Brain Dump*

#THINKTOBERTHINKTATI – Dia 06: Strength

A primeira coisa que eu penso quando penso na palavra strength (força, no original), é na música God Give Me Strength, do Elvis Costello com o Burt Bacharach. Sempre achei essa música muito curiosa e até cômica, pois o que está se dizendo literalmente é “Deus, me dê forças!!”, o que é engraçado pela dramaticidade, se você for pensar.

Elvis Costello sempre foi conhecido por suas parcerias, onde tiver duas pessoas com um atabaque e um violão ele se junta e tira um pagode. Não seria diferente com os medalhões da música chique. Por isso, em 1998 ele lançou Painted From Memory, um álbum em colab com ninguém menos do que o ilustre pianista Burt Bacharach.

Com 12 faixas, o CD versa sobre a dor de ser um homem, trazendo outros título tão interessantes como Toledo, The Sweetest Punch, The House is Empty Now, e a minha favorita, I Still Have That Other Girl (olha que filho da puta?).

Burt e Costello rindo muito, pois são amigos.

Desse álbum é que temos God Give Me Strentgh, uma música escrita e performada pela dupla. De uma poesia quase gospel, a canção tem sua intenção resumida por seu título: é isso mesmo, uma pessoa pedindo pelas forças celestiais, posto que já está no seu limite.

Uma situação com as quais muitos aqui podem se relacionar, sendo que eu mesma a vejo como uma canção para a qual eu posso facilmente erguer os braços e gritar “minha músicaaaa”, etc.

Quando você pensa na letra, aliás, é até de se espantar com a beatice, já que o Elvis Costello não é disso. Conhecido por suas letras raivosas, ciumentas e mundanas, foi com grande espanto que recebemos essa canção ecumênica. É de se apostar na boa influência de Bacharach na índole de Costello para tal milagre, acredita-se. De todo modo, não se pode deixar de considerar que as pessoas podem mudar. Em sua caminhada inevitável para a melhor idade, Costello tem mais e mais apostado em temas amenos e litúrgicos, voltados para a família, mostrando que água mole em pedra dura tanto bate até fura.

O que não é segredo para ninguém.

Now I have nothing, so God give me strength
‘Cos I’m weak in her wake
And if I’m strong I might still break
And I don’t have anything to share
That I won’t throw away into the air

That song is sung out
This bell is rung out
She was the light that I’d bless
She took my last chance of happiness
So God give me strength
God give me strength

E se ainda restassem dúvidas, você vê que a música é do Costello mesmo quando ele diz “Ela tirou minha última chance de felicidade”, pois nada é mais corno amargurado do que isso — e ser corno amargurado constitui 70% da obra do músico inglês.

Agora, a música é boa? Não sei, esse é um conceito relativo. Eu particularmente gosto bastante, mais pelo improvável da coisa do que pela qualidade da obra. A qualidade da obra eu deixo para o julgamento de vocês, que são críticos. Eu sou apenas uma pessoa amargurada cansada, dramática e cômica, erguendo os bracinhos e pedindo “Deus, me dê forças!”.

Uma coisa é certa: baita música chique. Sofrer de smoking é diferente.

Resenhas

Maluma: a narrativa criativa do cachorrinho do pop

Eu seria hipócrita se negasse que às vezes penso no Maluma. Presença constante nas paradas musicais de sucesso já há alguns anos, o impressionantemente bem-diagramado artista sempre se faz notícia quando o assunto é nos dar material para refletir.

Nascida e criada na Tríplice Fronteira, meu gosto para música sempre foi tão diverso e permissivo quanto uma barraquinha de camelô do Paraguai: contanto que divirta e esteja na boca do povo, estou consumindo. Sendo assim, não seria diferente no que diz respeito à obra do cantor Maluma: gosto e consumo sim. Eu amo reggaeton.

Deus abençoe o reggaeton.

No entanto, antes de ser uma consumidora eu sou uma pensadora, ou assim me vejo quando me olho no espelho da auto-afirmação. Assim, gosto sempre de analisar o que consumo pelo viés da construção de narrativa e, esses dias, ouvindo Maluma enquanto caminhava a pé por uma rua escura, me veio esse pensamento de como ele criou essa persona que hoje impacta tantas mulheres de meia-idade como eu.

Se não, vejamos.

Em seu debut em 2012, Maluma chega com o álbum “Magia“. Tendo como conceito um nada (ou, sendo otimista, uma sugestão de impacto do tipo “vejam que rosto bonito”), Maluma começa a galgar seu lugar ao Sol com um reggaeton básico de letras simplórias sobre amar mulheres casadas ou sobre como está obcecado por essa mulher que aparentemente tem critérios e não aceita seus cortejos. Mesmo que sem nenhuma narrativa explícita, esse álbum chama a atenção porque em algumas músicas Maluma se auto-intitula “rude boy“, um título que não colou, mas serviu de prenúncio para o personagem que ele começava a criar.

