crônicas

Os heróis que são nossos

Palmeiras x Chapecoense, 27 de novembro, pelo Brasileirão de 2016 — Créditos: Pedro Martins (MoWa Press)

Mais nossos do que qualquer razão pode explicar

Corri pro carro do meu pai e chorei escondida no banco de trás. Estacionado na frente da casa dos amigos que visitávamos naquela manhã de domingo, ninguém podia me ver dentro do Fusca bege enquanto eu tentava entender o que sentia. Era 1994 e Senna tinha morrido.

Por semanas, dormi abraçada com a fita K7 que recém tinha ganho da minha mãe. Era a minha banda favorita e eu sabia de cor todas as músicas. No dia em que aconteceu eu achei tão poético que até parecia certo, embora doesse demais. Era 1996, eu tinha 12 anos e a Mamonas Assassinas inteira tinha morrido em um acidente de avião.

A tragédia é da família e dos que ficam. Algo tão íntimo e fundo, ninguém é capaz de mensurar a dor de quem perde um amigo, um pai, um irmão ou um filho em uma catástrofe assim. Para nós que observamos de fora, os olhos vidrados na TV, fica o vínculo que criamos com aqueles ídolos. O quanto eles eram nossos por conta das alegrias que nos deram, dos feitos heroicos, da trajetória de anos ou meteórica, das fotos, das histórias. O quanto eles eram nossos por parecerem tão divinos a cada vitória e tão humanos a cada derrota, mais nossos ainda a cada declaração polêmica e até nos deslizes mais prosaicos.

No domingo, vi meu time ser campeão. Em um país que ama e odeia o futebol na mesma medida, é quase aos socos metafóricos a argumentação de você que quer impor algum respeito por amar um time com o mais irracional dos corações. Na festa antes do jogo, barreiras policiais nos impediam de chegar até o estádio. Perto do estádio, calor e multidão, uma multidão de iguais, nos atrasava para entrar em campo junto com nossos jogadores. Na hora do jogo, toda essa angústia, as horas, os dias, meses e anos de espera foram esquecidos.

É difícil amar o futebol, mas é lindo. Os jogadores que você conhece de longe, os vê pequenos sendo gigantes lá no gramado — do Gol Norte fileira HH é bem distante e ainda assim vemos tudo. Personagens que você ama com todo o ódio do mundo. As contratações que especula, a tática que não é bonita ainda que funcione, a raiva dos desmandos do presidente, a ansiedade que transborda em unhas roídas, vozes alteradas, braços arrepiados quando o atacante chuta e… Quase é gol. As vezes é.

No domingo, vi meu time ser campeão. Amei cada um dos seus jogadores, ri de suas falhas com o carinho de quem ama sem ter outra saída senão amar. Pude ver o quanto o futebol é grande, enorme, maior que qualquer outra emoção que eu já possa ter inventado para mim. Soube do mais lindo que se pode chegar, a alegria febril de voltar a pé do estádio até em casa, sete quilômetros debaixo de chuva e rindo feito imbecis.

Hoje um time inteiro morreu. São nove da manhã e eu choro no meio da rua, segurando sacolas, esperando o táxi, me sentindo pequena demais para caber sequer no meu bolso. Tão pequena quanto em 1994, menor ainda do que em 1996. Enxugo as lágrimas e penso que não posso chorar aqui, não posso chorar em lugar nenhum a não ser na minha casa e até eu voltar para ela ainda demora. Do time, dos setenta e um mortos nessa tragédia, não sabia muito além do fato de terem sido eles nossos adversários naquele jogo de domingo em que fomos campeões. Sendo assim, e era muito e era o suficiente, eles eram mais nossos do que quaisquer outros virão a ser.

A minha medida não serve para todos, mas pode ser comum a vários. Não muda o que aconteceu, só torna claro o fato de que é uma tragédia que os familiares vão sentir na carne, enquanto sentimos naquela fina linha de idolatria que nos faz amá-los tanto a ponto de achar que eram parte nossa. E por pertencerem tanto a cada um de nós, cada um a seu modo, os ídolos são de todos e transcendem a morte. Mito na raiz da palavra, antes de virar expressão gasta de internet.

Naquele domingo do título, onde sorri por vinte e quatro horas seguidas, me senti tão enorme que era invencível. Hoje o choro tomou conta de tudo em uma nuvem pesada que me botou de volta no meu lugar.

Nos colocou de volta em nosso lugar. O sorriso virou reverência, o grito de felicidade virou silêncio respeitoso. Você para pra pensar e não acredita. Se eram tão nossos e tão heroicos, tão invencíveis e incríveis, como pode acabar assim? Então você lembra dos dias no estádio, na paixão de cada dia pelos onze em campo e mais os que ficaram no banco. E entende que não acaba aqui. Como não acabou naquela curva em 1994, como não acabou na Serra da Cantareira em 1996. Porque tudo o que nos ensinaram e nos fizeram sentir nunca vai se perder, como a taça que se ergue e os inúmeros lances improváveis que viram conversa no dia seguinte. Todos os pequenos detalhes que faziam da história deles um pouco a da gente e tornavam a nossa vida mais emocionante por conta do que eles viviam.

É assim no futebol e em qualquer paixão que se sinta. Só que no futebol parece que é mais. Pode ser impressão minha, não sei. Uma coisa é certa, nossos ídolos são nossos e, sendo nossos, não serão esquecidos jamais.

Resenhas

Resenhas rápidas: Diane Keaton, DNA e romances

Francis Ford Coppola, Al Pacino e Diane Keaton by Harry Benson, 1971.

Os seis livros que li no último mês — mais ou menos

Na verdade, tem dois livros aí que eu li anteriormente esse ano, mas só agora foram publicados e entraram nos Skoob e GoodReads da vida. Então, resolvi deixar tudo atualizado nessas redes e inclui-los nas minhas resenhas do mês. Vamos lá?

  • Alucinadamente Feliz: Um Livro Engraçado Sobre Coisas Horríveis — Jenny Lawson: Esse livro tem uma capa linda e foi por isso que comprei. A história é boa, só não me cativou tanto. Não é um romance e nem ficção, é a autora falando do seu cotidiano como alguém com ansiedade, depressão, distúrbio de automutilação, transtorno de personalidade esquiva e um ocasional transtorno de despersonalização, além de tricotilomania. Pois é. Apesar disso, ou justamente por isso, Jenny é uma pessoa (alucinadamente) feliz e essa sua felicidade inebriante é o tema do livro. Eu gosto desse tom de superação e de “você pode ser feliz apesar de todos os problemas”, mas ali achei meio cansativo o quanto ela é eufórica demais sobre tudo. Acho que não era o que estava procurando em um livro, escolhi o momento errado para lê-lo e por isso me cansei tão rápido. De todo modo, é um livro legal e você certamente dará umas boas risadas (eu ri bem). A alegria de Jenny Lawson parece ser verdadeira e ela dá boas lições de vida, além de contar causos hilários.
  • A Melhor Coisa Que Nunca Aconteceu na Minha Vida — Laura Tait & Jimmy Rice: Possivelmente um dos melhores romances que li esse ano. O mais divertido, fofinho, melhor escrito e gostoso de ler. Conta a história de um rapaz e uma moça que são amigos desde a adolescência, apaixonados em segredo um pelo outro, até que se reencontram na vida adulta e a pergunta é: será que ainda é tempo de se declarar e viver esse romance? Cada capítulo traz o ponto de vista de um dos personagens, Holy e Alex, e você vai descobrindo os pontos escondidos da história que fizeram com que os dois se distanciassem no decorrer da vida e o motivo de nunca terem revelado um para o outro o amor que sentem. O meu favorito é o Alex, o jeito dele descrever seu dia, seus amigos, é muito engraçado e verdadeiro. Eu amei esse livro e leria tudo o que os autores escrevessem pelo resto da vida.
  • Um Encontro (Depois do Fim #1) — Lillian Lyra: Esse eu já tinha lido antes, lá pelo meio do ano no Wattpad, mas agora chegou na Amazon e eu baixei para prestigiar a amiga. A história de “Um Encontro” é bem bonita e pesada, um caso de amor improvável que poderia dar certo, mas a moça esconde um segredo terrível que… Leiam! A Lillian prometeu que a história terá continuação e eu vivo por isso.
  • Malvarrosa — Tati Lopatiuk: TE METE! Meu primeiro livro publicado pela Amazon, Malvarrosa esteve disponível durante todo o ano no Wattpad e esse mês se tornou exclusivo para Kindle e seus assemelhados. Obviamente sou suspeita para resenhar, então vamos à sinopse. Se trata de uma história de amor e amizade com um tom meio sobrenatural. É bem curtinho, 62 páginas e você lê rapidão. Compre aqui, depois me diga o que achou!
  • Agora e Sempre: Memórias — Diane Keaton: Lindíssimo livro que uma amiga fez questão que eu lesse e me emprestou o seu. E acertou na imposição literária (adoro), o livro é ótimo. Não é exatamente uma autobiografia da Diane Keaton e sim uma homenagem da atriz à sua mãe, onde vasculhando os inúmeros diários que esta deixou descobrimos de onde veio a base para Diane ser a pessoa incrível que é. É um retrato muito delicado e emotivo da relação entre mãe e filha e, claro, refletindo sobre a história da mãe, Diane também abre espaço para que conheçamos a sua. Dos tempos do teatro, o começo da carreira no cinema, o relacionamento com Woody Allen, a eterna paixão por Al Pacino, a maternidade solo e tardia com a adoção, está tudo ali sem censura. Leitura para emocionar e ficar de coração quentinho.
  • O Polegar do Violinista: E outras histórias da genética sobre amor, guerra e genialidade — Sam Kean: Esse livro é incrível, daqueles que você lê quando quer se sentir bastante inteligente e de um jeito pop. Eu estava com saudades de ler livros tipo os do Oliver Sacks, sabe? Aquelas não-ficções sobre temas cabeçudos, porém tratadas de um jeito leve e divertido. O livro de Sam Kean é perfeito nesse sentido, aprendemos sobre DNA e genética desde o começo dos tempos ao mesmo tempo em que ficamos sabendo de histórias absurdas que aconteceram para que hoje pudéssemos desfrutar de conhecimentos como genoma e outras tretas. Recomendo demais, muito mesmo.

