Com relato tocante sobre uma infância incomum, lançamento da Editora Valentina encanta e faz pensar
Josse precisa atravessar todos os dias um quintal enorme cheio de loucos até conseguir chegar ao portão e ir para a rua, para o colégio. De alguns desses loucos, Josse tem medo. De outros, ele consegue tirar algum tipo de empatia e fazer deles amigos. Gosta de ouvir dormindo seus gritos, quando eles gritam é porque está tudo normal. Josse é só uma criança e já sabe, desde muito cedo, que loucura é um conceito relativo em um mundo confuso como o nosso.
Livros que trazem relatos de infância são o que há de mais puro na literatura. É difícil não se reconhecer nas emoções cegas que histórias como essas trazem. No caso de Quando Finalmente Voltará a Ser Como Nunca Foi, (Editora Valentina / 2016 / 350 páginas), de Joachim Meyerhoff, mesmo sendo uma trama tão improvável, a identificação é imediata e desnorteia. Falando de um menino que mora nas dependências de um hospital psiquiátrico — o pai é diretor da instituição — Joachim acaba por falar um pouco de cada um de nós.
É um livro de memórias. Josse vai contando capítulo a capítulo os “causos” de sua infância povoada por doente mentais, cachorros que eram sua vida, uma vontade enorme de viver mergulhado nos livros e uma família atípica. Pelo pai ele nutre uma admiração desmedida, própria de criança inocente, que o blinda de ver os seus muitos defeitos. Pela mãe, uma mulher doce e com recorrentes crises nervosas, sente um medo respeitoso. E ainda têm os dois irmãos mais velhos, que tratam de acrescentar adrenalina à sua vida, com provocações e brigas.
Para além da história extraordinária, é preciso falar do projeto gráfico desenvolvido pela Editora Valentina para esse livro. Cuidadoso e atento aos detalhes, se vê que foi feito com muito carinho desde a capa (com figura central em relevo) e suas partes internas, que contam com ilustrações mencionadas na história, em uma beleza que se estende até as páginas internas do livro, com o título meio torto no topo, entregando que ali nada é como se espera.
Esse livro é daqueles raros, que você nem imagina o estrondo que vai causar no seu coração ao lê-lo pela primeira vez. Falando com melancolia e saudosismo dessas improváveis histórias de menino, Meyerhoff traz um livro incrível, de tirar o fôlego, mostrando de um jeito doce e triste como a infância é o nosso primeiro e último refúgio de ingenuidade. E que, mesmo em um mundo corrompido, nosso amor pela família e pelo o que ela representa acaba por tornar tudo grandioso e definitivo nessa fase da vida.
Dicas e novidades de todos os gostos para incluir na sua lista
Procurando inspiração para turbinar sua lista de leitura para o ano que se inicia? Ah, que bom, porque eu trouxe aqui uma lista de livros legais para você incluir nas suas metas para 2018!
Antes de começar, já aviso que todos os livros indicados estão linkados pelo título para a Amazon. Indico que você compre por lá porque eles têm um sistema bem prático para você gerenciar suas metas de leitura. Você pode criar, em seu perfil, sua própria wishlist literária e assim ir acompanhando as oscilações do preço — aí você compra quando estiver mais em conta! Essa lista da Amazon permite, inclusive, que outras pessoas comprem para você de presente e você receba o livro em casa, de surpresa. Se por acaso você tentar comprar o livro nesse período, o site avisa que já tem um a caminho pra você e não estraga o presente.
Separei minhas indicações entre para se apaixonar,para desgraçar a cabeça, para ser jovem, para relaxar e para pensar. Acho que isso engloba tudo, certo?
Espero que sim. Vamos começar?
Minha vida (não tão) perfeita, de Sophie Kinsella: Sophie Kinsella é a rainha do famigerado chick lit, a chamada “literatura de mulherzinha” que traz histórias de amor carregadas de humor e açúcar. Para quem não sabe ou não lembra, ela é a autora de “Os Delírios de Consumo de Becky Bloom” também. “Minha Vida (Não Tão) Perfeita” é o novo dela, que promete entregar tudo o que já conhecemos e amamos em sua obra: dramas, confusões e uma boa dose de amor. Traz a história de Cat Brenner, uma publicitária que parece ter uma vida perfeita (pelo menos é o que ela mostra no Instagram), até que uma reviravolta faz tudo mudar.
A Melhor Coisa que Nunca Aconteceu na Minha Vida, de Laura Tait e Jimmy Rice: Este livro não é um lançamento, eu mesma o li em 2016. Mesmo assim, acho que vale a indicação, pois é fofo demais. Foi escrito por dois amigos, cada um assumindo um dos personagens principais e fala sobre uma segunda chance para o primeiro amor. Holly e Alex eram amigos na adolescência e, onze anos depois, já na casa dos trinta anos de idade, eles se reencontram por acaso. E aí, existe a chance da história de amor deles finalmente acontecer. É tudo muito bonito e divertido, principalmente na escrita do Jimmy Rice, que constrói um Alex extremamente humano e adorável.
Confesse, de Colleen Hoover: Estou louca para ler esse livro, lançamento mais recente de Colleen Hoover, autora das séries Slammed e Hopeless. Para além da capa maravilhosa, “Confesse” é um romance sobre arriscar tudo pelo amor — e sobre encontrar seu coração entre a verdade e a mentira. Tem tudo para ser incrível.
Uma História Simples, de Leila Guerriero: Eu absolutamente recomendo para TODO MUNDO esse livro-reportagem da Leila Guerriero. Foi das coisas mais impactantes que li em 2017 e o mais louco é que é uma história real. Em janeiro de 2011, a jornalista argentina viajou até um povoado de seis mil habitantes, no interior do país, com o objetivo de contar a história de uma competição de dança típica tão secreta quanto prestigiada, realizada anualmente desde 1966: o Festival Nacional de Malambo de Laborde. Lá ela conheceu um dos competidores e ficou totalmente impactada pela trajetória e pela dança dele. Largou tudo e foi acompanhar a carreira do cara por um ano. Daí nasceu “Uma História Simples”, uma história real e cativante até a última gota sobre determinação, paixão e dança. Um dos livros mais maravilhosos que já li na vida.