Com esse disco, Maluma trabalhou feito louco tentando emplacar com seu rostinho imberbe algum tipo de persona de predador sexual com sentimentos. No entanto, o flop nos charts aponta que ele era então muito novo para conseguir imprimir esse conceito em um cenário musical onde ou você é o anjinho doce ou é o machão pegador.

Apostando no segundo caminho, três anos depois, Maluma dá uma de louco e lança dois CDs no mesmo ano. Em 2015, então, temos “PB.DB. The Mixtape” e “Pretty Boy, Dirty Boy”, dois álbuns que apontam a guinada do cantor para o rumo do machão pegador.

Aqui temos a consolidação da narrativa que Maluma escolheria seguir principalmente porque deu certo: com “Pretty Boy, Dirty Boy” (ou Pretty Dirty Boy Boy, para os disléxicos), Maluma conseguiu emplacar seus primeiros hits, como El Perdedor e El Tiki. Essas canções ainda versam sobre os principais temas que o cantor gosta e conhece: ser rejeitado emocionalmente e continuar em pé na balada. Porém, o destaque aqui é que ele afina seu personagem e crava seu título: Maluma é o pretty boy, dirty boy: o cara bonito, mas safado.

Puxa vida.

Também é com esses trabalhos que Maluma consegue outro subtítulo, esse que o popularizou até mais do que o que dá nome aos CDs. Em quase todas as músicas, Maluma diz seu nome, o que é comum no reggaeton, e diz também “baby“, de uma maneira extremamente sedutora. Tais palavras impregnaram de tal forma no imaginário de seu público que por muitos anos o cantor ficou conhecido como Maluma Baby, como se ele fosse, sei lá, uma marca de pão bisnaguinha. O que é cômico e quem sabe até indesejado, mas é aquela coisa.. Whatever works.

E funcionou. Com “Pretty Boy, Dirty Boy”, Maluma estourou na música mundial, fazendo feats. com vários artistas de seu gênero musical (ou não), turnês ao redor do mundo e aparições diversas na TV. Era a fama e era perfeito. Era o auge.

Depois de anos de construção, chegava a hora de desconstruir o personagem. Afinal, nada grita mais “conceito” na música pop do que levar anos criando uma imagem para depois chegar com um CD e dizer: este sou eu de verdade, tudo que veio antes foi imposição da gravadora!

Tá chorando por que, Miley Cyrus?

Desse modo, nos dando absolutamente tudo o que queríamos e mais, Maluma surge em 2018 com cabelo e barba crescidos, além de uma fixação por fumar charuto e usar casacos de pele.

Quer dizer, tudo.

Absolutamente tudo.

É a era F.A.M.E., onde com um álbum de mesmo nome Maluma finalmente mostra a que veio. Com 15 canções, o CD traz um Maluma mais maduro, mas ainda capaz de dançar muito enquanto chora.

Os feats servem para mostrar o prestígio que conquistou, enquanto as letras seguem versando sobre desamor e balada, em um recorte fino do que o cantor realmente acredita: este é um homem que só se apaixona pela mulher errada.

A desconstrução de Maluma, aliás, é exatamente essa: deixando de lado a coisa do machão predador, o artista explora algumas narrativas interessantes das suas aventuras amorosas. Turns out, ele também tem sentimentos. Turns out, é sempre por mulheres comprometidas ou com critérios, como já víamos desde o começo. No entanto, o que muda aqui é que Maluma se permite falar sobre isso com mais dor do que arrogância, o que o expõe como um ser humano mais crível do que um simples e fantasioso pretty boy, dirty boy.

Fato é que, em algumas músicas de F.A.M.E., parece que o grande resumo da mensagem a ser passada é: “sei que você merece algo muito melhor e sei que sou um lixo de pessoa, mas a balada já está no final, então será que CUSTA me beijar?”

Existe sentimento mais humano do que esse? Eu acho que não.

Vindo nessa narrativa, chega 11:11, no ano seguinte. E mais uma vez somos impactados com algumas mudanças e afinamento de discurso.

Tirando com uma mão o que um dia nos deu com outra, Maluma surge com luzes neon, cabelos curtos e roupas de material sintético, o que é estranho e bom?

Trazendo parcerias ainda mais pesadas, como Ricky Martin e Madonna (falo mais disso lá para frente), em 11:11 Maluma abandona os títulos: não é mais pretty boy, dirty boy, não é mais Maluma Baby. Tal qual uma regra de português pouco usada, Maluma não tem justificativa ou motivos, ele apenas é.

