Processo Criativo

Capítulo Trinta e Quatro

Imagem: Death to Stock

Muito perto do fim

“E quem sou eu nesse cenário? A boa menina que vivia entre livros, sem ambição alguma. Agora, mais perto dos trinta que dos vinte, eu tenho o mundo em minhas mãos. Em três anos viajei e trabalhei mais do que na minha vida inteira. Me tornei alguém mais forte e mais esperta. Daniel surgiu para mudar minha vida por completo, me ensinou praticamente tudo o que sei hoje. Me deu a malícia e a ambição. Me tirou de onde eu estava e me deu algo no que investir: eu mesma. Mas me soltando no mundo me prendeu a ele. E agora já não sei se consigo me soltar: por amá-lo, por precisar dele. Por querê-lo. Mesmo com os altos e os baixos.

Ainda assim, preciso tentar. Quando chego em casa, ele está a minha espera e me estuda com o olhar enquanto tiro casaco e calçados. Passo por ele e ele me puxa pela mão. Me faz sentar em seu colo e me beija. Eu o amo tanto. Não sei o que fazer com ele e nem comigo. Seguro seu rosto com gentileza entre as mãos. O abraço e ele me pede desculpas. Não sei pelo o que, mas aceito. Vamos para o quarto sem trocar mais palavra alguma, deitamos na cama, quando ele me abraça e sinto sua respiração se acalmar quando finalmente adormece. Silêncio e solidão, adormecemos juntos. Não importa em que lugar do mundo estejamos, Daniel sempre tem apenas a mim e eu sempre tenho apenas a ele.

Estamos afundando juntos, eu já não tenho mais a menor dúvida. Uma descida vertiginosa que terá o seu inevitável baque final em breve, eu já posso sentir.”

Trecho de “All Across The World”, meu primeiro romance, escrito em 2014 e prestes a ser publicado em formato digital pela Amazon.

Disney101

#Disney101: Mulan e Zootopia

Zootopia (2016)

Assistindo aos filmes da Disney depois de adulta

Eis as desvantagens de ser uma nerd de péssima memória: você tem curiosidade por tudo e em pouco tempo já não lembra de mais nada. No início da adolescência consumi todos os filmes e livros que podia e foi tanto que as histórias e detalhes se perderam com o tempo. Hoje em dia, não lembro nem se vi realmente essas coisas.

Conversando com um amigo aficionado por Disney, percebi que esse problema atingia também a minha experiência com a filmografia do estúdio: a maioria dos filmes deles ou eu não tinha visto ou não lembrava. Para corrigir essa situação (é sem dúvida uma grave falha de caráter não ser versada em animação), criamos eu e ele esse projeto onde periodicamente assistimos de uma vez a dois filmes da Disney: um mais antigo e um mais novo. Meu amigo, é claro, é apenas um guia ou guru, ele já assistiu tudo. Quem está aprendendo ou reaprendendo aqui sou eu, por isso resolvi trazer para cá as minhas impressões. Escrevendo eu gravo melhor na memória e dessa vez não esqueço. Eu acho.

Mulan (1998)

Começamos nosso projeto com Mulan, um filme de desenho que também é um musical. Eu não sabia absolutamente nada da história até assistir (esse eu nunca tinha visto mesmo) e me surpreendi com o tom feminista da trama. Meu amigo falou que foi mesmo um dos primeiros filmes da Disney com esse viés. De um modo geral é sobre uma moça que se finge de homem e vai para a guerra no lugar do pai. E foi baseado em uma história real! É legal porque a Mulan tem uns questionamentos de autoestima e põe na roda valores femininos que vão além da beleza. Ela é muito valente e destemida, porém tem lá suas inseguranças, o que a torna uma personagem bastante real.

Não posso deixar de mencionar a beleza dos cenários: as paisagens são em sua maioria aquareladas e parece que você está vendo um filme que se passa dentro de uma pintura. Muito bonito mesmo.

Uma coisa muito legal desse filme também é que tem o Eddie Murphy interpretando o personagem Mushu, esse dragãozinho vermelho da foto, o grande alívio cômico da história. Sinceramente, sempre achei que os filmes da Disney eram todos fábulas sérias sobre superação e valores, não sabia que podia rir largado como ri com Mulan. De modo que gostei bastante, tem muito a carinha dos filmes antigos da Disney (meu Deus, que horror se sentir assim, o filme é de 1998, sabe?) com lição de moral, humor e encantamento.

Zootopia (2016)

Nosso filme moderno da tarde foi Zootopia, uma animação que eu ainda não tinha visto também. Este filme teria tudo para me deixar desconfortável (não gosto da ideia de humanizar bichos os vestindo com roupinhas), mas é tão fofo que tudo acaba sendo perdoado. Conta a história da coelhinha Judy Hoops que sonha em ir para a cidade grande (Zootopia) e trabalhar como policial. No entanto, é complicado um bichinho pequeno se impor como defensor da lei e aí vem o mote do filme de que você precisa ter a coragem de tentar para poder realizar seus sonhos.

É daqueles filmes infantis com vários fan services para os adultos, com piadinhas, metáforas e referências maduras que deixam os 30+ se sentindo tranquilos em estar vendo animação. É muito interessante a tecnologia despendida para criar a cidade de Zootopia, pelo o que vi nos Extras foi uma engenharia tão grande que é quase um pecado a cidade não existir de verdade.

Fiquei bastante impressionada com a quantidade de reviravoltas nas história e até com a violência de uma ou duas cenas. Os bichinhos todos transbordam fofura e carisma e eu saí de lá querendo trocar meu avatar nas redes sociais por uma foto da coelhinha Hoops — e também descobri, maravilhada, que o Jason Bateman, de quem sou muito fã, faz a voz do protagonista masculino, a raposa Nick Wilde.