Cama, de David Whitehouse: Esse livro destruiu minha cabeça! Fala sobre um moço, Malcolm Ede, que ao completar 25 anos de idade decide simplesmente não sair nunca mais da cama, como protesto silencioso pela vida mediana que leva e a perspectiva de ter um futuro medíocre com emprego, namorada e tédio. E é isso! Aí começa o drama, da família que passa a orbitar ao redor dele, das promessas de futuro jogadas fora para as pessoas que o amam. O livro é contado pela ótica do irmão mais novo de Malcolm, que não entende como o primogênito pode ser tão egoísta — ao passo que Malcolm acha que está fazendo um verdadeiro ato heroico e político. Anos se passam e Malcolm nunca mais saiu da cama, algo agora impossível já que ele atingiu a marca de 600 quilos. A vida de Malcolm se resume a comer e dormir, a cama já faz parte do seu corpo, literamente. Sua família foi destruída por sua escolha. É grotesco e triste. E é lindo. É literatura do absurdo e choca demais.
Em Águas Sombrias, de Paula Hawkins: Depois do sucesso estrondoso de “A Garota No Trem”, chegou outro arrasa-quarteirão de Paula Hawkins. “Em Águas Sombrias” segue a fórmula certeira de trazer como protagonistas mulheres em crise, indo ainda mais fundo dessa vez ao contar a história de um suicídio que não é o que parece, em uma trama que bota o dedo na ferida ao falar de violência sexual, relacionamentos abusivos e machismo. Na minha opinião, não é tão bom quanto “A Garota No Trem”, mas ainda assim é bom demais.
Tash e Tolstói, de Kathryn Ormsbee: É cada vez mais coisa do passado o estigma de que literatura jovem precisa necessariamente ser algo fútil, vazio de mensagem ou conteúdo. Entretenimento pode e deve ensinar algo e, em alguns casos, aliar cultura pop com conhecimento “de gente grande” só torna tudo mais divertido. É o caso de “Tash e Tolstói”, que conta a história de uma adolescente apaixonada por livros clássicos e pelo escritor russo Liev Tolstói. Youtuber anônima, ela vê sua webserie inspirada em Anna Kariênina viralizar da noite para o dia. E agora precisa lidar com a fama súbita. O que Tolstói faria?
Ordem Vermelha: Filhos da Degradação (Vol. 1), de Felipe Castilho: Lançamento febre da CCXP 2017, “Ordem Vermelha: Filhos da Degradação” é o mais recente e audacioso projeto de Felipe Castilho, autor que se consagrou ao renovar as figuras do folclore brasileiro de maneira jovem e inédita com a série “O Legado Folclórico”. Trazendo o gênero fantasia para um patamar nunca antes visto no Brasil, “Ordem Vermelha…” inicia a série de quatro livros que traz heróis improváveis lutando pela liberdade de um povo. Épico medieval sobre resistência e luta, Felipe coloca o Brasil no mapa dos grandes lançamentos de fantasia que tanto agradam o mercado jovem e faz literatura “pra gringo ver” e brasileiro nenhum botar defeito.
Tartarugas Até Lá Embaixo, de John Green: Após um hiato literário de seis longos anos, John Green volta à carga com seu livro mais pessoal e emotivo. Para quem não lembra, Green, além de youtuber consagrado, é também autor do mega hit literário e cinematográfico “A Culpa é das Estrelas”. A história de “Tartarugas…” acompanha a jornada de Aza Holmes, uma menina de 16 anos que sai em busca de um bilionário misteriosamente desaparecido — quem encontrá-lo receberá uma polpuda recompensa em dinheiro — enquanto tenta lidar com o próprio transtorno obsessivo-compulsivo. QUERO.
Quinze dias, de Vitor Martins: Mais um brasileiro fazendo bonito. Vitor Martins é mais conhecido como youtuber e webceleb com ótimo conteúdo sobre filmes, livros e séries, daqueles que sempre arrancam um sorriso da gente quando postam novos vídeos no Youtube. Recentemente lançou seu primeiro romance, “Quinze Dias”, uma história linda e cheia de humor sobre Felipe, um menino prestes a curtir suas férias escolares na santa paz de sua casa, quando o inesperado acontece: a mãe de Felipe informa que concordou em hospedar Caio, o vizinho do 57, por quinze dias, enquanto os pais dele estão viajando. O menino entra em desespero porque Caio foi sua paixãozinha na infância e ainda hoje, já adolescente, ele não se sente lá muito seguro em lidar com isso. Versando sobre temas como bullying, aceitação e amor-próprio em um universo adolescente, o livro é um encanto, cheio de referências pop e amor.
Caleidoscópio, de Arthur Chrispin: Nosso Rubem Fonseca carioca, Chrispin é mestre nos romances policiais. Caleidoscópio, seu mais livro mais recente, mais uma vez mergulha no mundo do crime em Terra Brasilis ao contar a história de Viviane que, ao ser assassinada, levou com ela outras três vidas. Falando sobre o mundo doloroso e amargo da vida policial, Chrispin entrega mais uma trama surpreendente e trágica, uma de suas especialidades. Ainda que de tema pesado, classifico como livro para relaxar porque livro bom relaxa.
Manual da faxineira — Contos escolhidos, de Lucia Berlin: Comecei a ler em 2017, pretendo terminar em 2018. Esse livro é incrível, o que é esperado se formos pensar que foi escrito por uma mulher incrível. Lucia Berlin usou sua experiência pessoal e vida nada comum (aos 32 anos, já tinha passado por três casamentos, superado alcoolismo e trabalhado como faxineira, professora e enfermeira até se tornar professora universitária) para escrever esses contos que, transformados em livro, a consagraram como uma mestre do gênero, sendo comparada a Raymond Carver e Grace Paley. São história cotidianas, humanas e, por isso mesmo, tocam fundo no coração.
Eneaotil: Mãe é pra quem a gente pode contar tudo mas não conta nada, de Leonor Macedo: Esse eu preciso ler, já me enrolei demais. São crônicas publicadas originalmente no saudoso blog “Eneaotil”, da Lele. A Leonor Macedo, para quem não conhece (sinto muito por você), foi mãe aos 19 anos e solteira. Nisso, resolveu escrever sobre as aventuras do dia a dia com o filho. Hoje o menino já está beirando os dezoito anos (meu Deus, o tempo…). O livro traz mais de 100 dessas crônicas reunidas, entre textos do blog e inéditos. São escritos que vão desde quando Lucas tinha menos de dois anos até seus 15 anos, completados em 2016. Eu sei que você vai dizer que não dá para relaxar com um livro sobre as agruras da maternidade, mas eu te digo que com esse dá sim. Porque a escrita da Lele é leve, divertida e traz uma alegria enorme. Faz bem demais lê-la.