E foi isso! Desses livros, a maioria eu peguei pelo Kindle Unlimited. As excessões foram Alucinadamente Feliz, que comprei a versão digital pela Amazon e Agora & Sempre, que emprestei a versão física da amiga. Tinha fechado uma meta de leitura em 35 livros no GoodReads para esse ano. Já estou em 29, acho que consigo!

crônicas

A Festa do Bife

Foto via Cruising The Past

Do tempo em que um pedaço de carne era o suficiente

Originária da Idade Média e sem data para ser extinta, a Festa do Bife surgiu da vontade de um grupo de amigos em se encontrar e, bem, comer bife. Idealizada inicialmente por pessoas interessadas somente em bife e conversa prosaica, a Festa tornou proporções maiores quando foi introduzido o purê de batata no cardápio, algo que a princípio causou revolta, mas depois da primeira garfada o pessoal meio que ficou mais tranquilo e começou a ver vantagem.

Salada? Sim, se possível de alface. Arroz? Certamente, pois agregar é a palavra-chave da Festa do Bife. Incrível como as pessoas, quando querem, conseguem acertar na medida e proporcionar festas inesquecíveis utilizando somente itens da cesta básica. Simplicidade e amor parecem ser os ingredientes não tão secretos dessa receita que tem aproximados corações e forrado estômagos através dos séculos.

Bebida é outro ponto primordial da Festa. Não raro os comensais se divertem entre garfadas no bife e goladas de cerveja gelada, quando não um refrigerantezinho também desce bem. Existem os entusiastas do suco de frutas, mas francamente, é um bife, um purê de batata e um arroz, estamos entre amigos, não precisa fingir ser saudável. Até porque depois terá a sobremesa.

Ah, a sobremesa. Delícia doce que nos inebria a alma. Açúcar desempenhando a sua função e tornando o mundo mais tolerável. Em se tratando de Festa do Bife, toda doçura é bem-vinda e incentivada. Há registros de que a Torta de Limão é a grande estrela nessa função, mas não foi confirmado a tempo, os pedaços acabaram muito rápido. Era Torta de Limão ou Mousse de Chocolate? Hipnotizados pelas boas sensações, fica só o registro pouco claro da saudade.

Não obstante a sedução alimentar, ainda existe a parte recreativa da Festa. A festa em si. Os folguedos. A alegria. Jogos, conversas paralelas, cachorro pulando pela casa toda. Disputas por melhores pontuação em apostas. Descer ali rapidinho comprar mais pilhas. Isso é eterno na Festa, é o que o torna tão viva em nossos corações.

Atualmente, a Festa do Bife vem perdendo lugar entre os jovens para baladinhas e Manifestações na Rua, mas quem é de Bife jamais deixará de ser de Bife. Embora tenha raras edições nos dias de hoje, a Festa do Bife ainda resiste, tal qual um bife cheio de nervos a ser estraçalhado pela juventude sem rumo.

A saudade machuca, mas a certeza de que a Festa do Bife não morreu é o que nos empurra adiante. Mesmo nos dias atuais em que somos engolidos pelo cotidiano e mal temos tempo de fazer um purê de batata, a Festa do Bife está ali em nosso pensamento, só esperando o momento certo para acontecer. E acontecerá, um dia. Um dia nos encontraremos novamente em volta de um prato de bife, amigos.


Texto publicado originalmente em 21 de junho de 2013 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.

Brain Dump*

Nada mudou

Foto: Death to Stock

Um reencontro consigo mesmo podem trazer novidades antigas

Você pode encontrar seu eu do passado ao andar desavisada pela rua, tomar um susto e se arrepiar como um gato pelo o que vê e lembrou. Também pode encontrá-lo no meio da noite, na cena de algum filme. Quieta e sozinha na casa vazia, enquanto faz um café. Falando ao telefone com sua mãe e lembrando como costumava se sentir ao estar ao lado dela, do outro lado da linha. Você se reencontra e se surpreende consigo mesmo. O que mudou?

No fundo, continuamos sempre os mesmos. O susto vem daí, de ver que nada mudou. Daquele tempo de antes, mais livros, filmes, seriados, pessoas e festas vieram, mas continuamos os mesmos. A insegurança de falar olhando pra baixo, a ousadia de repetir mais alto quando não te escutam da primeira vez. Arriscar contar uma piada em público, como quem se joga na piscina com carteira e celular no bolso. E o frio na barriga que já é velho amigo.

Nada nunca muda e é confortável viver assim. A gente se abraça mentalmente e diz “sou desse jeito”, nada precisa mudar porque nada nunca muda. Nos reencontramos dentro de lembranças, de memórias e tudo não passa de uma continuação dessa história que desde o começo já foi definida como seria. Não temos escolha. Nos reencontramos com nosso “eu antigo”, sentimos ternura pela ingenuidade dele, que um dia pensou que seria diferente. O café no meio da noite, o telefone da mãe, a cena do filme. Tudo serve para lembrar: nada nunca muda e ainda estamos aqui.


Texto publicado originalmente em 04 de março de 2014 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.

Processo Criativo

Levei dez anos para realizar um sonho

Foto: Death to Stock

Ou como “da noite pro dia” eu publiquei meu primeiro livro

Um bom poema leva anos, já diria Paulo Leminski. Até entrar na faculdade, eu tinha cadernos onde escrevia religiosamente sobre o meu dia. Não eram exatamente “diários”, eu tentava dar um brilho na minha narrativa criando crônicas cotidianas com tiradinhas engraçadas, análises de comportamento humano, reflexões cheias de humor sobre mim mesma. Era apenas um exercício literário, mesmo que eu ainda não soubesse, da filha da Neti e do Nica que era metida a escritora, como diziam as vizinhas.

Depois veio a internet. Abri um blog e abandonei os manuscritos dos cadernos. Com dois ou três anos de Respeite Meus Mullets (esse era o nome do blog), já tinha uma base respeitável, para a época, de leitores. Ainda escrevia apenas crônicas, devaneios cômicos que as pessoas entravam na onda e riam comigo. Peguei gosto pela escrita ali, trabalhando em cada texto, vendo o que funcionava e o que não rendia. Quando o RMM acabou, seis anos depois, eu fundei o Elvis Costello Gritou Meu Nome, um blog um pouco mais introspectivo e sério, onde eu apurei ainda mais o meu estilo e inclui outras “editorias” como resenhas literárias — já que eu sempre fui a doida dos livros e sentia necessidade de contar o que eles me faziam sentir.

Quando o ECGMN acabou, mudei aqui pro Medium. Eu nunca parei de escrever, desde aquele primeiro caderno, nunca. Com o tempo, vi que tinha uma identidade no que eu escrevia. Que aquilo era meu, mais do que meu, aquilo era eu. Escrever era parte de mim, como é parte de mim ter nascido no Paraná ou torcer para o Palmeiras. Diante disso, me senti mais segura em publicar meus textos e me ver como alguém que escreve. Passei a trabalhar com redação também. Escrever por lazer e por obrigação ajudou a minha escrita e deu corpo ao meu trabalho, uma coisa completando a outra. Sentia ser mais sólido o meu jeito de escrever. Quando sentava diante do computador, já tinha as palavras prontas na cabeça, não passava um dia inteiro martelando aquilo — como era no começo. Foi aí que comecei a sonhar em escrever meu próprio livro. Mas como? Sobre o quê? Enquanto não tinha a resposta para essas perguntas, escrevia mais. E lia mais ainda.

Anos atrás, conversando com meu marido, ele disse que eu devia escrever ficção. A crônica eu já dominava, a meu modo, era hora de inventar histórias. Só que eu não conseguia nem me imaginar fazendo isso, não sabia por onde começar e nem se tinha talento mínimo para tanto. Essa foi mais uma das ideias que ficaram guardadas no meu coração por anos sem que eu soubesse o que fazer com ela. Durante o câncer, me aventurei a escrever meu primeiro romance. Não sei o que me deu, mas de repente eu estava cansada de esperar ser boa para escrever um livro. Eu já tinha escrito muito, por anos a fio, sobre todas as coisas, em todos os formatos. Eu já tinha entendido que não precisava ser boa porque não existe isso de “ser boa”: não pode existir juízo de valor em algo feito de coração. Com a doença e os anos pensando na ficção como próximo passo, achando que morreria amanhã eu queria escrever sem me importar no que daria.

Foi assim que surgiu All Across The World, uma história de amor meio doida, publicada capítulo a capítulo no Wattpad — plataforma digital para escritores iniciantes. Com o sucesso inesperado de AATW, foram mais de 15 mil leituras até a sua conclusão, hoje já passa das 18 mil, eu fui em frente e não parei mais.

Até o momento já escrevi seis livros, a maioria no Wattpad, alguns engavetados e ainda inéditos. Não sei se hoje em dia escrevo bem ou pelo menos melhor que antes, mas sigo escrevendo até descobrir. As coisas foram acontecendo pouco a pouco e sem planejamento: AATW virou uma trilogia, escrevi um livro pra um desafio de 10 mil palavras em trinta dias, outro é uma antologia dos melhores textos do RMM. No momento, estou escrevendo meu sétimo livro, uma história de amor sobre uma moça solitária em São Paulo.