A linearidade com as obras anteriores é mantida, no entanto, através de um fio muito sutil. Continuando sua narrativa, Maluma usa muito uma auto-referência que já tinha sido explorada em discos anteriores, de maneira quase subliminar: Maluma diz várias vezes em suas canções que ele é o seu “perro”.

Ou seja, ele diz que é o seu cachorro. O seu cachorrinho.

Tá chorando por que, Iggy Pop?

Se não é um personagem ou um alter ego, é um desejo pouco escondido e agora escancarado. Com 11:11, Maluma foi onde poucos seres humanos foram capazes de chegar, se apresentando pelo mundo todo e chegando ao alto escalão da música pop.

E de tudo isso, a consagração oficial veio com uma madrinha. De todos os feitos memoráveis que 2019 trouxe com esse CD, o maior de todos foi, sem dúvida, ter gravado 3 (eu disse três) músicas com Madonna: duas para o CD novo dela, uma para esse CD dele.

Era, enfim, o auge real oficial, com Maluma conquistando o topo sendo ele mesmo.

E ele mesmo é um cachorrinho.

Em Medellín, seu feat com Madonna, Maluma canta:

Discúlpame, yo sé que eres Madonna
Pero te voy a demostrar cómo este perro te enamora

O que é, honestamente, a tampa de qualquer caixão de resistência a este artista.

Com música e clipe, Madonna apresenta Maluma para a pequena parcela do mundo que ainda não o conhecia e é assim que Maluma chega: dizendo que é um cachorrinho por você. Tomando como uma alcunha isolada, você pode achar graça em um homem feito dizer que quer ser o cachorrinho da mulher amada.

Sendo uma mulher, você sabe o poder que isso encerra. Sendo uma pessoa ainda em dúvida, você pode simplesmente ver o clipe da música e conferir com seus próprios olhos como Madonna, the one and only, responde à esse chamado.

Assim, temos o desfecho do arco que Maluma começou a escrever lá em 2012, em “Magia”. Muito sem saber, e provavelmente se conhecendo mais conforme errava e acertava, o cantor finalmente se encontrou e chega ao final de 2019 com sua persona consolidada: Maluma é o cachorrinho do pop. O homem que se apaixona errado e não desiste, que faz tudo o que você pedir, que é másculo e carinhoso, que é um lixo, mas poxa, ele te ama.

Resistir à isso é um problema todo seu. Eu nasci na Tríplice Fronteira, como disse, não tenho condições de querer ir contra o que meu coração pede.

Eu sou o cachorrinho do meu próprio gosto musical.

Brain Dump*

#THINKTOBERTHINKTATI – Dia 04: Loneliness

Sei pouca coisa sobre a solidão além de que ela só é boa quando acontece por opção própria. Muito se fala sobre curtir a própria companhia e ver valor em fazer tudo sozinho, no entanto para mim essa só é uma alternativa que pode ser encarada como totalmente saudável se ela não é a única que você tem.

Tenho noção do quanto dói estar sozinho. Às vezes, é preferível estar longe de si mesmo do que sendo sua única companhia. Não tenho muita vivência sobre isso, entretanto. Não que eu seja uma pessoa sempre cercada de gente ao meu redor. A questão é que tenho poucas pessoas na minha vida e tenho a sorte de tê-las sempre presentes de alguma forma. De modo que solidão é algo que pouco experimentei no meu cotidiano.

E como o que não vivo, escrevo – como dizia o poeta -, lembrei agora que tenho um livro todinho sobre uma moça que vive o suprasumo da solidão. Se chama Despertar, como você pode ver na imagem da capa, que leva direto para o livro na Amazon.

Despertar conta a história de Luíza, uma menina super solitária que mora em São Paulo e tem uma rotina mega pacata, até desenvolver um crush no metrô e ter com essa situação inesperada várias mudanças no meu modo de encarar a vida.

Quando escrevi esse livro, não tinha muito em mente além da vontade de contar uma história sobre alguém que “desperta para a vida” através do amor. Eu nem me pretendia soar tão melancólica assim, mas escrevendo você chega a lugares que muitas vezes não eram o destino final a princípio.

Gosto bastante dessa história, por mais suspeito que dizer isso soe, porque mostra a solidão de uma maneira quase poética, com uma boa perspectiva. Luiza não é infeliz por ser solitária, no entanto ela sabe que poderia ser mais feliz se essa realidade mudasse. A chave está, então, em entender isso e buscar uma mudança que caiba no que ela precisa sem mudar a essência de quem ela é.

E no fim, eu acho que é isso. A solidão não é um problema, se ela for a sua escolha. Se o caso não for esse, é importante buscar outras saídas. Você não precisa mudar sua vida por completo, apenas ajustar aqui e ali, até se sentir bem como gostaria de se sentir.

Brain Dump*

#THINKTOBERTHINKTATI – Dia 03: Weather

O que dizer do clima?