Quando Finalmente Voltará a Ser Como Nunca Foi, de Joachim Meyerhoff: Comecei a ler na última semana de dezembro esse lançamento da Editora Valentina e estou absolutamente apaixonada. Sabe aqueles livros que trazem memórias de infância do personagem? Eu adoro livros assim, são tão bucólicos e poéticos. Esse em especial tem uma temática super interessante, contando a história de um menino que cresceu ao redor de uma clínica psiquiátrica, ele era filho mais novo do diretor dessa clínica, e mostra como isso afetou de maneira definitiva seu modo de ver o mundo. Afinal, quando se cresce em meio ao diferente, como saber o que é normal? Muito, muito bom!
Diários de Sylvia Plath, de Sylvia Plath: Lançamento de final de ano, essa nova edição luxuosa da Biblioteca Azul traz os diários de uma das poetas mais aclamadas do século XX, transcritos dos manuscritos originais, além de um caderno de fotos da autora. É item de desejo mesmo. Sylvia Plath é das autoras e poetisas mais importantes da literatura e merece muito ser reverenciada e ter sua obra revivida SEMPRE com lançamentos como esse. Leitura obrigatória.
Exames de Empatia, de Leslie Jamison: Gosta daqueles livros mais “teóricos”, com discussões filosóficas e psicológicas sobre os mais diversos assuntos? Eu também! Por isso, “Exames de Empatia” já está na minha lista. Nele Leslie Jamison realiza uma investigação poética, dolorosa e incisiva sobre violência, sexo, doença, autoestima e capacidade de expressão. Com enfoque feminista, um dos ensaios se propõe a desbancar o que se costuma estereotipar como “dor feminina”. Mal posso esperar.
O Ódio que Você Semeia, de Angie Thomas: Livro de estreia de Angie Thomas, “O Ódio Que Você Semeia” já foi direto para a lista de bestsellers do The New York Times. Falando sobre preconceito, racismo e crimes de ódio, o romance conta a história de Starr Carter, uma menina de 16 anos que inicia uma revolução pessoal quando seu amigo de infância é morto em um confronto policia. De partir o coração e de fazer pensar.
Mindhunter: O Primeiro Caçador de Serial Killers Americano, de John Douglas e Olshaker Mark: Todo mundo viu a série da Netflix, certo? Com riqueza de detalhes, o livro mostra os bastidores de alguns dos casos mais terríveis, fascinantes e desafiadores do FBI. John Douglas trabalhou por mais de duas décadas no FBI, desde antes mesmo do termo “serial killer” existir. Assim como Jack Crawford em “O Silêncio dos Inocentes”, em sua carreira ele confrontou, entrevistou e estudou dezenas de serial killers e assassinos, incluindo Charles Manson, Ted Bundy e Ed Gein. E é isso que temos nesse livro, que estou ansiosa para ler, aliás.
E essas são as minhas dicas! Gostaram? Conta aí nos comentários quais foram as suas escolhas. Que 2018 seja cheio de livros incríveis na sua vida!
Para 2016 eu tinha definido: leria 35 livros no ano. Li 32. Até que cheguei perto, não é? Mas foi mais por pura coincidência numérica, já que no decorrer daquele ano eu desencantei da leitura em muitos momentos.
Eu estava mais focadas em outras atividades, entre elas escrever meus próprios livros, o que demanda uma energia criativa que quase não deixa espaço para que você embarque com tudo em outras histórias, como deve ser com a leitura de um livro.
Para 2017, então, eu insisti na meta dos 35 livros, prometendo melhorar. Não defini nenhum aspecto prático além deste: Eu leria pelo menos um capítulo por dia.
O truque é que, quando o livro é bom, você não consegue ler só um capítulo. Como em muitas outras atividades que nos jogam no desconhecido, quando se trata de ler um livro a gente tem medo é de começar. Preguiça até, muitas vezes. Fica enrolando… Mas a partir do momento que você começa, tudo fica mais fácil.
Perto do ano acabar, o GoodReads me avisa que o desafio está terminado. Eu li 62 livros no ano. Uau!
Uma grande loucura, pois nem pensei muito nisso. Acho que tive a sorte de pegar livros bons que me empolgaram na leitura. Assim como em 2016, também estive trabalhando nos meus romances, mas de algum modo dessa vez eu consegui usar melhor minha energia para balancear minha motivação. Aprendi a listar minhas atividades e prioridades no dia (pontos para o bullet journal!) e com isso ficou mais simples ter como tarefa diária o ato de ler. Minha cabeça se programou para isso.
Acho que o segredo é esse. Saber dosar. Não preciso passar a tarde lendo, posso ler só umas dez páginas e ir fazer outra coisa. E também aprendi que não preciso me fechar em apenas um estilo, mesmo ele sendo meu favorito. Esse ano eu li de tudo e intercalei livros densos com romances leves, histórias curtinhas com novelas mais longas. Isso dava um alívio na leitura, instigava a curiosidade.
Acima de tudo, esse foi o ano em que aprendi que não tem demérito nenhum em considerar leitura um livro de poucas páginas. Porque eu sei o quanto custa mentalmente escrever dez páginas que sejam de uma história. Então, é livro sim.
Também larguei mão de achar que só podia ler ebook. Eu estava muito paranoica sobre “gastar com livros”, sabe? Como se livro digital fosse sempre de graça… Não é. E, às vezes, faz um bem danado se presentear com aquele livro que está todo mundo falando e você morrendo de curiosidade. Me deixei levar por uma capa bonita na livraria, um impulso de “não tô fazendo nada mesmo” e acabei tendo boas surpresas.
Em 2017 eu deixei de resenhar no Medium e passei a fazer resenhas rápidas no Facebook mesmo, em um álbum dedicado a isso. Esse foi um passo importante para agilizar e dar valor à leitura. Registrando assim com rapidez, me sentia animada ao dar aquela tarefa como feita e iniciar outra.
Essas foram atitudes que tomei para ler mais esse ano. Não que ler seja um esforço doloroso, algo que faça por obrigação. Pelo contrário, é dos meus passatempos favoritos. A questão é que somos tão instigados por tantas outras opções de atividades, o dia todo e todo dia, que acabamos deixando de lado as que já estamos acostumados. E depois, nos sentimos culpados por não estar dando tanta atenção a isso quanto deveríamos. Esse ano eu quis corrigir isso.