Gostei muito desse filme, até mais do que gostei de Mulan. No entanto, não é uma competição, então está tudo bem. Aproveitando que minha memória é péssima, acho que Zootopia é daqueles que merecem ser vistos e revistos várias vezes, para que se perceba todos os (lindos) detalhes da trama e dos cenários. Não sei quais são os próximos que meu amigo vai trazer para o nosso projeto, mas sei que, pessoalmente, esse volta para o final da fila.

Resenhas

Mas não se matam cavalos?

They Shoot Horses, Don’t They? (1969)

A história real das maratonas de dança que iam até a morte nos anos 30

Fiz um teste esses dias. Consigo dançar por duas horas ininterruptas até começar a ficar meio zonza. No conforto da minha casa, bem de saúde e disposta, parece até pouco. Lembro então das maratonas de dança da década de 30 e me sinto mal. Imagina como deve ser dançar por dias, semanas, meses. Dançar até morrer.

Parece bizarro pensar nisso nos dias de hoje, mas aconteceu de verdade. O pano de fundo, como não poderia deixar de ser, foi uma crise financeira e um desemprego sem precedentes. Durante a Grande Depressão, o maior desastre econômico na história, milhões de pessoas perderam seus empregos e casas, o que as fez recorrer a medidas desesperadas para sobreviver, como roubo e mendicância. Na esteira disso, surgiram as maratonas de dança.

Parecia perfeito e até honesto: você competia para ver quem conseguia dançar por mais tempo e em troca ganhava alimentação, um teto para dormir (as competições eram longas) e, com sorte, vencendo, um prêmio em dinheiro que podia chegar a até cinco vezes o valor do salário padrão da época. Parecia perfeito, como toda forma de exploração sempre parece ser, quando se está desesperado.

Em seu auge, as maratonas de dança chegavam a durar meses. A maior de todas aconteceu em Chicago e durou 1. 638 horas. Isso equivalente a setenta dias.

Como seria dançar por setenta dias seguidos? Sem comer direito, dormindo apenas por minutos? Sendo que você já está com um emocional abalado por conta da vida lá fora, sendo que você não tem preparação física para isso.

Você dança para se divertir e passar um tempo agradável. Nos anos 30, em um período terrível de fome e desesperança, esses concursos revelavam uma agressividade e uma violência social que não costumamos associar ao hábito de dançar.

A maioria se sujeitava a passar dias dançando apenas pelas refeições grátis oferecidas. Você comia em pé, em uma mesa na altura do peito, e não podia parar de se mexer, caso contrário seria desclassificado. Uma buzina avisava dos períodos de descanso. Era quando você podia sentar, descansar ou dormir por onze minutos a cada uma hora dançada. Após esse período, mulheres que não conseguissem acordar eram reavivadas com tapas e cheiros fortes. Homens, com água gelada no rosto.

O cansaço era tanto que os competidores chegavam a algo semelhante ao coma enquanto dançavam, quando não eram os episódios de histeria ou delírios de perseguição. É claro que chega uma hora que você não dança mais, você apenas se mexe minimamente. Pelas regras, os pés não podiam parar e os joelhos não podiam tocar o chão: qualquer um desses dois deslizes causavam desclassificação imediata. Se enlouquecia lentamente. Os pés não podiam parar.

E as pessoas pagavam para ver isso? É lógico que pagavam. Degradação era entretenimento (e não sejamos ingênuos, ainda é) e por 25 centavos você podia assistir as maratonas e se sentir um pouco superior por não ser você ali quase morrendo na pista de dança. Se dançando no salão haviam muitos, o lado de fora da pista não ficava por menos: as plateias lotavam.

Aliado à fome, o brutal cansaço e esforço físico levavam os competidores a dois destinos fatais: coma ou morte. E ainda que sobrevivessem, existiam os demônios internos sempre à espreita. Em Seattle, uma competidora tentou o suicídio após dançar por 19 dias e conquistar apenas o quinto lugar na competição. O episódio fez com que a cidade fosse a primeira na história a proibir as maratonas de dança. Até o final dos anos 1930, elas foram proibidas na maioria dos estados dos Estados Unidos e então, desaparecendo.

Pesquisando sobre isso, você não acha muitos artigos e quase não há livros que abordem o tema. Em 1935, Horace McCoy trouxe as maratonas de dança à tona em seu romance “Mas Não Se Matam Cavalos?”, com a história fictícia de Robert Syverten e Gloria Beatty, duas pessoas sem perspectiva que se conhecem por acaso e decidem participar de uma maratona de dança em busca de oportunidades em Hollywood.

O livro já começa com Robert sendo levado à julgamento por ter assassinado Gloria. Em suas densas 139 páginas, vamos entendendo os motivos que levaram o rapaz ao crime e sabendo a verdade desse cenário tão sombrio quanto angustiante. O título do livro, que de início parece descabido, vai se mostrando compreensível de uma forma cruel. Em um relato duro e seco, repleto de amargura, repensamos o ato de sacrificar um animal ferido para que ele não sofra mais. Não se matam cavalos quando eles estão agonizando? No caso de humanos, isso é certo ou errado? É o que o júri decidirá por nós e por Robert.

Um trecho do livro de McCoy:

O promotor público estava enganado quando disse ao júri que ela morrera em agonia, sem amigos, sem outra companhia senão a de seu brutal assassino, ali, naquela noite negra à beira do Pacífico. Ele estava enganado, tanto quanto um ser humano pode estar. Ela não morrera em agonia. Estava em repouso, numa grande felicidade e sorria… Foi a primeira vez que a vi sorrir.