E escrevi Malvarrosa. Malvarrosa foi um livro que eu tive a ideia de escrever quando uma das minhas melhores amigas, que hoje mora na Espanha, publicou uma foto que ela tirou de um festival que acontece por lá. Eu levei uma semana para delinear a ideia e dois meses para escrevê-la. Ali eu vi que já tinha uma obra, podemos dizer. Eram cinco livros no meu perfil do Wattpad e mais os arquivados. E agora?

Publicar livros não é fácil, pelo menos não no jeito clássico, com edição impressa, contrato com editora grande e coquetel de lançamento. Por todos esses anos, eu levei “não” de muitas editoras. Muitas pessoas me ajudaram também, ilustrando meus livros, ajudando a formatar, me apresentando a contatos. Ainda assim, não vingava. Parecia um panorama frustrante, não? Como fazer a transição de alguém que escreve para escritora sem ter nenhum livro publicado?

Um bom poema leva anos, disse Leminski. Cinco jogando bola, mais cinco estudando sânscrito, seis carregando pedra. Depois de tanto tempo entre criar coragem de escrever e criar coragem de publicar on-line, percebi que é preciso coragem até mesmo para tomar o que é seu para si. O que define como seus sonhos serão realizados? Quem diz o “agora sim” dos desejos que são só seus? Não existe uma receita certa, não existe um Deus que vá dizer se você pode realizar ou não. Me frustrei por anos porque nenhuma editora me queria até perceber que não preciso de editora nenhuma. Para me dizer escritora, não preciso do aval de ninguém além de mim. Não preciso de nada além dos meus livros. E tendo meus livros, os levo comigo por onde eu for e como eu for, como filhos pequenos seguindo a mãe em ninhada. Foi quando descobri isso que cansei de esperar, desisti de fazer as coisas do jeito dos outros e resolvi fazer do meu jeito.

Por um ano inteiro analisei a ideia de publicar via Amazon. O programa deles de publicação direta é bem atrativo, razoavelmente rentável e totalmente intuitivo. Li bastante sobre, reparei nas entrelinhas dos tutoriais, vi outras pessoas conhecidas publicando por lá. Assimilei a ideia. E então, um belo dia, decidi que publicaria meu livro lá. Algum livro meu. Qual?

Escolhi Malvarrosa por ser dos meus livros mais recentes e, por isso, ter uma certa segurança em relação a qualidade dele. Em questão de dois dias, entre preparar o arquivo, fechar contrato e esperar aprovação, eu fiz tudo sozinha. E então, de uma hora para outra, após dez anos de espera e trabalho, eu tinha um livro publicado. Uau!

Não sei se pode ser visto como demérito um livro ser publicado apenas digitalmente, mas a verdade é que, para mim, dá um orgulho danado ligar o Kindle e ver meu livro lá, no meio dos outros que estou lendo. Vê-lo no Skoob e no Goodreads, redes sociais para leitores, também me deixa toda boba. Me alegra saber que mais gente verá isso também. Publicado pela Amazon, meu livro faz parte do Kindle Unlimited, programa que eu adoro, e pode ser baixado de graça em lojas Kindle do mundo todo. Muita gente pode lê-lo, muito mais do que leria se ele fosse publicado apenas no Wattpad. Ou se ficasse no fundo da gaveta. Isso é algo grandioso, eu acho, algo a ser comemorado por alguém que começou a escrever em caderninhos, para ninguém.

Então hoje, você pode olhar minhas redes sociais e dizer que “do nada” eu escrevi esse livro. Mas, se você mesmo trabalha diariamente nos seus sonhos, sabe que não é bem assim. Esse livro começou a ser escrito muitos anos atrás, nos meus testes de crônicas, nos livros que já li, nas rejeições de cada editora. Começou a ser desenhado quando decidi que iria escrever ficção mesmo sem saber escrever ficção e quando escrevi dois livros em um ano em que também tive câncer. Não acho que ele poderia ter sido publicado cinco anos atrás. Não acho que ele poderia ter sido publicado nem mesmo semana passada. Cada coisa aconteceu a seu tempo para que só agora ele fosse à venda. Cada pequena decisão e todo pequeno gesto de coragem em seguir em frente mesmo sem certeza alguma fez com que hoje, depois de tanto tempo, eu pudesse publicá-lo.

Um livro, você vai dizer, não é grande coisa. Quem sabe não seja mesmo. O sentido dele vem quando você vê que não se trata apenas de algumas páginas de uma história inventada. Para quem o escreveu, pode ter sido a vida toda. Pode ser o sonho de uma vida. O significado dele vem de saber que tudo é possível, basta você acreditar em você mesmo e lutar pelo o que quer. Ter paciência em alguns momentos, ter raiva em outros. Desistir por meses e então voltar, como se nada tivesse acontecido.

Acreditar em si mesmo é algo estranho, não tem a roupagem que a gente acha que tem. É um sentimento que vai e volta, não dura o tempo todo, mas dura o suficiente para que aos poucos você vença. E um dia você consegue. E eu te digo com toda certeza que você tem o dom, o talento e a coragem necessária para realizar o que quer que seja. Mesmo que leve um dia ou dez anos. Assim como eu consegui.


Em breve todos os meus livros estarão na Amazon, esse é o próximo passo. Enquanto isso, você pode comprar “Malvarrosa” e ler no Kindle e/ou ler no Wattpad meus outros livros disponíveis .

Brain Dump*

Me distanciando de tudo

E ficando mais perto de mim, então.

Uma amiga disse que assistindo Mad Men todo mundo quer ser a Peggy. A princípio não, já que ela começa como uma baita perdedora, mas no decorrer da série, sim, é óbvio que toda mulher quer ser a Peggy. Conseguindo controlar seu impulso por lanches, largando os relacionamentos tóxicos (é real, estou usando este termo) e superando seu mestre — sem contar o quanto o armário dela melhorou de uma temporada para a outra.

No entanto, o que principalmente queremos quando queremos ser a Peggy é essa certeza que ela tem de que é boa e está no caminho certo. Queremos essa certeza dela de que temos algum talento, que vale a pena tentar. Que vão valorizar isso aqui, seja lá o que isso aqui for, pois é sem dúvida uma obra de arte qualquer coisa que a gente faça. Esse brilho no olhar que ela tem quando defende um projeto, essa convicção raivosa que a impulsiona para frente.

Peggy nem sempre teve essa certeza. Foi preciso alguns sacodes da vida, do Don e da Joan, o que você chamaria de bullying ali foi construção de caráter. Algumas mágoas, os grandes olhos verde-azuis arregalados de ultraje e decepção com basicamente toda e qualquer pessoa que cruzou seu caminho. No fim, deu certo. Quando ela entra marchando na agência nova, o cigarro no canto da boca manchando seu sorriso que vai de orelha a orelha, você sabe que deu certo. E você quer ser como ela. A questão é que ali era final de temporada. Ali já tinha acontecido um milhão de coisas e ela já tinha sofrido um bocado, então era de se esperar a redenção final. Já nós, pobres mortais, não sabemos em que temporada estamos.

Que baque. Falando de mim, não poderia estar mais feliz e confusa. E nem está acontecendo nada. Nada. Só que eu notei que, ultimamente na minha vida, uma a uma as coisas estão indo embora. Amizades, gostos, hobbies, vontades, rotinas antigas. Acreditasse em horóscopo, diria que é a Lua em não sei o que com o Sol em não sei que lá que está me fazendo rever tudo o que eu sou. Se bem que, pensando bem, acho que nem se acreditasse em horóscopo eu aceitaria uma explicação tão simplória, como se não tivesse nada a ver comigo pessoalmente.

Pois, tal qual Peggy pulando de episódio em episódio, eu estou galgando temporadas buscando aquela certeza. Já são 32. Inspiro e expiro, perdida nas mudanças que meu coração joga na minha cara me obrigando a agir. Corro atrás da ansiedade, inspiro e expiro, tento não surtar. Não há motivos para surtar. Hoje eu me despedi de mais um pedaço do meu passado e foi tão simples e rápido quanto uma resposta por inbox. A gente tem pressa, todo mundo tem pressa e precisa resolver tudo rápido.

Quanto mais me despeço das pessoas e das coisas, mais sobra de mim. Peggy na ponta dos pés, olhando por cima da divisória da baia, o cara que morreu. Quanto mais sobra de mim, mais me assombro com o fato de que preciso conhecer e entender essa pessoa que eu sou. Peggy pegando o pacote de cigarros sem marca e dizendo que agora ela fuma, sim. Procuro me acostumar com essa pessoa que descubro ser, procuro gostar da maneira que ela pensa. Procuro ver o que de bom essa pessoa tem e ter orgulho dela.

Quanto mais me despeço, mais me encontro. E me isolando eu me sinto bem e me sinto culpada ao mesmo tempo. Não por nada, na vida sempre sobra culpa por todos os lados mesmo. A gente sempre se sente superior por estar se distanciando e se sente inferior por estar longe de tudo.

Dizem que você só odeia nas pessoas o que não suporta em si mesmo. Eu não aguento mais odiar as pessoas. Também por isso estou me distanciando. Não é covardia se você muda de batalha ao invés de insistir na mesma. Eu escuto músicas que não conheço, não quero nada do que já saiba.

Minha amiga disse, todo mundo quer ser a Peggy e eu sou a Sally. Entendo seu ponto, porém eu não quero ser diferente, eu quero ser eu. Nisso tudo eu fiquei pensando, eu sou muito a Peggy, mas uma Peggy que ainda está sendo escrita, uma bem diferente e igual ao mesmo tempo e que, com sorte, será tão boa quanto a original.

Peggy engolindo o choro no começo do episódio e sorrindo feliz na última cena. Vai ser assim.