Acho que consegui; e com isso fui presenteada com histórias incríveis, muitas delas já eternas no meu coração. Já pensou se eu tivesse me fechado de vez para isso?
Desses 62 livros, alguns marcaram muito, alguns nem tanto, e outros mais que todos. Por isso, sem mais delongas (risos), listo aqui o já tradicional…
Gostaria de destacar também a série “Elementos” da Brittainy C. Cherry. Li os quatro livros da coleção esse ano, chegando a comprar o último na pré-venda (nunca tinha feito isso por autor nenhum). Ela é uma romancista maravilhosa e, além de proporcionar histórias lindas, me fez aprender muito com seus livros, como escritora.
Aqui a lista completa das minhas leituras:
As minhas resenhas (curtinhas!) para cada um desses livros está aqui nesse álbum.
Esse gráfico bonitinho que você viu é feito no GoodReads. Tendo perfil lá, você pode definir uma meta de leitura para o ano e ir acompanhando seu progresso. Em dezembro, o site te mostra o resultado final.
Se você quiser, também é possível ir lá agora e cadastrar os livros que leu esse ano: basta você lembrar quais foram e colocar como lidos em 2017. Não esqueça de fixar qual foi sua meta em “2017 Reading Challenge”, uma das opções do menu no seu perfil.
Para 2018, pretendo firmar o compromisso de ler ao menos 65 livros. Vamos ver se consigo manter esse ritmo e aprimorá-lo um pouquinho. Quero acreditar que sim!
Uma questionadora que é fenômeno de vendas, suas obras chegam ao Brasil pela Fundamento
Uma das escritoras escandinavas de mistério mais bem-sucedidas do mundo, com mais de 6 milhões de livros vendidos, Anne Holt acredita que a realidade é dura e merece ser contada com essa mesma dureza. Sucesso com seus romances policiais onde uma mesma personagem se desdobra para resolver casos de assassinato e violência, seus livros estão aí para provar que ela segue à risca o que diz.
Lançamentos recentes da Editora Fundamento, “Demônio ou Anjo” e “Números de Azar” trazem a detetive Hanne Wilhelmsen tendo que lidar com diferentes crimes em uma corrida contra o tempo e também contra condições nem sempre favoráveis. Tendo lido os dois livros de uma vez só, posso dizer que ambos entregam o que prometem: muita ação, violência e suspense. No entanto, eles vão além e entregam um pouco mais, algo difícil de se encontrar na literatura detetivesca (e na literatura como um todo): um toque de conscientização sobre temas delicados como maternidade e violência sexual contra mulheres.
Em Demônio ou Anjo, temos o caso de uma mulher que é brutalmente assassinada dentro do local de trabalho, um orfanato. Desde o primeiro momento, temos em paralelo a voz da mãe de uma dessas crianças nos contando como seu filho foi parar nessa instituição. Como o caminho dessa mãe e do assassino vão se cruzar, é o que veremos mais adiante nessa leitura de final surpreendente. Aqui, Holt usa o crime como pano de fundo para uma narrativa maior, que é falar do destino das crianças largadas à próprias sorte em casas de apoio — e da luta das mães que, sem apoio externo algum, são forçadas a deixarem seus filhos para que outras pessoas cuidem e ainda são condenadas por isso pela sociedade.
Números de Azar é a terceira aventura da detetive Hanne Wilhelmsen e dessa vez as coisas são ainda mais violentas. Em meio ao verão de Oslo, um serial killer escolhe sempre o dia de sábado para atacar, deixando um rastro de sangue e números misteriosos marcados nas paredes das casas onde ataca. Cabe à Hanne se antecipar ao criminoso e descobrir sua identidade antes que o próximo final de semana chegue. Aqui temos cenas fortes de violência sexual e é preciso ter estômago forte para prosseguir com a leitura, muitas vezes sendo impossível evitar as lágrimas.
Segundo Anne Holt, esse incômodo é proposital e necessário.
A intenção não é escrever desta maneira tão dura para comover, o que acontece é que a realidade é difícil e você tem que contá-la assim. Fico feliz em saber que o sentimento do leitor ao ler seja este, porque este é o caso. O que acontece é assim tão difícil.
Hanne Wilhelmsen, a detetive de Anne Holt, é uma mulher forte e determinada, mas também com muitos questionamentos internos. Se não mede esforços para cumprir seu trabalho e levar até o fim suas investigações, por outro lado, deixa escapar o fio da meada da sua vida pessoal, negligenciando relacionamentos e a si mesma. Outro ponto interessante dessas histórias, Wilhelmsen é lésbica e tem dificuldade em assumir publicamente seu relacionamento de anos com a namorada, com quem divide o lar. Mais um ponto incomum nesse nicho de literatura, sobretudo por ser tratado com respeito e sem apelação (algo que, vamos falar a verdade, poderia acontecer se não fosse uma mulher a escritora).
Se trata, sem dúvida, de uma autora incomum e é uma alegria saber que vende tanto. Embaladas em histórias empolgantes e escritas com esmero, temos questões importantes para serem debatidas. Isso só comprova que entretenimento não precisa ser algo “vazio” de significado, mesmo quando à primeira vista parece ser. Apenas um livro, alguns dirão. Mas a conscientização começa por aí e é incrível ver uma mulher tendo a voz que Anne Holt tem para levar esse debate à diante.
Você pode adquirir os livros de Anne Holt clicando aqui e aqui.
Ou como escrevi uma história de 11 mil palavras em 20 dias
Trabalhando de casa há quase três meses, percebo a minha criatividade brotar nos momentos mais inesperados. E percebo também que já não tenho mais tanto medo dela, deixo as ideias chegarem e tento tratar de resolver o conflito de “escrevo ou não escrevo?” o quanto antes e da maneira mais prática possível: escrevendo. Não tem jeito, o único jeito de fazer é fazendo.
Eu estava no meu horário de almoço, assistindo na TV a um jogo do Barcelona do dia anterior. Macarrão e carne moída escorriam com o calor (guardem essa frase), quando a câmera deu um close no rosto do Messi. O jogador argentino parecia triste com algo que não podíamos adivinhar, mas parecia vir de fora das quatro linhas. Eu pensei:
Cara, o Messi deve estar triste demais sem o Neymar.