McCoy foi escritor e roteirista, tendo diversas ocupações até se firmar em Hollywood fazendo adaptações de romances para o cinema. Ganhou destaque nessa área e morreu aos 58 anos, sem ver seu romance mais famoso ser adaptado para as telonas, como ele mesmo poderia ter feito. Lançado em 1969, o filme tem o mesmo nome do livro e no Brasil teve seu título traduzido para “A Noite dos Desesperados”. Com direção de Sydney Pollack, manteve com maestria os tons sombrios do livro. É um mergulho doloroso no desespero humano.

Michael Sarrazin e Jane Fonda em “They Shoot Horses, Don’t They?” (1969)

Lembro de ter assistido e ter ficado com a sensação de ter visto a versão dançante de Christiane F. Jane Fonda brilha com uma luz que nos cega ao dar vida à desesperada Gloria Beatty. Das nove indicações ao Oscar que o filme recebeu, uma foi para ela, como Melhor Atriz. Infelizmente, injustamente, não levou. Como em um bom concurso, aliás.

Uma história absurda esquecida pelo tempo, em 2009 a Vanity Fair fez um ensaio de moda homenageando alguns filmes aleatórios e trouxe uma foto de Mark Seliger recriando a atmosfera de “A Noite dos Desesperados” com as presenças luxuosas de Kat Dennings, Anton Yelchin, Maya Rudolph, John Krasinski, Elizabeth Banks e Hugh Dancy. Não vou mentir, achei que ficou bonito. Parece até que tem algum glamour uma tragédia social desse porte. Para isso servem as revistas e a mídia.

Foto: Mark Seliger para Vanity Fair (2009)

Desde que li o livro de McCoy e, posteriormente, assisti ao filme de Pollack, essa história nunca mais saiu da minha cabeça. Anos se passaram e eu ainda lembro, volta e meia, como em um sonho ruim.

Imagino o quão desesperador deve ser se ver em uma situação em que você precise gastar suas forças até o limite por um prato de comida ou um teto. Até morrer, até enlouquecer. Pense nas crises econômicas atuais e na nossa indústria do entretenimento, os reality shows e a necessidade constante que temos de consumir produtos midiáticos que de alguma forma escarneçam as pessoas ali expostas. Esse cenário não está tão distante de nós hoje. É incrível que as maratonas sejam algo tão perigosamente esquecido diante do que foram. Um colapso social reduzido a algumas fotos assustadoras de época, um romance e um livro.

Dançando apenas por duas horas, bem de saúde, disposta e no conforto da minha casa, espero que nunca ninguém precise dançar se não puramente por diversão.

Só nos resta torcer.

Brain Dump*

Diga adeus ao passado

Foto: Death to Stock

Aceite que terminou

Tudo vai virar passado. Essas amizades e a necessidade de mim que elas têm, os assuntos e os feitos, as pequenas vitórias e os retumbantes ataques de riso.

Sobrarei só eu e os livros. E os jogos e o futebol. Teimosias de caráter que fortalecem quem eu sou e me afastam dos outros.

Hemingway olhava todas as suas amizades de fora, nenhuma chegou a lhe alcançar.

Murakami, quieto e sábio, modesto e esperto, apertava com força na palma da mão a gilete que continha cada crítica. Do que sangrava, escrevia mais, o rosto plácido e confiante guardava para si toda a dor.

King não deixou passar nada, blindado por seu incrível ego.

Sozinha com meus escritos, me afundo em crateras sentimentais que abafam o som que vem lá de fora. Fica só um zumbido. Ninguém vai me achar.

Prontamente esquecida em um mundo que não para, beijo o chão e me despeço. Lindas atualizações das quais não faço parte, atravesso a rua e o caminho já é totalmente outro.

Na minha cabeça, a tatuagem já está lá. Eles não vão saber meu nome até que eu vá embora.

Tudo vai virar passado, dois segundos antes de virar eterno. Diga adeus e agradeça (é, agradeça): Não foi dessa vez.

Processo Criativo

Diário de uma revisão

Foto: Julie Fernanda

Dois anos depois, corações ainda pulsam

Em um universo paralelo, Pedro e Gabo ainda vivem. Sentados à mesa do Mickey’s, o bar sujo da esquina, eles bebem cerveja e riem, dez ou vinte anos depois da última página.

Renascerão em breve, uma história lapidada para que possa ser contada novamente. Beijando boas lembranças, cortando as inspirações ruins, nenhum livro será mais uma válvula de escape para frustrações. Aqui só será permitida a beleza. Sem mágoas, sem indiretas, sem projeções. O retrato fiel do que tenho a oferecer, vindo do material emocional que só pertence à mim.

Nicky renascerá. Divertida, doce, forte e coesa.

Daniel renascerá. Irresistível, pessoa que evolui através do amor.

Pedro renascerá. O homem forte que descobriu a si mesmo.

Eu renascerei. Dona de mim e do que produzo. Auto suficiente e durona. Plena e íntegra. Eu serei quem eu sempre fui, quem eu sofri tanto para ser.

E serei minha.

Crônicas do Câncer

Crônicas do câncer — #05 A última cirurgia

Arte de Hajin Bae.

Para sempre e mais um dia

Cheguei em casa e me joguei na cama. Coloquei “Forever And a Day”, da The Dissociatives para tocar no último volume. Era o começo da tarde e o dia estava lindo, raios de Sol entrando pela janela. A voz melancólica e doce de Daniel Johns encheu o quarto, meu coração e meu peito.

Tinha tempo que não ouvia essa música. Anos. Fugia dela como o Diabo foge da cruz. Versos rebuscados em um ar de tragédia confortável e aguardada, foi a canção que mais escutei enquanto fazia quimioterapia. Ela embalou os meus momentos mais difíceis e solitários, eu dormia ouvindo e sonhava com nada. Acordava e escrevia aquele que seria o meu primeiro livro.