Da temperatura? O que é isso, uma conversa de elevador?

Eu vou te contar o que aconteceu nesse último domingo. Depois de muitos dias de frio e chuva, inesperadamente se abriu o Sol. As ruas ainda tinham poças de água da chuva e das nossas lágrimas por conta dessa economia. O Sol chegou sem ligar para isso. “Vocês que se virem”, teria dito o Sol.

Coloquei meu patins na mochila e fui para a Paulista. Eu poderia ter ido de patins de casa até lá, aliás, pois a ciclovia que corta a cidade me alcança nesse nível. No entanto, não sou assim tão destemida. Optei pelo mais seguro e só na beirada da principal avenida da cidade eu me sentei e calcei meu patins.

Eu vinha pelo caminho ouvindo a minha playlist “Conforto Emergencial”, um compilado das minhas canções favoritas da aclamada banda emo Panic! At The Disco. Nessa lista, tudo tem algum valor, nem que seja puramente emocional ou estético.

O que sei é que coloquei meus patins e comecei a andar pela avenida. É sempre um pouco estranho nesses primeiros minutos, você reconhecendo o piso e também se entendendo com o que carrega na costas, na mochila, tendo cuidado com as pessoas passando ao seu redor em todas as direções e velocidade possíveis.

Quando finalmente me senti à vontade, correndo com os cabelos ao vento, meu peso distribuído com exatidão e compensado na pressão nos meus joelhos, eu tendo a consciência de estar com meus braços e mãos perto do corpo, como é o certo, começou a tocar This Is Gospel, da Panic!.

Eu gosto muito dessa música, primeiro porque ela é linda, segundo porque ela tem um contexto muito bonito. O Brendon Urie escreveu a letra para quando um dos integrantes da banda precisou sair, para entrar em reabilitação. Por isso os versos são tão doloridos e tristes, como em:

If you love me let me go
If you love me let me go
‘Cause these words are knives that often leave scars
The fear of falling apart
And truth be told, I never was yours
The fear, the fear of falling apart

Onde Urie fala sobre a dor de não mais aguentar estar do lado do amigo e vê-lo sofrendo tanto.

Para mim, apenas uma reles mortal, o valor dessa canção se mostrou de maneira prática em muitos outros momentos diversos, mas principalmente nessa manhã de domingo, comigo patinando em um dia de Sol depois de muitos dias de chuva.

Foi, no mínimo, mágico. No máximo, loucura de um coração apaixonado. O fato é que, patinar por ali em um dia tão bonito ouvindo uma música tão perfeita foi um momento muito especial.

Então, se hoje você me pede para falar do clima, o que eu vou contar é isso. O dia lindo de Sol onde patinei pela rua indisfarçadamente cantando This is Gospel a plenos pulmões.

Brain Dump*

#THINKTOBERTHINKTATI – Dia 02: How I’m feeling

Como eu estou me sentindo.

Longe de mim querer parafrasear Mallu Magalhães, mas eu me sinto ótima. Recentemente tive uma experiência interessante envolvendo algo que popularmente ficou conhecido como “sexto sentido”, kk. O que aconteceu foi que, coisa de um mês atrás ou mais, eu estava quieta em casa vendo TV e tive a sensação real de que algo muito bom estava para acontecer comigo.

Foi uma coisa sem explicação e, digo mais, inédita. Eu senti isso e senti também uma vontade imensa de chorar de alegria, como de fato chorei mesmo. Foi inevitável.

De um modo geral, não sou muito dada a misticismos. Por isso, recebi com alguma incredulidade aquela sensação que me dizia que um bom agouro se avizinhava em minha vida pessoal.

No entanto, por mais cético que você seja, é impossível lutar contra a inexorabilidade das insondáveis linhas escritas para você pelo destino. Depois daquele dia, aconteceram algumas coisas que me mostraram que o meu sentimento que veio do nada estava certo. Eu tive alguns momentos complicados, mas todos eles vieram para preparar o terreno para situações e mudanças que me deixaram em cenário muito melhor do que o que eu tinha então.

Assim, hoje, eu me sinto ótima. Eu já estava bem, não obstante, algo no universo rotacionou no sentido da minha felicidade. Tudo isso culminando neste quadro atual, onde estou mais feliz ainda, mais do que jamais estive.

Misticismo, destino ou apenas evolução natural da vida. Não tenho como saber e, contanto que funcione, isso é o que menos importa.

Eu me sinto ótima.

Resenhas

ENCONTROS: Uma romcom dos nossos tempos

Mélanie vive com a cara no celular, nervosa com uma palestra que precisa apresentar no trabalho, só faz trabalhar e dormir. Rémy tem passado por maus bocados quando toda a sua equipe no trabalho é demitida e só ele fica, pelo stress disso não consegue descansar de jeito nenhum. Os dois moram um do lado do outro, e nunca se viram.