No dia seguinte, eu já tinha 500 palavras de uma fanfic sobre a saída do Neymar para o PSG e como isso afetou sua relação com o Messi. Eu não queria escrever uma fanfic naquele momento. Eu não queria escrever nada. Tentei por 24 horas fugir de escrever essa história. Eu tenho mais o que fazer e, além do mais, quem é que precisa de uma fanfic em pleno 2017? E, no entanto, lá estava eu, empolgadíssima com pesquisa, ideias de estrutura para o livro e onde poderia hospedá-lo.
Messi e Neymar. Só de pensar dá um pouquinho de vergonha. Mas, caramba, a ideia era tão boa! Pensando com cinismo, tudo isso é um pouco ridículo. A coisa é que eu não conseguia parar de pensar nessa ideia. Tentei negociar. Escrever aquela história me era irresistível e eu podia resolver rapidinho, contanto que começasse logo. Então, fiz um acordo comigo mesma de terminar com isso de uma vez, tirar aquela ideia da frente para poder voltar para a outras em que já estava trabalhando.
Estou desde o começo do ano revisando livros que escrevi de 2014 em diante. Atualmente na revisão do quinto livro (são seis) e quase terminando, me vi em um ponto em que já estava saturada. Ainda amo aqueles personagens e suas histórias, mas sinto que já tive o tanto deles que era bom. Meu senso de continuidade (existe isso?) me cobra, diz que não posso deixar esse trabalho sem conclusão, preciso terminar essa revisão, colocar tudo no ar e aí seguir em frente. A grande questão é que pode acabar se tornando desmotivador confrontar diariamente uma escrita de quase cinco anos atrás. Embora eu ainda me reconheça nela, mudei muito meu modo de pensar uma história, e muitos vícios de escrita que eu tinha quando comecei me incomodam hoje. Olhando com objetividade o que escrevi nos meus primeiros livros, consigo enxergar todas as minhas intenções por trás de cada linha e ainda que esteja meu coração ali, nem de longe aquela escrita representa como eu escreveria um livro agora.
Então, durante a revisão dos livros, sempre me vinha um pensamento: “eu não escreveria assim hoje”. E de tanto pensar, se tornou uma provocação. Como você escreveria, então? Após aquelas primeiras 500 palavras, percebi com surpresa e muita alegria que a ideia da fanfic #NeyMessi era uma alternativa rápida de provar para mim mesma que meu caminho mudou. E isso me motivaria a voltar para a revisão com mais confiança assim que terminasse essa história em particular.
Comecei no dia 05 de novembro e terminei no dia 25 do mesmo mês. Foram quase doze mil palavras. Nesses 20 dias de intensivão de escrita, me diverti horrores, me atormentei entre me considerar um gênio e um lixo, e me realizei ao ver que posso escrever sobre o que eu quiser. Veja, não é que eu saiba escrever sobre o que eu quiser. Mas eu posso. Não preciso me justificar ou esperar aprovação alheia. Não preciso nem mesmo fazer sentido. Eu faço isso por mim e posso fazer o que eu quiser.
Rápido como começou, o desafio terminou. Hoje o livro está sendo lançado e está do jeito que eu queria que ele fosse, sem tirar nem pôr. E estou feliz demais por ter me permitido seguir em frente com essa ideia, mesmo que a princípio ela parecesse tão fora do que eu podia ou precisava.
Aprendi duas coisas ao escrever esse livro: um livro nunca é sobre o que você acha que é. E você só vai descobrir sobre o que é o seu livro escrevendo-o. Não tem como ficar divagando, imaginando, pensando como seria. Essa ideia vai te assombrar pelo resto da vida e te deixar empacado nela. Escreva logo a porcaria do livro, do artigo, do conto, do textão. Escreva logo e ao invés de ter uma grande e nebulosa ideia na gaveta, tenha dezenas de pequenas grandes ideias espalhadas por aí que postas em prática te prepararão para a Grande Ideia Definitiva que ainda chegará. Não se esqueça que escrever é um exercício no qual você fica melhor com a prática. E não tem como escrever dez livros sem escrever primeiro um.
(se bem que eu acho que essa Grande Ideia Definitiva nunca chega, porque quando ela parece vir, você já quer outra coisa, veja o meu caso, desesperada com cada nova ideia que tenho).
Mais ou menos quase tudo que uso no meu bullet journal
Este momento chegou: senti a necessidade de fazer um post sobre as minhas papelarias favoritas. Colocando em lista, vi que não são tantas, mas são poucas e boas.
Gosto muito de andar pela Liberdade e ver as novidades, no entanto a verdade é que só compro mesmo em duas lojas (as duas primeiras listadas aqui). Todo o resto do meu consumo de papelaria é online mesmo. Aqui, as minhas favoritas tanto físicas quanto virtuais:
A Fancy Goodsé daquelas lojas de presentes, com foco em papelaria também. Os adesivos e washitapes dela são os meus favoritos, eu juro que me falta ar quando eu entro lá. Toda a loja é muito fofa e as atendentes são muito simpáticas. Eles vendem online e entregam para todo o Brasil, mas se você tiver a oportunidade, sugiro que dê uma passada na loja para visitá-los. É tudo lindo demais. Fica na R. Galvão Bueno, 224.
A primeira coisa sobre a Haikai Papelaria é que você se sente muito espiã descobrindo a loja. Ela fica no subsolo do Shopping Trade Center, você desce uma escadinha sinistra e vai reto até o final do corredor para achá-la. Chegando lá, o paraíso! A loja é pequeninha e lotada de artigos de papelaria e material artístico. Eles têm um foco bem forte em canetas e canetinhas especiais, então lá eu gosto de comprar as minhas canetas Stabilo (não sei mais escrever com outras) e também ver o que tem de novidade nos adesivos. Você também encontra papel de origami de todo tipo (eu uso pra fazer fundo em algumas “artes” minhas no bujo). A Haikai é da mesma família da Fancy Goods, então pode esperar o mesmo atendimento simpático e fofo. Fica na Galvão Bueno, 17 e tem que descer as escadas, como disse. Eles não vendem online.
O Clubinho do Papel não é exatamente uma loja, é um kit de assinatura mensal de itens de papelaria! Tá começando agora e, por isso, os kits estão super concorridos. São duas opções de kit (básico ou completo) que você pode escolher e receber em casa, custando no máximo 25 reais com frete já incluso. Os itens dos kits são surpresa, mas você já tem uma ideia da quantidade do que virá no seu pacotinho pelo descritivo presente no site. É muito legal porque é um jeito bem acessível (e divertido) de experimentar produtos novos na papelaria. O de novembro já foi, em 05 de dezembro abrem as vendas para o próximo kit do mês.