Waiting for this jury into unwind / ‘Coz it’s been so hard wearing my heart up my sleeve

Meu gato subiu na cama e cheirou minha respiração, seu nariz gelado no meu nariz morno, checando se eu ainda estava viva. Ele sempre tem essa dúvida, eu já não tenho mais. Foram três anos em suspenso, mas agora eu sei. Eu estou viva.

A última cirurgia aconteceu no final do mês passado. O que foi feito é que retiraram o cateter de quimioterapia que eu tinha implantado no peito. Após o diagnóstico do câncer, a cirurgia para a retirada do tumor, a cirurgia para colocar o cateter da quimio, a quimio em si e o processo de remissão, esse foi a última fase do meu tratamento. Foram três anos, como eu disse. Esse cateter só poderia ser retirado após dois anos da quimioterapia, contanto que nesse período não tivesse havido nenhum tipo de suspeita da volta do câncer.

Não houve.

I’m feeling lonely and stable / And it’s believed that soon I’ll be…

E então, novamente eu voltei naquele hospital, naquele quarto, naquela sala de espera e esperei por horas. Nua, soterrada em cobertas no ar condicionado gelado da sala de cirurgia, eu revisitei aquela solidão inominável que só a doença traz. Mas dessa vez eu não estava doente. Eu estava curada.

Time has never been a friend of mine / But it has owed me a favour / Since everything was fine / And I’m desperate change as familiar as a moon

A cirurgia foi rápida e a recuperação, intensamente dolorosa. Engraçado como eu não lembrava de ter sentido tanta dor quando da implantação do cateter, quase três anos atrás. Verdade, naquele tempo eu tinha preocupações e dores emocionais infinitamente maiores e uma bolotinha cirurgicamente implantada sob a minha pele parecia até perfumaria. Hoje, curada, com mil planos e ansiedades, louca para jogar meu corpo no mundo e dançar até cair exausta, me pareceu um contratempo irritante demais parar minha rotina e ficar internada por um dia em um hospital carregado de lembranças que eu não queria revisitar.

Fiquei com pontos por uma semana. Revi também a rotina de limpá-los, trocar curativos, ver minha pele cortada tentando se recuperar, como eu tentava também. Não achava jeito de dormir, me revirava na cama como uma criança mimada. Me desacostumei de estar doente. Não queria mais estar.

E então, os pontos foram retirados. Parecia até que pesavam quilos, saindo do consultório do médico eu nunca me senti mais leve. Na volta para casa, e eu estava sozinha, Forever And a Day voltou a tocar na minha cabeça após anos de forçada ausência, o fim de tudo era o recomeço também. Um recomeço melhor.

Deitada na cama, sem pontos e sem câncer, ouço a música e choro dando risada, desacreditada da minha sorte. Guilherme, o gato, me olha muito sério e simplesmente desiste, saindo do quarto.

Words won’t say the sounds that I can hear / A thousand sunshines on rainclouds / The truth is I’d believe and be

Pedi demissão do lugar onde trabalhei no últimos quatro anos, cortando este último laço sem dor alguma, já que laços nasceram para serem cortados. Decidi que vou aprender a coreografia das músicas pop que eu amo, tenho treinado todos os dias com o jogo de video game que meu amor me deu. De repente, minha vida toda se abriu em possibilidades brilhantes, pois eu estava livre. Livre como nunca estive.

Fiz as pazes com o meu passado recente e suas lembranças. Já podia ouvir novamente a minha música favorita, sem medo. Peguei os livros que escrevi enquanto estava doente e comecei a revisá-los para lançar na Amazon junto com todos os outros que escrevi após o final do tratamento. Também eles eu evitava reler, sequer conseguia falar sobre. Uma carga emocional tão pesada, eu podia lembrar exatamente de cada dia de tratamento que estava por trás daquelas páginas. Mas agora eu não tinha mais medo dos sentimentos que estavam ali, pois eram passado.

E o passado pode ser revisitado infinitas vezes, contanto que você não tenha mais medo dele. E eu vou viver para sempre e mais um dia, como diz a minha música favorita, porque o que o meu medo acabou.


Acredito que uma das maneiras mais eficazes de desmitificar o câncer é falar sobre ele sem medos. Estou fazendo a minha parte com essa série de textos sobre a minha experiência pessoal com a doença. Você pode ler todos aqui.

Resenhas

Resenhas rápidas: final de maio

“O Maravilhoso Agora” (2013)

Os cinco livros que li antes do mês terminar

Olá! Enquanto repenso este formato de post (ele ainda funciona? se não ele, como faço para “guardar” minhas impressões sobre os livros que leio?), vamos com as resenhas curtinhas dos últimos livros que li antes do mês virar.

O Maravilhoso Agora, de Tim Tharp: Esse livro me fez pensar sobre a atual moda nos romances e séries de final “sem final”, aquela coisa meio em aberto que fica nas mãos do leitor concluir o que aconteceu no fim da história. Eu não sei se gosto muito disso, ainda mais se a história como um todo não me cativa. Se nada mais der certo, ao menos preciso saber como tudo terminou, não? Não é exatamente o que acontece aqui, onde conhecemos Sutter Kelly, o adolescente mais popular do colégio, e o acompanhamos em suas desventuras amorosas e tentativas de Se Encaixar No Mundo. Achei tudo um pouco irritante (eu já não tenho mais paciência pra homem que se acha O Cara, mesmo na ficção) e o final aberto me irritou ainda mais. Tentei ver o filme e fiquei ainda mais nervosa: atores de 24 anos interpretando jovens de 17 é algo que eu só tolero em Chaves e Gossip Girl. O filme traz um final, mas não é o final que queremos. Então, para mim, foi tudo uma grande perda de tempo. O santo não bateu mesmo.

