no Spotify. Só adicionar.

Resenhas

A minha lista de leitura em 2016

Harry Potter e o Cálice de Fogo (2005)

Entre descobertas e reencontros, os livros que marcaram o ano

Não sei se todo mundo aqui tem perfil no Good Reads. Se não tiver, é uma boa dica para você que gosta de ir além de ler livros, tendo um registro das suas leituras e até estabelecendo metas para elas.

Sempre em janeiro o Good Reads te pergunta quantos livros você pretende ler no ano. É bom ser realista ao responder, pois quando dezembro chegar o site vai te dizer se conseguiu! Para mostrar que está batalhando em seu desafio, no decorrer do ano, todo livro que ler você adiciona lá na sua estante virtual e assim vai montando seu catálogo. Se você é dessas pessoas metódicas viciadas em listas, assim como eu, é um grande achado. E pode ser bem divertido.

Hoje recebi do site o review do meu ano em livros. Tinha me comprometido a ler 35 livros em 2016 — cinquenta seria o ideal, mas achei que era muito para a minha rotina. Acabou que li 32. Não bati a meta, é verdade. Mesmo assim estou bem satisfeita. Foi um ano muito bom para as leituras, redescobri o prazer de ler e li muito mais por diversão. Estar escrevendo meus próprios livros também colaborou para que eu não tivesse tempo ou foco de bater minha meta, isso também é verdade. De qualquer forma, acho que fui bem.

Meta batida ou não, o que colaborou para que eu lesse mais em 2016? Acho que o principal foi que insisti mais nos livros. A nossa atenção é sempre disputada por tudo ao nosso redor e permanecer lendo um livro por mais de duas páginas é difícil. Eu tentava continuar mesmo quando parecia chato, quando parecia que não era para mim, quando notificação pulava na telinha do celular e quando lembrava que tinha mais dezoito séries para colocar em dia e um livro para escrever. Ter o Kindle também ajudou muito, noventa por cento dos livros que li esse ano foram por ele. Poder ler através do aplicativo do Kindle para celular e ter livros “grátis” pelo serviço de empréstimo deles foram diferenciais na hora de escolher algo novo para ler.

Por último, fiz algo meio diferente, eu acho: fugi das modinhas. Ou pelo menos, tentei. Todo mês são lançadas centenas de livros novos, com capas maravilhosas e você acaba largando o que tá lendo para ler o que chega de novo… Só que aí no mês seguinte mais livros novos chegam e você não acabou aquele, mas quer ler as novidades e… Acaba não lendo nada. Esse ano, fui na livraria só para passear e foquei nos livros que descobria on line, por indicação de amigos ou dos blogs que leio. Minha vitrine de compras em 2016 foi a internet. Assim, com tempo e com calma, consegui filtrar bem melhor o que realmente queria ler — e conseguia ler de fato e não ficar só acumulando vontades.

A maioria dos livros que li, resenhei aqui. Dando uma rápida olhada na lista dos 32 do ano, separei alguns que se destacaram e deixo o meu review inteiro para vocês verem, como curiosidade.

Prêmio Tati Lopatiuk de livros lidos em 2016

Mais impactante: “A Garota no Trem” de Paula Hawkins
Se Não Desisti Foi Por Pouco: “A arte de pedir” de Amanda Palmer
Encantador do Início ao Fim: “O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares” de Ransom Riggs
Aqueceu o Coração: “A Melhor Coisa que Nunca Aconteceu na Minha Vida” de Laura Tait e Jimmy Rice
Ensinou a Viver: “A redoma de vidro” de Sylvia Plath
Desgraçou Minha Cabeça: “A verdade sobre o caso Harry Quebert” de Joël Dicker
Me Senti Jovem: “Todo dia” de David Levithan
Apoie seu Artista Local: “InSano” de Fernando Barone 
Mulherão da P0rra: “Agora e Sempre” de Diane Keaton

E por fim… O Grande Favorito & Mais Amado de 2016: “Quarto”, de Emma Donoghue!

Aqui a lista completa das minhas leituras:

Para 2017, ainda não sei se mantenho a meta de 35 livros por ano e tento batê-la dessa vez ou se chuto o balde e aposto em 40 ou até 50 livros lidos. Ainda vou pensar! Enquanto isso, o que mais quero fazer é rever minha fila de leituras pendentes, avaliar o que realmente ainda me interessa e me desfazer do que não vou ler mesmo. A gente já tem tantas obrigações, acho que não cabe mais ficar forçando ou empurrando as coisas com a barriga, mesmo as leituras. Para o ano novo que vai começar, quero ser bem mais direta e reta nos meus objetivos e até no meu lazer — assim aproveito melhor um pouco de tudo!

E você, quais foram as suas leituras favoritas do ano? Conseguiu ler os livros que queria? Ah, não esquece de me adicionar no Good Reads, esse é o meu perfil por lá.

crônicas

A história de amor que não acabou

Treino da Ladies of HellTown, julho de 2013 — Foto: Lucas Red

Glória aos que ficam, saudade e amor aos que vão embora

Falar das Ladies of HellTown é fácil. Desde o primeiro momento sempre foi. A primeira liga de Roller Derby do Brasil, o que a torna por direito e mérito a maior e mais antiga do país. Liga membro pleno da WFTDA, campeãs do Brasileirão desse ano. Sulamericano elas participam todo ano, descem e sobem serra pra jogar, vão pro Rio de Janeiro fazer festa, ensinam quem quiser aprender, abraçam o mundo e o carregam nos ombros a cada jam.