Descobri a La Papeterie por sugestão do Instagram e fiquei transtornada. É tudo lindo demais no site deles, chega a ser ofensivo. Fiz um pedido de quase cem reais já na primeira compra (hihihihi) de tão apaixonada que fiquei. Quando recebi o pacote, o amor só aumentou: a qualidade dos produtos é de cair o queixo e o cuidado na embalagem é tudo na vida. Vem tudo embaladinho com folha de seda, vem perfumadinho, vem com bilhetinho… Sério, transborda amor. Deles eu comprei umas washitapes lindas, lindas, que não achei na Liberdade em lugar nenhum. Foi também o único lugar onde achei aquelas washi com dias da semana, sabe? Recomendo demais.
Essa também foi descoberta por sugestão do Instagram! A Estúdio Agridoce Papelaria tem uma pegada bem “compre de quem faz”, ela é hospedada no Elo 7 e os produtos são bem baratinhos. Foi das primeiras compras online de papelaria que fiz e gostei bastante. Com eles eu comprei adesivos, procure pelo álbum “Pra Quem Ama Papelaria” e vá à loucura.
Vamos falar de caderninhos? Mais uma sugestão do Instagram, veja como eu sou influenciável. A Aff The Hype tem poucos modelos, mas são tão lindos e especiais que vale a indicação. Eles são produzidos à mão, com todo o cuidado, e o pedido vem com cartinha e dedicatória, com todo o amor do mundo. Comprei dois caderninhos com eles e tô com dó de usar, claro.
A Mini So é tipo aquelas lojas Daiso de produtos japoneses e chegou recentemente ao Brasil com o firme propósito de nos enlouquecer. Eu gosto muito de comprar os caderninhos de lá, que são lindos e têm um preço RIDÍCULO de barato. O site deles é só para você ver o que tem, as vendas são feitas apenas em lojas físicas. Eu costumo ir na do Shopping Center 3, que fica na Avenida Paulista, 2064. O estoque é renovado diariamente, então sempre tem novidade.
Para quem me perguntou do caderno para bullet journal, eu uso aquele pontilhado (ou pontado) e comprei em uma outra papelaria na Liberdade que não vou recomendar porque voltei lá outro dia e uma vendedora foi mega grossa comigo. De todo modo, sei que esse tipo de caderno é feito pela Cícero também. O meu é da linha Papertalk da Ót!ma Gráfica, que tem loja virtual, que eu olhei aqui e é um tanto confusa… Na Fancy Goods eles também vendem a linha Papertalk, a questão é que esses cadernos pontilhados esgotam rápido, então tem que procurar bastante. Claro, que você pode usar qualquer caderno para fazer um bullet journal, é que quis explicar melhor sobre o meu.
Outra coisa que uso no meu bujo são fotinhas e imagens impressas em papel adesivo. Para isso, tenho uma HP Sprocket, uma impressorinha que cabe na palma da mão e é uma graça em tecnologia e praticidade. Falei dela com mais detalhes neste post para o blog Lomogracinha.
Por último, quero dizer que eu não estaria neste mundo do bullet journal sem o apoio da Michelli Nunes e sem a inspiração constante da Duds. Fazer bullet journal é algo incrível porque estimula a sua criatividade, te dá um propósito nos dias mais cinzas e, no fim, é um registro da sua vida.
Se você tiver qualquer dúvida sobre algo abordado neste post ou sobre bullet journal em geral, pode comentar aqui ou me procurar no Instagram que eu respondo como posso! Vamos levar a palavra do bullet journal adiante!
Após um breve hiato (de mais de um mês!) retomamos nosso projeto e com força total. Foi fácil escolher o filme antigo da tarde (Pocahontas), difícil foi escolher o filme recente. Estávamos entre Enrolados e Malévola, mas querendo manter algum tipo de unidade no tema da tarde, acabamos optando por A Princesa e o Sapo, já que aparentemente (quem sou eu para opinar) Enrolados não é um filme tão empolgante assim e Malévola merece ser visto com outra combinação de filme antigo. Então, foi isso.
Pocahontas (1995)
Nunca tinha visto esse (considerem que minha experiência com Disney vai de trás para frente, começando com Frozen) e achei triste que só. Livremente inspirado em uma história real, conta a história de amor entre a índia Pocahontas e o capitão inglês John Smith, que chegou ao Novo Mundo com outros pioneiros para começar uma vida nova. O pai de Pocahontas não aprova o romance e os ingleses querem roubar o ouro dos índios. Ou seja, treta.
Na questão de honra à família e conflito entre o que a mulher quer e o que o seu pai manda, o argumento de Pocahontas se assemelha muito ao de Mulan, que foi o primeiro filme que vimos nesse projeto. Não se trata de mera coincidência, já que ambos os filmes fazem parte da segunda geração de princesas Disney, compreendida entre 1989 e 1998 e denominada como a geração de “princesas rebeldes”. Assim, vemos aqui mais uma vez uma princesa lutando contra a tradição e tendo que se rebelar contra a sua família em busca de seguir seu coração. No entanto, estamos falando de Disney, então as princesas não são assim tão vida loka: a culpa e a moral sempre pesam mais na balança e o final é trágico.
Por isso achei Pocahontas triste que só, pelo final. Soube que existe um “dois” do filme, mas já me alertaram que é muito vergonhoso, logo não buscarei por ele. Fica assim a história com um final triste mesmo. De todo modo, Pocahontas me chamou a atenção pela beleza gráfica da animação e pela beleza do rostinho da Pocahontas em si — na minha opinião, é a princesa mais bonita de todas. Este filme também se destaca por ser dos primeiros, ou o primeiro, da Disney onde os animais não falam. Quer dizer, é uma história muito séria mesmo. E triste.
A Princesa e o Sapo (2009)
Já nos primeiros minutos, A Princesa e o Sapo te arranca um sorriso do rosto e esse sorriso só vai aumentando no decorrer do filme. Trazendo uma versão moderna da história clássica do príncipe transformado em sapo, temos um um arrogante e despreocupado Príncipe Naveen tendo seu caminho cruzado com o da batalhadora e humilde garçonete Tiana. Um feitiço transforma os dois em sapos e juntos eles devem buscar uma maneira de voltar à forma humana e realizar seus sonhos.