Resenhas

Resenhas rápidas: seis livros de setembro

O Quarto de Jack (2015)

Colocando a lista de leitura — e de resenhas — em dia!

Costumo resenhar todos os livros que leio, mas andei deixando esse hábito de lado nas últimas semanas. Hoje olhei no calendário e vi que fazia exatamente um mês que tinha lido o primeiro livro que deixei de resenhar aqui. Ao todo foram seis desde então.

Pra corrigir essa falha e deixar as postagens em dia, resolvi fazer nesse post resenhas mais curtinhas, de um parágrafo só, para esses livros que passaram pela minha lista de leitura entre setembro e esse comecinho de outubro. Alguns eu gostei demais e queria nunca ter terminado de ler. Outros foram só dor & sofrimento para concluir a barrinha de 100% lido. Vamos a eles, começando do que terminei hoje mesmo até o que terminei há um mês:

  • Boneco de Neve — Jo Nesbø: Esse livro tem uma resenha ótima de um usuário no GoodReads, algo como: “se você tiver que escolher apenas um livro para não ler esse ano, escolha Boneco de Neve”. Sarcasmo à parte, o livro é um thriller muito engenhoso e cabeçudo, mas que não empolga muito. É tipo um “O Silêncio dos Inocentes” sem carisma, onde um policial alcoólatra e problemático (zzzzz, eu sei) caça um serial killer que mata sempre no primeiro dia de neve do ano. A ideia é boa, o modo como ele desenvolve é interessante, no entanto a trama se enrola demais e acaba tornando a leitura cansativa, arrastada. Eu não gostei tanto, por isso três de cinco estrelas. Diria que você deve ler se estiver com muita vontade de se sentir inteligente sem necessariamente se divertir com isso.
  • Quarto — Emma Donoghue: De vez em quando você precisa ter a sua cabeça desgraçada. Se for por um belo rostinho, você o faz com gosto e mais de uma vez. Estou falando aqui do combo filme + livro e não de vida amorosa, que fique claro. No começo do ano estive em uma maratona de filmes do Oscar com uma amiga, foi quando assistimos ao filme “O Quarto de Jack” (que acabou levando o prêmio de Melhor Atriz)e a história do menininho que vivia enclausurado com a mãe foi algo que tomou meu coração de assalto já no primeiro minuto de filme. Levei meses pra criar coragem para ler o livro que originou o filme e te digo que ninguém nunca estará preparado para uma história tão pesada e tão linda ao mesmo tempo. O que mais encanta em “Quarto” é que ele é narrado em primeira pessoa pelo próprio menino, uma criança de cinco anos apenas. E isso de maneira alguma empobrece ou limita a narrativa, é tudo tão lindo e puro que dói, você se sente dentro da história, parte dela. É mágico. É dos livros mais perfeitos que já li na vida. É triste, bonito e faz chorar, mas você termina a leitura com um sorriso no rosto de saber que existem histórias contadas de maneiras tão sublimes. Em tempo: entre filme e livro, fique com os dois. Os dois são perfeitos.
  • Um Útero É do Tamanho de um Punho — Angélica Freitas: Bom, nesse dia eu queria ler um livro rápido e não me prender muito, então peguei esse de poesia. É um livro bem curtinho, com poesias feministas e com temas atuais. Você termina de ler e pensa “uau, é assim a vida hoje em dia”, olha pela janela do ônibus, pensa no seu amor e confirma: é assim a vida hoje em dia. Um bom livro para ler entre um livro e outro.
  • Invisível — David Levithan e Andrea Cremer: Foi aqui que meu amor por Levithan começou a esmorecer. Não sei o que esperava de “Invisível”, mas certamente não foi o que encontrei nas intermináveis 322 páginas dele. Eu achei que seria mais um de seus livros divertidos sobre paixões adolescentes e pessoas super bem-resolvidas, no entanto fui surpreendida por um exercício de literatura fantástica muito pouco crível e extremamente raso. Pode ser que eu estivesse sem paciência também. Não é improvável. Ainda assim, fui até o fim dessa história de um garoto amaldiçoado pelo vô a ser invisível desde nascença, só para provar para mim mesma que não dava pra ler esse livro — eu provo que não dá pra ler um livro lendo ele até o final. Não tente entender.
  • Austenlândia — Shannon Hale: Estou parecendo um Rubens Ewald Filho rancoroso e amargo, eu sei. Culpo minhas escolhas ruins neste mês e “Austenlândia” foi uma delas. Incrível como um livro de apenas 240 páginas consegue ser tão ruim, preciso dizer que nisso a autora se superou. Eu entendo que chick lit não tem esse compromisso com a erudição ou até mesmo com o ato heróico de fazer sentido, só que aqui a coisa vai além. É a história de uma moça solteirona que ganha uma viagem para um tipo de spa onde recriam a época dos livros da Jane Austen. Teria tudo pra ser divertido, mas é tão bobo e tão cheio de ponta solta que você fica “q” o livro inteiro. Foi horrível. Não recomendo.
  • A Garota No Trem — Paula Hawkins: Agora me imagine girando com os bracinhos pro ar, gritando com enorme alegria no coração: “meu livrooooo”. Eu amei esse livro. Muito mesmo. Eu estou contando os dias para o lançamento do filme dele (dia 27/10, a saber). Ele é maravilhoso, ainda que angustiante e triste & doloroso. “A Garota No Trem” é sobre uma moça solitária e totalmente perdedora, que todo dia passa de trem à caminho do trabalho pelas mesmas ruas e fica olhando os moradores das casas por onde passa. Acaba criando história para aquelas pessoas, inventa nomes e situações até que… Alguma coisa acontece e ela se vê no centro da cena de um crime e tudo leva a crer que ela é a culpada. E, de tão na bad que ela está, até ela fica em dúvida quanto à própria inocência. Eu fiquei mal lendo esse livro, me senti extremamente mexida, angustiada mesmo com a história. E quando terminou eu quis ficar deitada em posição fetal abraçada ao Kindle, lamentando o fim de mais um livro incrível. Ainda bem que vai ter o filme!

E foram essas as leituras do mês! Agora estou lendo uns livros mais sérios, então aguardem resenhas muito inteligentes e rebuscadas em um futuro próximo (ah, não…).

Em tempo: todos os livros estão disponíveis no Kindle Unlimited.

Crônicas do Câncer

Crônicas do câncer — #04 A remissão

Bela, de Danilo Augusto

Para todo mal, a cura

Foram seis meses de quimioterapia, além dos dois meses e pouco entre diagnóstico e cirurgias. Depois de todo esse tempo sendo o centro das atenções, recebendo todos os cuidados e tendo uma batalha digna por travar, de repente o ciclo terminava e eu me via sem direção.

Existe algo diferente na maneira com que as pessoas te tratam quando você está doente. Você recebe um amor que até pode ser verdadeiro, mas que não é permanente. As pessoas te ajudam e te apoiam e você acredita nisso porque precisa acreditar em algo, no entanto é um erro perigoso pensar que todo mundo que te apoia quando você está mal vai ser seu amigo de corpo e alma para sempre. Não vai. A vida oscila, muda de fase, troca de interesses. E isso é normal. Se apoiar em alguém, e não em primeiro lugar em si mesmo, se mostra um grande potencializador de mágoas a longo prazo.

Após a última sessão, fiz alguns exames e esperei pelos resultados. Eles vieram e diziam que tudo estava bem. Ótimo. Três meses depois, já quase “limpa” de quimio no meu corpo, refiz os mesmos exames e agora o oncologista estava mais seguro em dizer: eu estava curada. Segundo o que ele me dizia, o meu organismo parecia ser o de alguém que nunca tinha tido câncer, tão bem eu estava. Não havia nenhum vestígio da doença, a quimioterapia fez o trabalho completo de destruir a doença enquanto me destruía também.

Era a notícia que eu tanto esperava. E eu não soube o que fazer com ela. Não me sentia livre o suficiente para comemorar, parecia que aquela sombra da doença iria pairar para sempre sobre mim. Tentava ser positiva e não conseguia por muito tempo. Me pegava sendo paranoica, achando que qualquer dor, qualquer diferença no meu corpo era o câncer voltando.

Assim como a sensação de estar doente, o tratamento do câncer não é daqueles que acaba quando termina. A doença pode voltar a qualquer momento, então mesmo curada, eu ainda tinha cinco anos supervisionados pela frente: no primeiro, repetiria a bateria de exames a cada três meses. Depois, a cada seis meses. Depois, uma vez por ano. Tudo isso para detectar qualquer possibilidade de volta da doença. Aí então, se após todo esse tempo eu por ventura tivesse câncer de novo, seria um totalmente novo, que não teria nada a ver com esse que tive em primeiro lugar. Todo esse cuidado não me acalmava, só me deixava mais em alerta. E se voltar? E se eu tiver de novo?

É difícil acreditar em uma cura quando ela está atrelada a cinco anos de “talvez”. Muitas vezes, estava lá feliz com algo, rindo e otimista com o futuro, quando algo me dizia aos ouvidos: Não esquece que você tem câncer. Isso sumia com o meu sorriso e me colocava no chão na hora. Eu simplesmente não conseguia superar, porque o medo de passar por tudo aquilo de novo me paralisava. Nisso, todo mundo à minha volta estava feliz com a cura e não entendia como eu podia estar tão séria. Passei a ser a chata, a pessimista. Nem doente mais ela está! Foi aí que mais amigos começaram a sumir.