Assim começa ENCONTROS (Deux Moi), novo longa do diretor Cédric Klapischi. Um conto moderno sobre amor, o filme mostra os caminhos que vão fazer Mélanie e Rémy descobrirem mais sobre si mesmos antes de conseguir olhar para fora e enxergar o outro.

Falando sobre questões atuais como amor líquido, depressão e a solidão dos tempos modernos, ENCONTROS traz uma história possível e que se relaciona muito com o que vivemos cotidianamente. Mélanie e Rémy, cada um a seu modo, tem suas próprias questões que travam suas interações sociais. Reclusos e solitários, são adultos funcionais, aparentemente felizes, mas quebrados por dentro de alguma forma.

Separadamente, buscam por terapia e nessas conversas perseguem o entendimento das suas reais motivações, descobrindo quais são os gatilhos que destravam esses medos que os impedem de ter uma vida feliz.

A terapia

Por motivos diferentes, os dois protagonistas buscam auxílio médico (ou “ver alguém”, como dizem) para tratar das angústias que estão impedindo que suas vidas corram normalmente. Rémy é o que mais demonstra resistência ao assunto, se questionando sobre a real necessidade disso. Mélanie, por sua vez, encontra nas sessões um canal imediato para desabafar sobre traumas recentes.

O olhar do filme sobre a questão da terapia é muito positivo e esclarecedor. Uma das bases do longa, é interessante notar como os profissionais que atendem os protagonistas têm abordagens diferentes e tratam de auxiliar os personagens a encontrar seu caminho, enquanto desmistificam o preconceito que paira sobre a necessidade que temos de cuidar da nossa saúde mental.

As coincidências, a graça de tudo isso

Mas se fosse só para falar de dores e traumas, essa não seria uma comédia romântica. O grande trunfo de ENCONTROS é trazer essa conversa sobre saúde mental de uma maneira leve, o que está longe de dizer que é de uma maneira rasa, trabalhando paralelamente com alguns alívios cômicos que nos colocam em uma posição confortável.

De fato, são nesses momentos engraçados do filme que vemos como ele se relaciona com a vida real. Mesmo em um quadro de stress, nem tudo são lágrimas. A jornada dos protagonistas é suavizada com alguns encontros divertidos e com uma linguagem amigável, que nos torna íntimos deles, nos fazendo torcer para que consigam ter sucesso em suas aspirações.

O jogo de gato e rato que nos leva a acreditar que Mélanie e Rémy vão se encontrar em algum momento cria escapes cômicos, que dão todo o charme da trama. A gente torce muito por eles, mesmo sabendo, no decorrer do longa, que não é o fato de eles ficarem juntos, se ficarem, que vai solucionar todos os seus problemas.

Solidão em um mundo que não para

Mais do que falar sobre saúde mental ou criar um trama de coincidências que pavimente o encontro dos protagonistas, que nunca sabemos se acontecerá de fato ou não, ENCONTROS tem o mérito de mostrar suas jornadas para além da busca pelo amor pura e simples.

Ao falar de depressão, solidão e da busca pelo autoconhecimento, o filme encanta ao mostrar que cada indivíduo é único — e que o amor, nesse contexto, vem para complementar, não para suprir uma falta.

Com humor, delicadeza e um poderoso discurso sobre a necessidade de cuidarmos da nossa saúde mental, ENCONTROS surpreende pela doçura com que aborda o amor em nossos tempos modernos. É uma comédia romântica dos nossos tempos, mais do que tudo, onde amor romântico e cuidado próprio andam lado a lado, somando e nunca tomando o lugar um do outro.

Imperdível.


〰️ ENCONTROS estreia nos cinemas brasileiros em 03 de outubro. O blog viu o filme antes na pré-estreia à convite do Adoro Cinema.

Brain Dump*

#THINKTOBERTHINKTATI – Dia 01: Ghost

“A Maldição da Residência Hill” é um bom exemplo de produto de entretenimento que mescla fantasmas com ARTE.

Tenho uma história envolvente recheada de misticismo barato envolvendo fantasmas (ou ghosts, no original do nosso desafio).

Sempre fui muito medrosa nesse sentido, ao mesmo tempo em que adorava me embalar na perigosa euforia de ler livros do Stephen King — um autor que tem como principal objetivo borrar as calças do leitor, seja pela mente, seja pelo coração.

Hoje eu vejo que ler tantos (e quase todos) do King (já notaram como parece pedante o autor se chamar REI?) foi o que amaciou os meus nervos para, muito recentemente, lá pelo meio de 2018, eu começar a encarar sem tanto medo os filmes de fantasma. Muito dessa transformação também é crédito do meu amigo pessoal Bruno Frika, que foi me dando o caminho das pedras nesse seara. Sendo um grande entendido dos filmes horripilantes, Frika foi me indicando títulos e assim eu comecei a ver todos, percebendo que não são tão assustadores assim. De fato, estando a situação do país como está, às vezes o filme de medo é a coisa menos assustadoras que você vê no dia, comparado com as notícias no jornal.