É um filme muito bonito e divertido, com um astral ótimo. A parte musical também chama a atenção. Ambientado nos anos 20, o jazz de New Orleans é a trilha condutora desse musical que traz preciosismo em suas canções: é a primeira animação 2D da Disney desde A Bela e a Fera (1991) em que todos os atores dublam tanto os diálogos quanto seus números musicais.
Houve um cuidado também ao não se apoiar em clichês racistas ao retratar uma negra como princesa. Originalmente, o filme se chamaria “A Princesa Sapo”, algo que mudou após a Disney receber reclamações sobre o que implicava relacionar uma negra a algo “feio” ou animal. Tiana também se chamaria “Maddy” a princípio, nome que foi trocado por “Maddy” soar muito como “Mammy”, o que reforçaria a ideia de que uma negra só pode ser vista como mãe. Por último, Tina seria uma simples empregada no plot original e mudou para garçonete para fugir de estereótipos.
Os cenários, se é que podemos chamar assim, são os mais lindos possíveis, em aquarela e muitas cores. Dos dois filmes que vimos nesta tarde, este foi o que me agradou mais. Embora os dois sejam lindos e importantes a seu modo, gostei mais de A Princesa e o Sapo por ele me fazer rir e por trazer a tal magia inocente da Disney em toda a sua glória entre números musicais, personagens cativantes, feitiços e histórias de amor.
Acompanhe meu projeto com minhas impressões sobre os filmes da Disney através da tag Disney101. Ajude a levar esse texto para mais pessoas clicando nas palmas ao final da página. Obrigada!
“The Lady of Shalott”, de John William Waterhouse (1888)
Não espere que ser feliz não tenha um preço
Sonhei que você chegava na minha casa, abria o portão e sorria. No sonho você tinha a idade que eu tenho hoje, metade da que realmente tem nesses dias. Você usava um jeans azul escuro e uma blusa de tricô de um verde militar escuro também, seu cabelo muito bonito completava o tom da elegância simples que você emanava. Na cozinha da minha casa, casa esta que você ainda nem conhece na vida real, você dava risada tentando conter uma goteira que vazava pelo teto. “Meu amor, vai inundar tudo!”, você dizia e ria, porque já passou muito por isso.
Encostados na janela da varanda da casa de um amigo, fomos surpreendidos por nós mesmos contando um ao outro segredos sobre nossos sonhos mais imediatos. Dei um gole na cerveja e confessei que ando sentindo muito medo, pois ando feliz demais. Você riu de mim (um claro sinal de que eu estava errada e isso me alivia como poucas coisas na vida) e disse que não havia motivo para ter medo. É bom ser feliz, pensei. Eu deveria aceitar essa felicidade, me cobrei, não sem julgamento.
Eu deveria, não é mesmo? Passo o dia subindo e descendo escadas tentando entender que a minha vida é esta e que não há problemas em ser feliz. Por muito tempo, fui levada a acreditar que queria demais, emprego, reconhecimento, coisas. Não preciso, na verdade. Meu trabalho paga as minhas contas e não tem problema se eu jogar video game por uma hora entre uma entrega e outra. Minha casa é bonita e eu posso ter uma casa bonita sem pensar que não a mereço. Meu casamento é feliz e tenho dois gatos lindos. Eu só preciso acreditar que valho essa felicidade toda.
Existe um senso comum de que você precisa sofrer muito para depois ser feliz. Se você é uma pessoa que acha que merece tudo de ruim que lhe acontece, é como se a hora em que ser feliz é permitido nunca chegasse. Minha mãe, no meu sonho com a minha idade, dizia que vai inundar tudo. Acho que vai mesmo. Já está inundando tudo essa felicidade: minha casa, meu casamento, meu coração. Os sonhos todos sendo revelados entre um gole de cerveja e outra, gargalhadas antes de dormir e depois sozinha na rua, lembrando.
Nenhum catálogo de viagens te prepara para a vida real
Foi a menor bagagem da vida: cada um com uma mochila nas costas para passar quase quinze dias fora. Levamos só o necessário e desse necessário ainda deixamos a metade em casa. Fomos.
Dizer que a Paraíba é bonita é ser óbvio demais. O que torna tudo diferente são as pessoas ali. Fomos para visitar parentes, parentes esses que não eram visitados há mais de duas décadas. Havia em cada encontro uma efusividade que transbordava carinho e surpresa incontida. Fomos abraçados em hospitalidade e atitudes, palavras e conversas que se esticavam um pouco mais para contar os causos que iam surgindo na memória.
Em poucos dias já sabíamos que aquela seria uma viagem diferente. Não eram apenas os cartões postais ou os dias na praia. Nossos corações foram imediatamente engolfados por uma atmosfera acolhedora e risonha que nos mostrava que estávamos vivendo um momento especial de reencontro, de felicidade, de ver pessoas e conversar com elas. Trocar histórias. Ouvir.
Ponho na conta da minha origem paranaense essa timidez crônica que me é tão particular. Falo pouco, encaro o chão, sempre acho que a conversa não é comigo, que não tenho nada interessante a ser dito. Nessa viagem, me vi forçada a mudar isso. Porque as pessoas queriam saber de mim. Queriam me ouvir, me entender, saber quem era essa menina que Alex trouxe com ele. E eu me deixei levar. Tentei o meu melhor, um pouco ansiosa em não errar. Atropelando frases, mexendo no cabelo, deixando o celular de lado. Tentando responder com mais de uma palavra as perguntas que me faziam.
No sertão, dias depois, nossa experiência se aprofundou em sentimentos. No meio da paisagem solitária, longas viagens de carro nos levavam a casas enormes cravadas no meio do mais absoluto nada. A vista alcançava apenas uns gados preguiçosos vivendo um dia de cada vez. Como nós mesmos fazíamos. A casa simples que nos abrigou trazia segredos e truques. Café da manhã com tapioca, queijo coalho e doce de leite feito ali mesmo. O banheiro do chuveiro bom era o dos fundos, o que não fazia muita diferença se sempre tinha pouca água. Um quarto só para o casal foi um luxo que entendemos como um presente pela visita. No fim de tarde, no alpendre, a vó balançava devagar na rede e com seus 94 anos de história e de idade, recitava quadras de cordel e cantava canções do rádio. Sorria quando via que estávamos prestando atenção.