Falar da minha história com as Ladies é difícil. Me dói, tinge minha vista de lágrimas. Um grupo de meninas que conheci em 2012 e engoliu a minha vida me devolvendo outra totalmente nova, vibrante, cheia de significados e desafios. Que virou tatuagem, roxos nas coxas e algumas dores eternas no joelho direito se forço muito. Um esporte que me tirou da minha condição de “sedentária com orgulho” e me colocou no centro do domínio do meu corpo (vê até onde vai esse músculo? e ele é seu. vê até onde vai a exaustão? você aguenta mais um pouco), uma imersão em tipos, uma variedade de personalidades que me fez repensar a minha. Uma obsessão que durou por anos até que precisei me ausentar.

É por isso que dói falar da minha história com as Ladies. Por que eu me ausentei. Eu sai. Por conta do câncer — e depois não coube mais na minha vida. A Ladies não é para quem pode se doar só um pouco. Ela te quer sempre por inteiro e eu mudei demais, ainda que nunca tenha deixado de amá-la. Nossa história de amor foi interrompida desse jeito estranho, algo com o que ainda não me acostumei. Vendo ela prosperar sem mim, me vejo enciumada. Leva pouco e percebo que ficar brava com ela é perda de tempo. Feito a ex bonita que só melhora a cada dia, ela não liga para a opinião alheia e só floresce. Só me resta aceitar que não estamos mais juntos e torcer para que seja feliz sem mim.

A Ladies é muito grande. É gigante. E sempre foi, embora no começo fossemos apenas nove meninas para formar dois times de dez (sim, não dava — jogávamos mesmo assim). A Ladies é enorme, transborda. A cada volta completada na track, avança um pouco mais. Campeonatos, jogadoras chegando a cada mês, times novos dentro da liga e agora, uma quadra só delas.

Dá pra acreditar nisso? Em um esporte só de mulheres, totalmente “faça você mesmo”, sem apoio nenhum da iniciativa pública, as minas vão lá e conseguem uma fucking quadra? A Ladies é gigante demais, meu irmãozinho.

Lembro de mim no meu primeiro treino, o chão era de taco e a quadra era tipo apartamento de solteiro: pra entrar dois, tinha que sair três. O primeiro jogo nosso, o primeiro do Brasil, no chão batido do Memorial da América Latina. Todas essas histórias as novatas de hoje devem saber, mas a gente nunca vai deixar de contar.

Outras lembranças são mais minhas. A Shyrlei brava quando a gente dava abraço (aí que a gente abraçava mais). A Manu pedindo pelo amor de Deus pra gente ficar quieta pra ela passar o treino. A Daph me fazendo gargalhar até cuspir o protetor bucal. A Tati C. acalmando o time inteiro com um simples “não, relaxa”. Sakura voando até o teto e caindo em pé (cinco pontos). A Bá dando show na track e a Paulinha dançando até o chão antes do jogo começar. A Folco prestando atenção em tudo e me explicando depois. A Luka sendo tão nerd que era humanamente impossível. A Beki trazendo marmitinha pra comer no intervalo. A Biazinha sempre uma dama. A Biazona dona da porra toda. Nina minha primeira derby crush. Micha e a risadinha que sempre me fazia me sentir menos só. De cada menina que eu conheci nas Ladies, quis ser igual em alguma coisa. Não era falta de personalidade minha, era muita personalidade delas.

Hoje a Ladies é ainda maior do que éramos no começo. Das alegrias de ter uniforme novo (é esse logo mesmo?), passando pela euforia com um jogo improvisado (vai ter nome nos times?), o jeito mambembe que experimentamos vai sendo deixado de lado enquanto a liga caminha para um profissionalismo sem precedentes no Brasil. Um caminho que a coloca em seu lugar de direito por toda a luta desses anos.

Lembrando de todas essas coisas, dessas meninas e do que vivemos, revejo meus medos. Um grupo tão maravilhoso não deixaria raízes fracas. De onde eu pude tirar que a Ladies é minha ex? Nunca terminamos. Não seria possível nem se eu quisesse. Feito a tatuagem que tenho delas, a liga está gravada em mim. E percebo que é recíproco, ainda que o grupo de hoje seja outro quase que por completo. Mudou muita coisa, menos o amor que emana da Ladies e que é parte do DNA dela. Tão grande quanto sua história é seu coração, percebo que não vai ser como se tivesse esquecido de nós que ficamos pelo caminho. Vejo hoje, com essa notícia da quadra, que nem eu deixei de gostar dela e nem ela deixou de pensar em mim. Descubro, radiante, que essa história de amor não acabou.

Um jogo inaugural acontecerá e eu estarei lá. Nos reencontraremos após meses (anos?) afastadas. O que será que eu vou sentir? Será que vou chorar muito ou “apenas” muito mesmo?

Não sei. Só sei que estarei na arquibancada para vê-la brilhar, para vê-la ser a Ladies linda e forte pela qual me apaixonei à primeira vista já se vão uns bons anos. Estarei lá para saber que o amor nunca terminou e não preciso ter ciúmes. Ela ainda é minha, mesmo hoje sendo mais do mundo do que dos limites pequenos das quadras diminutas pelas quais passamos.

O sentimento continua o mesmo, ainda que nossos caminhos hoje sejam diferentes.

Não é o que dizem do amor verdadeiro? Pois assim este amor é.