Não acho que eu seja isenta de culpa por isso. Durante o tratamento, me tornei uma pessoa muito egoísta, desagradável até. Só tinha um assunto, só falava dele, não queria ouvir nada além do que falasse sobre mim. Não acreditava em somar, só queria que me ouvissem e não ligava para os outros. Isso vai cansando, é óbvio. Na minha cabeça, eu morreria amanhã, então era a pessoa mais exagerada possível. Amava tudo ao máximo, um amor desesperado e raso. Odiava tudo ao extremo, de maneira gratuita e infantil. Não respeitava as pessoas que eu amava e que me amavam, achava que as minhas vontades eram soberanas diante do sentimento dos outros.

Assim, fui me isolando. No começo senti raiva, ainda pensava que as pessoas me deviam algo porque eu estava doente e todo mundo tinha que me entender. Depois, passado mais de um ano, vejo que era completamente compreensível tantos finais. Ninguém é obrigado a aguentar uma pessoa irascível e inconsequente como eu me tornei naqueles dias. Mesmo meu casamento passou por uma crise terrível, que com muito amor e diálogo conseguimos contornar. Muitas amizades não tiveram a mesma sorte — porque não era pra ser, acredito. E tudo bem.

Enquanto essa revolução acontecia, fui me acalmando e reconquistando o meu corpo. Meus pés e mãos gradualmente pararam de formigar e ficar dormentes o tempo todo. Voltei a ter meu próprio cheiro e paladar. Meu cabelo parou de cair tanto. Com alguns meses, tentei voltar para o Roller Derby, mas vi que já não era mais para mim. Eu tinha mudado muito e não combinava mais comigo ser de uma equipe. O câncer me mostrou a solidão e eu vi que ela era boa, se eu estivesse de bem comigo. E eu estava ficando de bem comigo. Por indicação do oncologista, passei a fazer academia e encontrei ali uma nova paixão. Fazer exercícios físicos é bom para ajudar a fazer seu intestino funcionar e também acelera a curar a coisa dos formigamentos, então eu me joguei. Hoje em dia, faço musculação e aeróbico quatro vezes por semana e volta e meia participo de corridas de rua.

Aos poucos, fui me reencontrando. Deixei os excessos todos de sentimentos e vontades e foquei só em mim. Quando olhei apenas para mim, pude ver de verdade o que eu realmente queria e precisava. Hoje não preciso de centenas de pessoas ao meu redor, só preciso de mim e do cara que eu amo. Dos nossos gatos, de um jogo do Palmeiras no estádio. Dos meus livros, que nunca mais parei de escrever.

Em julho, fiz meus exames mais recentes. Como diz o Dr. Hézio, minha saúde está “um espetáculo”. Só vou precisar fazer exames novamente em janeiro — desde o diagnóstico, esse é o maior intervalo de tempo que passei sem precisar fazer raio-x de tórax, colonoscopia e seus que tais. Isso é liberdade. Liberdade com segurança, o que traz paz.

Ainda preciso ir mensalmente ao IPC para limpar o cateter implantado no meu peito. O processo é quase igual a quimio — respirar fundo, prender a respiração, espetar, soltar a respiração — e isso sempre me deixa um pouco mexida, mas como é bem rápido, passa rápido também. Por lá, todo mundo ainda lembra meu nome e me trata com o mesmo carinho indizível de sempre. Ano que vem, se tudo der certo, faço a cirurgia para a retirada do cateter — com dois anos após o final da quimio, já é seguro tirar o implante, pois as chances do câncer voltar são muito reduzidas.

Com a vida voltando aos eixos, a gente corre o risco de esquecer o que passou. Embora tenha sido uma fase muito dolorida, eu não quero esquecer que tive câncer. Quando eu acordo de manhã e consigo levantar sorrindo, eu não quero esquecer que um dia já passei dezoito horas sem conseguir me mexer ali. Quando eu vou pra academia e penso que não consigo passar dos dez quilos no supino, eu não quero esquecer que um dia meu gato mordeu meu cateter porque eu não conseguia erguer a mão para afastá-lo.

Quando eu olho para o lado e vejo esse cara, o amor da minha vida, dizendo que me ama e me fazendo gargalhar com mais uma das suas inacreditáveis histórias envolvendo a Paraíba, um suquinho de laranja ou uma caminhada heroica cruzando a cidade após um título do Palmeiras, eu não quero esquecer que já estive tão doente que cheguei a pensar que não precisava do amor de ninguém. Eu preciso do amor dele. Ele é a pessoa que eu mais amo no mundo.

Eu precisei morrer para entender o valor da vida. Mais, eu precisei perder quem eu era para descobrir quem eu sou. Hoje eu sei quem eu sou. Sei que sou minha e de mais ninguém e que o meu amor, a minha atenção, é algo que eu devo dedicar à alguns poucos e raros: meu marido, minha família, meus gatos, três ou quatro amigas. Sei o que quero e sou muito feliz. Feliz como nunca fui. Sabendo até onde vai a carne, sabendo que a dor descobre seu limite e o transpassa — e mesmo assim, eu aguento.

Ser diagnosticada com câncer aos 30 anos de idade me deu uma noção absurda do quanto eu não me conhecia. Eu não sabia nada sobre mim, eu pensava tudo errado sobre a vida. Agora eu aprendi e eu não quero esquecer isso nunca.

A volta do médico depois do diagnóstico, cada pedaço daquela rua com uma lágrima minha e do Alex. A escuridão dos dias na UTI. Os momentos em que eu pensava que estava bem e então apagava. Todas as vezes em que pensei que não aguentaria, até que minha mãe falava comigo e eu me fortalecia novamente. Todas essas lembranças são eternas para mim. Elas não me magoam mais, pelo contrário, me fazem sorrir.

Eu passei por uma experiência terrível e longa que, bem da verdade, ainda nem terminou e pode recomeçar a qualquer instante. Não há motivos para ficar triste com isso, a vida sempre vai dar um jeito de surpreender a gente, não é? Não adianta a gente ter medo, a gente precisa viver mesmo assim.

Eu aprendi demais com o câncer. Fui até o fundo do que eu era e do que eu sentia e entendi o que realmente me é fundamental. Cruzei o inferno e levei meses até desgrudar ele da minha alma. Hoje a minha vida é bonita, não é fácil e nem é simples, mas eu gosto demais dela. Nem tudo são flores, mas elas estão ali. Estão ali e, mais do que lindas, me mostram que estou no caminho certo.

Eu finalmente estou no caminho certo.


Acredito que uma das maneiras mais eficazes de desmitificar o câncer é falar sobre ele sem medos. Estou fazendo a minha parte com essa série de quatro textos sobre a minha experiência pessoal com a doença. Você pode ler todos aqui.

Crônicas do Câncer

Crônicas do câncer — #03 A quimioterapia

Anomie Belle: Flux, de Januz Miralles

É preciso morrer para poder renascer

Vivi durante seis meses repetindo a cada quinze dias aquela cena de Trainspotting. Aquela em que o Renton (Ewan McGregor) injeta heroína na veia e o chão se afunda em formato de caixão enquanto ele se deita e apaga por completo. Isso é a quimioterapia. Sem a parte boa do prazer da droga, com a parte ruim do imediato apagão à revelia que te faz perder dias navegando em um mar de auto-piedade, dor e medo.

Eu não quero ser dramática, mas eu preciso ser sincera. A quimioterapia prescrita para mim foi das mais leves e ainda assim, me matou dia a dia, um pouquinho mais a cada aplicação. Não perdi cabelo, não tive maiores complicações em outros órgãos (pode acontecer), mas sofri demais naqueles seis meses. Foram seis meses onde morei por uns cinco anos, me pareceu.

Não existe um formato padrão de quimioterapia. Ele é diferente para cada caso, para cada paciente. É o oncologista que avalia a gravidade do seu quadro e prescreve uma receita especial para você. Para mim, era apenas uma quimioterapia intravenosa “de precaução”, visto que o tumor mesmo tinha ido embora com a cirurgia. Por isso, teve o tempo mínimo (seis meses) para esse tipo de tratamento e foi do tipo mais brando (branca). O que não quer dizer que não tenha sido extremamente sofrido.

A minha rotina era religiosa e nunca mudou durante aqueles seis meses. Na segunda-feira, eu passava antes do trabalho em um laboratório perto de casa e fazia exame de sangue. Na terça, imprimia o resultado que saia on-line no site deles. Na quarta-feira, tinha consulta cedinho com o Dr. Hézio. Ele avaliava meus exames, perguntava como eu me sentia, se tinha ido ao banheiro todos os dias e então me liberava para a quimioterapia. Era na sala ao lado.

Ali, eu recebia primeiro um soro, já pelo port-a-cath para limpar as vias. Depois, uma bolsa com remédio para proteger o estômago. Só então, a quimioterapia. Eu ficava lá por umas cinco horas, ao lado de outros pacientes em mesma situação. Você já deve ter visto essas salas nos filmes, várias poltronas enormes e um silêncio quase confortável, que tenta ser confortável. Na primeira vez, eu recém tinha operado para implantar o port, então foi bastante dolorido. Mais adiante, seria apenas normal. Respirar fundo, prender a respiração, ser espetada com a agulha no port e então voltar a respirar.

Como eu dizia, eu ficava lá no IPC por algumas horas na quarta, recebendo o medicamento. Quando as duas bolsas de quimio acabavam, colocavam mais uma: essa ficava em uma pochete que colocavam na minha cintura. Era hora de ir para casa. Eu ficava com isso — a “mangueira” levando a quimio da bolsa acoplada na cintura até a agulha espetada no peito em cima do port, — até a sexta-feira, quando retirava essa bolsa e tinha uma semana de folga até repetir todo o ciclo de novo. Exame de sangue, imprimir, consultar, aplicação de quimio por cinco horas no IPC e mais dois dias em casa, volta ao IPC tirar a bomba.