Dessa forma, hoje eu posso dizer que o tal do filme de fantasmas é um dos meus gêneros favoritos dentro da indústria cinematográfica. Não obstante, eu continuo sendo uma pessoa que morre de medo de assombração. Tal dualidade entre ser fã e mesmo assim temer aparições de entidades do além dá um gostinho da minha personalidade conflituosa e complexa.

O que me torna tão diferente e tão igual a todos nós.

Brain Dump*

THINKTOBER: Um post por dia, todo dia, durante outubro inteiro

Bom, eu acho que isso pode ser divertido. Estava buscando por alguma inspiração para escrever mais no blog, agora que terminei o livro, e vi esse desafio no instagram do Sad Ghost Club:

O Sad Ghost Club é um perfil majoritariamente de desenhos, no entanto o desafio do Thinktober criado por eles aceita todo tipo de arte, como vemos no enunciado dessa mesma imagem:

Hey ghosties! I invite you all to take part in THINKTOBER! I’ll be making an image a day for all of October, (eep!) relating to these daily prompts! So if you wanna join me, all you gotta do is MAKE SOMETHING! No rules, it doesn’t have to be a drawing, you don’t have to do every day, and you can be as vague or specific as you like! October is also #mentalhealthawareness month so some of the prompts have that in mind and I hope you’ll all join me in raising that positive awareness!! Yay!!! Let’s get creative! 🥳✨💛

Assim, o que pensei é usar esses temas como incentivo para todo dia criar um post aqui. Usando o prompt do dia, farei algum texto curto, crônica ou até conto, o que me der vontade.

Vamos ver no que vai dar! Você pode acompanha todos os textos desse desafio por aqui pela tag #ThinktoberThinkTati!

Processo Criativo

Escreva um livro, assista a TV, tanto faz: tudo é escapismo pop e romântico

A segunda temporada de Elite chegou com os dois pés no peito do fã. Still a better love story than Twilight, a novelinha espanhola tem em sua cafonice e dramas desmedidos o trunfo inesperado que conquista pelo coração mesmo o streamer (fiquei em dúvida sobre usar a palavra “telespectador”, um termo hoje tão raso quanto chamar uma pessoa com celular de “datilógrafo”) mais resistente.

Gosto dessa série porque ela é como se Gossip Girl fosse feita com vontade, o que sabemos que não foi. Os crimes, o sexo, a beleza inatingível de todo (eu disse todo) o elenco, os looks, e, ah, o fato de ser em espanhol. Toda vez que a Lucrécia(!) chama alguém de cariño eu desisto de ser ruim com os outros. Toda vez que o Ander beija o Omar eu penso, bom, quem sabe (eu disse quem sabe) o mundo tenha salvação.

Nessa nova temporada, os conflitos se intensificam e extrapolam de um jeito absurdo. A tensão acerca do crime misterioso da vez só não é maior do que a que ronda absolutamente todos os relacionamentos da trama. Até o sonso do Samu, o nosso Ted Mosby latino, consegue ter alguma expressividade. E quem rouba a cena, mais uma vez, é Lucrécia, que precisa provar sua esperteza incontáveis vezes, enquanto, um a um, todos que ela ama a traem pelas costas de algum jeito.

Não me peça para falar de Guzman, eu choro.

Assistindo a essa novelinha, eu me senti mais segura sobre estar no caminho certo com meu novo livro, esse que lancei essa semana. Eu estava finalizando a escrita dele quando a S2 de Elite chegou. Estava bem desmotivada de tudo, como qualquer autor independente sempre está, e os dissabores vivenciados pelos personagens da série me deram força para viver. Não tem jeito, mesmo a história mais cafona precisa ser contada. Só existe um modo de fazê-lo, que é o seu.

No entanto, eu insisto, é cansativo demais fazer todo o trabalho sozinha. Chegando ao meu livro de número onze (insira aqui o gif do JVN dizendo can you believe?), eu me vejo em um ponto onde não tenho mais para onde ir. É como uma droga na qual você é viciado há tanto tempo que não tem mais a opção de tentar parar. Dizendo isso até parece algo muito inspirador ou mesmo pedante. Me acredite, não é nenhum dos dois.

Quando lancei meu décimo livro, prometi que seria o último. Infelizmente, não consigo parar de ter ideias e não consigo parar de escrevê-las. Gostaria de não tê-las mais, e poder dedicar minha energia a outras coisas, como bordado ou artesanato em gesso, por exemplo. Tais atividades não tem uma comunidade ao seu redor que sempre é mais talentosa e bem-sucedida que você, eu acho. Escrever um livro e soltá-lo no mundo, fazendo dele o instrumento mais frágil pelo qual você luta por aceitação é de um sangue frio que eu nunca imaginei que teria. Já fiz isso dez vezes. O meu coração hoje é um pandeiro surrado.