Psicose, de Robert Bloch: Se você quiser saber o que acho sobre Psicose, eu já escrevi um artigo completo sobre o livro, o filme e a série. Resumindo aqui apenas no que tange ao livro, é realmente tudo impressionante. Incrível como Bloch conseguiu contar uma história pavorosa, profunda e densa em apenas 175 páginas. Nada ali sobra, não tem nada faltando, a medida de cada palavra é exata e o peso de cada uma é calculado. A história do homem que enlouquece sob as rédeas da mãe e se torna um psicopata debaixo dos olhos de todos é uma obra-prima sem igual na literatura até hoje. Dos melhores livros que já li na vida.

Nunca Jamais, de Colleen Hoover e Tarryn Fisher: Nunca Jamais é o que eu deveria dizer para os livros da Collen Hoover, mas obviamente se tem alguém que não aprende, este alguém sou eu. Não é que o livro seja ruim, é o contrário. São muito bons. O problema é que nunca é só um, é sempre uma trilogia, uma quadrilogia, e você fica preso nisso pelo resto da vida, pois a mulher escreve mais que tuiteiro revoltado. Falando desse livro em especial, se trata da história de dois jovens que eram namorados e em um belo dia acordam sem a mais remota lembrança de como costumava ser as suas vidas. Como em uma perda de memória recente, eles não lembram quem são seus pais, onde moram e nem se ainda gostam um do outro para continuar namorando. Uma trama bastante misteriosa e contada no conta-gotas: esse livro tem 192 páginas, o seguinte tem 144 e o livro final da trilogia tem 92 páginas! Por que não fazer em um livro só? Eu devo merecer. O livro é ótimo.

Se Vivêssemos Em Um Lugar Normal, de Juan Pablo Villalobos: Olha, se você está procurando um livro para voltar a ter fé na literatura, pode apostar nesse. Conta a história de um menino vivendo a infância nos anos 80 no México, em um ambiente dominado pela pobreza e pela desesperança. E eu sei que dizendo assim parece que é super pesado e triste, mas na verdade é tudo contado em um tom melancólico de comédia que chega a comover. Curtinho, com 160 páginas, é uma leitura deliciosa e me fez rir com seu realismo beirando o fantástico e o pragmatismo que só quem veio de origem humilde é capaz de entender no que cala de mais fundo no coração.

A História do Mundo Para Quem Tem Pressa, de Emma Marriott: Bom, um dia eu reparei que não estava entendendo mais nada do mundo e resolvi buscar um livro que rapidamente me explicasse como fomos parar aqui. Sério, eu realmente fiz isso. Acabei achando esse, que explica em 200 páginas a história do mundo, não é incrível? É mesmo muito útil caso você queira refrescar a memória sobre tudo o que está acontecendo nesses últimos cinco mil anos. Você sabe, é tanta coisa rolando que a gente acaba se perdendo. Como todo livro de história, este é fascinante e chato ao mesmo tempo, então recomendo a leitura alternada com algum outro romance de sua predileção que seja realmente legal. Mas esse é legal, sim.


Todos os livros deste post foram lido via Kindle, no formato de ebook. Falta menos de dez livros para eu bater minha meta anual, que é de 35 livros por ano. Acho que vai acontecer, hein?

Até o proximo post! 🙂

Resenhas

Psicose: o livro, o filme, a série

Psicose (1960)

Se uma história é boa, será contada de todas as formas possíveis

Psicose não foi o livro de estreia de Robert Bloch. Para chegar até ele, o premiado escritor norte-americano experimentou por anos a temática sobrenatural em histórias curtas, crônicas e romances. Escritor por vocação, foi em uma máquina de escrever usada que iniciou seus rascunhos e aos 19 anos conseguiu vender seu primeiro conto para uma revista. A partir daí, não parou mais.

Anos depois daquele primeiro conto vendido, sentindo já ter esgotado o gênero do sobrenatural, Bloch resolveu investir no terror/suspense. Foi assim que nasceu Psicose. Publicado em 1959, o livro não foi um sucesso imediato, mas encontrou seu destino ao rapidamente cair nas graças de Alfred Hitchcock através da sugestão de uma assistente do diretor.

Hitchcock, o leitor

Hitchcock queria filmar Psicose, mas o estúdio para quem ele trabalhava, não. A Paramount não queria mais um filme de suspense. O diretor ofereceu um prazo rápido de gravação e filmagem em preto e branco, visando diminuir os custos e convencê-los. Nem assim o estúdio quis. A solução foi bancar o investimento do próprio bolso, cabendo à Paramount apenas a distribuição. Funcionou, mas acabou que a má vontade do estúdio azedou a relação e esse foi o último filme dessa parceria.

Azar o deles, lógico. Psicose inicialmente recebeu críticas desencontradas entre euforia e rejeição, que logo convergiram para o positivo em razão da excelente bilheteria conquistada. Essa reconsideração dos críticos rendeu ao filme quatro indicações ao Oscar, incluindo Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Diretor. Hoje, ele é considerado um dos melhores de Hitchcock e tido como uma obra de arte cinematográfica por críticos e estudiosos da área.

Bloch tinha 42 anos quando escreveu o livro que o tornaria imortal.

Hitchcock tinha 60 e já era imortal desde o nascimento, como sabemos. Esperto como ele só, gravação confirmada, comprou anonimamente todos os exemplares de Psicose em circulação para garantir que ninguém soubesse o final da história até assistir ao filme.