Nas primeiras aplicações, eu ficava bem, até. Dormia, lia livros. Com o tempo, ficou mais pesado, o remédio acumulado em mim passando a ser mais forte que eu. Tanto que, em um primeiro momento, me pareceu exagerado o intervalo de quinze dias entre uma aplicação e outra. Depois fui entender que era um tempo mínimo para o tanto que o tratamento vai te esgotando.

Enquanto estava no IPC sendo medicada, meus pés e mãos formigavam tanto que chegava a doer. Eu me retorcia de agonia na poltrona, debaixo da manta xadrez de hospital. Ficava lá, olhando a TV que sempre estava ligada na programação matinal da Globo (até hoje não posso ver Mais Você sem sentir engulhos), sentindo meus nervos se revirarem. Descalçava os sapatos, dobrava uma perna. Nada fazia aquela aflição passar.

O Alex ficava comigo até eu apagar, aí saia tomar um café e logo voltava à vigília. Eu tentava falar com ele, mas conforme as horas passavam ia ficando mais difícil a voz sair da minha garganta, até que era impossível. Era como se eu estivesse presa no meu corpo. Dentro de mim, estava alerta e queria sair dali, conversar, rir, ler. Por fora, meu corpo não respondia, meus olhos pesavam e eu mal tinha forças para mantê-los abertos.

No IPC, era atendida sempre pelo mesma equipe de enfermeiros. Eles eram extremamente amorosos e compreensivos, faziam de tudo para que eu me sentisse bem. E eu queria ficar bem, tentava ser o mais “boazinha” possível, já que ali as horas passavam muito devagar e eu não podia fazer nada quanto a isso. Só podia ter paciência e esperar, com meu organismo nauseado e com os formigamentos aflitivos pelo corpo.

Após as horas de quimio, voltávamos de táxi e eu sempre me sentia um cachorrinho machucado, olhando pela janela e tentando sentir algo real daquele momento em que eu vivia. Tudo me parecia distanciado demais. Como se eu estive drogada (e estava!), nada era palpável, era tudo borrão. Uma música no rádio, a conversa entre o Alex e o taxista. Tudo passava diante de mim, mas nada permanecia. Eu flutuava entre as horas e me magoava com a minha situação, pois nunca gostei de não ter controle sobre mim mesma. Sempre fui muito controladora e ansiosa, então estar ali naquele torpor me enraivecia, mas eu nada podia fazer. O taxista dirigia devagar, muito devagar, e passava com cuidado no quebra-molas. Nunca perguntavam o que eu tinha. Era só olhar pra mim para saber.

Em casa, com a bomba espetada no peito, era uma extensão daquela espera. Eu chegava e ia direto pra cama, mergulhando em um sono sem sono de dez ou doze horas. Eu não tinha sono de fato, dormia de pura exaustão. Dormia porque não tinha forças para manter os olhos abertos, porque não conseguia me mexer. Eu ligava o Spotify, o celular tocando baixinho bem do lado do travesseiro e me embalava nas letras das músicas. Viajava para outros lugares, me imaginava nas músicas, criava histórias de continuação para as canções. As músicas eram a minha fuga.

Quando conseguia levantar, ia pra sala e chorava sentada no colo do Alex. Ele me consolava dizendo que eu estava bem, que tudo ficaria bem em breve. Que éramos fortes e conseguiríamos. Mais calma, eu voltava para a cama, para a música e para o meu sono sem sonhos.

Foi assim ouvindo música que tive a ideia para o meu primeiro livro, cumprindo de maneira torta a previsão da terapeuta que me atendeu no meu primeiro dia de IPC. Quis escrever, mas não sobre mim. De mim, eu estava cansada, estava exausta. Inventei a história dessa moça, bibliotecária, que conhece um cara em um café. Depois descobre que o cara é famoso e um sacana, mas aí eles já estão apaixonados. Por acaso, o cara era o Daniel Johns, da Silverchair. Sim, pode rir. Já mencionei que eu estava surfando nas ondas da quimioterapia e do Spotify? Pois é. Uma história boba e romântica, mas que me me serviu de escape para aqueles momentos. Comecei a escrever e foi um sucesso imediato. Claro, todo mundo queria me apoiar e a história até que era legal! — embora minha escrita fosse sofrida demais, para dizer o mínimo. Fui melhorando depois, eu acho. Hoje estou escrevendo meu sexto livro, descobri o gosto pela coisa. O fato é que em torno dessa primeira história se juntou um grupo de meninas para me apoiar, que compraram por completo a minha empolgação em escrever. Foi fora do normal o quanto esses livros cresceram, até entrevista para o UOL eu dei, falando sobre eles.

Era tudo irreal o que eu vivia. Passava em slow motion e parecia descolado da realidade. Minha rotina mudou e, querendo ou não, passei a viver em função da doença — das suas limitações e principalmente dos sentimentos que ela trazia ao meu coração. Eu tinha medo de morrer e também tinha muita vontade de estar viva. Me sentia diferente por estar lutando. Achava que morreria amanhã, então precisava viver tudo o quanto antes. Eu mudei muito, de um jeito que só fui me dar conta muito depois.

A vida de quem faz quimioterapia é mais lenta. Não é tanto sobre dor, é muito mais sobre perder a sua força. Nos dias de tratamento, você apaga. Nos dias de “folga”, você tenta se recuperar, mas seu corpo não responde, você perde o controle sobre ele. Não manda mais. Teimosa que sou, continuava indo trabalhar quando não estava em dias de quimio, no entanto meu ritmo era o de uma senhorinha de 90 anos. Andava devagar, tropeçando, meus colegas seguravam meu braço para me ajudar a atravessar a rua. Não percebia, mas eu cheirava a remédio. Meu hálito, minha pele exalava aquele cheiro da quimio. Eu andava bamba pela rua, mal sentia os pés de tanto formigamento. Comia muito pouco, por obrigação, pois era muito sofrido. Minha boca e língua formigavam também. Com o tempo, não conseguia mais comer nada gelado e nem mesmo tocar em nada com baixa temperatura. O oposto também acontecia, não sentia nada quente. Podia pegar uma chaleira fervendo e não sentia nada, embora meus dedos machucassem com o calor. Era preciso muita atenção nessa época, pois não raro eu me queimava e só percebia horas depois.

Aos poucos eu fui ficando mais fraca a cada aplicação. O remédio foi me vencendo, porque o que ele faz é isso: ele te mata por inteiro para poder matar o câncer. Ele destrói você por completo, para você poder nascer de novo. Para mim era bem claro que se eu fosse morrer ali, não seria de câncer e sim de quimioterapia. Eu aceitava isso com uma medrosa resignação.

Alguns episódios mostravam como eu não tinha mais controle de nada. Por exemplo, a porta do quarto ficava trancada quando eu estava em quimio, para os gatos não entrarem. Se eles subissem em mim, eu não teria força para tirá-los. Um dia, o Gui conseguiu entrar, cheirou meu rosto todo e deu uma dentada no cateter. Não chegou a furar, o Alex viu a tempo, mas ficou a marca do dentinho dele no “cano” que levava o remédio da bolsa para a agulha no meu peito. Eu quis rir, beijar o gato e o Alex por eles estarem ali ao meu redor enquanto eu por dentro morria sem oferecer resistência alguma, mas não conseguia também.

Viver se tornava mais complicado de maneira prática. Reflexo da quimioterapia, meus dedos da mão doíam tanto que não eu conseguia digitar ou escrever com a mesma dinâmica de antes. Trabalhava e escrevia meus livros dando soquinhos cegos no teclado e meus dedos machucavam, mas eu não sentia dor. Estavam amortecidos. Era estranha a sensação, doía e eu não sentia nada ao mesmo tempo. Mesmo assim, trabalhei durante todo o tratamento, o quanto pude, e nisso tive todo o suporte da minha agência. A decisão de continuar trabalhando foi minha e eles não só aceitaram, como se colocaram à disposição para ajudar no que fosse preciso.

Tomar banho tendo o cateter espetado no peito era trabalhoso. Eu tinha sacolas e mais sacolas plásticas na gaveta da pia para isso. Antes do banho, recortava o tamanho certinho e cobria com plástico e esparadrapo o cateter e a pochete com a quimio. Entrava no chuveiro com cuidado para não molhar o equipamento além do inevitável. As enfermeiras sempre falavam isso, que não podia molhar. Eu me segurava nesse aviso quase maternal para não me desesperar com o fato de ter uma agulha cravada no meu peito enquanto eu me ensaboava, nua e trôpega. Bêbada de remédio.

Pra tirar o remédio, na sexta, era geralmente a minha amiga Carol que me levava, junto com o Alex. Essa parte era rápida, então não tinha tanto problema. Tirava a bomba já vazia, injetava mais uma dose de soro pra limpar e eu estava “liberta”, como gostava de dizer. Se estivesse forte o suficiente, eu aceitava o convite da Carol e íamos comer algo. Mas eu nunca comia nada, só tomava um suco de laranja e ficava achando que tinha sido feito de fruta estragada, quando na verdade era o meu paladar que estava comprometido. Uma vez, saímos do IPC e fomos cortar o cabelo juntas. Outro dia, fomos almoçar com o Alex e o pessoal do trabalho dele, mas não tinha mesa e ficamos em uma outra à parte. Os pratos eram caros, lembro de ter pago sessenta reais em um bife aparentemente suculento que eu nem toquei.

Levava um final de semana inteiro para eu me recuperar da aplicação. Em algum momento entre o sábado e o domingo, eu dormia um sono “de verdade”, por estar com sono mesmo, e quando acordava, sentia que estava “ok” novamente. Era estranho, mas eu sentia que tinha passado o torpor da quimio. Quem me acompanhava sabia, era sempre quando eu postava uma selfie no Instagram dizendo que estava 110% ou 200% bem, de brincadeira. E comemoravam comigo.