Ainda assim, fiz isso mais uma vez.

Beijando Horrores, o meu décimo primeiro livro, lançado essa semana, é mais uma tentativa de me fazer ser ouvida. Escrever histórias é necessário. Se não para todos, é para mim. Estava quieta no meu canto quando, vítima de mais uma inspiração insuportável e pouco prática, em menos de três meses escrevi a história exata que eu estava precisando ler. Romance, pegação, humor, tudo em uma narrativa simples e rápida, feita para desanuviar a cabeça mesmo.

Não sei se o mundo precisa ler esse livro, mas eu precisava escrevê-lo. Quem sabe meu único compromisso seja esse: comigo mesma. De fato, escrevendo Beijando Horrores, você nota já pelo nome do livro, o meu único compromisso era terminar cada capítulo me sentindo feliz horrores comigo mesma.

Isso eu consegui. Foi assim que comecei e foi assim que conclui essa história. Divertimento puro em um tempo em que nada nos é mais caro do que conseguir terminar o dia sorrindo. Curar o mundo está se tornando uma tarefa progressivamente mais difícil, não conseguimos curar nem a nós mesmos. Da minha parte, fiz o que sei e o que posso: inventei uma história. Caprichei no romance. Coloquei algumas piadinhas. Acreditei, eu quis acreditar, que essa história poderia ser divertida e útil para alguém. Assim como foi para mim criá-la.

Tem uns produtos pop que a gente consome e nos impactam de maneira perene. Mesmo hoje sendo tudo tão descartável e feito para consumo imediato, algumas histórias ficam ecoando na nossa mente por dias, semanas, meses ou até anos. Eu ainda lembro do quanto Call Me By Your Name mexeu comigo. O romance de Jim e Pam, em The Office, foi meu alimento dia e noite por um bom tempo.

Às vezes, no limiar de uma crise existencial causada pela nossa vida a cada dia mais dolorosa, é uma cena boba que nos salva. Seja na TV, na música ou nos livros.

Escapismo pop e romantismo é a minha receita para salvar o mundo. E eu só posso salvar o mundo lá fora começando pelo meu aqui dentro. Cansada de tudo, escrevi mais um livro. Feito Guzman, chorando feito um imbecil por nada, os dentes grandes que mal cabem na boca, eu fiz um escândalo dentro de mim e transformei em uma história de incríveis 261 páginas. Submeti essa história em um concurso. Dormi menos e me alimentei pior, perdi o foco, não foquei em mais nada.

Agora está aí. Se você precisar dela, está aqui. Disponível na Amazon, tendo seu valor por conta do seu preço. Esperando que te atinja com os dois pés no peito, como sabemos que você precisa.

Se não a cultura pop, o que mais faria isso por você? Carboidratos?

Resenhas

ANNA: obrigada, Deus, um filme bom

ANNA (2019)

Mais uma vez me vejo enveredando pelo viés da resenha lúdica. A verdade é que o mundo está insuportável e um dos poucos escapes que a população tem encontrado é por meio do consumo do que antigamente chamávamos de “arte” e hoje em dia é apenas algo como “ai cara…”.

Essa semana mesmo fomos vitimados com a notícia de mais um filme de Matrix e mais um filme de James Bond. Isso somado à notícia de que a Marvel pode largar o Homem-Aranha e todas as novidades sobre o live action de A Dama & O Vagabundo(???). Quer dizer, dá até desânimo ao pensar que nada de realmente novo surge no entretenimento, e mesmo as franquias vão por um caminho tortuoso (Por que choras, Spiderfan?).

Diante desse cenário desalentador, é até um susto ir ao cinema e ver um filme bom. Olha que raridade, um filme bom! Um filme que não é a vigésima quinta perna de uma franquia, nem reboot, nem live action com bichos feitos no computador. Caramba, que diferente! Um filme bom, enfim!

Porradaria, armas, talheres, toco afiado de mesa

Ontem fui ao cinema conferir a pré-estreia de ANNA, o novo do Luc Besson. O Luc Besson, ou apenas Luc dos Leleques se você é íntima como eu, tem vários trabalhos como diretor nesse gênero cinematográfico “mulher bonita dando coronhada em homem”. Para quem não sabe, o francês (é assim que você fica sabendo que ele é francês), já dirigiu filmes como O Profissional, O Quinto Elemento, Lucy ( kkkk até hoje eu rio), e também Valerian & a Cidade dos Mil Planetas. Então, indo ao cinema ver um filme dele o que você espera é ver um longa nesse mesmo estilinho, mas um pouco pior, já que hoje em dia só sai filme ruim desse bueiro chamado Hollywood!!!!!