Anthony Perkins (Norman Bates) e Janet Leigh (Marion Crane) em Psicose

Se o final ninguém podia saber, o enredo instigava a curiosidade por si só. A sinistra história de Marion Crane, que foge após roubar os 40 mil dólares que foram confiados a ela depositar num banco. Errando pela estrada com uma mala cheia de dinheiro roubado, acaba parando no Bates Motel, cujo proprietário é Norman Bates, um homem atormentado por sua mãe controladora. E aí, você sabe, as coisas começam a dar errado…

Homens atormentados psicologicamente não eram novidade no cinema ou na literatura, mas não desse jeito. De alguma forma, Bloch conseguiu trazer à tona tudo o que as pessoas morbidamente queriam ler ao basear, ainda que apenas vagamente, o personagem de Norman Bates em Ed Gein, o famoso lunático que matava, profanava túmulos e fazia abajures, máscaras e até vestes inteiras com a pele de suas vítimas. Verdade seja dita, Ed Gein seria mais propriamente retratado em seu modus operandi em O Silêncio dos Inocentes (1988 o livro, 1991 o filme). A Robert Bloch coube trabalhar o lado psicológico do criminoso. O que une Norman Bates e Ed Gein é que ambos eram assassinos solitários em locais isolados, com mães dominadoras já falecidas que isolavam os filhos do mundo lá fora e os vestiam com roupas femininas.

Pesado.

É na relação doentia de mãe e filho que a obra de Robert Bloch se foca, mais do que nos crimes. No livro, entre detalhes sutis e dolorosos dessa relação sendo entregues de forma corriqueira, somos jogados nos delírios medrosos de Norman e aos poucos levados a desconfiar do pior: a mãe não existe, a mãe está morta. Quem está fazendo tudo é o filho. Ao contrário do que se espera, o livro assusta pela profundidade do drama e não pelas passagens violentas, que são rápidas e permanecem em segundo plano. Ainda assim, em suas enxutas 175 páginas temos tempo de nos horrorizar: no livro, Marion Crane é decapitada no banho.

Do filme, o que marcou foi a icônica cena do chuveiro. Janet Leigh é Marion Crane, aterrorizada, aos berros, sendo golpeada até a morte por uma faca que nunca para e quase não se vê. O sangue cinematográfico era calda de chocolate e antes da tomada ser gravada, Hitchcock fez vários testes com a atriz para saber quão alto ela era capaz de gritar. Você vê que ela podia gritar muito alto. A gravação dessa cena durou uma semana e mudou a forma como avaliaríamos um filme de suspense para considerá-lo bom. Em Psicose a atmosfera, a trilha sonora e o clima pesam e angustiam muito mais do que qualquer violência explicitada. O que não é visto assusta mais do que o que aparece na tela.

Vontade de chorar, mas sigo firme (Psicose, 1998)

Depois do filme, foram feitas ainda quatro continuações livremente inspiradas nos livros que Bloch escreveria a seguir, uma mais duvidosa que a outra e nenhuma dirigida por Hitchcock. Como boa história que nunca se esgota, Psicose teve direito até a uma releitura extremamente vergonhosa e hedionda pelas mãos de Gus Van Sant em 1998. Nessa versão, Norman Bates foi interpretado por Vince Vaugh, um dos poucos atores que só consegue 100% de sucesso se a missão for fracassar.

E então, silêncio.

Entre tentativas ruins de continuações e releituras terríveis, Psicose veio tropeçando em erros que manchavam sua memória até 2013, quando surgiu Bates Motel. Buscando aprofundar ainda mais a questão psicológica dos personagens principais, e com a presença luxuosa de Freddie Higmore e Vera Farmiga ancorando o elenco, a série é um “prólogo contemporâneo” para o filme de 1960.

Se no livro Norman Bates era um gorducho esquisitão de 40 anos e no filme era um tipo até charmoso beirando os 30, em Bates Motel vamos ainda mais longe e conhecemos o Norman de 17 anos de idade, enfrentando todos os conflitos da adolescência e ainda tendo que lidar com o choque da morte do pai e a mudança de casa com a mãe. A série começa depois da morte do marido de Norma, quando ela compra um motel de beira de estrada para que ela e o filho possam começar uma nova vida deixando para trás os traumas e o passado recente doloroso.

Freddie Higmore e Vera Farmiga são Norman e Norma Bates em Bates Motel

É claro que trazer um personagem tão complexo como Norman Bates para uma fase tão delicada como a adolescência poderia gerar desconfianças quanto à profundidade da trama que se criaria, mas incrivelmente funciona. Você pode creditar isso ao cuidado da A&E (quem diria!), ao talento absurdo e subestimado (por vocês!) de Higmore ou ao pulso firme e inquestionável carisma de Farmiga. O caso é que funciona demais.

A série começou em 2013 e se encerrou esse ano, em 2017. Foram cinco temporadas calculadas cirurgicamente para abranger por completo a história da família Bates: do nascimento da loucura que lentamente os engolfou, passando pelo famigerado acontecimento com Marion Crane e encerrando com o que aconteceu depois. E mesmo que no livro e no filme você possa erguer seu dedo indicador direito e bradar que Norman é um sádico sem-vergonha, na série você vê que não é bem assim

Norman é um psicopata, isso não se discute, mas em Bates Motel temos pela primeira vez um olhar aprofundado sobre o que o tornou essa pessoa tão horrível. E o grande presente da série é que ela mostra esses acontecimentos e deixa para o público pensar como deve encará-los. Não há julgamentos. Não existe verdade absoluta. Existe um homem que desde a infância foi soterrado pela presença esmagadora da mãe super-protetora e transtornada. E existe a mãe que passou por uma vida extremamente difícil que moldou quem ela era e o modo como lidava com o filho. Conhecemos a fundo esse homem e essa mulher, choramos e nos angustiamos com eles. Torcemos por eles. E, acima de tudo, por mais improvável que seja, nos apaixonamos por eles.