Durante o tratamento eu tive muito apoio. Muito mesmo, era inacreditável. Eu estava protegida em uma redoma onde era mimada ao extremo por todo mundo, conhecidos ou desconhecidos. Passei a acreditar que seria assim sempre, que era tudo verdade aquele amor todo de todo mundo e, mais adiante, vi o quanto estava enganada. No entanto, ali foi o que aconteceu e me ajudou a suportar, de alguma forma.

Os dias entre terminar a aplicação e ficar 110% de novo passaram a demorar a cada vez mais para chegar, até que eu não ficava mais 110% em momento nenhum. Passando dos primeiros três meses de tratamento, eu já não era nem 40% do que eu era, isso nos dias bons. Em dia de quimio, eu era uns 5% de mim.

Um dia, já em casa, ainda com a bomba pendurada no peito, senti uma sede muito grande. Não tinha nada ao lado da cama pois me ardia a boca beber, então nem pedia. Mas naquele dia, quis. O Alex tinha precisado sair rapidamente, ele também continuou trabalhando normal naquela fase, o que não tinha problema porque eu deveria estar dormindo. No entanto, acordei e com sede. Achei que podia eu mesma buscar um copo d’água na cozinha, distante poucos passos do quarto. Me levantei suando com o esforço e de fato, consegui. Bebi a água e então o cansaço veio, como se tivesse corrido atrás de mim desde que sai da cama e finalmente me alcançado. Subitamente me senti tão enormemente exausta que era impossível me mover dali. Era fisicamente impossível, mentalmente impossível. Sem saída, deitei no chão frio da cozinha e cochilei por algumas horas, o braço cobrindo o peito para o Gui não me morder de novo, até conseguir me arrastar de volta para a cama.

Momentos como esses traduzem a extrema solidão que é fazer quimioterapia, mas eles não contam toda a verdade. Mesmo nessa escuridão, eu ainda tinha momentos felizes. Entre uma sessão e outra, conseguia sair com o Alex, beber uma cerveja, reunir amigas em casa. Fui para a casa da Carol na Serra da Cantareira, escrevi três livros, estabeleci amizades profundas que permanecem até hoje. Nem tudo é dor durante a quimioterapia, mas a dor sempre assusta e é dela que nos lembramos primeiro. O medo é uma companhia constante, a desesperança está sempre ali virando a esquina. Mas você precisa viver e você vive. Encontra brechas, valoriza as pequenas alegrias, extrai tudo o que pode dos momentos bons.

Entre uma aplicação e outra, eu fazia baterias de exames. Nada era definitivo, mas o Dr. Hézio dizia que eu estava reagindo bem. Só saberíamos o veredicto final depois de algumas semanas da última quimio. Quando enfim o tratamento acabou, pois um dia ele acaba, eu estava cansada como nunca estive antes. Se por acaso precisasse de mais uma aplicação que fosse, acho que não aguentaria. Não precisei. Terminei o tratamento, os seis meses de Renton mergulhando no escuro. Os seis meses em que me tornei uma versão desconhecida de mim, em que tudo era medo e limitação.

Feito a licença poética que minha vida sempre foi, no dia primeiro de maio de 2015, dia em que fui retirar a bomba da última aplicação, fez um dia lindo, uma sexta gloriosa de Sol. Eu estava extremante feliz e esperançosa. A quimio tinha me destruído, me virado do avesso, mas eu tinha sobrevivido, ia ficar tudo bem. Eu vivi um dia de cada vez e consegui chegar até ali. Eu atravessei aquele inferno, adormeci dentro dele, criei abrigos, o tornei meu. Agora era hora de abandoná-lo e reencontrar o outro lado. Ainda não sabia exatamente o que me esperava ali, mesmo assim precisa ir.

Agora era a hora de recomeçar. Do zero. Do jeito certo.


Acredito que uma das maneiras mais eficazes de desmitificar o câncer é falar sobre ele sem medos. Estou fazendo a minha parte com essa série de quatro textos sobre a minha experiência pessoal com a doença. Você pode ler todos aqui.

Crônicas do Câncer

Crônicas do câncer — #02 As Cirurgias

Medieval Moonlight, de Rob Gonsalves

Era hora de encarar a dura e nova realidade da minha vida

Depois de receber o diagnóstico, era hora de encarar a realidade: eu tinha câncer e precisava tratar isso. A primeira coisa a fazer era conversar com um médico e me orientar quanto aos passos seguintes.

Minha primeira consulta no IPC (Instituto Paulistano de Cancerologia) foi com uma senhorinha médica tipo clínica geral que me viu chorar assim que lhe dei oi. “Não chora, filha. Você tá nervosa, né? Não precisa ter medo”, ela dizia sorrindo enquanto eu me debulhava em lágrimas. Eu chorava porque estar ali era a confirmação sem volta de que eu tinha algo. Não podia mais fugir. Desacreditada, eu pensava nos dias anteriores ao diagnóstico. Até ali eu não tinha câncer. Será que eu nunca teria tido câncer, caso não tivesse aberto os exames? Era besteira pensar isso, no entanto era difícil não pensar, já que olhando de fora minha saúde estava absolutamente perfeita. E como alguém com a saúde perfeita pode ter algo tão sério como câncer?

A consulta foi basicamente eu contando de novo toda a minha história. Uma psicóloga também estava na sala. Embora eu estivesse apavorada, elas estavam muito tranquilas. Diziam que eu era nova e forte e não tinha do que ter medo. Imaginei quantas pessoas eram atendidas ali por dia, de todo o tipo de câncer, faixa etária e situação física. Eu era só mais um caso e, na verdade, era até um caso simples. Uma moça nova com câncer. Eu podia ter chances. Por isso a médica sorria.

A psicóloga ficou contente quando eu disse que era redatora. “Você vai produzir coisas lindas! Use essa dor pra criar algo, você vai sair dessa muito mais forte!”. Me deu um livro que um paciente dela escreveu enquanto estava em tratamento. Eu ri. Vocês são loucas.

Um ano depois, eu já teria escrito três livros, mas isso eu não tinha como saber na hora.

Comigo do lado, a senhorinha médica já ligou para o cirurgião do IPC e me arranjou uma consulta. “Vocês estão disponíveis para falar hoje?”, ela perguntou tapando o bocal do telefone, como se eu e meu marido estivéssemos pensado em pegar um cinema, mas, ei, seria legal marcar essa cirurgia aqui, então deixa esse novo do Woody Allen pra mais tarde. O cirurgião achou uma brecha na agenda e conseguimos ser atendidos naquele dia mesmo, em apenas algumas horas.

Foi quando conheci o Dr. Giuliano. Ele é cirurgião oncologista, o que lhe empresta ares de semideus, mas na verdade é um cara muito de boa. Ele olhou minha pastinha de exames (pastinha essa que eu carregaria pra lá e pra cá por muitos meses e ficaria mais pesada a cada dia) e ouviu minha história. E então, me explicou o que eu tinha. Foi só aí que eu entendi direito o que estava acontecendo comigo.

O que aconteceu é que por mais que eu tenha feito de tudo para mudar meus hábitos intestinais, tantos anos com episódios de prisão de ventre acabaram criando uma lesão no meu intestino. Lá pelo final dele, abaixo do umbigo. Essa lesão machucou demais e acabou virando um tumor maligno, que acabou virando um câncer. Esse é um tipo de tumor que acomete normalmente homens na faixa dos 70 anos, mas a minha loteria veio na forma de predisposição genética e má sorte. Veja que, ao contrário do que eu pensava, não era verdade que até dois dias atrás eu não tinha câncer nenhum. Na verdade, eu tinha câncer há anos e ele vinha crescendo muito lentamente até que começou a sangrar. Foi como descobrimos. Para chegar nesse ponto, o tumor já tinha crescido e contaminado cinco centímetros do meu intestino (o que é muito!) e estava obstruindo a passagem das coisas por lá. Digamos que o intestino tenha uma abertura de 3 centímetros pra passar as coisas: o tumor estava tomando conta de tudo e deixando apenas 1 centímetro pra passagem. Não é preciso ser nenhum gênio para saber que eu teria problemas graves muito em breve. Por isso precisava ser operada logo. Se não tirasse esse tumor, ele iria obstruir por completo o canal e eu iria, não sei?, explodir ou implodir de um jeito nada bonito.

Agora dava pra entender o desespero daquela doutora me mandando operar logo e não querendo assumir a bronca.

Mas para o Dr. Giuliano era só mais um dia no batente. Ele me mostrou direitinho como seria a cirurgia: iam cortar meu intestino e tirar todo o tumor fora, emendar as pontas boas com um material que depois se dissolveria no meu organismo e ZÁS! eu estaria curada. Eu estaria curada? Sim, o doutor disse com sua voz tranquila de semideus, essa seria uma cirurgia curativa.

Uau!

Claro, havia a possibilidade de eu ter que fazer quimioterapia depois, mas depois pensaríamos nisso. Por hora, eu faria a cirurgia e tinha grandes chances de cura. Naquele dia mesmo marcamos uma data. Meu plano de saúde falaria com hospitais e com a agência onde eu trabalhava para liberar o procedimento. Era incrível como tudo estava se resolvendo rápido.

Depois da consulta, eu e Alex voltamos pra casa a pé, caminhando pela Paulista. Estávamos tão felizes que só faltava rodopiar pela calçada (bom, fizemos isso, não vou mentir). Uma coisa engraçada que aconteceu, ele estava há semanas tentando trocar o celular em um iPhone novo em uma promoção da Claro, mas nunca dava certo. Nesse dia, tentamos de novo após a consulta e não é que rolou? Saímos da loja com o iPhone novo dele. Era, tipo, o dia mais feliz da nossa vida. E ontem tinha sido o mais triste! Mais adiante, eu perceberia como essas gangorras emocionais são comuns durante o tratamento, mas ali nós comemoramos e tivemos um dia alegre, depois de todo o medo.