Uma curta caminhada até o bar onde o padrinho faria uma peixada e pudemos ter uma ideia do que é viver por lá. O Sol castiga de um jeito inexplicável. Passamos pela barragem do açude, naquelas águas tantas memórias e saudades que a vista fica nublada de lágrimas diante do céu sem nuvens. Os sorrisos e os olhares cheios de entendimento que trocamos foi a prece silenciosa que fizemos ali, sentados por cinco minutos no valoroso Bar Peixada Quente antes de respirar fundo e seguir em frente.
Seguimos. Em cada casa, histórias diferentes e fortes. Mulheres que morreram tragicamente por doença ou por amor, relatos contados com sorrisos tímidos sob a vigilância dos retratos na parede. Homens que foram embora cedo demais. A morte, tão presente quanto certa, levou aqueles que mais amamos, mas estamos aqui para lembrar. Lembramos.
A história de uma família não pode ser contada por livros, mesmo que estes sejam só de índice. Não cabe, a vida real transborda. A história de uma família, e foi isso o que aprendi nos meus doze dias conhecendo uma parte dessa família que me acolheu e agora é minha também, precisa ser vivida e contada pessoalmente. Tia Randinha trazendo copos de suco em sua bandeja mais bonita, que imita prata. Tia Helena cuidando da mãe em sua casinha pequena. Vó Franscisquinha na ponta da mesa em todas as refeições, participando da conversa. Tia Marione trazendo os álbuns de fotos para a gente ver. Josier e Marinez sentados com a gente na varanda e rindo.
Doze dias depois, voltamos para casa. Já não éramos os mesmos. Ainda trazíamos só o necessário, mas o necessário agora era outro. Tem mais a ver com amor, com se importar um com o outro. Com a noção do que é fundar uma família e dar valor à ela. Tem a ver com amor, um amor forte e sólido, capaz de nos proteger de qualquer mal. Um amor como o nosso, que cresce e se enraíza nesses momentos que vivemos, nas histórias que criamos juntos e que nos prepara para tudo mais que está por vir. Nenhum catálogo de viagem te dá isso. Só o amor é capaz.
Ilustração: Hilary Knight em “Eloise: A Book for Precocious Grown Ups Hardcover”
Não digo que foi fácil, mas digo que não me esforcei também
O primeiro menino por quem me apaixonei se chamava Fábio Ricco. Estudávamos na mesma sala, na 5ª C, no ano de 1995 da era cristã. Fábio Ricco não era muito diferente dos outros meninos do colégio: falastrão, não levava muito à sério questões de higiene, medianamente bonito, jogava bola na quadra da escola todo dia com seu calção do Grêmio e nunca faltava às aulas. Acho que o que me chamou a atenção nele é que ele sempre tinha uma mecha sebosa de cabelo caindo pela testa, o que aos meus olhos pueris era algo muito charmoso.
Lembro que eu não sabia ao certo o que era estar apaixonada (e como saberia, aos onze anos de idade?), mas me esforçava para gostar de Fábio Ricco dada a minha urgente necessidade de aparentar ser uma moça crescida. De alguma forma, o amor que eu sentia (acreditava sentir) era algo muito mais parecido com idolatria. Era assim naquele tempo, não sei se algo mudou hoje em dia. Nós meninas escolhíamos um menino para amar e perseguir por todo o ensino médio, endeusando suas raras qualidades e sublimando seus muitos defeitos. Acredito que os meninos fizessem o mesmo por nós, mas como o diálogo sobre o assunto não era o forte entre os dois lados, a roda da baixa-estima continuava a girar livre de impedimentos, assim nos moldando de maneira perene até a vida adulta.
Pois mesmo tendo esse pequeno vislumbre do que poderia ser o amor, nunca fui além disso. Não havia a necessidade. Ficar espionando Fábio Ricco pelos corredores me era suficiente. Feito uma detetive em versão de bolso, com meus cadernos de capa monocromática cedidos pelo governo e minha firme disposição em ser desprezada, eu estava sempre por perto, seguindo seus passos, mas Fábio Ricco nunca notou minha presença. O mais perto que cheguei dele foi quando escreveu no meu Caderno de Recordações:
“Quando precisar de um amigo nem precisa me chamar. Me chame sem pensar”.
O que era terrivelmente mentira, pois jamais conversamos e jamais tivemos tal intimidade. Além disso, rapidamente descobri que ele escreveu a mesma coisa no caderno de mais três meninas da minha sala e de mais duas da 5ªA. Ainda assim, tudo poderia ser perdoado, nós meninas perdoávamos tudo, não fosse a nova aresta que seria acrescentada à esse quadrado seco que era a nossa inexistente relação.
Pois por meio de muita investigação e alguma fofoca, vim a descobrir que Fábio Ricco gostava da menina mais bonita e rica do colégio, a famosa Tatiane Moreira Salles. Cruel como ele só, o karma já ali se fez presente: ela mesma não dava muita bola para ele, o que fazia com que nós representássemos o mais apático triângulo amoroso já visto, sem paixão ou grandes acontecimentos, calado e indiferente.
Tatiane Moreira Salles era tudo o que eu queria ser: linda, popular, divertida, rica. E ainda por cima, o Fábio Ricco gostava dela. Uau. O ápice desse titubeante sentimento que nutríamos os três em segredo e sem vontade foi quando Fábio Ricco deu um cartão do dia dos namorados para a Tatiane Moreira Salles, pedindo-a em namoro. Eu era amiguinha da Tatiane Moreira Salles e ela me segredou que não ia aceitar namorar com Fábio Ricco porque estava gostando de Jonathan Pierre Saldanha, da 7ª B. Isso me deixou totalmente em choque e, consequência dessa bomba, meio que me desencantou desse amor como um todo. De repente, gostar do Fábio Ricco era out. O quente do verão era gostar dos meninos da sétima série.
Foi aí que comecei a gostar de Gustavo Falcão.
PS:
Em uma época em que “sororidade” era um conceito tão vago quanto cevada em cerveja ruim, nada me causou maior alegria do que descobrir, anos depois, que Tatiane Moreira Salles estava fazendo supletivo à noite, o que me fez concluir, em uma mórbida e apressada constatação, que a vida dela não era tão perfeita quanto eu pensava.
Muitos anos depois, vi Fábio Ricco na rua. Continuava igual, só que com as pernas mais compridas.
Gustavo Falcão, titubeante herói do time de vôlei da 7ª A, tinha a língua presa e também não gostava de mim.