Como bom tributo bem-feito que é, a série presta diversas homenagens ao filme em várias referências, algumas sutis, outras nem tanto. Apesar de se passar nos dias atuais, o cenário e muitos traços dos personagens carregam uma aura dos anos 60. As roupas de Norma são todas nesse estilo retrô. Norman gosta de ouvir música em discos de vinil em casa, mas também usa um iPod quando sai para a rua. O maior exemplo desse jogo entre moderno e antigo, quem sabe, foi a escolha de Rihanna como Marion Crane, em um choque de realidade que, longe de quebrar o clima, só traz mais identificação e nos aproxima ainda mais da trama.

Higmore e Rihanna em cena em Bates Motel

Só para vocês saberem, Rihanna conseguiu o papel ao se declarar fã da série em seu perfil no Twitter. Mais moderno que isso, desconheço.

Robert Bloch morreu em 1994, aos 77 anos. Em vida, teve seu talento reconhecido diversas vezes, tendo recebido um Prêmio Hugo, um Bram Stoker Award e um World Fantasy Award. Chegou a ser presidente de 1970 a 1971 da Mistery Writers of America e foi membro da Science Fiction and Fantasy Writers of America. É curioso pensar em como com uma “simples” história ele criou um universo que perdura e se reinventa até hoje. Se a história é boa, ela será contada de todas as formas possíveis. Não sei se Bloch imaginava isso ou se era esse seu sonho — eu particularmente ficaria para morrer de felicidade se Vera Farmiga interpretasse um personagem meu — , mas não duvido que tenha sido.

Eu sei, o sucesso não pode ser medido por uma série de TV (e muito menos por um filme com o Vince Vaugh), mas você me entendeu. Aos 42 anos, Robert Bloch alcançou a imortalidade e seus personagens, assustadores e demasiado humanos, permanecem entre nós até hoje para nos lembrar que para fazer surgir uma boa história é preciso apenas uma boa inspiração e alguma persistência. E uma boa dose de loucura, é claro.

crônicas

Longe de casa

Imagem: Gratisography

Mas é que“casa” é o conceito mais amplo de todos

O supermercado continua no mesmo lugar, só o que acontece é que aumenta de tamanho a cada ano, as lojas ficam sutilmente mais modernas. Um universo que se expande e respira, volta a existir quando ponho os pés aqui. São as conversas e os sotaques, a generosidade emocionada da visita recebida fora de época, os causos que se acotovelam em fila querendo ser contados. Eu fui embora e esse mundo ficou.

Esse mundo ainda existe. Eu sei disso porque já li em muitos livros, sei mais ainda porque vivi: eu não era triste, eu só morava na cidade errada. Fosse possível contratar um serviço de mudança e levar essas pessoas em uma cápsula até São Paulo, eu levaria e seria mais feliz ainda. Mas não dá, tudo teve que ficar para trás na mudança. Os sotaques, os causos, o bebê que ri todo banguela, a música que conforta por ser sempre a mesma.

Vão construir um condomínio ali onde era a tua creche.

É triste não saber seu lugar no mundo, mas tem vezes que dói ainda mais quando você já sabe. Eu deixei a minha vida em pausa por uns dias e fui brincar de passado. Passeios e atrações turísticas me cegavam sob o Sol, no silêncio da noite falta alguma coisa. A conversa de final de dia, indecisões sobre o jantar, até os pequenos estranhamentos dão saudade, os gatos correndo e soltando pelo, derrubando coisas. Teu coração vai tropeçando de verdade em verdade ao perceber que você pode ter mil casas, só uma é o seu lar de fato. Você não perdeu os outros, mas tem aquele que é, apenas é, em uma certeza sólida e pontiaguda que pesando torna seu coração mais leve.

Preciso vir sempre, nunca para ficar muito. Minha casa, meu lar, me espera. Preciso voltar logo, não posso mais ficar tanto tempo longe sempre.

Construí um lar ali onde era o meu medo de tentar.

O supermercado esse ano está com a máquina de café quebrada na padaria. Peguei um no balcão de atendimento. “Nunca é como o de casa”, disse a moça que me atendeu. Café adoçado e fraco, feito para agradar a qualquer custo, como eu não provava fazia tempo. “Nunca é como o de casa, mas a gente não pode ter tudo”, ela sorriu.

Resenhas

Resenhas rápidas: livros de maio

Imagem: Big Little Lies, série da HBO

Cinco livros que li recentemente em resenhas curtinhas

Nem dá para acreditar que faz pouco mais de dois meses desde o meu último post de resenhas por aqui. É verdade que eu tenho lido mais devagar por esses dias e, para ajudar, estou naquelas fases terríveis em que nenhum livro parece cativar o suficiente para que se conclua a leitura. Tenho começado muitos e terminado poucos. De todo modo, de março para cá, eu li esses aí abaixo. Vou falar rapidinho sobre cada um deles.

Uma amiga me emprestou, li alguns dias depois da morte de Carrie Fisher, então foi uma leitura bastante tocante. Embora eu não seja totalmente versada em Star Wars, é preciso apenas estar vivo e respirar para saber da enorme importância que Carrie Fisher tem para o cinema e para a cultura pop em geral. O livro é um apanhado feito pela própria Carrie com trechos de seus diários de início de carreira, trazendo fotos e muitas histórias de bastidores das gravações dos filmes que a tornaram um ícone mundial. Ver sua trajetória ser narrada por ela mesma, assim em retrospectiva como em uma despedida não-planejada, é de partir o coração. Fisher era das atrizes mais carismáticas e talentosas e perdê-la tão cedo (sempre seria cedo) é uma dor difícil de superar. Resta o alento de saber que teremos para sempre a sua obra para revisitar quando a saudade bater. Nisso “Memórias da Princesa” cumpre seu papel lindamente, entregando aos fãs saudosos mais um pouquinho da adorada Princesa Leia em um livro melancólico e ainda assim bem humorado, com sua intérprete revendo seu passado com o sarcasmo que lhe era característico e com sua infinita doçura também.