Chegando em casa, foi o momento de telefonar para a minha mãe, lá no Paraná, e contar tudo. Foi uma boa ter esperado as consultas para contar, porque aí eu mesma já estava mais calma e mais por dentro da situação. Minha mãe ficou muito chorosa e triste, como era de se esperar, mas ela também é uma mulher muito forte e prática. Disse que vinha para a minha cirurgia e eu não sou capaz de negar uma visita da minha mãe, então tratei de ajudá-la com as passagens e as datas.

Aproveitei uma reunião do meu time de Roller Derby para contar que precisaria me afastar por tempo indefinido. Agora que sabia que estava machucada por dentro, não podia arriscar continuar praticando um jogo de contato — e o time merecia uma pessoa 100%. Além disso, a cirurgia me deixaria de molho por um tempo. Foi uma noite estranha e bonita, onde com todas essas moças valentes e puro coração em volta de mim eu falei que estava doente, contei tudo, chorei e todas elas me abraçaram causando a minha quase morte por asfixia amorosa. Foi demais. Dias depois, elas até fizeram um jogo totalmente em minha homenagem e foi das coisas mais lindas que já fizeram por mim.

Eu sentia que precisava contar para as pessoas, porque não queria que pensassem que eu estava morrendo. Se pensassem isso de mim, eu acabaria pensando também. Acima de tudo, eu precisava contar porque assim quem teria controle sobre a conversa seria eu e não os outros. Tendo a verdade, ninguém pode inventar rumores. Eu não queria rumores. Assim que contei no meu finado blog que estava com câncer e compartilhei esse texto nas minhas redes sociais, recebi uma enxurrada de mensagens e comentários de apoio. Tipo, muita coisa mesmo. Eu passava o dia respondendo mensagens e foi aí que vi o quanto é importante ser aberto quanto à isso. O quanto falar sobre a doença alivia o fardo de quem passa por isso em segredo ou não se sente à vontade para se abrir. E as pessoas ficam felizes em ajudar. Minha casa vivia cheia de amigos me apoiando, rindo comigo, me dando forças. Foi uma época de muita esperança e de muita felicidade. Sim, felicidade. Eu tinha medo, mas não estava sozinha. Estava envolvida em um círculo de amor e amizade que me protegia, me carregava no colo.

A cirurgia não demorou muito para acontecer. Eu recebi o diagnóstico dia 01 e no dia 20 de outubro já estava sendo internada. Minha mãe veio de ônibus em uma viagem de dezesseis horas, pois tem medo de avião. Foi uma cirurgia por vídeo, onde fizeram quatro incisões e um corte maior, tipo de cesárea, para tirar a parte comprometida do meu intestino. Com os exames posteriores, a gente saberia se o câncer tinha se espalhado ou não. Eu lembro do Dr. Giuliano entrar na sala de cirurgia no último minuto e dizer “Vamos nessa, Tati?” cheio de amor e humor, feito o perfeito rockstar que eu via nele.

E então, eu apaguei.

Acordei muitas horas depois, na UTI, usando fraldas. Fiquei lá por uns dois dias e foi um período do qual não lembro muita coisa além do profundo silêncio e escuridão por onde eu navegava sem conseguir enxergar direito, em um estado constante de semi-consciência. Às vezes, abria os olhos e o Alex e minha mãe estavam me olhando de longe, feito vigilantes. Minha mãe acenava e o Alex sorria, todo amor. Eu queria saltar da cama e abraçá-lo, queria levar minha mãe passear, afinal era a primeira vez que ela saia do Paraná e São Paulo é tão linda, eu sempre quis lhe mostrar tantas coisas! Mas eu não podia, verdadeiramente, nem mesmo mexer a ponta dos pés. Eu não sentia absolutamente nenhuma parte do meu corpo.

Outra vez, ainda na UTI, acordei e meu treinador de Roller Derby estava ao meu lado com um livro do Felipe Castilho autografado especialmente para mim. Lembro de ter ficado horas conversando com ele sobre literatura fantástica. Horas. Eu tenho o livro até hoje, se chama Legado Folclórico e todo mundo deveria ler.

Lembro de chamar a enfermeira muitas vezes para ela trocar minha fralda. E pensar que é preciso ser uma pessoa de alma superior para trabalhar fazendo isso com um sorriso no rosto e com empatia por quem está ali totalmente à sua mercê.

Depois da UTI, fui pro quarto. Fiquei lá por quase duas semanas. Duas semanas longas, incrivelmente longas. Minha mãe e o Alex se revesavam dormindo por lá comigo. Aos poucos fui redescobrindo meu corpo, ele foi voltando a funcionar e a ser meu. Precisava três pessoas pra me dar banho. Eu andava todo dia uma voltinha curta pelo corredor do hospital, pra esticar as pernas.

O Dr. Giuliano vinha me ver dia sim, dia não. Ele dizia que eu estava indo bem, mas que precisava ter paciência. Eu lembro das muitas vezes em que acordei de madrugada, toda remendada e com uma dor que nenhum remédio fazia passar, uma solidão muito grande me dizendo que aquela era a metade do caminho, mas eu não sabia como trilhá-lo. Não sabia o que estava por vir. Eu acho que a pior coisa do hospital é isso, não importa o quão confortável e bem atendida você esteja, ainda não é a sua casa. Ainda é insipidez em todos os cantos, ainda é o cheiro de doença nos lençóis e nas conversas. O silêncio, o enorme e inominável silêncio. Não tem como você florescer assim.

Um dia eu recebi alta. Fui pra casa e foi ótimo, minha mãe estava comigo, tinham me mandado um monte de presentes. Milhares de mensagens de apoio. Eu ainda tinha os curativos da operação e o dreno (um cano que fica pra fora na barriga, pra ir escorrendo as sujeiras que a cirurgia deixa) que limitavam meus movimentos. Ainda assim, consegui ter forças para fazer várias coisas malucas com a minha mãe. Fomos nas feiras da Vila Madalena, no Mercadão e na feira semanal do bairro. Andamos a Paulista toda a pé. Eu ficava exausta muito rápido, a cada dez passos precisava parar e respirar fundo, mas queria fazer tudo, porque minha mãe estava lá e eu queria que ela tivesse boas lembranças.

Limpar os curativos também me exauria. No banho, eu me via como o Rambo, limpando pontos, drenando drenos, tudo sozinha. Ninguém podia fazer isso por mim e nisso eu aprendi a ser um pouco mais tolerante à dor. Olhava meus pontos e pensava “veja só, que interessante, é até aqui a carne”. Quanto mais distanciado me parecia ver minhas feridas, mais perto de mim eu ficava.

Depois que os pontos e os drenos puderam ser tirados, saíram os exames de depois da cirurgia. Minha mãe estava comigo quando a enfermeira abriu os envelopes e me pediu para me sentar um pouco enquanto ela analisava.

E lá estava. Digamos que eram dez pontinhos de câncer no meu intestino. O Dr. Giuliano conseguiu tirar sete extirpando o tumor. Só que esses três pontinhos sobreviventes não estavam no tumor, estavam soltos pelo intestino. Não tinham chance de se espalhar para os outros órgãos, mas tinham chance de crescer e começar tudo de novo. Por isso, sim, eu precisaria de quimioterapia para acabar com eles. Então, não, eu não estava curada. Não ainda.

Meu chão sumiu nessa hora, porque eu estava cansada. Cansada de ser paciente, de sentir dor, de dar trabalho, de andar devagar, de parar a minha vida para cuidar disso. Eu tinha uma viagem à trabalho para Miami, a realização de um sonho, e tive que cancelar por conta da cirurgia. Isso me magoou demais, junto com todas as outras coisas. Eu queria minha vida de volta, mas ela me parecia a cada dia mais distante. Me senti sendo punida mais uma vez. Eu fiz tudo certo e agora mais isso?

Engoli as lágrimas e aceitei, resignada. Não tinha o que fazer. Fui apresentada ao Dr. Hézio, o senhorzinho mais fofo da face da Terra, que me explicou como funcionava a quimioterapia. Era com ele que eu iria lidar a partir de agora, o Dr. Giuliano já tinha feito a sua parte. O Dr. Hézio me informou de que eu precisaria de mais uma cirurgia, dessa vez para implantar o cateter para receber os medicamentos.

Essa foi uma cirurgia bem rápida e simples. Minha mãe já tinha voltado para Foz, então quem me ajudou aqui foi a Carol — junto com o Alex, como sempre. Eu internei pela manhã e saí logo depois do almoço, em pé e bem. O que foi feito foi o seguinte: implantaram um port-a-cath no meu peito, que é um mecanismo que serve para espetar a seringa da quimio e levar o remédio direto pra sua jugular e, por extensão, pro seu organismo todo. Dá pra entender melhor nesse artigo. Embora pareça muito invasivo, esse é o melhor jeito de receber a quimioterapia, pois esse trequinho protege você de receber o remédio direto na veia, o que pode ser muito doloroso e agressivo com o passar das sessões.

Eu estava cansada e com medo, mas também curiosa para saber como isso seria. Voltei pra casa tentando me adaptar ao fato de agora ter uma bolotinha no peito que tornava meio incômodo dormir de bruços ou abraçar.

De qualquer modo, querendo ou não, precisava me acostumar rápido: a primeira sessão de quimioterapia já era no dia seguinte.


Acredito que uma das maneiras mais eficazes de desmitificar o câncer é falar sobre ele sem medos. Estou fazendo a minha parte com essa série de quatro textos sobre a minha experiência pessoal com a doença. Você pode ler todos aqui.