Porém, a surpresa.

uhhh cheia de charme / uhhh desejo enorme! / de se aventurar!

ANNA segue o roteiro padrão da história de espiã, que já vimos em outros carnavais e amamos: a linda garota de alguma nacionalidade “exótica” (aqui é russa), com uma história de vida que a tornou uma gelada arma de extermínio em massa. No novo do Besson, a nossa garota é uma modelo internacional que pula de lá pra cá trocando de peruca e matando geral com tudo o que encontrar pela frente: revólver sem munição, toco de mesa, garfo de refeição normal, veneno na seringa.

E aí você vai dizer: Ah, Tati, então é só mais um filme como tantos que já vimos por aí!

E eu te digo que não, eu te digo que você está enganado. E eu te digo isso com imensa alegria, porque o tempo todo me dizem que eu estou enganada, então é uma satisfação quando quem se engana é o outro.

(esse emoji)

O que torna ANNA tão diferente são as muitas reviravoltas que o filme toma, te fazendo questionar o tempo todo em quem confiar, te deixando cabreiro até mesmo com a cronologia dessa história. Verdade seja dita, durante quase todo o filme se você olhar para as pessoas ao seu lado no cinema elas estarão com a cara daquele emoji desconfiado.

E isso é um grande diferencial, se você for pensar que hoje o telespectador tudo sabe, tudo conhece, tudo tem uma teoria, tudo ele sabe mais do que a própria pessoa que fez o filme. Hoje o telespectador é uma pessoa que leva uma vida tão lascada, vivendo em um contexto político tão vil, que ele coloca toda a expectativa de felicidade dele numa porra de um filme, então filme nenhum nunca vai ser bom pra ele, porque o diretor lá no set de filmagem dele não tá pensando “vou gravar essa cena aqui do jeito que o Silvio quer, porque tá foda o presidente do país dele”. Não, meus caros.

O que eu dizia? Sim, ANNA consegue romper esse status quo de desânimo e expectativas irreais do telespectador quando traz uma trama coesa e intrincada, somado a cenas embasbacantes de porradaria e um elenco que faz miséria da arte da dramaturgia inventada por Shakespeare (conceito, por sua vez, inventado por mim).

Pessoas muito bonitas e extremamente talentosas

Muitas vezes, quando você vê a Helen Mirren no elenco de algum filme, a primeira coisa que pensa é: “coitada, fez esse pelos boletos”, porque é difícil um filme que chegue à altura do seu talento. Não raro, em seus filmes ela dá só 10% do seu potencial, tal qual nosso cérebro, que dá só 5% do seu esforço em um dia normal como hoje.

Em ANNA, no entanto, Helen tem a chance de se esparramar na sétima arte. Interpretando a vilã russa (estou simplificando, a personagem tem camadas) que deveria ajudar a bela espiã Anna, mas tem uma certa mágoa que a impede de ser parceira de verdade, a atriz britânica (é assim que você fica sabendo que ela é britânica) dá um verdadeiro show de interpretação, nos brindando com momentos sublimes e até algum alívio cômico.

perfeita

Além disso, temos ainda as interpretações on point de Cillian Murphy e Luke “Gaston” Evans, antagonistas de si mesmos, e mostrando que quem tem amigo não morre pagão: a sorte que o Luc Besson tem de ter esse pessoal no seu casting!

Outra boa surpresa, e na verdade, a melhor delas, é a moça que faz a protagonista. Anna é interpretada por Sasha Luss, uma atriz ainda relativamente novata (ela já vez Valerian, do Besson também), mas com total domínio do seu belo corpo, da sua bela carinha e das suas valiosas emoções.

de peruca em peruca, Sasha Luss vai mostrando quem é na fila da dramaturgia

Dito tudo isso, espero que tenha ficado clara a mensagem que eu queria passar já no título do texto: ANNA é um filme muito bom. Mesmo. Desde a trama àgil, passando pelas incríveis cenas de ação e a fotografia impecável (repare na primeira cena em que Luke Evans interage com Sasha Luss, as cores e os planos daquela cena!), passando pela interpretação primorosa desse elenco chiquérrimo, você vê que o Luc Besson fez mais uma pra Deus.

Fez mais uma para Deus e quem aproveita é a gente, pobres mortais que agonizam e choram por 120 minutos que seja de escapismo, pessoas bonitas e alguma luta envolvendo piruetas e facas. Com ANNA, temos. Primorosamente, temos.


〰️ ANNA: O PERIGO TEM NOME estreia nos cinemas brasileiros em 29 de agosto. O blog viu o filme antes na pré-estreia à convite da Paris Filmes e Arroba Nerd.