Esse eu peguei no Kindle Unlimited. É daqueles romances fofinhos que a gente lê quando quer dar uma espairecida. Conta a história de uma moça que ao perder a mãe, descobre que a mesma deixou uma lista de coisas que deve fazer para poder ter acesso à polpuda herança que lhe foi deixada. A lista, que traz objetivos de vida genéricos e vagos tais como “falar em público”, “ser professora”, “se apaixonar”, tinha sido escrita — e descartada — pela própria moça na adolescência, então rola aquele conflito de “minha mãe estava louca, eu nem quero mais fazer essas coisas hoje em dia”, mas por fim vem a lição de moral de que nunca devemos abandonar os nossos sonhos e etc. É um livro bonitinho, uma boa distração.

Nem acreditei quando vi esse no Kindle Unlimited! As tirinhas da Allie Brosh sempre estão pipocando aqui e ali na internet (e integram, inclusive, o único meme legalmente registrado do Brasil), mas eu sempre me enrolava para ler esse livro e conhecer melhor o trabalho dela. Hyperbole and a half traz algumas das histórias hilariantes da autora já publicadas em seu blog homônimo e também algumas inéditas. Fazia muito tempo que eu não gargalhava lendo um livro, o que aqui aconteceu em basicamente 90% da leitura. Allie é de uma simplicidade absurda, tão absurda quanto as coisas que lhe acontecem e ela narra com a maior naturalidade resignada. Não se trata de alguém contanto piadas ou querendo ser engraçadinho. Logo nas primeiras páginas você já sente que se trata de uma pessoa absolutamente real que já passou por muitas coisas malucas e sabe contar uma história. Acho que é isso que torna o livro tão maravilhoso: não é só o fato das histórias serem incríveis, Allie sabe contá-las como ninguém, com um humor e ironia capazes de te cativar já no primeiro quadrinho. Minha única ressalva é que por se tratar de quadrinhos com muito texto a leitura no ebook (principalmente no celular) perde um pouco na qualidade. Se quer uma dica, invista mais um pouquinho e compre o livro físico. Vale muito a pena.

Sou a pessoa mais lenta para me inteirar das novidades, então aqui estou eu, 2017 à tarde, descobrindo Sophia Amoruso, a fundadora, CEO e diretora criativa da Nasty Gal, loja virtual de mais de 100 milhões de dólares, com mais de 350 funcionários e que começou como um brechó online hospedado no eBay. Motivada pelo lançamento da série da Netflix de mesmo nome e baseada neste livro, quis ler antes de começar a assistir e calhou de estar em promoção na Amazon (infelizmente uma promoção de curta duração). Comecei a ler e BANG, meu mundo se abriu. Eu sei que Amoruso não é uma unanimidade (se nem Jesus Cristo…) e temos vários pontos a criticar em sua trajetória e personalidade mas… Para mim, foi um baita abrir de olhos ler esse livro onde ela narra sua trajetória e dá vários conselhos profissionais de um jeitinho todo esperto e ácido. De verdade, foi muito inspirador descobrir como essa garota construiu um império “do nada” e sentir que, dadas as devidas proporções, eu também posso ser capaz de lutar pelos meus sonhos e construir algo. O livro é mais uma auto-ajuda moderninha e descolada do que uma biografia — esse tom biográfico de romancear fatos ficou para a série — e pode servir para te animar a fazer acontecer aqueles projetos engavetados. Se for motivação o que você estiver precisando, não custa nada tentar. Ao menos será uma leitura diverta, garanto.

A minha vontade é gritar para todo mundo ouvir o quanto eu amei a série Big Little Lies, que estreou esse ano na HBO. Aguardava ansiosa todo domingo pelo novo episódio e chorei muito quando a primeira temporada terminou (os boatos de uma segunda temporada ainda são apenas, isso mesmo, boatos). Comprei o livro (em versão física, tamanha a minha paixão!) que originou a série antes mesmo de terminar a temporada e me segurei para só começar a lê-lo após o episódio final. Se você quer um comparativo livro vs. série já adianto que não seria capaz de escolher um ou outro como melhor. Além da questão de gosto, as diferenças de trama são bem sutis e é claro que ter um recurso VISUAL para contar uma história sempre será uma vantagem desleal que uma série ou filme tem para com um livro. Em contrapartida, o que o livro perde em rápida contextualização, ganha em nos dar a chance de conhecer muito mais a fundo os personagens. Por isso, esse é um dos casos que eu recomendaria assistir primeiro e ler depois — é uma chance de se matar logo a curiosidade sobre a história (e curtir uma boa série) e depois se aprofundar com calma na complexidade da trama. Fanzoca que sou, gostei por igual desses dois modos de contar essa história de mulheres suburbanas que escondem pequenos segredos pessoais e enormes escândalos domésticos. Recomendo demais tanto livro quanto série, ambos produtos incríveis de entretenimento que lidam com muita lucidez e zero romantismo temas delicados como bullying, violência doméstica e agressão sexual.

E é isso! Já estamos quase na metade do ano e ainda falta ler 14 livros para eu alcançar minha meta de leitura de 2017. Nesse ritmo não sei se consigo, mas juro que estou tentando!